03 de abril de 2025

Fruto de uma parceria inovadora entre a Federação Paulista de Judô (FPJudô) e o Conselho Regional de Educação Física da 4ª Região (CREF4/SP), o projeto Keisei no Michi – Caminhos da Formação foi criado para qualificar instrutores de judô, unindo os ensinamentos tradicionais de Jigoro Kano a fundamentos acadêmicos contemporâneos.
Lançado oficialmente em 2021, o curso nasceu para suprir a carência de professores qualificados, oferecendo uma formação sólida para faixas-marrons interessados em seguir carreira na docência do judô. A proposta contemplava conteúdos de administração de dojôs, anatomia, cinesiologia e pedagogia aplicada ao judô, com foco no treinamento esportivo e no ambiente escolar – incluindo atendimento a crianças e pessoas com necessidades especiais.
Alunos da primeira turma do Keisei no Michi © Global Sports
A iniciativa logo ganhou projeção nacional, com a Revista Budô acompanhando o desenvolvimento do curso desde sua concepção. Em 2022, a primeira turma se formou com pompa em cerimônia realizada na sede da OAB, em São Paulo. Já a segunda formatura, em março de 2024, foi marcada pela ausência da FPJudô na organização do evento. Realizada com apoio do CREF4/SP e da Secretaria Estadual de Esportes, a cerimônia consolidou o Keisei no Michi como referência na formação profissionalizante da modalidade. Diante da não realização do curso naquele ano, diversos judocas buscaram informações junto à Revista Budô. Entramos em contato com fontes da federação, que nos puseram a par dos fatos mais recentes e confirmaram que a interrupção foi uma decisão unilateral da nova gestão da FPJudô, tomada sem qualquer consulta ao CREF4/SP, parceiro essencial na iniciativa.
Rialdo Tavares, presidente do CREF4/SP e grande incentivador do Keisei no Michi © Global Sports
Enquanto o Comitê Olímpico do Brasil (COB) e o Comitê Paralímpico Brasileiro oferecem diversos cursos de capacitação para técnicos e gestores, e a Confederação Brasileira de Judô (CBJ) investe na formação de treinadores para o alto rendimento, a FPJudô inovou ao ser a primeira federação estadual a criar um curso voltado à base do sistema: jovens judocas que enxergavam na docência uma oportunidade de desenvolvimento profissional e uma forma concreta de custear seus estudos em universidades privadas.
Com o Keisei no Michi, a FPJudô não apenas formava faixas-pretas atletas e praticantes, mas também qualificava instrutores em parceria com o CREF4/SP, promovendo excelência no atendimento à sociedade e contribuindo com a empregabilidade e a formação cidadã dos judocas.
Segundo apuração feita junto a fontes da própria FPJudô, até mesmo o interventor da entidade, o advogado Caio Medauar de Souza, havia sinalizado positivamente para a continuidade do projeto, reconhecendo seu valor técnico e socioeducativo. Apesar disso, os professores Arnaldo Queiroz e Fernando Ikeda optaram por interrompê-lo. Posteriormente, ao assumir a presidência da entidade, Henrique Guimarães manteve a decisão, contrariando todo o histórico positivo construído pelo programa.
Nossa fonte relatou também que, no mês de março, o professor Drigo – que é deficiente visual – foi convocado para uma reunião presencial na sede da FPJudô, em São Paulo, a cerca de 200 km de sua residência em Rio Claro. Para isso, contou com o apoio de sua esposa, a doutora Juliana Cesana, que precisou se ausentar do trabalho para acompanhá-lo.
Alexandre Janotta Drigo, ex-diretor-geral do projeto Keisei no Michi — o judô transformando vidas © Global Sports
O professor, que acreditava estar indo à capital para discutir ajustes ou realinhamentos no curso, foi surpreendido por uma comissão composta por vários membros da diretoria, incluindo Fernando Ikeda, Alessandro Puglia, Adib Bittar Dib, Celso de Almeida Leite e o presidente Henrique Guimarães. Sem qualquer aviso prévio e sem uma justificativa concreta, foi-lhe comunicada a rescisão unilateral de seu contrato. Um dos presentes, que preferiu não se identificar, relatou que Henrique chegou a elevar o tom com Drigo, tratando-o com deselegância em diversos momentos, numa tentativa clara de constrangê-lo.
“O professor manteve uma postura firme, e isso parece ter incomodado. Foi um encontro constrangedor, com tentativas de desqualificá-lo, como se buscassem uma desculpa para desmontar um projeto que já havia dado certo”, relatou a fonte.
Primeiro projeto acadêmico-profissionalizante oficial do judô no Brasil formou 74 alunos no núcleo básico © Global Sports
Segundo outra fonte da própria FPJudô, o afastamento do professor Drigo foi conduzido internamente pela nova gestão, que optou por não dar continuidade à sua atuação no projeto. A decisão causou surpresa entre profissionais envolvidos na iniciativa, que viam no educador uma liderança técnica e acadêmica essencial para o sucesso do Keisei no Michi. Ainda assim, Drigo manteve uma postura discreta e respeitosa, evitando qualquer exposição pública diante da forma como o processo foi conduzido.
Segundo apurado pela Revista Budô, a suspensão do Keisei no Michi também pegou de surpresa alguns dirigentes do CREF4/SP, que lamentaram profundamente a interrupção. “Recebemos com perplexidade a notícia do encerramento de um curso que nasceu para qualificar o ensino do judô em São Paulo e foi abraçado por dezenas de profissionais da Educação Física”, declarou uma fonte ligada ao Conselho.
Homenagem do Keisei no Michi aos membros da Comissão de Lutas do CREF4/SP © Global Sports
Importante destacar que o Conselho assumia parte significativa da infraestrutura do curso e disponibilizava professores e profissionais registrados que atuavam diretamente na formação. Por isso, causa estranhamento que um projeto de tamanha relevância tenha sido encerrado sem diálogo, sem justificativa técnica e sem a devida consideração com os parceiros envolvidos.
A decisão da FPJudô contrasta com a visibilidade e o reconhecimento que o curso vinha alcançando em todo o Brasil. Diversas federações estaduais e conselhos regionais de Educação Física haviam manifestado interesse em replicar o Keisei no Michi, justamente por sua proposta inovadora e efetiva na formação de instrutores.
Diante do desmonte, pairam dúvidas sobre os critérios utilizados para encerrar um projeto com tanto potencial, bem como sobre a maneira como o professor Drigo foi tratado. A falta de transparência e de respeito aos profissionais envolvidos acende um alerta sobre os rumos da formação de instrutores de judô em São Paulo — e sobre o verdadeiro compromisso da atual gestão da FPJudô com o desenvolvimento da modalidade, além da valorização e do respeito aos seus colaboradores e prestadores de serviço.
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