Federação Paulista de Judô cria modelo pioneiro de Judô Inclusivo

Anna Paula ao lado de crianças do Judô Inclusivo da FPJudô: acolhimento, pertencimento e transformação social além dos tatamis © Global Sports

Com coordenação estadual, padronização técnica, acessibilidade, formação de professores e presença nas 16 delegacias regionais, projeto da Federação Paulista de Judô consolida um modelo estruturado de inclusão esportiva e amplia o acesso de pessoas com deficiência à modalidade.

Paulo Pinto / Global Sports
Curitiba, 13 de maio de 2026

O judô inclusivo vem conquistando cada vez mais espaço, organização e representatividade dentro da Federação Paulista de Judô. O que inicialmente surgiu a partir de uma necessidade prática dentro do Instituto Sensei Divino Budokan, localizado no Jardim Peri, na Zona Norte da capital paulista, transformou-se, ao longo dos últimos anos, em um modelo estruturado de inclusão esportiva que hoje alcança todas as delegacias regionais da entidade.

A iniciativa ganhou força na atual gestão da Federação Paulista de Judô, presidida pelo professor Henrique Guimarães, que incorporou oficialmente o conceito de inclusão à estrutura institucional da entidade, ampliando ações voltadas à acessibilidade, formação técnica e à participação ativa de judocas com deficiência em eventos do calendário estadual. A proposta transcende o modelo tradicional restrito às disputas nos tatamis e passa a contemplar também a atuação desses participantes em diferentes funções dentro do shiai-jô, como auxiliares de mesa e mesários, fortalecendo um ambiente de pertencimento, integração e protagonismo dentro da modalidade.

Anna Paula Bernardes e o sensei Gregorio Paoli atuam na construção técnica e no fortalecimento do Judô Inclusivo na FPJudô © Global Sports

O trabalho é coordenado pela professora Anna Paula Bernardes Magalhães, coordenadora estadual de Judô Inclusivo da Federação Paulista de Judô e presidente do Instituto Sensei Divino Budokan, na capital paulista.

Com formação multidisciplinar, Anna Paula construiu uma trajetória profissional voltada ao desenvolvimento humano por meio da educação, do esporte e da inclusão. Administradora de empresas com MBA em Comércio Exterior, também é formada em Pedagogia e Educação Física, além de possuir pós-graduação em neuropsicopedagogia e psicomotricidade.

Após mais de 25 anos de atuação na área de comércio exterior, passou a direcionar sua carreira para projetos educacionais e esportivos. Atualmente, também realiza atendimentos clínicos em neuropsicopedagogia na Clínica Anna Magalhães, desenvolvendo um trabalho voltado à avaliação e intervenção em crianças com dificuldades de aprendizagem, atuando especialmente nos aspectos cognitivos, emocionais e psicomotores.

Também atua como coach esportiva, acompanhando atletas de diferentes modalidades no desenvolvimento emocional, foco, desempenho e preparação competitiva.

Projeto nasceu dentro do dojô

A origem do atual projeto estadual de judô inclusivo remonta ao trabalho desenvolvido no Instituto Sensei Divino Budokan, entidade presidida por Anna Paula ao lado do professor Alex Russo, delegado regional da Capital.

O instituto atende atualmente cerca de 600 pessoas em diferentes modalidades esportivas e culturais, entre elas judô, balé, karatê, muay thai, sumô e treinamento funcional. Somente no judô, o projeto reúne mais de 300 crianças.

Atletas do Judô Inclusivo participaram de ativação da FPJudô durante a Expo CBC 2026, em Campinas, ao lado dos medalhistas olímpicos Rafael Silva e Henrique Guimarães, dos delegados regionais Alex Russo e Celso de Almeida Leite, dos coordenadores técnicos Marco Aurélio Uchida e Marco Antonio da Costa, o Rato, além da coordenadora estadual Anna Paula Bernardes © Global Sports

Em 2024, surgiu a necessidade de identificar com maior facilidade pessoas que necessitavam de atenção específica durante aulas, festivais e competições. A partir dessa demanda, Anna Paula Bernardes e o sensei Alex Russo desenvolveram um “patch” alusivo ao judô inclusivo, utilizando símbolos ligados à inclusão, como o quebra-cabeça e o girassol.

“O Judô Inclusivo nasceu de uma necessidade real observada diariamente dentro do dojô. Precisávamos criar ferramentas que permitissem acolher melhor nossos atletas e oferecer mais segurança, identificação e acessibilidade durante as atividades”, disse a pedagoga.

Inicialmente aplicado nas crianças do instituto, o projeto chamou a atenção do sensei Henrique Guimarães durante uma visita à entidade. Posteriormente, ao assumir a presidência da Federação Paulista de Judô, Henrique levou o conceito para dentro da Federação, transformando-o no símbolo oficial do judô inclusivo da entidade.

Anna Paula Bernardes: dedicação, acolhimento e inclusão como pilares do Judô Inclusivo paulista © Arquivo

A iniciativa passou então a integrar oficialmente a estrutura institucional da Federação Paulista de Judô, consolidando o Judô Inclusivo como uma política permanente de acessibilidade, formação e acolhimento dentro da entidade.

Estrutura estadual inédita

O crescimento do projeto ganhou novo impulso em 2025, durante a realização de um workshop sobre judô inclusivo promovido pela Primeira Delegacia Regional da Capital.

Inicialmente planejado para um público reduzido, o encontro reuniu mais de 100 participantes e evidenciou a demanda existente por formação especializada na área. Durante o evento, foram apresentados oficialmente o novo logo do judô inclusivo da Federação Paulista de Judô — também desenvolvido pelo professor Alex Russo — e os novos patchs institucionais.

Com a ampliação das ações, a Federação Paulista estruturou oficialmente o departamento estadual de Judô Inclusivo, convidando Anna Paula Bernardes Magalhães para assumir a coordenação da área.

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A partir dessa organização, as 16 delegacias regionais da Federação passaram a contar com coordenadores específicos de judô inclusivo, formando uma rede integrada de atuação em todo o estado de São Paulo.

“A inclusão vai muito além dos tatamis. Ela envolve acolhimento, preparação, acessibilidade e pertencimento para os atletas e suas famílias, e essa é a razão de ser do nosso projeto”, pontuou Anna Paula.

O trabalho colaborativo entre as regiões passou a permitir a troca permanente de experiências e a construção de um modelo unificado de atuação dentro da Federação.

Anna Paula Bernardes, Alex Russo e o presidente Henrique Guimarães durante a apresentação dos patchs do Judô Inclusivo no workshop da 1ª DR Capital, realizado em 2025 no CAT, com mais de 100 técnicos participantes © Arquivo

Entre os avanços implementados estão a criação de formulários específicos para inscrição de participantes em campeonatos, outlines padronizados para competições inclusivas, além do desenvolvimento de um manual de arbitragem e de um manual de eventos voltados ao judô inclusivo.

Parte importante dessa estrutura técnica foi desenvolvida em conjunto pela coordenadora estadual Anna Paula Bernardes Magalhães e pelo sensei Gregorio Paoli, coordenador de Judô Inclusivo da 1ª Delegacia Regional da Capital, que participa do projeto desde o início das ações dentro da Federação Paulista de Judô.

O Judô Inclusivo paulista também acolhe famílias, fortalecendo vínculos e oferecendo suporte às mães durante as atividades e competições © Arquivo

A coordenação estadual também realizou um censo junto aos professores do estado de São Paulo, permitindo mapear o número de praticantes, os diferentes tipos de deficiência e o perfil atual do judô inclusivo dentro da Federação Paulista.

Inclusão, acessibilidade e formação

A partir de 2026, o judô inclusivo passou a entrar em uma nova fase dentro da Federação Paulista de Judô, com ações ainda mais estruturadas e presença garantida nos principais eventos do calendário estadual.

Grande parte dos campeonatos contará com áreas específicas destinadas à inclusão, oferecendo ambiente mais preparado e acolhedor aos atletas. Apenas no primeiro semestre, cada delegacia deverá realizar ao menos um campeonato de judô inclusivo, totalizando mais de 20 eventos programados.

Henrique Guimarães, atletas da região, Celso de Almeida Leite e o sensei Antonio durante ações da FPJudô no estande da entidade na Expo CBC 2026, realizada em Campinas © Arquivo

Além das competições, a Federação também passou a investir na formação e conscientização da comunidade do judô. Estão previstos workshops para professores e árbitros, além de palestras direcionadas aos pais de atletas.

Outro avanço importante foi a implementação oficial do “patch” do judô inclusivo, disponibilizado aos atletas para aplicação no judogi, facilitando a identificação e permitindo atendimento mais adequado nos dojôs e nos campeonatos.

Também foi desenvolvido um backnumber alusivo ao judô inclusivo, incorporando o logo oficial da Federação Paulista de Judô e fortalecendo a identidade visual do movimento dentro das competições.

Os judocas Henrique e Marcio Kazuo durante o Inter-Regional da 1ª DR Capital, atuando como oficiais técnicos candidatos a sho-dan no processo de somatória para o exame de graduação © Arquivo

Como forma de incentivo e sustentabilidade das ações, foram criadas camisetas institucionais cuja comercialização contribui para a redução de taxas em eventos destinados aos atletas de inclusão.

Além disso, a atual gestão da Federação Paulista de Judô implementou valor reduzido para a carteirinha dos atletas de inclusão. Em 2026, o custo passou a ser de R$ 33 até a faixa marrom, garantindo acesso aos campeonatos, cursos, exames de graduação e demais atividades oficiais da entidade.

Representatividade dentro e fora dos tatamis

O projeto também passou a incentivar a participação de atletas de inclusão em funções técnicas durante os eventos, ampliando o conceito de acessibilidade para além da prática esportiva.

A inclusão passou ainda a contemplar recursos de acessibilidade em cursos e competições, incluindo a presença de intérpretes de Libras sempre que necessário.

Antes mesmo da competição iniciar, o Judô Inclusivo já cumpre seu papel mais importante: acolher, transmitir segurança e fazer cada criança sentir que pertence àquele ambiente © Arquivo

Um dos marcos recentes desse avanço foi a criação da interpretação do Hino Nacional em Libras realizada por uma atleta faixa marrom, iniciativa que passou a integrar a abertura oficial dos campeonatos promovidos pela Federação Paulista de Judô.

Ferramenta de inclusão, desenvolvimento humano e transformação social

Com ações que vão desde a base até a organização de eventos, o judô inclusivo da Federação Paulista consolida-se como um modelo estruturado, acessível e em constante expansão, reforçando o papel do esporte como ferramenta de inclusão, desenvolvimento humano e transformação social.

“Nosso objetivo é que cada vez mais crianças, adolescentes e famílias encontrem no judô um ambiente seguro, acolhedor e transformador. Estamos construindo um trabalho pensado para ampliar oportunidades e garantir que todos tenham espaço dentro da modalidade”, disse a pedagoga Anna Paula, que concluiu emocionada ao refletir sobre o significado humano e social do projeto construído dentro da FPJudô:

“O Judô Inclusivo nasceu de um sonho construído com o coração, com dedicação voluntária e com a certeza de que nenhuma criança pode ficar à margem do acolhimento, do respeito e das oportunidades. Participar da criação do Departamento de Judô Inclusivo da Federação Paulista de Judô e coordenar esse trabalho representa entregar diariamente parte da minha vida a uma causa que transforma não apenas judocas, mas famílias inteiras.

Cada abraço nos tatamis, cada conquista silenciosa e cada sorriso após uma superação me lembram que o verdadeiro sentido do judô está no amor, na inclusão e na capacidade de acreditar em cada criança antes mesmo que ela aprenda a acreditar em si própria.”

https://www.originaltatamis.com.br/