Em direção a uma referência universal para as graduações no judô

O Comitê Executivo da FIJ decidiu promover ampla reforma no sistema de graduações da modalidade © Imagem criada por IA / Global Sports

Muito além das questões técnicas, a proposta de reforma das graduações da FIJ convida o judô e as artes marciais a repensarem o sentido do aprendizado, da transmissão e da responsabilidade ao longo do caminho.

Por Nicolas Messner / FIJ
Versão e adaptação jornalística: Paulo Pinto / Global Sports  
Curitiba, 28 de janeiro de 2026

Ao reconhecer as disparidades existentes na concessão das graduações (dans) entre as federações membros da Federação Internacional de Judô (FIJ) — e o fato de que judocas com a mesma graduação podem demonstrar níveis significativamente distintos de conhecimento e competência — o Comitê Executivo da FIJ reuniu-se em 1º de dezembro de 2025 e decidiu promover uma ampla reforma em seu sistema de graduações.

A ambição dessa iniciativa é estabelecer as graduações da FIJ como uma referência global, não apenas para o judô, mas também como modelo conceitual para a comunidade das artes marciais em geral.

Sob a liderança do francês Jean-Luc Rougé, faixa vermelha juu-dan (10º dan), foi conduzido um processo de reflexão profundo e de longo prazo, que resultou em uma proposta universal para a reorganização das graduações no judô. Esse trabalho foi firmemente ancorado nos valores fundamentais da modalidade, assegurando que o novo sistema permaneça fiel ao espírito e à filosofia do judô.

Como parte dessa reforma, as graduações da FIJ passarão a ser as únicas graduações reconhecidas internacionalmente. A lista oficial de judocas aprovados e suas respectivas graduações será formalmente comunicada aos ministérios do Esporte e aos Comitês Olímpicos Nacionais das federações correspondentes. A partir de 2026, todas as graduações de dan concedidas pelas federações nacionais deverão ser validadas pela FIJ, sendo estabelecido um período de transição de um ano para a implementação completa do novo sistema.

O programa de graduações tem início desde o começo da prática do judô, com a faixa branca. O programa destinado às faixas coloridas (kyu) é concebido como um conjunto de diretrizes gerais, e não como um currículo obrigatório imposto aos professores de judô. Seu objetivo é oferecer uma estrutura pedagógica que apoie o aprendizado e a motivação dos praticantes, respeitando plenamente a autonomia dos instrutores. Esse programa kyu também é disponibilizado pela Academia de Judô da FIJ.

Para as graduações de dans (faixas pretas), contudo, as federações deverão seguir o programa estabelecido pela FIJ, que define o conjunto mínimo de conhecimentos e competências que os judocas devem demonstrar. É fundamental destacar que o judô é compreendido, nesse contexto, como muito mais do que um esporte ou uma atividade física. Espera-se, portanto, que os detentores da faixa preta possuam não apenas proficiência técnica, mas também um sólido conhecimento da cultura, da história e dos valores educacionais do judô, conforme descrito nos requisitos específicos de cada nível de dan.

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Essa reforma vem acompanhada de uma estratégia financeira destinada a apoiar o desenvolvimento das federações nacionais e das uniões continentais, garantindo que o sistema de graduações contribua de forma concreta para o crescimento sustentável do judô em escala global.

Para compreender plenamente o significado das graduações no judô, é essencial retomar os princípios estabelecidos por Jigoro Kano Shihan, fundador da modalidade. No judô, as graduações representam muito mais do que uma classificação esportiva. Elas não medem o valor pessoal do indivíduo, mas sim o caminho percorrido em seu processo de aprendizado. Uma graduação não define quem o judoca é; indica apenas em que ponto de sua formação ele se encontra naquele momento. Por essa razão, não é definitiva nem necessariamente linear.

Embora as graduações reflitam naturalmente o progresso no conhecimento técnico, elas também simbolizam o avanço do indivíduo em direção a um objetivo mais amplo: a melhoria da sociedade por meio da educação dos indivíduos. Surge um risco quando a graduação se transforma em um fim em si mesma, quando deveria permanecer apenas como um marco temporário dentro de uma jornada ao longo da vida — o dô.

Nesse processo contínuo, as faixas coloridas desempenham um papel essencial na estruturação da aprendizagem. Elas não têm como finalidade estabelecer hierarquias entre pessoas. Ao contrário, oferecem metas alcançáveis, sustentam a motivação e organizam o desenvolvimento técnico e comportamental. Sob essa perspectiva, uma faixa colorida reflete aquilo que ainda precisa ser desenvolvido, e não o que já foi plenamente dominado.

Quando um judoca alcança o primeiro dan, isso não deve ser interpretado como uma conquista final, mas como uma autorização para aprofundar os estudos. Representa o domínio dos fundamentos e o início de um estudo sério e contínuo. Não é prova de excelência, nem garantia de sabedoria, tampouco o fim da jornada.

À medida que os níveis de dan se elevam, a ênfase se desloca progressivamente da performance para a transmissão. O desempenho físico torna-se secundário, enquanto a compreensão, o ensino e a responsabilidade ética passam a ocupar lugar central. Não se espera que um judoca de alto grau seja o mais forte ou o mais rápido, mas sim que se torne uma referência, um guia e um guardião do espírito do judô. Quanto mais elevado o grau, maior deve ser a responsabilidade moral associada a ele.

O judô ensina humildade, autocrítica e adaptabilidade. As graduações não devem cristalizar papéis, inibir a troca de experiências ou alimentar o ego. Pelo contrário, devem incentivar uma aprendizagem aberta e promover o respeito mútuo.

Uma leitura filosófica simples do sistema de graduações pode ser sintetizada da seguinte forma:

FAIXAS COLORIDAS: aprender a fazer

FAIXA PRETA: aprender a compreender

DAN AVANÇADO: aprender a transmitir

UMA VIDA INTEIRA: aprender a desaprender

Em conclusão, o sistema de graduações da FIJ deve ser entendido como uma ferramenta, e não como uma hierarquia de valores. Seu propósito é acompanhar o desenvolvimento interior do judoca. Não se trata de um rótulo social nem de um marcador identitário, mas de uma estrutura concebida para preservar a essência do judô, assegurando coerência, equidade e significado em nível global.

Todas as informações estão disponíveis na seção de documentos, em “Notas” no site da Federação Internacional de Judô.

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