30 de agosto de 2025

Assumir a 1ª Delegacia Regional da Capital é, sem dúvida, um dos maiores desafios dentro da Federação Paulista de Judô. Responsável por uma das regiões mais complexas do estado, que concentra clubes de ponta e dezenas de dojôs espalhados por diferentes bairros, o professor Alex Sandro Russo da Silva, nascido em 16 de abril de 1977 em São Paulo, chega ao cargo com a bagagem de quem vive o judô paulistano há quatro décadas e carrega uma trajetória marcada pela dedicação como atleta, técnico e gestor.
Sua nomeação, feita pelo presidente Henrique Guimarães, reforça a proposta de renovação e modernização que a nova gestão imprime à entidade. Com autonomia para planejar e executar ações, Russo projeta unir os professores, valorizar as escolas e promover eventos mais organizados e acolhedores, sempre em sintonia com os objetivos estratégicos da FPJudô. Nesta entrevista exclusiva, ele fala sobre os planos, desafios e expectativas para recolocar a Capital em posição de liderança no judô paulista.
POR QUE INICIOU A PRÁTICA DO JUDÔ?
Comecei em 1984. Eu brigava muito na rua com um vizinho e minha mãe decidiu me levar ao judô para aprender a me defender. Na verdade, eu queria fazer karatê, mas entrei no judô achando que fosse a mesma coisa. Fiz um mês, gostei e nunca mais parei.
Alex Russo ao lado de Henrique Guimarães, presidente da FPJudô, com quem atua em sintonia pela reestruturação da Capital © Arquivo
QUEM FOI SEU SENSEI E COMO ELE INFLUENCIOU SUA FORMAÇÃO?
Meu sensei foi o professor kodansha Benedito Divino e a influência dele na minha vida foi total. Eu não tive uma boa relação com meu pai, então ele acabou assumindo esse papel. De certa forma, ajudou minha mãe a me criar. Nós não tínhamos condições financeiras e ele sempre me isentou das mensalidades, inclusive pagou minhas taxas de faixa preta na FPJudô e na CBJ. Praticamente me adotou até eu conquistar a faixa preta. Hoje, como professor kodansha, responsável e comprometido, tenho plena convicção de que devo tudo a ele e à minha mãe. Ele me ensinou honestidade, disciplina, foco e a ser exemplo para os alunos.
QUAL É SUA GRADUAÇÃO NO JUDÔ E SUA FORMAÇÃO ACADÊMICA?
Sou kodansha roku-dan (6º dan). Tenho graduação em Educação Física e pós-graduação em coaching esportivo.
QUAIS DOJÔS VOCÊ DIRIGE ATUALMENTE?
Sou responsável pelo Instituto Sensei Divino e também pelo dojô da Sociedade Harmonia de Tênis, no Jardim América, em São Paulo, onde sou professor e técnico responsável.
Russo atuando no Brasileiro da Região V © Instagram
QUANDO FOI NOMEADO DELEGADO DA 1ª DR CAPITAL E COMO SE DEU O CONVITE?
Fui nomeado em 1º de abril pelo presidente Henrique Guimarães. O convite surgiu após a sensei Solange ser indicada para a vice-presidência da Confederação Brasileira de Judô. Henrique foi direto: perguntou se eu aceitaria o desafio e se teria coragem de encarar a missão. Não hesitei e aceitei prontamente. Comprometi-me a dar o meu melhor para marcar a história da FPJudô em sintonia com o projeto de gestão de Guimarães.
COMO TEVE CERTEZA DE QUE ESTAVA PREPARADO PARA ESSA RESPONSABILIDADE?
Por três motivos. Primeiro, porque há 40 anos vivo o judô paulistano. Tudo que conquistei na vida veio do judô, e conheço de perto as dificuldades da capital, uma cidade com 22 milhões de habitantes e onde administrar a principal modalidade olímpica do país exige experiência. Segundo, porque já fazia parte do grupo da sensei Solange, como coordenador de eventos, e tinha objetivos e metas definidos, além de um plano de trabalho já estruturado. E terceiro, porque todos os professores que atuam na capital sabem muito bem o que precisa ser feito — e, principalmente, o que não deve ser feito.
QUAL FOI SUA REAÇÃO AO RECEBER A INDICAÇÃO?
Fiquei surpreso e feliz. Quando alguém acredita no seu potencial e dá a oportunidade de trabalhar, é motivo de alegria. Agora chegou a hora de colocar em prática tudo que planejei e contribuir para fortalecer e expandir o judô em São Paulo.
Professor Alex Russo comandando treinamento no CAT © Instagram
O PRESIDENTE HENRIQUE LHE DEU AUTONOMIA PARA ISSO?
Sim. Em uma das conversas, ele foi enfático: disse que eu teria autonomia para agir em prol do judô na capital e que minhas decisões seriam analisadas, mas com total apoio dele. E realmente está sendo assim.
QUAIS OS MAIORES DESAFIOS NA CAPITAL, QUE ABRIGA GRANDES CLUBES E UMA ENORME DIVERSIDADE DE ESCOLAS?
O primeiro desafio foi unir o grupo. A capital é muito grande, com realidades distintas entre clubes, dojôs e academias, e havia certa desunião. Graças a Deus, sinto que hoje os professores estão mais unidos, compreendendo nossos objetivos e apoiando a proposta. Digo “nossa” porque não sou só eu, é um trabalho de grupo. E isso vai nos permitir resgatar o judô grandioso e de qualidade que São Paulo sempre apresentou, realizar grandes eventos e valorizar professores, escolas, atletas e praticantes. Nossa meta é dar suporte com prontidão, objetividade e total transparência, elevando a relação com a comunidade a um novo patamar.
PENSANDO COMO GESTOR, QUAL É A PRIORIDADE DA SUA GESTÃO?
Sem dúvida, identificar os problemas e resolvê-los imediatamente. Num segundo momento, qualificar ainda mais os professores, seguindo o modelo que a CBJ aplica há mais de uma década.
Formado pelo sensei Benedito Divino, Alex Russo é um judoca pragmático, simples e extremamente comprometido © Instagram
COMO PRETENDE EQUACIONAR AS DIFERENÇAS ESTRUTURAIS ENTRE OS CLUBES?
É um desafio. Estamos criando mecanismos para mitigar essas diferenças, acolhendo a todos da mesma forma. Se pegarmos o Pinheiros, a maior estrutura clubística do país, veremos que seus problemas são grandes e complexos, mas não deixam de existir. Já nos dojôs menores, faltam recursos, alunos e até material humano. Nossa meta é criar alternativas de suporte para que esses pequenos clubes se tornem sustentáveis, enquanto os grandes recebem apoio mais voltado à gestão administrativa.
E ESSA ESTRATÉGIA ESTÁ FUNCIONANDO?
Estamos avançando, mas a aproximação entre grandes e pequenos ainda é um desafio. Os dois extremos permanecem resistentes, embora tenham muito a oferecer um ao outro. Acredito que, no futuro, essa troca de experiências será extremamente positiva. Nossa proposta é justamente buscar esse equilíbrio por meio de eventos, treinamentos conjuntos e palestras, trazendo professores para dentro da federação e construindo soluções coletivas.
AO ASSUMIR, O QUE ERA MAIS URGENTE EM TERMOS DE CULTURA ORGANIZACIONAL?
Tínhamos em mente um tripé:
QUAL É O MAIOR DESAFIO HOJE?
Qualificar cada vez mais professores, arbitragem e, consequentemente, atletas. Esse é o maior desafio.
“É exatamente isso que o nosso presidente busca: trabalhar com foco na realidade global do judô, modernizando e qualificando cada vez mais nossas ações. Esse é o compromisso que ele assume quando falamos em inovação.”
A EXPERIÊNCIA COMO COORDENADOR DE VETERANOS CONTRIBUI NESTA NOVA FUNÇÃO?
Estar delegado é algo muito diferente, mas a experiência prévia ajuda bastante. A maioria dos veteranos é formada por senseis, e isso me deu uma boa noção da realidade de diferentes clubes e dojôs. Essa vivência me permite compreender melhor as necessidades de cada professor e facilita a gestão.
O FATO DE A SEDE DA FPJUDÔ ESTAR NA CAPITAL É UM DIFERENCIAL?
Sem dúvida. Estar próximo da sede facilita muito o trabalho. Temos contato direto com a secretaria, com o setor administrativo, com o presidente e com os demais diretores. Essa proximidade encurta caminhos, agiliza a logística, garante respostas rápidas e torna todos os processos mais acessíveis. Quando precisamos de algo, conseguimos resolver com muito mais eficiência do que se estivéssemos em outra região. Isso, para uma gestão que lida com a maior e mais complexa delegacia do estado, é um ponto estratégico importantíssimo.
Alex Russo e Henrique Guimarães, parceiros na missão de projetar o judô da Capital © Arquivo
MAS A PRESSÃO NÃO É MAIOR?
É sim, porque a capital há décadas demandava mudanças estruturais e administrativas. Mas não vejo isso como um peso ou uma cobrança negativa. Pelo contrário: encaro como algo natural e até necessário. Não me apego às dificuldades do passado, mas às oportunidades do presente. Prefiro focar nas facilidades que a proximidade da sede nos proporciona — afinal, os problemas podem ser resolvidos de forma mais rápida e objetiva. Para mim, todas as agremiações têm o mesmo valor. Nenhuma é mais ou menos importante que a outra. O que muda é apenas a realidade de cada uma. Cabe a nós entender essas diferenças e trabalhar para dar atenção a todas de maneira equitativa. Isso só reforça a importância de ter autonomia aliada ao diálogo constante com o presidente Henrique Guimarães, o que dá segurança e legitimidade a cada decisão. Hoje, estando no CAT, um espaço que frequento desde a infância, me sinto totalmente em casa, sem pressão alguma.
E NO ÂMBITO DIGITAL, COMO ANDAM AS COISAS NA CAPITAL?
Hoje, tudo é feito pelo sistema Zempo: credenciamentos, cursos, módulos, competições e pesagens (no CAT e nos locais dos eventos). Os certames da Capital estão supermodernizados, com painéis de LED e ferramentas digitais que agilizam a gestão. Estamos testando recursos como chamador de médico e transmissões no YouTube para aproximar pais e familiares, não só na Capital, mas nas 16 delegacias regionais. Nosso objetivo é modernizar cada vez mais, garantindo operações ágeis, seguras e transparentes.
O QUE VOCÊ TEM EM MENTE NO CAMPO DA INOVAÇÃO?
Já estamos colocando em prática diversas inovações, mas, como gestor, avalio que, assim como acontece em outras modalidades olímpicas, seguimos um modelo e um padrão de trabalho estabelecidos pela Federação Internacional de Judô. A coordenação de eventos da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), por exemplo, se empenha para alcançar esse mesmo nível de excelência, e nós temos a responsabilidade de acompanhar esse padrão. Observar como eles organizam os eventos e replicar esse modelo é parte essencial do nosso trabalho.
Sensei Russo assume a DR Capital com responsabilidade e visão de futuro © Arquivo
A inovação, portanto, consiste em aplicar na prática aquilo que nossas matrizes global e nacional já realizam, e nesse sentido estamos avançando. Em suma, não há outro caminho senão realizar eventos cada vez mais enxutos, ágeis, seguros e acolhedores, capazes de oferecer uma experiência positiva e um espetáculo de qualidade para todos que participam. Isso exige estrutura, seriedade e muita dedicação.
Entendo que é exatamente isso que o nosso presidente busca: trabalhar com foco na realidade global do judô, modernizando e qualificando cada vez mais nossas ações. Esse é o compromisso que ele assume quando falamos em inovação.
O QUE VOCÊ TEM EM MENTE NA ÁREA DO FOMENTO DA MODALIDADE?
Uma das nossas prioridades é ampliar os Festivais Escolares, uma ideia que apresentei ainda na gestão do professor Francisco de Carvalho Filho e que, nos eventos mais recentes, já reuniu mais de 600 crianças. Também estamos desenhando um grande campeonato no fim da temporada, para garantir igualdade de participação a todos os clubes e dojôs. Outra iniciativa em andamento é o rodízio mensal de treinos, que já passou pelo Clube Espéria, Associação Moacir, São Paulo Futebol Clube, Clube Pinheiros e, em breve, chegará ao Clube Esportivo da Penha. A proposta é estimular a troca de experiências e fortalecer a integração entre professores e atletas.
Em pouco mais de 150 dias de gestão, filiamos cinco novas entidades e estamos resgatando academias que haviam deixado a federação. É um trabalho simultâneo de expansão e acolhimento, voltado para dar novas oportunidades e consolidar a base do judô paulistano.
Nosso objetivo é que cada professor, atleta ou clube se sinta parte desse movimento. Mais do que ampliar números, buscamos construir uma rede sólida, que valorize desde as pequenas academias, projetos sociais e até os grandes clubes, assegurando que o judô cresça de forma equilibrada e sustentável.
VOCÊ BUSCA APOIO COM OUTROS DELEGADOS PARA FORTALECER SUA GESTÃO?
Sim. Tenho dialogado muito com delegados mais experientes, observando suas práticas e trazendo o que pode ser útil para a Capital. Temos apresentado grandes planos ao presidente e estou certo de que a sinergia entre as delegacias crescerá ainda mais no próximo ano.
COMO VOCÊ CLASSIFICA SUA GESTÃO?
Eu vejo que buscamos a participação de todos em prol de uma delegacia forte e unida, com bastante qualidade, sem vaidade, sem pisar em ninguém, sem um querer ser mais que o outro, e sim em prol dos nossos atletas, dos profissionais envolvidos que são milhares e das agremiações que tem no judô um projeto social ou olímpico, mas que contam com uma gestão responsável para alavancar seus projetos. Acho que é isso que é o mais importante, acho que é o que vem acontecendo, que também tenham a paciência que tudo é novo, erros vão acontecer, mas é tentando melhorar e com certeza quem tem a ganhar é o judô da capital.
PODERIA COMPARTILHAR UM BREVE RESUMO DA SUA TRAJETÓRIA NO JUDÔ?
Bom, comecei judô com cinco anos e fui aluno no sensei Divino, como já falei. Por muitos anos tentei ser atleta, o sonho de todo judoca é servir à seleção, então treinei com o sensei Massao Shinohara de segunda-feira, treinei também com outro gigante, sensei Miguel Suganuma e também com o sensei Ikuo Onodera, no Centro Olímpico, e no Projeto Futuro, com sensei Floriano. Como professor e técnico, além de trabalhar com o sensei Divino, dei aula em inúmeras escolas pequenas e grandes. Na Federação entrei como veterano, mas sempre busquei ajudar dando palpites em outras áreas, então conheço bastante a mecânica da entidade. Durante muitos anos dei aula no CAT e desde 2014 estive à frente dos treinos dos veteranos que acontecem nas quintas-feiras. Hoje quem está lá é o professor Sidney, o Sidão. Eu sempre ajudei e colaborei de alguma forma, e hoje estou delegado regional e, com a ajuda de todos os professores e principalmente de Deus, espero fazer um bom trabalho e impactar positivamente na gestão inovadora do presidente Henrique Guimarães, que inaugura um novo ciclo na FPJudô, pautado pela modernização da entidade, pela reestruturação da área técnica do judô paulista e pela valorização de todos os segmentos da nossa modalidade. Uma gestão que busca resgatar a tradição de São Paulo como maior potência do país, mas que ao mesmo tempo projeta o judô paulista de forma estratégica no cenário nacional, fortalecendo ainda mais o papel do estado como referência para o Brasil inteiro.
DEIXE UMA MENSAGEM PARA OS DIRIGENTES, TREINADORES E JUDOCAS DA CAPITAL.
Peço que acreditem em nosso trabalho e participem ativamente. Nosso objetivo é recolocar a Capital na liderança do judô paulista, e só com a união de todos — dirigentes, professores e atletas — poderemos alcançar esse propósito.