Budô: Em busca da verdade

A busca pela verdade no Budô exige silêncio interior, ruptura com a ilusão e disposição para atravessar o caminho sem concessões ao autoengano © Imagem criada por IA / Global Sports

Entre a miragem e a verdade, o praticante é convocado a um exame radical de consciência: no Budô, não basta caminhar — é preciso depurar a visão, confrontar as mentiras que contamos a nós mesmos e sustentar, até o fim, a disciplina interior que impede a derrota terminal da desilusão.

Por Fernando Malheiros Filho
Curitiba, 22 de fevereiro de 2026

No coração do Budô, o caminho (dô) não é ornamento nem promessa confortável: é um método de lapidação que obriga o ser a encarar o que evita — a própria tendência ao autoengano. Ao refletir sobre finitude, propósito e lucidez, o professor Fernando Malheiros Filho propõe uma ética da prática em que técnica, mente e caráter se tornam instrumentos de investigação: como na ciência, é preciso aperfeiçoar as “lentes” para enxergar além da aparência, resistir às soluções fáceis e perseguir, com pertinácia, a verdade rara que só se revela a quem aceita o esforço de ir fundo

O Dô como método de desvelamento

Em certa altura da vida, o ser vê a si mesmo e formula perguntas que, em um passado não tão distante, não despertariam em sua consciência. A existência é finita, fato que todos sabemos desde muito cedo, e deve ter um sentido, nem que seja o de não ter sentido algum. Afinal, morreremos e, em uma ou duas gerações, seremos esquecidos, com exceção feita às grandes figuras da história. A questão central é o propósito, o sentido existencial; para o praticante — aquele que perseverou na prática mesmo quando o corpo recomendava parar —, o que importa é a verdade contida nessa jornada.

Não se trata de um questionamento menor. Imagine aquele que, após décadas de caminho (dô), descobre estar em busca de uma miragem — algo que não existe senão nas equivocadas expectativas do caminhante. A frustração seria imensa, agravada pelo fato de que não se poderia retroceder; não restaria mais tempo existencial para voltar atrás e recomeçar. Daí surgem as quimeras atrás das quais muitos se escondem, sob várias tonalidades: técnicas, religiosas, metafísicas em geral, lugares-comuns e outros tantos expedientes que servem a essa dissimulação.

Entre a aparência e a verdade

Por isso, vale a advertência àquele que trilha o caminho (Dō): certifique-se de que a verdade é seu objetivo final. Por mais difícil que ela seja, divisá-la significará o seguro contra a decepção terminal — a pior de todas —, daquele que, nos arredores da morte, descobre ter vivido em direção à mentira.

A inverdade é insidiosa e assume formas diversas para enganar os observadores, como uma espécie de Medusa que petrifica seus adoradores. É da natureza do cérebro humano contentar-se com soluções fáceis, uma espécie de remédio evolutivo para economizar energia e preocupações. Preferimos que a verdade se adapte às nossas expectativas, pois reconhecê-la e explicá-la exige um trabalho árduo.

Esse cacoete humano pode nos levar a labirintos inacessíveis, apenas aparentemente intrincáveis, mas que inevitavelmente conduzirão o caminhante aos portões do inferno da desilusão — se é que ele terá a chance de chegar tão longe antes de afundar nela. A verdade, associada à luz do Sol, sempre será o desinfetante a prevenir as infestações malignas dos germes da mentira.

Não trato aqui das mentiras que nos contam — que são numerosas e onipresentes nos campos da sociologia e da política —, mas sim da mentira que contamos para nós mesmos na trajetória existencial que nos cabe palmilhar. Temos inúmeros “remédios” para esse mal na cultura, na filosofia e, para alguns, na religião. O Budô, contudo, oferece soluções dramáticas, mas eficazes. Como sabemos, ele não se resume a um fim em si mesmo; possui natureza instrumental, funcionando por intermédio de práticas múltiplas, sendo as artes marciais uma delas. Todas possuem seu repertório técnico e um cardápio mutável pelo tempo e pela experiência, sempre que se descobre a ineficiência — ou a “mentira” — de uma técnica.

Ao mesmo tempo, o Budô pode ser traiçoeiro e ilusório, permitindo ao praticante a falsa percepção de funcionalidades inexistentes. Nele, a verdade está escondida por camadas densas de etapas cognitivas aguardando sua descoberta.

A regra geral é que a verdade é difícil e a mentira, fácil. Ainda que nem sempre a regra possa ser aplicada de forma absoluta, o fato é que a verdade é preciosa e, portanto, rara. Ela não está disponível ao observador de olhos desarmados; submete-se apenas à pertinácia de quem a procura, cuja tenacidade e determinação haverão de moldar seu caráter.

Os fenômenos, tanto os físicos quanto os abstratos, não se oferecem através de explicações simples ou intuitivas; exigem a determinação feroz de quem os persegue. O caminhante, ao olhar para o caminho, deverá perceber cada nuance, cada detalhe e, principalmente, reuni-los em um sistema capaz de explicar o que tem à frente.

No Budô, o aparato técnico tem esse papel: trabalhamos com o corpo em conjunto com a mente. Embora as possibilidades de explicação dos fenômenos sejam infinitas, poucas delas contêm a verdade. É fácil deixar-se seduzir pelo que é meramente estético ou de aparência veemente. A verdade está infiltrada em camadas profundas, normalmente indisponíveis à visão superficial.

Lapidar as lentes do caminho

Na ciência, só foi possível descortinar a verdade com a melhoria dos aparelhos de visão, desde as lentes dos microscópios até a vertiginosa invenção da inteligência artificial. No Budô, temos que desenvolver essas “lentes” em um exercício mental constante, formando sistemas de pensamento capazes de processar os fatos, espremendo-os para deles extrair o sumo da verdade. A percepção dos detalhes — essas porções infinitesimais do todo — passa a ser o elemento essencial.

Não se pode deixar iludir pela primeira percepção, geralmente equivocada. É necessário olhar melhor, “esfregar os olhos” e ir a fundo até atingir o verdadeiro contentamento: aquela plenitude de quem, às portas da morte, pode dizer a si mesmo que não se deixou trair pelo disfarce da impostura e seguiu, enfim, o caminho da verdade.

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