Paulo Uchoa enaltece projetos sociais do Sul e vê novo momento para o karatê tradicional do Brasil

Paulo Uchôa ao lado do sensei Juárez, construindo mais que atletas: formando caminhos com o karatê © Global Sports

Diretor financeiro da CBKT, o empresário e professor yon-dan Paulo Uchoa destaca o poder transformador das ações desenvolvidas no Rio Grande do Sul, ressaltando o impacto do karatê na formação humana, na integração das famílias e na construção de um legado para futuras gerações.

Por Paulo Pinto / Global Sports
Curitiba, 25 de maio de 2026

Professor yon-dan Paulo Uchoa conhece como poucos o significado de retornar às próprias origens. Empresário bem-sucedido e atualmente uma das figuras atuantes na estrutura administrativa do karatê-dô tradicional brasileiro, ele iniciou sua trajetória na modalidade ainda na juventude, aos 16 anos de idade. Entretanto, as exigências da vida profissional acabaram o afastando por um longo período da arte das mãos vazias.

O distanciamento dos tatamis, contudo, jamais representou um rompimento com os valores absorvidos dentro do dojô. Anos mais tarde, ao retomar a prática, Paulo Uchoa reencontrou não apenas o esporte, mas também a essência filosófica que continuou norteando sua postura perante a vida ao longo das décadas.

De volta ao karatê tradicional, voltou também às competições, participando de eventos regionais, nacionais e até de Campeonatos Mundiais. Paralelamente, passou a contribuir diretamente com o fortalecimento institucional da modalidade, exercendo funções relevantes na Federação de Karatê-dô Tradicional do Rio de Janeiro e na Confederação Brasileira de Karatê Tradicional, onde atualmente ocupa o cargo de diretor financeiro.

“Sim, é verdade. Comecei minha trajetória nos tatamis com 16 anos de idade e hoje estou com 66. Estive afastado por um período longo por questões profissionais, mas depois que retomei participei de competições regionais, nacionais e até do Campeonato Mundial. Porém, mesmo distante, jamais deixei de manter minha postura de karateca perante a vida. Em nenhum momento abandonei os princípios e a essência do karatê”, destacou Paulo Uchoa.

O compromisso de preservar o legado

O retorno aos tatamis acabou conduzindo Paulo Uchoa, gradativamente, a uma participação mais ampla dentro da estrutura do karatê-dô tradicional brasileiro. Aquilo que inicialmente representava apenas a retomada dos treinamentos e da prática esportiva passou, com o tempo, a despertar também um senso de responsabilidade em relação à preservação filosófica, histórica e institucional da modalidade.

“Na realidade, após a minha volta e ter retomado a rotina de treinamentos, progressivamente comecei também a me envolver em outros aspectos da modalidade, especialmente na preservação do legado que nos foi deixado pelos grandes mestres que nos antecederam”, explicou.

Entre o lúdico, treinos e sorrisos, nasce uma geração inspirada por grandes mestres © Global Sports

Para o dirigente, existe um compromisso coletivo de continuidade em relação aos valores construídos pelas gerações anteriores do karatê tradicional. Segundo ele, a responsabilidade de manter vivos os fundamentos filosóficos da modalidade deve ser compartilhada por todos aqueles que hoje ocupam espaços dentro da arte marcial.

“Isso é algo com que todos nós devemos nos preocupar, regando o jardim que um dia foi cultivado por eles para as futuras gerações”, refletiu.

O envolvimento institucional e administrativo, segundo Paulo Uchoa, surgiu de maneira natural e sem qualquer planejamento prévio. O primeiro passo nesse processo ocorreu por meio do Instituto Goshin-Dô Kobukan, fundado pelo professor Guaracy Tanaka, escola dedicada ao desenvolvimento integral do ser humano e à defesa pessoal por meio das artes marciais. Posteriormente, sua atuação passou também pela Federação do Estado do Rio de Janeiro de Karatê-dô Tradicional (FERJKT) até chegar à Confederação Brasileira de Karatê Tradicional (CBKT), onde atualmente exerce a função de diretor financeiro.

“Não foi algo premeditado ou planejado. Esse comprometimento surgiu naturalmente e hoje tenho a oportunidade de atuar ao lado de um grupo seleto liderado pelo presidente Jean Laure Edoardo Oliveira e por uma diretoria extremamente competente, que assumiu recentemente o comando da entidade”, destacou.

Na avaliação do dirigente, a atual gestão da CBKT vem desenvolvendo um trabalho consistente de reconstrução institucional e fortalecimento conceitual da modalidade, especialmente no que se refere ao resgate dos princípios históricos sistematizados pelo shihan Hidetaka Nishiyama, criador do karatê tradicional em 1961.

“Existe hoje um projeto de gestão muito consistente, desenvolvendo uma série de ações diferenciadas voltadas ao resgate dos valores, princípios e fundamentos que regem o karatê tradicional”, concluiu.

Projetos sociais e transformação humana

Ao comentar a recente visita da comitiva da Confederação Brasileira de Karatê Tradicional ao município de Casca, no Rio Grande do Sul, o professor yon-dan Paulo Uchoa acabou revelando também sua visão sobre o papel socioeducativo dos projetos sociais ligados ao karatê-dô tradicional. Para ele, mais do que formar competidores, iniciativas dessa natureza possuem capacidade real de transformação humana, integração social e formação de novas lideranças dentro da modalidade.

Paulo Uchôa durante a cerimônia de abertura, representando Jean Laure, presidente da CBKT na cerimônia de abertura © Global Sports

Segundo o dirigente, a ida ao Sul do país teve como principal objetivo conhecer de perto o trabalho desenvolvido pelo professor Juarez Silva, referência na condução de projetos voltados à inclusão e ao desenvolvimento social por meio das artes marciais.

“O que nos levou a Casca foi justamente a oportunidade de conhecer melhor o projeto social desenvolvido pelo professor Juarez Silva. Estivemos lá eu, Rafael Alves Machado, diretor executivo da CBKT, e o sensei Eduardo Santos, embaixador da Confederação e um exímio conhecedor de projetos sociais, com enorme atuação na área social do Instituto Kobukan. Infelizmente o presidente Jean Laure possuía um compromisso inadiável e não pôde estar conosco”, explicou.

Paulo Uchoa destacou ainda a importância do trabalho desenvolvido pelo sensei Eduardo Santos e pelo comandante Paulo Bruno na ampliação das ações sociais vinculadas ao karatê-dô tradicional brasileiro. Segundo ele, o envolvimento mais próximo com ambos acabou ampliando sua percepção sobre o alcance humano da modalidade fora do ambiente competitivo.

“O sensei Eduardo Santos é um craque nesse segmento. Na realidade, comecei a me envolver mais diretamente com ele e também com o comandante Paulo Bruno, que abraçou fortemente essa causa social. Ele foi um dos primeiros alunos do professor Yasutaka Tanaka e, a partir disso, o trabalho começou a se desenvolver cada vez mais nesse segmento”, afirmou.

Embora reconheça que projetos sociais demandem tempo para produzir resultados concretos, Paulo Uchoa entende que o impacto gerado pelas experiências proporcionadas aos jovens vai muito além das medalhas ou resultados esportivos. Para ele, as vivências construídas por meio do karatê possuem papel importante na formação social e humana dos participantes.

“Seguimos firmes no desenvolvimento de projetos em escolas, incentivando atletas e levando esses jovens para competir não apenas com a finalidade específica da competição, mas principalmente buscando proporcionar vivências, experiências e intercâmbio social com pessoas de diferentes locais do Brasil”, ressaltou.

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Ao falar sobre o professor Juarez Silva, o dirigente fez questão de destacar o respeito construído pela trajetória do trabalho desenvolvido no Rio Grande do Sul em conjunto com a Federação Sul-rio-grandense de Karatê Tradicional. Segundo ele, o projeto passou a representar um exemplo concreto da capacidade transformadora das ações sociais dentro das artes marciais, contando também com o importante apoio institucional do professor Alfredo Aires, presidente da Comissão Técnica da FSRKT, dirigente que, na avaliação de Paulo Uchoa, vem exercendo papel relevante no fortalecimento das parcerias e no desenvolvimento das iniciativas ligadas ao karatê tradicional no estado

“O sensei Juarez se tornou um grande amigo e tenho profundo respeito por ele e pelo trabalho que desenvolve. Conheci inicialmente esse projeto durante competições nacionais e comecei a procurar entender melhor como funcionava aquela estrutura. Em determinado momento conheci três professores formados dentro do próprio projeto, jovens que vieram da base, cresceram ali, se tornaram professores e conquistaram autonomia suficiente para disputar Campeonatos Mundiais na Europa”, destacou.

Para Paulo Uchoa, experiências como essa demonstram, de maneira inequívoca, a profundidade e o alcance dos projetos sociais fundamentados nos princípios do budô.

“Isso me permitiu compreender com muita clareza a verdadeira importância dos projetos sociais e o quanto esse trabalho pode ser profícuo na formação humana e no desenvolvimento de novas gerações”, concluiu.

Um exemplo que precisa ser expandido pelo Brasil

Outro fator decisivo para aproximar ainda mais o professor yon-dan Paulo Uchoa do trabalho desenvolvido no Rio Grande do Sul foi a realização das Olimpíadas do Karatê, promovidas no ano passado pelo projeto liderado pelo professor Juarez Silva. O impacto provocado pela iniciativa acabou despertando no dirigente da Confederação Brasileira de Karatê Tradicional a necessidade de conhecer pessoalmente a estrutura construída na região.

Professores Paulo Uchôa, Rafael Alves Machado, Juarez da Silva e Eduardo Santos inspirando através da disciplina, da liderança e do verdadeiro espírito do karatê © Global Sports

Após sucessivos convites feitos pelo sensei Juarez, Paulo Uchoa decidiu ir sozinho até Marau, município que abriga um dos principais núcleos do projeto social desenvolvido pela Federação Sul-rio-grandense de Karatê Tradicional. A experiência, segundo ele, foi marcante sob diversos aspectos.

“Acabei indo sozinho para Marau e passei quatro dias inesquecíveis lá. Conheci a estrutura deles, o dojô e principalmente a forma como trabalham e tratam as crianças. Posso afirmar tranquilamente que é algo totalmente fora da curva”, destacou.

O dirigente relembrou especialmente o impacto causado pelas Olimpíadas do Karatê, evento que reuniu aproximadamente 1.300 crianças e adolescentes em um ambiente de forte integração comunitária e participação familiar. Mais do que os números, o que chamou sua atenção foi o engajamento coletivo em torno do projeto.

“Aquele evento me deixou realmente impressionado. O ginásio estava completamente tomado, assim como as arquibancadas, repletas de familiares abraçando literalmente a causa. Eram cerca de 250 escolas envolvidas, representantes de 49 municípios e a presença ativa de prefeitos, vice-prefeitos e lideranças locais. É algo que realmente precisamos tomar como exemplo e transportar para o restante do país”, afirmou.

Na avaliação de Paulo Uchoa, manifestações dessa dimensão revelam um potencial ainda pouco explorado dentro do karatê-dô tradicional brasileiro, sobretudo no que se refere ao alcance social e educacional da modalidade.

“Isso é uma manifestação extremamente importante e que precisa ser melhor compreendida e explorada por todos nós”, acrescentou.

Segundo ele, a recente ida a Casca ao lado de outros dirigentes da CBKT teve justamente o objetivo de apresentar à nova gestão da entidade uma iniciativa que já demonstrou enorme capacidade de crescimento e impacto social.

“Quando aconteceu a mudança na gestão da CBKT, achei importante levar outros dirigentes da entidade para conhecerem de perto uma iniciativa que deu muito certo e não para de crescer”, explicou.

Professores Paulo Uchôa, Alfredo Aires e Juarez da Silva © Global Sports

Ao projetar o alcance futuro do trabalho desenvolvido no Rio Grande do Sul, Paulo Uchoa destacou que os resultados vão muito além da formação de atletas ou da realização de eventos pontuais. Para ele, trata-se da construção gradual de uma nova geração ligada aos princípios do dô do karatê.

“Se somarmos apenas a Olimpíada do Karatê realizada no ano passado e este evento agora em Casca, estamos falando de aproximadamente dois mil praticantes envolvidos. E quando pensamos no futuro da modalidade, quantos professores e árbitros do karatê tradicional surgirão somente naquela região? Quantas milhares de crianças assimilarão o dô do karatê? Esse é o verdadeiro legado”, disse.

O carisma e a liderança de Juarez Silva

Ao aprofundar sua análise sobre o trabalho desenvolvido pelo professor Juarez Silva no Rio Grande do Sul, o professor yon-dan Paulo Uchoa fez questão de destacar não apenas a estrutura construída em torno dos projetos sociais, mas principalmente o perfil humano do dirigente responsável pela iniciativa. Para ele, o sucesso alcançado pelo projeto está diretamente ligado à capacidade de liderança, acolhimento e comprometimento exercida pelo sensei gaúcho junto à comunidade.

“O professor Juarez possui um carisma enorme, algo realmente fora do normal. É uma pessoa extremamente amável, respeitada, séria e muito competente. Ele conseguiu colocar o espírito do karatê, com toda sua essência, dentro da estrutura que criou. Todos os alunos seguem exatamente o perfil definido por ele e, por isso, as coisas acabam fluindo naturalmente”, destacou.

Durante a passagem da comitiva da Confederação Brasileira de Karatê Tradicional pelo Rio Grande do Sul, um episódio específico acabou marcando profundamente o dirigente carioca. Segundo Paulo Uchoa, a demonstração espontânea de carinho e reconhecimento da comunidade ao professor Juarez Silva acabou simbolizando com clareza a dimensão do trabalho desenvolvido ao longo dos anos.

“Vivenciamos um momento extremamente gratificante durante os depoimentos realizados no evento. Quando chegou a vez do sensei Juarez falar, ele foi ovacionado. Todo o ginásio o aplaudiu de pé — pais, crianças, professores e praticantes. Aquilo demonstrou de maneira muito clara que ele possui o apoio e o respeito de toda a comunidade”, relembrou.

Na avaliação do dirigente, o reconhecimento conquistado pelo professor gaúcho é consequência direta da forma como ele conduz diariamente seu trabalho junto às crianças, famílias e professores envolvidos no projeto.

“A tradução disso tudo é que ele faz absolutamente tudo com muito carinho, respeito, dedicação e comprometimento”, acrescentou.

Na sequência da entrevista, Paulo Uchoa revelou ainda um importante movimento interno envolvendo a nova gestão da CBKT. Segundo ele, um dos objetivos da recente visita ao Rio Grande do Sul foi justamente aproximar o professor Juarez Silva do projeto administrativo liderado atualmente pelo presidente Jean Laure Oliveira.

“Vou até adiantar um assunto que talvez ainda não devesse revelar, e depois pedirei desculpas ao presidente Jean, ao sensei Juarez e à diretoria da CBKT, mas um dos motivos da nossa ida ao Rio Grande do Sul foi justamente tentar trazer o professor Juarez para mais perto da nova gestão da Confederação”, revelou.

Para Paulo Uchoa, a eventual participação do dirigente gaúcho na estrutura nacional da entidade poderá representar um avanço importante especialmente no segmento socioeducativo ligado ao karatê-dô tradicional brasileiro.

“Tenho plena convicção de que a vinda dele poderá proporcionar grandes avanços no segmento de projetos sociais. O professor Jean Laure Oliveira possui um grande projeto para o karatê tradicional do Brasil e certamente poderá fortalecê-lo ainda mais com a participação do sensei Juarez”, afirmou.

Perspectivas socioeducativas

Ao analisar o futuro das ações sociais ligadas ao karatê-dô tradicional, Paulo Uchoa demonstrou otimismo em relação ao crescimento e à expansão dos projetos desenvolvidos atualmente no Rio Grande do Sul. Segundo ele, os próprios depoimentos prestados por autoridades públicas durante a cerimônia de abertura do evento ajudam a dimensionar o impacto social já alcançado pela iniciativa.

“As perspectivas são excelentes. Isso fica muito claro inclusive pelos depoimentos feitos por secretários municipais de esporte, educação e profissionais ligados aos Centros de Referência da Assistência Social durante a cerimônia de abertura do evento”, explicou.

Além do reconhecimento institucional, o dirigente destacou ainda o elevado nível de adesão das escolas e das comunidades atendidas pelos projetos, fator que, segundo ele, evidencia a força social do trabalho desenvolvido junto às crianças e adolescentes.

“Todas as escolas das cidades atendidas pelo projeto estão aderindo. O que vemos hoje são filas e mais filas de crianças querendo participar dos vários núcleos, que praticamente operam sempre no limite máximo de frequência”, concluiu.

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