Gestão Esportiva
17/07/2017
Por PAULO PINTO | Fotos BUDOPRESS e FACEBOOK
Curitiba – PR

Nédio Henrique Mendes da Silva Pereira, presidente eleito em março e afastado por decisão judicial

Em matéria publicada no jornal Estado de Minas, na sexta-feira (16 de junho), o jornalista Ivan Drummond expôs mais um triste capítulo da conturbada história do judô mineiro, no qual, por meio de falácias e embates judiciais farsescos, antigos personagens da modalidade buscam tumultuar uma gestão que se inicia fundamentada em divisões e fissuras.

A juíza da 19ª Vara Civil da Comarca de Belo Horizonte, Maria de Fatima Álvares dos Santos, decretou nula a eleição para presidente da Federação Mineira de Judô (FMJ), realizada em 11 de fevereiro. Para a magistrada, houve muitas irregularidades, inclusive de integrantes da nova diretoria: Nédio Henrique Mendes da Silva Pereira, presidente, e um diretor, Wilson Novaes Filho, seriam portadores de dupla documentação.

Ivan Drummond conta que a decisão foi tomada a partir de uma denúncia registrada logo após as eleições pela Associação Esportiva e Recreativa Judô São Geraldo. De acordo com os papéis apresentados, tanto o presidente quanto o diretor eram registrados pela entidade que questionou a eleição. Nédio e Novaes estavam de posse de outro passaporte (como é conhecido o documento de registro na FMJ), do colégio Santo Agostinho, que foi utilizado para a referida eleição, o que é ilegal. Essa duplicidade seria um caso inédito no judô brasileiro. De acordo com a regulamentação do esporte no País, o atleta só pode ser filiado a um clube ou agremiação.

Os dirigentes também foram acusados de terem obtido o grau de dan irregularmente, sem aprovação da banca examinadora da entidade regional ou por mérito, a partir da indicação do responsável técnico.

A íntegra do decreto da juíza da 19ª Vara Civil diz: “Julgo procedentes os pedidos iniciais para declarar nula de pleno direito a extraordinária de 11/02/2017, e, consequentemente anular as eleições realizadas durante aquela assembleia, prosseguindo ao status quo anterior, extinguindo-se o feito com resolução de mérito, nos termos do artigo 487,1 do CPC”.

Dirigentes eleitos na FMJ Lucas Corrêa Reis, Nédio Henrique Pereira e Nilson Moura de Oliveira

Em 2009, um fato semelhante ocorreu, quando o então presidente Antônio Costa foi destituído por uma série de desmandos, tendo sido até mesmo indiciado por formação de quadrilha. Na época, foi nomeada uma junta interventora escolhida pelo Tribunal de Justiça Desportiva da FMJ, o que também teria de ser feito agora.  

Ouvindo as partes

O periodista mineiro absteve-se de ouvir as partes envolvidas no novo impasse criado no judô mineiro, deflagrado por Geraldo Brandão de Oliveira, autor da denúncia contra a FMJ e ex-presidente da entidade que, em 2015, foi declarado “persona non grata” no judô mineiro. Fundamentado numa série de inverdades, ele agora recorre ao Judiciário para tumultuar e instabilizar a gestão de Nédio Henrique Pereira.

Wilson Novaes Filho, apontado como diretor da FMJ, revelou à revista Budô que jamais fez parte da atual diretoria da entidade.

“Já participei de várias administrações da FMJ. Na gestão anterior atuei na área da comunicação, mas jamais ocupei cargos ou participei da gestão atual. Não sei por que meu nome foi envolvido neste processo”, disse o judoca, que é profissional da área da saúde e tem o judô e a fotografia como hobbies.

Sobre as acusações feitas por Geraldo Brandão, seu ex-professor, Novaes repudiou e desmentiu cada uma delas e até apresentou documentos probatórios.

“Comecei no judô em 23 de agosto de 1971, quando tinha 7 anos e me formei faixa preta em dezembro de 1982. Peguei o ni-dan 20 anos depois, em 2002. Além de injusta, esta acusação é absurda e uma enorme estupidez. Quem me conhece sabe que não ligo para graduação e que jamais aceitaria uma promoção sem passar por todos os trâmites. Quando obtive o segundo dan fui aprovado por uma banca examinadora, na época em que meu ex-professor e denunciante era o presidente da Federação Mineira de Judô”, explicou Novaes.

Geraldo Brandão de Oliveira, autor da denúncia contra a FMJ

Sobre a acusação de estar inscrito na FMP por meio de duas entidades, Wilson mostrou farta documentação que desmente o que foi amplamente divulgado por Brandão.

“Desliguei-me da Associação Esportiva e Recreativa Judô São Geraldo no ano de 2007, mas como o professor Brandão vivia questionando a minha participação nos eventos da FMJ, resolvi protocolar meu desligamento em 2010, tanto na secretaria da São Geraldo e quanto na FMJ. Além de totalmente infundadas, as alegações são desprovidas de documentos probatórios”, concluiu o judoca ni-dan.

Nédio Henrique Mendes da Silva Pereira, presidente eleito, explicou que as alegações do requerente não procedem e que a magistrada somente acatou seu pedido em função do prazo de convocação.

“A juíza declarou nula a assembleia porque descumprimos o prazo de 15 dias previstos no edital para realização da primeira das duas assembleias eletivas. Com tudo, consta em ata observação de que todos os clubes e associações convocados, e que participaram da assembleia, se deram por convocados eletronicamente e declararam não ter sofrido qualquer prejuízo. E não existe nulidade sem prejuízo. Temos plenas condições para defender esta questão no momento oportuno”, disse o dirigente afastado.

Para Nédio Pereira houve má-fé por parte do autor da demanda e negligência do jornalista, “que escreveu matéria tendenciosa”.

“O comentário do jornalista do Estado de Minas foi no mínimo leviano, tendo em vista que expôs fatos que fizeram parte da petição inicial do professor Geraldo Brandão e sequer foram apreciados pelo juízo, e desta forma não foram submetidos a ampla defesa e ao contraditório ao exercício desses direitos pela parte contrária. São apenas ilações irresponsáveis por envolver os nomes de instituições e pessoas físicas”, explicitou o dirigente.

Em seu pronunciamento de despedida, Luiz Augusto Martins Teixeira, ex-presidente da FMJ, agradeceu o apoio recebido e enfatizou os valores de seu sucessor

Graduado ni-dan por meio do sistema implantado pela Confederação Brasileira de Judô, Nédio Henrique anexou documentos que reiteram que até no Zempo aparece filiado pelo Colégio Santo Agostinho.

“Sou faixa preta ni-dan, e minha graduação ocorreu por meio do sistema Zempo da CBJ, o que anula a possibilidade de fraudes ou irregularidades, conforme propalou o denunciante. Há muitos anos pratico judô no Colégio Santo Agostinho e recentemente me tornei sócio do Minas Tênis Clube. O professor Brandão terá de provar que frequento seu dojô e que sou aluno de sua escola”, desafiou o presidente.

Velho colaborador da Federação Mineira de Judô, o dirigente afastado finalizou lembrando que não ocupa a presidência da FMJ por acaso.

“Fica claro que a intenção do professor Geraldo é tumultuar o processo, mas isto não nos preocupa. Conheço seu modus operandi por que fui diretor jurídico da FMJ quando ele era presidente da entidade. Também participei ativamente da gestão do professor Luiz Augusto Martins, meu antecessor, e não cheguei à presidência da FMJ por acaso”, concluiu Nédio Pereira. 

Pobre judô mineiro

Seja lá qual for a decisão de Maria de Fatima Álvares dos Santos, juíza da 19ª Vara Civil de Belo Horizonte, quem sai perdendo é o judô mineiro que, internamente, mostra-se muito aquém daquilo que exibe externamente nos certames realizados no Brasil e mundo afora.

Totalizando 853 cidades, Minas Gerais é o Estado brasileiro com maior número de municípios e o segundo mais populoso do Brasil, ficando atrás apenas de São Paulo. Ainda assim a Federação Mineira de Judô possui somente nove clubes e associações com direito a voto. Quais foram os caminhos que nestes 55 anos de existência levaram o judô do Estado de Minas Gerais a totalizar apenas nove entidades filiadas com direito a voto e possuir um dos piores retrospectos do País neste quesito?

Seria no mínimo inteligente afirmar que, em vez de ficarem se matando pela disputa do poder, os noves filiados da FMJ deveriam buscar uma fórmula que permitisse o acesso democrático à prática do judô e projetasse a modalidade verdadeiramente em todas as regiões e municípios do Estado.