06 de maio de 2026
Execução precisa evidencia o princípio do desequilíbrio (kuzushi), no qual a ruptura do centro de gravidade do adversário antecede e potencializa a projeção © Arquivo
Ao analisar o processo de uma luta de judô, torna-se primordial compreender, antes de tudo, o desempenho mental do lutador, pois o judô não é um mero feito de força física, e sim uma manifestação de racionalidade.
Em situação de combate, o judoca precisa manter a mente livre de dispersões, suficientemente concentrada e organizada para reconhecer, no menor tempo possível, quais técnicas serão mais adequadas a serem aplicadas ao oponente, apesar de muitos já se conhecerem previamente, por observação e estudos.
Esse processo de reconhecimento no contato direto, o importantíssimo kumi-kata do judô, envolve fundamentalmente a propriocepção, isto é, informação sensorial sobre a posição do corpo e suas partes, a extensão e a força dos movimentos, a percepção visual, agilidade mental e interpretação rápida de múltiplas variáveis presentes no confronto.
Sem dúvida, é do conhecimento dos pesquisadores e especialistas em judô a importância do domínio exercido sobre o adversário por meio de uma vigorosa pegada, a qual deve estar associada a fatores relacionados à técnica e à força de preensão manual. Quanto maior a capacidade do lutador de identificar, antes da execução, a direção do desequilíbrio e qual a técnica mais apropriada para determinada situação, maior tende a ser sua eficiência no combate.

Representação gráfica do deslocamento angular e da ação de forças no kuzushi, demonstrando como a indução do desequilíbrio ocorre a partir da quebra do alinhamento corporal © Arquivo
No judô, isso é especialmente relevante, porque a superioridade técnica não decorre do uso indiscriminado e canhestro da força, como hoje em dia é utilizada, mas da capacidade de agir por meio do kumi-kata, com postura adequada, no momento exato, na direção correta e com perfeição técnica.
No instante em que é estabelecido o contato com o oponente e procura-se executar a técnica preferida tokui-waza, o uso da “força funcional” — citada por Draeger, D., e Inokuma, I. — é o tipo de força imprescindível e que sempre deve prevalecer no judô. Nos dias de hoje, não há mais dúvidas quanto à necessidade do trabalho muscular específico no esporte de alto rendimento. A utilização correta dessa força, aplicada juntamente com o gesto técnico em um ponto específico do corpo, pode produzir efeitos relevantes tanto no plano mecânico quanto no plano funcional. Isso porque uma ação técnica bem executada gera desequilíbrio, altera a estabilidade postural, proporciona o encaixe da técnica e ainda que, momentaneamente, compromete a capacidade de reação do oponente.
Embora o adversário também procure contra-atacar e reorganizar sua ação defensiva, nem sempre haverá tempo hábil para que esse processamento ocorra com eficiência. Em muitos casos, a velocidade da ação técnica impõe ao oponente uma condição de resposta limitada e sem efeito. É nesse contexto que a vantagem técnica do lutador se evidencia, não apenas pela força funcional empregada, mas pela capacidade de, na oportunidade, colocar o adversário na posição desejada, de perceber, decidir e agir com velocidade e precisão.
Sob a perspectiva da Física, o processo torna-se ainda mais claro, pois os movimentos realizados durante o combate podem ser compreendidos a partir de princípios mecânicos que regem a ação dos corpos em interação.
O movimento de um corpo pode ser descrito, entre outros conceitos, por seu momento torçor (torque), que produzido por um binário de forças mede a capacidade de uma força girar um objeto, calculado como força vezes a distância ao ponto de aplicação (braço de alavanca), e por seu momento linear (que representa a dificuldade de parar um objeto, ou seja, a inércia), que é o produto da massa do objeto pela sua velocidade. Isso significa que o deslocamento de um oponente, a execução técnica, sua resistência ou sua recuperação nunca são fenômenos abstratos; são expressões concretas de massa em movimento.
O judoca experiente percebe isso de maneira prática, ainda que muitas vezes intuitiva. Ele sabe que não basta tocar o corpo do adversário; é preciso intervir na dinâmica do seu movimento, na direção adequada e em um ponto específico de alavancas capaz de alterar seu equilíbrio.
Estamos corroborando Arquimedes de Siracusa (287–212 a.C.) e Isaac Newton (1643–1727) para demonstrar a importância das leis da física/mecânica, tais como ação e reação, equilíbrio, alavancas, inércia, atrito, binário de forças, quantidade de movimento, entre outras.
Quando a força aplicada gera deslocamento, realiza-se trabalho mecânico, isto é, há transferência de energia ao longo de um tempo e de uma distância. E, quando essa transferência ocorre de forma rápida, tem-se potência elevada, entendida como a taxa de realização do trabalho. No entanto, a excelência técnica não consiste simplesmente em maximizar força ou potência, mas em executá-las com eficiência.

Trajetória projetada do corpo evidencia a continuidade do movimento após o desequilíbrio inicial, reforçando a eficiência mecânica da técnica © Arquivo
A força, nesse contexto, não deve ser entendida apenas como intensidade bruta, mas como interação capaz de modificar o estado de movimento ou provocar deformação. Em judô, sua eficácia depende menos de magnitude isolada e mais de direção, sincronização, ponto de aplicação e articulação com o movimento já existente. Um comando mecânico bem orientado, aplicado no instante exato e em um ponto específico, pode produzir efeitos muito superiores aos de uma ação intensa, porém mal posicionada.
Essa é uma das razões pelas quais o judô de Jigoro Kano representa de modo tão racional e elegante a inteligência “física” do combate.
O lutador superior não desperdiça energia — seiryoku-zenyo — ele a organiza do modo mais inteligente. Ele transforma percepção em timing, timing em ação e ação em efeito mecânico sobre o corpo do oponente — é o ensino tradicional do sen no sen ou saki no saki.
Em termos mais diretos, isso significa que a eficácia de uma técnica não depende apenas da intensidade da força aplicada, mas também de fatores como direção, precisão, coordenação, tempo de execução, ponto específico de aplicação e capacidade de antecipação do lutador.
Portanto, em uma luta, a superioridade técnica emerge justamente da integração entre cognição, técnica apurada, percepção, estratégia e aplicação eficiente dos princípios mecânicos envolvidos na imensa variedade de movimentos do corpo humano.