Com o fim da temporada de caça, CBJ deve voltar a priorizar o fomento da cultura do judô

Professor Jigoro Kano 1860 – 1938 © Pinterest

Sem a disseminação da cultura do judô, a modalidade jamais será plenamente inserida nas escolas e na sociedade. O que está em jogo vai muito além de medalhas ou rendimento: é o real tamanho do judô do Brasil no futuro.

Por Paulo Pinto / Global Sports
Curitiba, 27 de fevereiro de 2025

Até 2017, a Confederação Brasileira de Judô (CBJ) era o maior case de sucesso na gestão esportiva nacional, movimentando patrocínios robustos das esferas pública e privada, com gigantes como Bradesco, Cielo, Scania, Rede Globo, Sadia, Petrobras, Mizuno e o Governo Federal. A modalidade figurava entre as mais bem estruturadas do país, atrás apenas do futebol e do vôlei. O que se seguiu depois disso, porém, foi um desastre administrativo sem precedentes.

Nos últimos oito anos, a CBJ abandonou a sua vocação estratégica e de vanguarda, concentrando-se em ações pontuais e estéreis, como encontros de kodanshas, enquanto a gestão centralizadora mergulhava a entidade em um ciclo de empobrecimento técnico, institucional e estrutural. No dia 15 de março, essa era chega ao fim, e o judô brasileiro tem a chance de reencontrar o caminho que jamais deveria ter abandonado: o desenvolvimento sustentável, a governança eficiente e a disseminação da cultura do judô.

A cultura do judô não pode ser enclausurada nos tatamis e dojôs. Se almejamos crescimento, novos praticantes e uma renovação de professores formadores, precisamos ampliar nosso campo de atuação. O judô deve estar presente nas escolas, nos clubes, nas praças, nos condomínios e nos projetos sociais. Deve ser oferecido como uma alternativa sólida para a educação, contribuindo para a formação moral e intelectual das novas gerações.

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Se inserido na grade escolar da rede pública, o judô poderá alcançar milhões de novos praticantes, ampliando exponencialmente sua base e consolidando-se como uma das práticas esportivas mais difundidas do Brasil. Mais do que números, essa expansão traria um impacto social profundo, pois a cultura filosófica do judô oferece um modelo formativo que fortalece valores como respeito, disciplina e resiliência, conduzindo crianças e jovens a um ambiente saudável e estruturado. Para que esse avanço se concretize, é essencial que a modalidade seja percebida além da esfera esportiva, como um instrumento de transformação social e educacional.

A cultura do judô conduz crianças e jovens a um ambiente sadio, limpo e livre dos hábitos destrutivos que corroem o cérebro das novas gerações. Mas isso não acontece espontaneamente. Exige estratégia, investimento e compromisso. Exige uma CBJ que volte a pensar grande e que compreenda que a projeção do judô brasileiro não depende apenas de medalhas olímpicas, mas da capacidade de formar cidadãos e integrar cada vez mais a modalidade, ao dia a dia da sociedade.

A partir de 16 de março, o judô brasileiro terá a oportunidade de romper com a política de improvisação e estagnação. O alto comando da modalidade certamente deixará de correr atrás do próprio rabo e poderá, enfim, olhar para frente. Será o fim da autolatria, da autossuficiência vazia e do personalismo que sufocou a entidade nos últimos oito anos.

O judô sempre foi mais do que um esporte. Quando cultivado como um instrumento de educação e transformação, ele se torna uma ferramenta de impacto social profundo. Se essa nova fase for conduzida com responsabilidade, estratégia e respeito às bases da modalidade, podemos finalmente resgatar a CBJ e recolocá-la na posição que jamais deveria ter deixado.

Ippon!

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