Haverá Olimpíada, mas muito diferente, diz presidente do COB

Paulo Wanderley prevê que os Jogos de Tóquio acontecerão com muitas limitações – Foto Ana Patrícia/Exemplus/COB

Para Paulo Wanderley, Tóquio 2020 acontecerá em um cenário de muitas restrições, por causa da pandemia. E confia em boa participação do Brasil

Jogos de Tóquio 2020
15 de dezembro de 2020
Por MARCELO LAGUNA / LAGUNA OLÍMPICO
Rio de Janeiro – RJ

“Agora a gente estaria fazendo um balanço da Olimpíada, né”? Foi com essa pergunta, em tom de brincadeira, que Paulo Wanderley Teixeira, presidente do COB (Comitê Olímpico do Brasil), começou a entrevista exclusiva ao blog Laguna Olímpico e ao Olimpíada Todo Dia. Uma constatação de que 2020 foi tudo, menos um ano normal. Um ano em que a pandemia do coronavírus abalou o mundo, com reflexos diretos no esporte. Se o adiamento dos Jogos de Tóquio para 2021 já não fosse um desafio enorme, o dirigente ainda teve que encarar uma árdua batalha para se reeleger ao cargo, encarando uma acirrada eleição que contou com duas chapas de oposição e foi decidida a seu favor graças ao apoio em massa recebido da Comissão de Atletas.

Paulo Wanderley agora vê no horizonte a reta final para a Olimpíada, que ele não duvida que acontecerá, mesmo sem a pandemia tendo sido controlada. Nesta entrevista, o dirigente fala, entre outras coisas, sobre a reta final da preparação brasileira, planos para o próximo ciclo à frente do COB e a relação com as confederações que lhe fizeram oposição.

Delegação brasileira em Portugal para Missão Europa (Marcello Bravo/COB)

Tóquio 2020 ainda corre perigo?

Acha que a pandemia do coronavírus ainda pode ser uma ameaça para a realização dos Jogos Olímpicos?

Paulo Wanderley – Tenho cada vez mais a segurança que a Olimpíada acontecerá, mas com restrições. O COI [Comitê Olímpico Internacional] está enviando para os comitês olímpicos algumas recomendações na chegada em Tóquio. Já sugeriram aos países que farão aclimatação no Japão, como é o caso do Brasil, que fiquem dentro das bases de treinamento e que não vão direto para a Vila Olímpica. Sugerem ainda que equipes, atletas e comissões técnicas fiquem o mínimo de tempo após o tempo de competição, no máximo 48h para sair na Vila.

A partir de janeiro, serão enviadas novas informações atualizando o que pode e o que não pode ser feito. Outra coisa: se tiver um atleta que competirá fora de Tóquio, ele não deve sair desta base e depois retornar. Se sair, deve voltar para casa direto. Vai haver muita restrição. Por tudo isso, eu acho que a Olimpíada acontecerá sim, mas de uma forma muito diferente do que estamos acostumados. Desta maneira, aquele cenário com estádios e ginásios lotados, acho que não será possível em 2021 como já vimos outras vezes.

Em relação ao Brasil, pelas dificuldades impostas pela pandemia este ano, qual a sua expectativa para a participação Tóquio?

Se não fosse a pandemia e os Jogos tivessem ocorrido normalmente, acredito que teríamos obtido um bom resultado. Os parâmetros que nós tínhamos de Mundiais das modalidades, de Jogos Pan-Americanos, de eventos importantes que servem de balizamento, eram muito fortes de 2019 para 2020. Agora, mudou tudo, mas também mudou para todo mundo. Acredito que no final, os países chegarão mais ou menos iguais. É provável que seguiremos o caminho que já estava trilhado para Tóquio. Temos uma perspectiva de maior número de disputa de finais, mais modalidades participando. Pessoalmente, acredito numa possibilidade de um número de medalhas que não ficará abaixo do que conseguimos na Rio-2016.

O que o leva a crer nisso?

Estamos acompanhando de perto com a área técnica do COB e pelo que se observou na preparação, pelo que estamos fazendo agora, pelos resultados que já apareceram, estamos seguindo na mesma trilha de 2020. Tivemos uma solução criativa em descobrir uma forma de colocar nossos atletas em clima de treinamento de alto rendimento na Missão Europa, criando um clima competitivo.

Desde julho, encaminhamos nossas delegações para fora do país. Em um ambiente seguro, eles tinham o sentimento de que estavam competindo. Aquele clima de competição, vários esportes misturados, todo mundo no aeroporto, chegando no mesmo lugar…. Acho que o Brasil deu exemplo neste sentido, o de buscar uma solução rápida. Em compensação, se eles tiveram limitação para treinar, conseguiram também um prazo do maior de preparação até os Jogos Olímpicos. Outros que estavam lesionados conseguiram um tempo maior para recuperação.

Promessas de campanha

Passado um tempo da eleição, em relação aos planos da sua campanha, quais que já pretende implantar agora em janeiro?

Queremos dar continuidade ao que tem dado certo. Existem alguns pequenos acertos, mas em termos de governança, manter os nossos três pilares já implantados, de transparência, austeridade e meritocracia, acrescentando alguns pontos em alinhamento com a agenda do COI. Na verdade, queremos buscar cada vez mais a competência nas ações do COB. Sobre gestão, ampliar medidas que assegurem esta boa gestão, especialmente na área do compliance. Na questão do programa de preparação olímpica, incrementamos a preparação pan-americana, para ampliar o atendimento às modalidades e atletas que têm potencial de alcance de medalha e números de finais em esportes que não fazem parte do programa olímpico. Isso tudo em parceria com as confederações, que vem ajudando o Brasil a alcançar seus melhores resultados.

Por exemplo, o karatê hoje é olímpico só até Tóquio. Aí ele voltará a ser só um esporte do programa do Pan-Americano. Tiveram um apoio substancial neste ciclo, mas nós não vamos abandoná-los. Outro exemplo é o beisebol e softbol, que vão entrar no programa de Santiago 2023 e que deixará de ser olímpico. Todavia, seguirá recebendo apoio do COB.

Paulo Wanderley e Marco La Porta comemoram a reeleição no COB (Miriam Jeske/COB)

Maior espaço das mulheres

Como você pretende ampliar o espaço da mulher dentro do COB e do Movimento Olímpico Brasileiro?

O programa Mulher no Esporte receberá uma atenção toda especial. Já tínhamos implantado no COB. Agora queremos criar um setor interno específico, para o desenvolvimento de políticas voltadas à mulher, com projetos específicos. A montagem da equipe vai ser feita aos poucos, durante os meses de janeiro e fevereiro. Queremos aprimorar novas e atuais atletas, treinadoras, gestoras. Criar uma área com projetos e orçamento específicos. Buscamos ampliar este espaço feminino e queremos dar um exemplo para as confederações, para que também implementem programas como estes.

Até porque a Olimpíada de Paris 2024 será a primeira da história onde haverá igualdade de gênero, fato inédito no movimento olímpico…

Exatamente. Nós já temos esta visão. Tanto é que nossas equipes para Tóquio já terão um equilíbrio muito grande em termos percentuais. O projeto da Olímpiada em 2021 caminha em diferença de 3 ou 4% entre homens e mulheres na delegação. É uma evolução muito grande e o objetivo é cada vez mais buscar esta igualdade.

A voz dos atletas

A Comissão de Atletas foi ampliada, também com um equilíbrio de gênero. A Comissão foi fundamental na sua reeleição. Você pretende ampliar o espaço dos atletas na sua gestão?

Quando cheguei no COB, havia apenas um atleta na Assembleia Geral. Depois, passamos para 12 e na próxima gestão serão 19 com direito a voto, sendo que a Comissão será formada por 25 atletas. A posse será no dia 12 de janeiro. É um processo não tão novo no sistema esportivo brasileiro de inclusão. Tenho esse olhar para que os atletas fiquem cada vez mais inseridos e preparados. A votação para a Comissão de Atletas teve um número muito expressivo de participação em relação à última, em 2016.

Clima de paz com a oposição?

Como ficou a sua relação com as confederações que lançaram ou apoiaram as chapas de oposição? As arestas foram aparadas?

Eu comparo esta situação a uma briga de família. Vamos nos encontrar de qualquer maneira, estaremos juntos nas competições, nos eventos, não tem como separar. Acabou a briga, tem aquele stress pós-eleição, há uma acomodação e as coisas vão se restabelecendo. Não houve um racha, em absoluto. Houve uma votação, alguns preferiram tomar um caminho diferente. Agora, tem que se juntar, não tem saída.

Se houve essa dissidência, é porque aconteceu alguma coisa no meio do caminho. O que precisa ser feito para evitar novas “brigas de família” nos próximos anos?

Nossa eleição só foi possível ser feita da forma que aconteceu, onde inicialmente tivemos quatro 4 candidatos e terminou com três, porque a nossa administração deu esta abertura. Foi um processo totalmente diferente de tudo que aconteceu. Não havia condicionais para inscrição de chapa, bastava ter apoio de três pessoas. Anteriormente, eram necessários registrar 10 apoios. Agora também não precisa mais ser obrigatoriamente do Movimento Olímpico. Anteriormente, precisaria no mínimo cinco anos de mandato numa confederação. O COB é hoje uma instituição com todas as condições administrativas, não tivemos crises financeiras. Até investimos mais no esporte. Na minha visão, estamos fazendo um bom trabalho, mas sempre tem alguém dizendo que pode mudar. Os atletas estiveram do nosso lado, participando, fruto de um trabalho feito pelo COB de abertura para eles. Foram muitas conversas, eventos e discussão dos problemas.

No entanto, duas chapas mostraram que existia um descontentamento com a gestão. Qual foi o motivo, na sua opinião, que levou a nascer este movimento inédito de oposição dentro do COB?

Foi tudo uma novidade mesmo. Fazendo uma análise técnica disso, não imagino o motivo, porque as confederações tiveram suporte necessário neste período. O investimento nas entidades só progrediu. Quando cheguei aqui, era de 80 e poucos milhões. Agora, saltou de R$ 120 milhões em 2020 para R$ 150 milhões em 2021, diretamente para as confederações, fora programas de preparação olímpica, cursos, etc. Tem que conversar com quem votou contra (risos). Nunca houve tanto investimento no esporte e no atleta. Basta ver o que fizemos com essa Missão Europa, que foi um sucesso. E foi modelo para outros países, como o Chile, que mandou seus atletas num modelo parecido para a Espanha. No nosso caso, além de Portugal, mandamos gente para Sérvia, na França. As ações do COB foram sucesso. Acho que o que ocorreu na eleição são coisas da política, briga pelo poder.