Egito confirma liderança esportiva e institucional e projeta Mundial ITKF 2026 como marco global do karatê tradicional

Sensei Ramy El Mekawy, presidente da Federação Egípcia e da Federação Africana de Karatê Tradicional, e Mohamed Fawzy, diretor técnico da Federação Egípcia de Karatê Tradicional © Arquivo

Como país-sede e atual campeão mundial, o Egito detalha o conceito, a responsabilidade técnica e a ambição institucional que cercam a realização do Campeonato Mundial de Karatê Tradicional ITKF 2026, no Cairo.

Por Paulo Pinto / Global Sports
Curitiba, 13 de janeiro de 2026

O Campeonato Mundial de Karatê Tradicional ITKF 2026, que será realizado no Cairo, no Egito, surge cercado de expectativas esportivas, institucionais e simbólicas. Para compreender os fundamentos que levaram o país a ser escolhido como sede e o projeto que orienta a organização do evento, a Revista Budô entrevistou dois dos principais dirigentes do karatê tradicional egípcio e africano na atualidade.

Sensei Ramy El Mekawy, presidente da Federação Egípcia de Karatê Tradicional e da Federação Africana da modalidade, além de membro do Board of Directors da ITKF Global, é o responsável direto pela articulação institucional, política e organizacional do Mundial. Já Mohamed Fawzy, diretor técnico da seleção egípcia de karatê tradicional, representa o eixo esportivo do projeto, conduzindo a preparação da equipe que chega ao Mundial como atual campeã, título conquistado na última edição realizada em Portugal.

Chairman da ITKF Global, Gilberto Gaertner, em audiência oficial com o Ministro do Esporte do Egito, Dr. Ashrof Sobhy © Ahmed Fouad

As entrevistas revelam não apenas os critérios que consolidaram o Egito como país-sede, mas também a visão estratégica, cultural e esportiva que orienta a construção do Mundial ITKF Global 2026 como um evento de referência para o karatê tradicional no cenário global.

Definição da sede: processo democrático e critérios objetivos

A definição do país-sede de um Campeonato Mundial da ITKF não ocorre por tradição, rodízio geográfico ou decisão política circunstancial. Trata-se de um processo competitivo, conduzido pela ITKF Global a partir de critérios técnicos, institucionais e logísticos previamente estabelecidos.

No caso do Campeonato Mundial de Karatê Tradicional ITKF 2026, a disputa envolveu três candidaturas consistentes — Egito, Polônia e Romênia — todas com histórico relevante na modalidade e capacidade comprovada de sediar um evento de escala global.

Ramy El Mekawy, Gilberto Gaertner e dirigentes da ETKF inspecionam a arena esportiva do Sports City, no Cairo — uma das candidaturas ao Mundial de 2026 avaliadas © ITKF Global

Segundo sensei Ramy El Mekawy, o processo de escolha foi marcado por uma avaliação plural e rigorosa, conduzida em igualdade de condições entre os países candidatos. “A eleição da sede seguiu um processo competitivo e transparente, no qual todas as candidaturas foram analisadas com base em critérios objetivos”, explica.

Nesse contexto, a candidatura egípcia destacou-se por um conjunto de fatores técnicos e institucionais. “O Egito foi selecionado após uma avaliação criteriosa que reconheceu nosso histórico na organização de grandes eventos, a solidez da infraestrutura esportiva, a estabilidade institucional e o apoio governamental ao esporte”, afirma El Mekawy.

Arena principal do Cairo International Stadium, um dos maiores centros esportivos do país © Ahmed Fouad

Para o dirigente, o processo de escolha reforça o caráter democrático e a seriedade institucional da ITKF Global. “Esse modelo de avaliação demonstra o compromisso da federação internacional com critérios técnicos claros e com a transparência na definição de seus principais eventos”, completa.

Credibilidade construída ao longo do tempo

A confiança depositada pela ITKF Global na candidatura egípcia não se limitou a aspectos materiais ou logísticos. De acordo com El Mekawy, pesaram de forma decisiva a experiência organizacional acumulada ao longo dos anos e o nível de credibilidade institucional construído pelo país dentro da federação internacional.

Reunião institucional no Ministério do Esporte do Egito durante missão da ITKF Global no país © Ahmed Fouad

Essa combinação de capacidade técnica, estabilidade institucional e histórico de atuação internacional foi fundamental para diferenciar a candidatura egípcia em um processo altamente competitivo, reforçando a imagem da ITKF Global como uma entidade que opera sob princípios de governança, meritocracia e legitimidade esportiva.

Muito além da competição: um Mundial como experiência global

Ao projetar o ITKF 2026, a organização egípcia partiu de um conceito ampliado de campeonato mundial. A proposta, segundo El Mekawy, é que o evento vá além da lógica estritamente competitiva e se consolide como uma experiência esportiva global, capaz de integrar excelência técnica, organização profissional e identidade cultural.

“O ITKF 2026 foi concebido para ser mais do que um campeonato; é uma experiência esportiva global completa”, define. Nesse sentido, o Egito pretende oferecer um ambiente em que o alto nível técnico do karatê tradicional dialogue diretamente com a história e a identidade cultural do país. “O Egito oferece um cenário único onde a excelência esportiva encontra a história e a identidade, criando uma experiência inesquecível para atletas, treinadores e delegações.”

Sensei Ramy El Mekawy ao lado de parte dos medalhistas da seleção egípcia no Campeonato Mundial de Karatê Tradicional realizado em Portugal © Ahmed Fouad

A proposta também prevê que a vivência do Mundial ultrapasse o espaço competitivo do shiai-jô. Estão previstos seminários, atividades formativas e ações de engajamento comunitário, fortalecendo o sentido de união e intercâmbio entre as delegações. O envolvimento cultural, segundo o dirigente, é um eixo central do projeto.

“O campeonato envolverá profundamente os valores culturais e educacionais do karatê tradicional”, explica El Mekawy, ao destacar a incorporação de clínicas dedicadas à filosofia do dojô, à disciplina mental e ao treinamento ético, sempre alinhadas aos princípios da ITKF. Workshops específicos buscarão conectar as origens okinawanas do karatê a marcos culturais egípcios, como as Pirâmides e a região de Bani Mazar, promovendo uma experiência formativa que transcende o resultado esportivo.

Área externa do Cairo International Stadium, que integra o complexo esportivo destinado ao Campeonato Mundial ITKF 2026 © Arquivo

Do ponto de vista organizacional, o ITKF 2026 pretende estabelecer novos parâmetros para a realização de Campeonatos Mundiais da modalidade, com a utilização de instalações de última geração, serviços ampliados de apoio aos atletas e uma logística estruturada para receber delegações de mais de 80 países. A inclusão do parakaratê e a oferta de instalações de treinamento dedicadas integram esse desenho estratégico. Para Mohamed Fawzy, diretor técnico da Federação Egípcia de Karatê Tradicional, esse nível de estrutura responde diretamente à responsabilidade assumida pelo país como anfitrião e campeão mundial, exigindo “uma execução impecável, tanto no aspecto técnico quanto organizacional”. Na avaliação de Sensei Ramy El Mekawy, trata-se de um modelo que busca “educar tanto quanto competir”, fortalecendo o legado global do karatê tradicional.

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Filosofia, tradição e formação como eixo estruturante

Para além da dimensão esportiva, o Campeonato Mundial ITKF 2026 foi concebido para reafirmar os fundamentos filosóficos e educacionais que sustentam o karatê tradicional. Segundo Sensei Ramy El Mekawy, essa abordagem encontra ressonância natural na própria história do Egito, cuja civilização milenar está profundamente associada à educação, à disciplina e à formação ética do indivíduo.

“O karatê tradicional está profundamente enraizado na educação, na disciplina e em valores éticos — princípios que ressoam fortemente com a antiga civilização egípcia”, explica o dirigente. Essa convergência simbólica será refletida na atmosfera geral do evento, no respeito rigoroso aos protocolos tradicionais e na estrutura de programas complementares que acompanharão o campeonato.

Competição de karatê realizada no Cairo International Stadium © Arquivo

A proposta, segundo El Mekawy, é reafirmar o karatê como um caminho de desenvolvimento humano contínuo. “O campeonato enfatizará o caratê como um percurso de desenvolvimento pessoal ao longo da vida, e não apenas como sucesso competitivo”, afirma. Trata-se de uma leitura que reposiciona o Mundial como espaço formativo, coerente com os princípios históricos da ITKF.

Parcerias institucionais e sustentação organizacional

A realização de um evento com essa ambição exige uma base institucional sólida. Nesse sentido, o ITKF 2026 conta com uma rede de parcerias estratégicas que garante estabilidade, governança e padrão internacional de execução.

De acordo com El Mekawy, a organização do campeonato é sustentada por uma cooperação estreita com o Ministério da Juventude e Esportes do Egito, o Comitê Olímpico Egípcio e a Federação Africana de Karatê Tradicional. “O campeonato conta com o apoio de fortes parcerias institucionais”, destaca.

Sensei Ramy El Mekawy durante pronunciamento na cerimônia de abertura do Campeonato Aberto da África de Karatê Tradicional © Arquivo

Além dessas entidades centrais, autoridades locais e organismos internacionais participam ativamente do processo, assegurando conformidade técnica, logística e administrativa. O objetivo, segundo o dirigente, é garantir que o Mundial seja entregue “com os mais altos padrões internacionais”, em consonância com as exigências da ITKF Global.

Lideranças internacionais e governança compartilhada

Embora o Comitê Organizador Local tenha papel operacional decisivo, o planejamento do ITKF 2026 se estrutura a partir de uma governança compartilhada em nível global. El Mekawy enfatiza que há uma colaboração permanente com a liderança da ITKF Global.

“Há uma colaboração contínua com a liderança da ITKF Global, chefiada pelo Professor Dr. Gilberto Gaertner”, afirma, destacando ainda a participação de um grupo de líderes técnicos e administrativos internacionais com ampla experiência. Esse núcleo atua diretamente na definição da visão estratégica do evento e na garantia de uma execução técnica e institucional irrepreensível.

Rui Marçal, Ramy El Mekawi, Dr. Ashrof Sobhy, Gilberto Gaertner e Mohamed Fawzy em reunião no Ministério do Esporte do Egito © Ahmed Fouad

Impacto regional e projeção continental

No plano do legado, o dirigente avalia que o ITKF 2026 terá efeitos estruturantes que ultrapassam as fronteiras do Egito. A expectativa é de um impacto duradouro no desenvolvimento do karatê tradicional em todo o continente africano e no Oriente Médio.

“A realização do ITKF 2026 elevará os padrões técnicos, expandirá a participação de praticantes iniciantes e fortalecerá o papel do Egito como um centro regional e internacional para o karatê tradicional”, projeta El Mekawy. Nesse contexto, o Campeonato Mundial é visto não apenas como um evento pontual, mas como um catalisador de crescimento técnico, institucional e cultural para a modalidade em uma região estratégica do cenário global.

Responsabilidade ampliada: anfitrião e campeão mundial

Sediar um Campeonato Mundial já impõe, por si só, um alto grau de exigência organizacional. No caso do ITKF 2026, essa responsabilidade é potencializada pelo fato de o Egito chegar ao evento não apenas como país anfitrião, mas também como atual campeão mundial da modalidade — título conquistado em competição realizada em solo europeu.

Flagrante do Campeonato Aberto da África de Karatê Tradicional © Arquivo

Para sensei Ramy, esse duplo papel amplia o nível de cobrança em todas as frentes. “Chegar como país anfitrião e atual campeão mundial impõe um nível adicional de responsabilidade ao Egito”, afirma. Segundo ele, essa condição exige excelência não apenas no tatame, mas também na condução institucional do evento. “Esse papel duplo exige excelência na organização, na justiça e na transparência, garantindo que o campeonato reflita os mais altos padrões e valores do karatê tradicional.”

A leitura apresentada pelo dirigente reforça que o título esportivo não é tratado como vantagem simbólica, mas como um compromisso ético com a qualidade técnica e com a credibilidade internacional do Mundial.

Vista aérea do complexo esportivo do Cairo International Stadium © Arquivo

Sustentação técnica e filosofia de longo prazo

Manter-se no topo, no entanto, demanda mais do que resultados pontuais. El Mekawy destaca que a posição de liderança do Egito no cenário do karatê tradicional é sustentada por uma estrutura planejada e por uma filosofia esportiva coerente com os princípios da ITKF.

“Sustentar o sucesso exige visão de longo prazo e uma base técnica sólida”, explica. De acordo com ele, o país investe de forma contínua no desenvolvimento de atletas, treinadores e árbitros, apoiado em um planejamento estruturado e em uma filosofia esportiva firmemente enraizada nos princípios autênticos do karatê tradicional. Essa combinação, segundo o dirigente, permite ao Egito manter um desempenho consistente no mais alto nível internacional.

Dirigentes durante a cerimônia de abertura do Campeonato Aberto da África de Karatê Tradicional © Arquivo

Credibilidade internacional e elevação do nível competitivo

Na avaliação de El Mekawy, o fato de o país anfitrião também figurar entre as principais potências competitivas do karatê tradicional contribui diretamente para o fortalecimento técnico do evento. “Quando o país anfitrião é também uma potência competitiva e o atual campeão mundial, isso eleva tanto o nível técnico quanto a credibilidade internacional do campeonato”, afirma.

Esse cenário, segundo ele, cria um ambiente competitivo ainda mais forte e reforça a confiança não apenas entre atletas e federações, mas também junto a parceiros institucionais e investidores. O ITKF 2026, nesse contexto, projeta-se como um evento capaz de reunir excelência técnica, estabilidade organizacional e legitimidade esportiva.

Desenvolvimento regional e legado estrutural

Ao tratar dos impactos mais amplos do evento, El Mekawy destaca que o Mundial terá reflexos diretos no desenvolvimento do karatê tradicional no Egito, na África e no Oriente Médio. Segundo ele, a realização do ITKF 2026 impulsionará a expansão de dojôs e programas voltados a jovens praticantes, fortalecerá o desenvolvimento continental por meio de qualificatórias africanas e ampliará a visibilidade da modalidade na região.

“Isso posiciona o Egito como um centro regional, inspira investimentos e fomenta o desenvolvimento de talentos além das fronteiras”, resume, ao projetar um legado que ultrapassa o ciclo competitivo imediato.

A visão técnica da seleção egípcia

Em uma declaração complementar, Mohamed Fawzy, diretor técnico da Federação Egípcia de Karatê Tradicional (ITKF), aprofunda a análise a partir do ponto de vista esportivo. Para ele, o status de campeão mundial e anfitrião eleva substancialmente o grau de responsabilidade técnica da seleção egípcia.

“Como atuais campeões mundiais, o status do Egito aumenta as responsabilidades técnicas e organizacionais, exigindo uma execução impecável para corresponder à nossa capacidade competitiva”, afirma Fawzy. Segundo o dirigente, esse papel duplo não apenas exige alto rendimento, mas também inspira performances elevadas, ao mesmo tempo em que impõe o compromisso com a excelência organizacional.

Sensei Ramy El Mekawy ao lado de parte da equipe infantil do Egito durante o Campeonato Aberto da África de Karatê Tradicional © Arquivo

Fawzy ressalta que essa consistência é sustentada por uma estrutura técnica robusta, baseada em treinadores certificados, planejamento de longo prazo e cursos técnicos regulares. “Nossa filosofia está enraizada na pureza e na disciplina do karatê Shotokan”, explica, destacando ainda os investimentos contínuos em campos de treinamento e intercâmbios internacionais como fatores decisivos para a manutenção da liderança egípcia.

Convite à comunidade internacional

Ao encerrar, sensei Ramy El Mekawy dirige uma mensagem direta à comunidade internacional do karatê tradicional. “Convido a comunidade global do karatê tradicional a se preparar para um Campeonato Mundial verdadeiramente excepcional”, afirma.

Dirigentes ao lado da equipe de arbitragem que atuou no Campeonato Aberto da África de Karatê Tradicional © Arquivo

Sediado em um país reconhecido por sua história milenar e por sua experiência na organização de grandes eventos internacionais, o ITKF 2026 será enriquecido, segundo o dirigente, pelo acesso a locais históricos icônicos e pela inauguração do Grande Museu Egípcio. “Será uma convergência única de esporte, cultura e valores universais”, projeta.

Na mesma direção, Mohamed Fawzy reforça o convite com um tom mobilizador: “Preparem-se com disciplina e força inabaláveis. O Egito os recebe em um campeonato histórico que combina competição, cultura e camaradagem. Treinem incansavelmente; Cairo 2026 celebrará o espírito do karatê tradicional e forjará laços duradouros.”

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