21 de janeiro de 2026
Em um combate, a força mental é tão determinante quanto a excelência física © Gabriela Sabau / FIJ
O texto a seguir é uma adaptação idiomática para o português de artigo assinado por Nicolas Messner, diretor de Mídia e Comunicação da Federação Internacional de Judô (FIJ). O conteúdo original foi traduzido e ajustado editorialmente, com o cuidado de preservar integralmente o pensamento, o enfoque e a intenção do autor, respeitando sua autoria e o posicionamento institucional da entidade.
A recente aposentadoria da campeã olímpica Nora Gjakova representou mais do que o encerramento de um capítulo vitorioso em sua trajetória esportiva. Sua decisão trouxe à tona um aspecto essencial — e ainda frequentemente subestimado — do esporte de alto rendimento: a saúde mental e a força psicológica necessárias para sustentar uma carreira no mais alto nível.

A alemã Anna Maria Wagner comemora mais uma conquista © Gabriela Sabau / FIJ
Ao anunciar sua saída das competições, Gjakova falou com notável franqueza sobre os motivos que a levaram a parar. “Depois de conquistar uma medalha no Grand Slam de Paris 2025, senti que realmente não precisava mais provar nada a mim mesma. Eu simplesmente queria parar. Não tinha nenhuma lesão. Estava em boa forma física, mas não tinha mais vontade de continuar.” Suas palavras ecoaram profundamente no universo esportivo, por exporem uma realidade vivida por muitos atletas, mas raramente verbalizada com tamanha honestidade.
A disposição para seguir treinando diariamente, ultrapassar limites, suportar cargas intensas de trabalho e conviver com o risco constante de lesões, sem qualquer garantia de resultados, não pode ser tratada como algo trivial. Atletas de elite são, muitas vezes, comparados a carros de Fórmula 1: máquinas extremamente potentes e meticulosamente ajustadas para o desempenho máximo. No entanto, mesmo a máquina mais sofisticada não funciona sem combustível — e, no esporte, esse combustível é a motivação aliada ao equilíbrio mental.
Alcançar o mais alto nível de desempenho nunca é fruto do improviso, independentemente da modalidade. Exige anos de sacrifício, repetição e resiliência. Por isso, a saúde mental não pode ser vista como um aspecto secundário, mas como um pilar central do rendimento esportivo. Sem o desejo de competir, evoluir e suportar a pressão constante, a preparação física, por si só, é insuficiente.
A reflexão não é nova. “Mens sana in corpore sano” — mente sã em corpo são — escreveu o poeta romano Juvenal há quase dois mil anos. Hoje, essa máxima parece mais atual do que nunca. A psicologia do atleta de alto rendimento, orientada pela busca da excelência e da progressão contínua, o impulsiona a repetir esforços que podem parecer irracionais a quem observa de fora. Por que correr quilômetros diariamente, levantar cargas extremas ou enfrentar horas de randori todos os dias? Porque o alto desempenho exige exatamente isso.
Essa tensão constante, física e mental, cobra seu preço. As exigências do esporte de elite podem afetar o sono, o equilíbrio emocional, os hábitos alimentares e o bem-estar psicológico de forma ampla. O judô, apesar de seus sólidos valores educativos e estruturantes, não está imune a esses desafios.
Em 2022, a campeã mundial e medalhista olímpica alemã Anna Maria Wagner abordou o tema com coragem. “Acredito que somos modelos para os jovens, especialmente quando conquistamos medalhas no mais alto nível. Quero que todos saibam que todos nós podemos entrar em um estado de letargia depressiva. Sei que isso acontece com outros competidores, mas ninguém fala sobre isso — é um tabu. Justamente por ter consciência do meu status de campeã mundial e medalhista olímpica, quero falar sobre isso e dizer: é normal, não há motivo para vergonha.” Seu depoimento representou mais um passo importante na quebra desse silêncio.
“Conheço os benefícios desse tipo de apoio e sei o quanto é fundamental ter um profissional qualificado ao meu redor. Minha saúde mental foi determinante ao longo de toda a minha carreira.”
Nos últimos anos, a saúde mental ganhou maior visibilidade no esporte de alto rendimento. O processo de desestigmatização está em curso. Um marco simbólico desse avanço foi a criação do primeiro espaço dedicado à saúde mental para atletas na Vila Olímpica durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Paris 2024. Muito antes dessa iniciativa, entretanto, diversos sistemas de apoio já vinham sendo desenvolvidos.
Este é um tema que a Federação Internacional de Judô também decidiu enfrentar de forma aberta. Ao incentivar o diálogo, a formação e a cooperação entre treinadores, equipes médicas e profissionais da saúde mental, a FIJ reconhece que o bem-estar psicológico é inseparável do desempenho esportivo.

Equilíbrio psicológico como pilar invisível da longevidade e da performance no judô de elite © Gabriela Sabau / FIJ
Um dos maiores nomes da história do judô, Teddy Riner, também se posicionou publicamente sobre o assunto. Onze vezes campeão mundial e cinco vezes campeão olímpico — incluindo conquistas por equipes —, ele foi nomeado embaixador da saúde mental na França em 2 de junho de 2025, quando o tema foi declarado prioridade nacional. “Conheço os benefícios desse tipo de apoio e sei o quanto é fundamental ter um profissional qualificado ao meu redor. Minha saúde mental foi determinante ao longo de toda a minha carreira”, afirmou.
A ciência confirma essas experiências. Pesquisas em psicologia do esporte indicam que estados de humor como raiva, tensão, confusão, depressão, fadiga e vigor, assim como fatores como ansiedade, motivação e resistência mental, exercem influência direta no desempenho no judô. Judocas de alto nível tendem a apresentar maior vigor, melhor controle emocional, menor ansiedade e níveis mais elevados de motivação e resiliência mental. Nesse contexto, a cooperação entre treinadores e psicólogos do esporte torna-se fundamental para monitorar e fortalecer esses aspectos.
A decisão de Nora Gjakova nos lembra que, em determinadas circunstâncias, parar pode ser tão corajoso quanto continuar. A saúde mental não é sinal de fragilidade; é fator de desempenho, expressão da condição humana e responsabilidade compartilhada entre atletas, federações e todo o ecossistema esportivo. Ao reconhecer essa realidade, o judô segue avançando — não apenas como um esporte de excelência física, mas como uma modalidade que valoriza o ser humano em sua totalidade.
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