05 de abril de 2026
O tempo passa, mas o legado permanece
© Global Sports
Em entrevista realizada originalmente em Fortaleza (CE), em 2013, pela Revista Budô, o shihan Yasutaka Tanaka revelou parte de sua trajetória como um dos professores introdutores do karatê-dô no Brasil — em um período singular da história da modalidade, quando, apesar da existência de múltiplos estilos e escolas, o karatê mundial ainda orbitava sob uma única estrutura organizacional reconhecida internacionalmente: a World Union of Karate-do Organizations, fundada em 1970.
Exibindo um caráter de retidão incomum, sustentado por um personalismo concreto — no sentido filosófico do termo, ancorado na responsabilidade individual, na coerência ética e na verdade como valor inegociável —, e mesmo diante das limitações idiomáticas naturais de quem construiu sua vida entre culturas distintas, em nenhum momento o shihan Tanaka recorreu a rodeios ou meias palavras. Sua fala é direta, firme e desprovida de concessões, revelando atributos cada vez mais raros no ambiente institucional contemporâneo: senso de justiça, transparência absoluta e compromisso integral com a verdade — predicados que, não por acaso, ajudam a explicar a autoridade moral que construiu ao longo de décadas.
Nascido em 8 de outubro de 1936, em Tóquio, o sensei Yasutaka Tanaka, juu-dan (10º dan), viveu no Japão até os seis anos de idade, quando emigrou com sua família para a China — movimento que dialoga diretamente com o contexto expansionista japonês no período pré-Segunda Guerra Mundial. Com o término do conflito, regressou ao Japão em 1946, em um país devastado, em processo de reconstrução material e redefinição de identidade. Foi nesse ambiente que retomou seus estudos, ingressando posteriormente na universidade e, mais adiante, decidindo migrar para o Brasil, tornando-se um dos pioneiros na difusão da Arte das Mãos Vazias em território nacional.

Com um karatê de absoluta eficiência, Yasutaka Tanaka formou várias gerações © Arquivo
Conheça, a seguir, parte da trajetória dessa verdadeira lenda do karatê mundial — que, à época da entrevista, ocupava uma posição de destaque hierárquico na International Traditional Karate Federation, sendo reconhecido como uma das maiores autoridades da entidade e ostentando a graduação de faixa preta juu-dan (10º dan), um grau reservado a pouquíssimos mestres em todo o mundo.
Foi na tradicional Universidade de Takushoku, em Tóquio — um dos principais polos de formação do karatê Shotokan no século XX — que o sensei Tanaka teve contato com o karatê-dô em seu mais alto nível, sob a orientação direta de Masatoshi Nakayama, figura central na sistematização técnica e na internacionalização da modalidade por meio da JKA – Japan Karate Association.
Segundo Tanaka, o karatê daquele período era substancialmente diferente do que se observa hoje. O eixo central da prática estava no budô — não como conceito abstrato, mas como método de formação integral do indivíduo. O treinamento não era orientado para conquistas competitivas ou acúmulo de títulos, mas sim para o desenvolvimento equilibrado da mente, do corpo e do espírito. Havia rigor, disciplina e uma compreensão clara de que o karatê era, antes de tudo, um caminho de aperfeiçoamento humano.

Tasuke Watanabe e Yasutaka Tanaka — companheiros de uma vida no karatê-dô © Global Sports
Antes de vir para o Brasil, formou-se em Comércio Exterior pela Universidade de Takushoku, consolidando uma base acadêmica que dialogaria, posteriormente, com sua experiência internacional.
DE QUE FORMA CHEGOU AO KARATÊ?
Comecei aos 17 anos. Naquela época, o karatê ainda era visto com certa desconfiança no Japão, especialmente no período imediato ao pós-guerra. Por estar associado a práticas de combate intenso e, muitas vezes, interpretado como violento por setores da sociedade, não era uma atividade amplamente difundida entre crianças ou incentivada no ambiente familiar. Além disso, nosso país passava por um processo de reestruturação social sob forte influência das forças de ocupação aliadas, que chegaram a restringir a prática de diversas artes marciais por um período. Nesse contexto, o karatê começava a se reorganizar dentro das universidades, assumindo uma nova forma — mais sistematizada, pedagógica e alinhada aos valores educacionais —, o que acabou sendo determinante para a sua expansão nas décadas seguintes.
QUEM FOI SEU SENSEI?
Meu instrutor foi o próprio Nakayama, que era professor da Universidade Takushoku. Lá, cada universidade possui uma espécie de clube ou associação, responsável por representar a instituição nas mais diversas competições esportivas, funcionando como um verdadeiro centro de formação técnica e disciplinar.
POR QUE VEIO PARA O BRASIL?
Eu queria muito sair do Japão. Em função do trabalho de meu pai, sempre mudávamos de lugar e, durante a guerra, estávamos na China. Quando o conflito terminou, voltamos para o Japão, em 1946. No pós-guerra, o Brasil era praticamente o único país que ainda permitia a entrada de imigrantes japoneses, o que acabou se tornando uma oportunidade concreta de recomeço.

Aprendi que o kihon é a base de tudo — sem base, não tem karatê © Global Sports
EM QUE ANO VEIO PARA O BRASIL?
Em 1959. Fui para São Paulo, na região de Mogi das Cruzes, onde a colônia japonesa era muito grande, sendo inclusive um dos berços do judô. Entrei no Brasil pelo porto de Santos, a bordo do navio Argentina Maru.
VEIO COM OUTROS PROFESSORES DE KARATÊ?
Não, eu vim sozinho. Meus amigos vieram antes. Primeiro veio o professor Sagara, depois Higashino e Uriu, nessa ordem. Todos eram karatecas formados pela Universidade de Takushoku.
Detalhe importante é que os três pioneiros que antecederam o professor Tanaka foram formados na mesma universidade, reforçando o papel central da Takushoku como núcleo irradiador do karatê Shotokan para o Brasil e para o mundo. Juichi Sagara, nascido em Tóquio em 16 de fevereiro de 1934, estabeleceu-se em São Paulo e alcançou o kyuu-dan (9º dan) da JKA. Sadamu Uriu, nascido em 20 de setembro de 1929, também em Tóquio, faleceu em 30 de novembro de 2020, no Rio de Janeiro, após igualmente atingir o kyuu-dan (9º dan) da JKA. Já Tetsuma Higashino fixou-se em Brasília, sendo peça fundamental na expansão do karatê para a região Centro-Oeste, ampliando de forma decisiva o alcance geográfico da modalidade no país.
VOCÊS VIERAM COM PLANOS TRAÇADOS PARA O KARATÊ?
Não. Cada um veio porque quis, por conta própria e de forma isolada. Não havia qualquer planejamento institucional ou coordenação internacional nesse processo. Ninguém sabia, ao certo, se o karatê iria se desenvolver no Brasil, pois, naquela época, a modalidade era praticamente desconhecida fora do Japão. Estamos falando de um período em que o karatê ainda não havia se consolidado como prática global, tampouco como esporte organizado internacionalmente. A difusão que ocorreu posteriormente foi resultado muito mais da iniciativa individual dos senseis do que de qualquer estratégia previamente definida.
MAS EXISTE UMA LENDA DE QUE A JKA ORQUESTROU A VINDA DE VOCÊS PARA DESENVOLVER O KARATÊ NO BRASIL. ISSO NÃO É REAL?
Não é verdade, isso não procede. Cada um veio por sua conta. Não houve nenhum tipo de direcionamento oficial da Japan Karate Association nesse sentido. O único professor que veio ao Brasil a partir de uma designação institucional foi o professor Taketo Okuda, e isso aconteceu muitos anos depois, já em um contexto completamente diferente, quando o karatê já estava mais estruturado no país.
QUEM MONTOU A PRIMEIRA ESCOLA DE KARATÊ DO BRASIL?
Do nosso grupo foi o sensei Sagara. Mas é importante registrar que, antes dele, já haviam chegado ao Brasil e se estabelecido aqui outros mestres, como o professor Seiichi Akamine do estilo Goju-ryu e o professor Mitsuke Harada, sendo este último também da linha Shotokan. Esse período inicial é marcado por iniciativas isoladas, sem conexão direta entre si, o que torna difícil estabelecer um marco único e absoluto para a consolidação do karatê no país. Ainda assim, dentro do nosso grupo, o trabalho do sensei Sagara foi determinante na estruturação inicial da modalidade.

Gilberto Gaertner, Richard Jorgensen, Eligio Contarelli, Yoshizo Machida, Yasutaka Tanaka e Tasuke Watanabe no Masters Course da ITKF de 2017 no Centro Pan-Americano de Judô em Salvador (BA) © Global Sports
Shihan Seiichi Akamine nasceu em 14 de maio de 1920, em Naha (Japão), e faleceu em 18 de julho de 1995, em São Paulo. Foi um dos pioneiros a divulgar o karatê no Brasil e na América Latina, fundou a Associação Brasileira de Karatê, que depois virou a Confederação Brasileira de Karatê que é uma das entidades responsáveis pelo esporte no país. Akamine também fundou a escola Ken-shin-kan.
Já Mitsuke Harada nasceu em 1928, na Manchúria. Em 1948, ingressou na Universidade de Waseda. Em 1955, chegou ao Brasil, para trabalhar no Banco América do Sul, agência em São Paulo, e portava o go-dan (5º dan), outorgado diretamente pelo criador do estilo Shotokan, Gichin Funakoshi. Em 1956 instalou seu dojô na rua Quintino Bocaiuva, em São Paulo.
COMO FOI PARA O RIO DE JANEIRO?
Primeiro fui para São Paulo, onde passei a treinar na academia do sensei Sagara. Em uma ocasião, visitei o Rio de Janeiro e lá conheci o professor Lirton Monassa, que já possuía uma academia muito bem estruturada. Ele disse que já me conhecia de São Paulo, o que facilitou a aproximação. A partir daí, construímos uma amizade sólida, e ele acabou me convidando para desenvolver o trabalho no Rio de Janeiro, na academia Kobukan. Esse movimento acabou sendo decisivo, pois o Rio, naquele momento, oferecia um ambiente mais propício para a difusão da modalidade.
COMO SE CHAMAVA E ONDE FOI FUNDADO SEU PRIMEIRO DOJÔ?
Ginásio Brasileiro de Cultura Física, na Praia de Botafogo.
DE QUE FORMA ACONTECEU O DESENVOLVIMENTO DO KARATÊ NO BRASIL?
Quando cheguei ao Rio de Janeiro, em 1962, praticamente ninguém sabia o que era karatê. Era algo completamente novo. No entanto, em pouco tempo, a modalidade ganhou projeção. Tive muita sorte porque, ao iniciar meu trabalho no Rio, comecei a ensinar pessoas de um nível social mais elevado, o que contribuiu diretamente para a credibilidade e visibilidade do karatê. Paralelamente, houve uma forte influência cultural naquele período, especialmente por meio de filmes internacionais — em especial produções de Hollywood — que passaram a retratar artes marciais e despertaram o interesse do público.

Sensei Tanaka no Goshin-dô de 2018 no Espírito Santo © Global Sports
Esses dois fatores, combinados, deram um impulso significativo ao nosso trabalho. O mais interessante é que, mesmo com as limitações que eu tinha na língua portuguesa naquele momento, essas pessoas conseguiram perceber o valor do karatê. Identificaram não apenas a eficiência da prática, mas também sua adequação ao biotipo brasileiro, o que facilitou muito a aceitação e expansão da modalidade no país.
QUANDO OCORREU O PRIMEIRO CAMPEONATO BRASILEIRO?
Cheguei ao Rio em 1962 e, já em 1963, organizei o primeiro torneio. Ainda não era oficial, mas foi um passo importante. Naquele momento, o karatê estava presente apenas nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e em Brasília. Aos poucos, fomos estruturando e oficializando a modalidade. O crescimento foi relativamente rápido, e logo outros estados, como Goiás e Minas Gerais, passaram a integrar esse movimento, consolidando o karatê em nível nacional.
QUAIS ERAM OS PROFESSORES QUE ATUAVAM NO COMEÇO?
Em São Paulo estava o sensei Sagara; em Brasília, o professor Higashino; na Bahia, o sensei Uriu; e no Rio de Janeiro, eu. Em 1968, a Confederação Brasileira de Pugilismo nos fez um convite para que nos filiássemos à entidade, o que representou um passo fundamental para a organização do karatê no Brasil. Foi a partir desse momento que começamos, de fato, a estruturar a modalidade em bases institucionais.

Shihans Watanabe, Tanaka e Inoki arbitrando no Campeonato Brasileiro de Fortaleza 2013 © Global Sports
Em 1969, realizamos o primeiro Campeonato Brasileiro oficial, no Ginásio Mourisco, do Clube Botafogo, no Rio de Janeiro. Esse evento marcou a consolidação do karatê como prática organizada no país, estabelecendo um modelo competitivo e administrativo que seria desenvolvido nos anos seguintes.
EM QUE ANO O BRASIL PARTICIPOU DO PRIMEIRO MUNDIAL?
Na verdade, o primeiro Campeonato Mundial de Karatê foi realizado em Tóquio, em 1970, mas ainda em formato por equipes. O segundo mundial aconteceu em 1972, em Paris, e este já foi disputado de forma individual e absoluta. Foi nessa edição que a seleção brasileira fez sua estreia no cenário internacional.
O BRASIL CONQUISTOU ALGUMA MEDALHA NESTE MUNDIAL?
Sim, conquistou. O Brasil foi campeão absoluto.
COMO ASSIM?
O sensei Luiz Tasuke Watanabe foi campeão mundial. Ele se tornou o primeiro campeão mundial individual da história do karatê. Naquela época não existiam categorias de peso — as disputas eram absolutas, assim como ocorria no judô em seus primórdios. Isso exigia não apenas técnica refinada, mas também coragem e capacidade de adaptação a adversários de diferentes biotipos. Na competição por equipes, o Brasil terminou em quinto lugar. A equipe era formada por Denílson Caribe, que atuava como capitão, Ugo Arrigoni Neto, Watanabe, Paulão, Fernando Soares e Dorival Caribe. Eu fui o técnico da equipe, e o chefe da delegação foi o general Cintra.
O WATANABE É BRASILEIRO?
Ele é japonês, mas se naturalizou brasileiro e chegou, inclusive, a servir o Exército, consolidando sua ligação com o país.
“O verdadeiro karatê foi criado para que você enfrente a si mesmo e supere o seu maior adversário — que é você mesmo.”
Essa frase do sensei Tanaka sintetiza a essência do karatê-dô enquanto caminho. Mais do que a vitória sobre o adversário, o verdadeiro objetivo da prática está na superação das próprias limitações — físicas, técnicas e, sobretudo, mentais. Trata-se de um processo contínuo de autoconhecimento e disciplina, em que o praticante é constantemente desafiado a evoluir como ser humano.
QUAIS FORAM OS PRIMEIROS BRASILEIROS QUE MAIS SE DESTACARAM TECNICAMENTE?
Nos primeiros três anos, os atletas do Rio de Janeiro dominaram completamente as competições. Foram campeões em praticamente tudo, o que demonstra o nível técnico que conseguimos desenvolver naquele período inicial.
QUAIS DELES SE DESTACARAM NO KUMITÊ?
Tivemos muitos atletas de alto nível, entre os quais destaco Ugo Arrigoni, Ronaldo Carlos e o Paulão. Cada um possuía características próprias, estilos distintos de combate, o que enriquecia muito o nível técnico das disputas e contribuía para o desenvolvimento coletivo do karatê no Brasil.

Professor Tanaka disseminou a prática, os princípios técnicos e filosóficos do karatê tradicional
E NO KATA?
Quem mais se destacou naquela época foi o Ugo Arrigoni. Todos os atletas que mencionei anteriormente possuíam nível internacional, mas, no kata, Arrigoni apresentava um domínio técnico diferenciado, com execução precisa, entendimento profundo dos movimentos e forte presença marcial — elementos fundamentais para a prática de alto nível.
VOCÊ AVALIA QUE OS PROFESSORES QUE VIERAM DO JAPÃO OBTIVERAM SUCESSO NA IMPLANTAÇÃO DA MODALIDADE NA CULTURA BRASILEIRA?
Acredito que sim. O brasileiro se adaptou muito bem ao karatê. O biotipo é semelhante ao do japonês em diversos aspectos, especialmente no que diz respeito à mobilidade e à capacidade de resposta corporal. Além disso, o brasileiro possui características muito favoráveis à prática, como jogo de cintura, criatividade e coragem. Muitas vezes é também impetuoso — no sentido de agir com intensidade e iniciativa —, o que, quando bem orientado, se transforma em um diferencial competitivo importante. Essa combinação de fatores facilitou a assimilação do karatê no Brasil. Com o tempo, o país passou a se destacar não apenas na modalidade, mas também em diversas outras artes marciais, consolidando-se como uma potência internacional no campo das lutas.
“No Japão, o Budô está ligado à essência do indivíduo, quase como algo que corre no sangue. Envolve disciplina, autocontrole, respeito e um processo contínuo de aperfeiçoamento.
APÓS A MORTE DE NAKAYAMA, QUEM PASSOU A SER O NÚMERO 1?
Para mim, foi o professor Hidetaka Nishiyama. Quando o professor Masatoshi Nakayama faleceu, não havia um sucessor definido de forma clara. Existia um nome que poderia assumir esse papel, o professor Miyata, mas ele acabou falecendo antes do próprio Nakayama. Diante desse cenário, Nishiyama, pela sua capacidade técnica, profundidade de conhecimento e liderança, tornou-se, na minha visão, a principal referência do karatê naquele momento.
QUAL É A SUA DEFINIÇÃO DO TERMO BUDÔ?
A tradução mais simples é “caminho do guerreiro”, mas isso é apenas uma parte do significado. O Budô representa o espírito da pessoa. É algo muito difícil de explicar apenas com palavras. Nós não somos apenas músculos; temos também a mente, e o budô trabalha justamente essa integração entre o físico e o mental. Para nós, no Japão, o Budô está ligado à essência do indivíduo, quase como algo que corre no sangue. Envolve disciplina, autocontrole, respeito e um processo contínuo de aperfeiçoamento. Não é apenas uma prática física, mas um caminho de formação humana.

Senseis Sagara, Tanaka, Uriu, Inoki, Watanabe e Kawamura, precursores do karatê em 1975 trouxeram o mestre Masatoshi Nakayama pela primeira vez ao Brasil © Arquivo
DE QUE FORMA SURGIU A INTERNATIONAL TRADITIONAL KARATE FEDERATION?
Essa história é antiga. O primeiro Campeonato Mundial de Karatê foi realizado no Japão, em 1970, sob a sigla da World Union of Karate-do Organizations. Já no segundo mundial, realizado em Paris, em 1972, houve um conflito muito grande que acabou dividindo a modalidade. Não foi uma disputa política ou de poder, como muitos pensam, mas sim uma divergência de natureza ideológica e técnica. Na WUKO, os golpes não eram completados — não havia contato pleno. Para um grupo de mestres, isso descaracterizava a essência do combate dentro do karatê tradicional. A partir dessa divergência, ocorreu a separação. O professor Nishiyama estruturou inicialmente a International Amateur Karate Federation (IAKF) e, posteriormente, a International Traditional Karate Federation. Assim, por volta de 1973, o karatê passou a se organizar em dois grandes blocos, com propostas distintas. Nesse mesmo ano, o grupo liderado por Nishiyama realizou sua primeira grande ação internacional no Campeonato Pan-Americano, sediado no Brasil.
QUAIS PAÍSES PARTICIPARAM DESTE PAN-AMERICANO DE 1973?
Brasil, Argentina, Estados Unidos, Trinidad e Tobago, México, Uruguai, Chile e Canadá.
QUEM LIDERAVA A WUKO?
Os europeus tinham papel predominante. Não me recordo exatamente quem ocupava formalmente a presidência naquele momento, mas a figura do francês Jacques Delcourt sempre esteve muito presente, liderando o projeto e defendendo a transformação do karatê em uma modalidade esportiva com reconhecimento internacional — inclusive com objetivo olímpico.
POR QUE VOCÊ SEGUIU O SENSEI NISHIYAMA?
Na verdade, foi uma decisão baseada em critérios técnicos. O karatê desenvolvido por Nishiyama era, na minha avaliação, infinitamente superior em termos de profundidade e consistência. O outro grupo tinha como foco principal a competição, enquanto o nosso karatê sempre esteve fundamentado eminentemente no Budô. Não se trata de dizer que um está certo e o outro errado. São propostas diferentes. Caminhos distintos de prática, compreensão e transmissão do karatê. No nosso caso, a prioridade sempre foi a essência da arte marcial, e não apenas o resultado esportivo.
“A origem do karatê remonta ao kendô e à espada.”
MAS ONDE ESTÁ A VERDADEIRA ORIGEM DE TUDO?
A origem remonta a muitos anos e está diretamente ligada ao kendô e ao uso da espada. De forma mais ampla, todas as artes marciais japonesas têm suas bases nos samurais e na prática com armas, especialmente a espada. O budô, em sua essência, não foi concebido para o confronto entre praticantes da mesma modalidade, mas para enfrentar situações reais de combate, muitas vezes contra adversários de diferentes estilos ou armamentos. O karatê, nesse sentido, herda princípios estratégicos e filosóficos desse contexto, mesmo sendo uma arte de combate desarmado.
O PROFESSOR NISHIYAMA TAMBÉM TRABALHAVA A QUESTÃO ENERGÉTICA?
Sim. Ele desenvolvia estudos aprofundados sobre golpes e movimentos, analisando-os de forma científica. A partir dessas pesquisas, buscava comprovar a eficiência de cada técnica, considerando aspectos como geração, transmissão e aplicação de energia. Esse entendimento permitia não apenas aumentar a eficácia dos golpes, mas também otimizar o uso da energia durante o combate, algo fundamental para a longevidade e eficiência do praticante.

Sensei Tanaka ao lado do shihan Ugo Arrigoni Neto, seu aluno mais antigo © Global Sports
GICHIN FUNAKOSHI PRIORIZOU A TÉCNICA DO KARATÊ?
O sensei Gichin Funakoshi foi o criador do karatê Shotokan e tinha como objetivo difundir a modalidade no Japão, um país onde as artes marciais já ocupavam um lugar de grande relevância cultural. Para isso, contou com o apoio fundamental de Jigoro Kano, que o apresentou à elite acadêmica da Universidade de Tóquio. Kano fazia parte de um grupo altamente respeitado no meio intelectual japonês, que inicialmente não via o karatê com bons olhos. Sem essa intermediação, dificilmente Funakoshi teria conseguido acesso a esse ambiente. A partir desse reconhecimento institucional, o karatê passou a ser visto como uma prática nobre, com valor educacional e cultural, o que foi decisivo para sua consolidação no Japão.
QUAL FOI O LEGADO QUE O SENSEI NISHIYAMA DEIXOU PARA O FUTURO DO KARATÊ?
Na verdade, nunca falei muito sobre isso, até porque sempre pedi a ele que não morresse antes de mim. Dizia isso com frequência, porque me considero muito limitado no karatê e sempre precisei de meus colegas para evoluir. Infelizmente, ele não atendeu ao meu pedido. A obra de Nishiyama é extraordinária. Seu maior legado está na pesquisa profunda que realizou, resultando em um embasamento técnico extremamente sólido — algo que, na minha opinião, diferencia o karatê-dô tradicional das demais artes marciais. Suas pesquisas, bem como seu livro “Os Segredos do Karatê”, trouxeram uma nova compreensão sobre os movimentos e golpes da modalidade. Até então, nós simplesmente reproduzíamos o que nos era ensinado. Após esse trabalho, passamos a entender o porquê de cada técnica. Ele nos apresentou o bunkai real — ou seja, a aplicação prática e funcional dos movimentos do kata.
ATÉ ENTÃO ISSO NÃO EXISTIA NO UNIVERSO DO KARATÊ?
Nunca existiu nada dessa forma. A tradição do karatê no Japão é muito diferente. Não havia qualquer tipo de abordagem científica estruturada. Ninguém explicava os movimentos em profundidade. O aprendizado era baseado na repetição e na correção pela prática — muitas vezes de forma dura. Se errássemos, éramos corrigidos de maneira rígida. A lógica era simples: se está apanhando, é porque está errando e ainda não compreendeu o karatê.

A retidão do caráter e o senso de equilíbrio impunham respeito © Global Sports
QUAL É A SUA ANÁLISE SOBRE O SENSEI NISHIYAMA E DE SUA OBRA?
Não posso falar sobre seu caráter, mas posso falar sobre sua pesquisa, sobre o aporte técnico e científico que proporcionou ao karatê. Ninguém pesquisou tanto quanto ele. O conjunto de sua obra lança luz sobre um enfoque completamente inovador dentro das artes marciais.
Ele trouxe método, sistematização e compreensão. Transformou o karatê em um campo de estudo, sem perder sua essência marcial. Mas, infelizmente, após a sua morte, grande parte desse movimento de pesquisa foi interrompido, o que considero uma perda significativa para o desenvolvimento da modalidade.
APÓS 50 ANOS DE BRASIL, O SENHOR ACHA QUE CONSEGUIU TRANSMITIR TUDO QUE APRENDEU COM SEUS PROFESSORES?
Sim. Felizmente consegui transmitir uma parte importante do que aprendi a diversos professores no Brasil. Mas devo isso, em grande medida, ao sensei Hidetaka Nishiyama, que nos ensinou não apenas o conteúdo técnico, mas, principalmente, a importância da transmissão de conhecimento. Ensinar não é apenas demonstrar técnica. Exige método, preparo, responsabilidade e compreensão profunda do que está sendo passado. Foi ele quem nos mostrou esse caminho e nos ensinou como fazer essa transmissão de forma correta.
COMO AVALIA A INTRODUÇÃO DOS PROJETOS SOCIAIS NO ESPORTE?
Acredito que, atualmente, o desenvolvimento das modalidades esportivas passa necessariamente pelos projetos sociais. Eles são, na prática, o maior celeiro de formação de atletas no Brasil. Mais do que revelar talentos, esses projetos cumprem um papel social fundamental, oferecendo disciplina, orientação e inclusão. Oportunidades para jovens que, muitas vezes, não teriam acesso ao esporte de outra forma.
VOCÊS PARTICIPAM DIRETA OU INDIRETAMENTE DE PROJETOS SOCIAIS?
Sim. Participamos de um projeto social no Rio de Janeiro. E acredito que, se bem administrados, esses projetos podem não apenas formar atletas, mas também criar novos conceitos para o desenvolvimento social por meio no esporte em nosso país.
COMO ACONTECEU O RESSURGIMENTO DA JKA?
Não simpatizo e não me envolvo com questões políticas. Mas, ao meu ver, após o falecimento do sensei Masatoshi Nakayama, houve uma disputa interna na entidade justamente pela ausência de um sucessor definido. Com o tempo, uma ala mais política acabou prevalecendo nesse processo. A partir daí, houve um movimento de expansão da entidade, mas também uma mudança de foco. Na minha avaliação, a JKA passou a priorizar excessivamente a competição, deixando em segundo plano a essência do karatê. Mas não condeno e nem sou contra. Com o sensei Nishiyama, aprendi a compreender o corpo humano e a valorizar os aspectos científicos da prática. Para mim, o Budô representa a realidade do karatê — e essa realidade não está na competição. Mas essa é a minha verdade, pois representa a minha escolha.

A técnica e a precisão que atravessaram o tempo © Global Sports
E NO BRASIL, O SENHOR PARTICIPOU DESTE MOVIMENTO?
Não. Quando esse movimento aconteceu, pedi aos senseis Sassaki e Machida que seguissem com isso. Preferi permanecer ao lado do sensei Nishiyama. Não participei oficialmente, pois tinha um compromisso pessoal com a projeção do karatê-dô tradicional.
COMO VIU O PARADIGMA CRIADO, JÁ QUE HOUVE UM RACHA ENTRE ESSAS LIDERANÇAS?
Não vejo exatamente como um paradigma, mas reconheço que toda divisão gera perdas — muitas vezes irreparáveis. Ao mesmo tempo, não poderia ignorar minha origem. Fui aluno direto do sensei Nakayama. Mesmo tendo um compromisso profundo com Nishiyama, não poderia virar as costas para essa base. Por isso, optei por não entrar nesse conflito. Pedi que outros conduzissem esse processo e mantive minha posição de respeito a ambos os lados. Cada um escolhe o seu caminho — ou até mesmo ambos.
EXISTE POSSIBILIDADE DE FUSÃO ENTRE A JKA E A ITKF?
Acredito que não. A Japan Karate Association representa um estilo específico de karatê, o Shotokan, enquanto a International Traditional Karate Federation reúne diferentes estilos sob uma proposta de treinamento com base científica. São estruturas com naturezas e objetivos absolutamente distintos.
AO COMEMORAR OS 50 ANOS DE SUA ESCOLA NO BRASIL, QUAL É O SENTIMENTO?
A sensação é de que tudo passou muito rápido. Vivi momentos de alegria e também de dificuldade, mas acredito que fiz o que era correto. Tenho convicção de que minha decisão de vir para o Brasil foi a escolha certa.
QUAL É A IMPORTÂNCIA DE SUA OBRA NA MANUTENÇÃO DOS PRINCÍPIOS DE FUNAKOSHI?
Não posso estabelecer uma ligação direta entre meu trabalho e a obra do sensei Gichin Funakoshi. Mas tenho certeza de que contribuí para difundir, no Brasil, grande parte dos ensinamentos dos senseis Nakayama e Nishiyama, que são, por sua vez, continuadores desse legado.
O SENHOR É HOJE, O NÚMERO 1 DA ITKF. O QUE ISSO REPRESENTA?
Não vejo dessa forma. Sou apenas o mais antigo entre todos. Me sinto honrado por essa longevidade e pelo respeito que recebo dos meus colegas, mas nunca tive a pretensão de ocupar qualquer posição de destaque. Prefiro ser apenas um ser humano comum.
E NA VIDA PESSOAL, QUAIS FORAM SUAS PRINCIPAIS CONQUISTAS?
Meu casamento. Fui casado e, há alguns anos, fiquei viúvo. Meu casamento me deu um filho, nascido e criado no Brasil. Minha esposa chamava-se Toyoko Tanaka, e meu filho, Guaracy Ken Tanaka.
VALEU A PENA TER IMIGRADO PARA O BRASIL?
Sem dúvida. Mesmo me considerando limitado no karatê, consegui formar grandes campeões e contribuir para a disseminação dos princípios técnicos e filosóficos da modalidade. Hoje, o Brasil é um dos países com maior número de praticantes, com diversas entidades e estilos, o que demonstra a força que o karatê alcançou aqui.
COMO AVALIA O MOMENTO ATUAL DO KARATÊ TRADICIONAL NO BRASIL?
Minha avaliação é muito positiva. O karatê tradicional nunca esteve tão bem organizado e administrado no Brasil como atualmente. Houve uma evolução significativa tanto no campo institucional quanto no técnico. No último campeonato mundial, por exemplo, a seleção brasileira conquistou um número recorde de medalhas, o que evidencia esse crescimento.
QUAL MENSAGEM DEIXA PARA OS KARATECAS DO BRASIL?
Gostaria que todos entendessem que competição é competição, e que o karatê como arte marcial é algo completamente diferente. O karatê não é espetáculo. É muito mais profundo do que isso. O verdadeiro karatê foi criado para que você enfrente a si mesmo e supere o seu maior adversário — que é você mesmo.
O shihan Yasutaka Tanaka faleceu em 12 de junho de 2018 e, com sua partida, o karatê-dô tradicional mundial perdeu uma de suas mais importantes referências históricas, filosóficas e humanas — não apenas pelo que ensinou, mas pela forma como viveu e transmitiu o caminho.
Presidente de honra da Confederação Brasileira de Karatê-Dô Tradicional (CBKT), Tanaka sempre se destacou pela simplicidade e pela fidelidade inegociável aos princípios do Budô. Avesso a formalidades, títulos e qualquer tipo de exaltação pessoal, tratava a própria graduação com naturalidade, muitas vezes evitando mencioná-la. Para ele, a verdadeira medida de um karateca não estava na faixa que vestia, mas na sabedoria que demonstrava dentro e fora do dojô.
Após quase seis décadas dedicadas ao Brasil, o professor — shihan juu-dan (10º dan) e uma das maiores referências da International Traditional Karate Federation em sua geração — deixou um legado que ultrapassa números e títulos. Formou centenas de faixas pretas, influenciou milhares de praticantes e consolidou uma contribuição técnico-filosófica profunda, que segue presente na base do karatê tradicional praticado no país e no mundo.
1949 — Japan Karate Association
1970 — World Union of Karate-do Organizations
1974 — International Traditional Karate Federation
1990 — Transformação da WUKO em World Karate Federation
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