Chiaki Ishii, o professor que abriu o caminho olímpico do judô brasileiro

Em 2010, Chiaki Ishii exibe o certificado de kyuu-dan (9º dan) outorgado pela CBJ © Global Sports

Primeiro medalhista mundial e olímpico da modalidade no país, professor kyuu-dan (9º dan) deixa um legado que atravessa gerações de atletas, professores e treinadores.

Por Paulo Pinto / Global Sports
Curitiba, 16 de outubro de 2026

Antes de o judô se tornar a modalidade que mais conquistou medalhas olímpicas para o Brasil, Chiaki Ishii abriu o caminho. Seu bronze nos Jogos de Munique, em 1972, inaugurou uma trajetória que transformaria o país em uma das forças internacionais do esporte. O professor, kyuu-dan (9º dan), faleceu nesta sexta-feira, na capital paulista, aos 85 anos, conforme comunicado da Federação Paulista de Judô (FPJudô).

A dimensão de sua contribuição ultrapassa aquele pódio. Ishii ajudou a formar atletas, professores e treinadores que multiplicaram seus conhecimentos pelos dojôs brasileiros. Sua história reúne a tradição familiar construída no Japão, a disposição para recomeçar em outro país e uma vida dedicada a ensinar.

Chiaki Ishii acompanha as palavras de homenagem durante a cerimônia de entrega do kyuu-dan (9º dan), em Campinas © Global Sports

Hoje, o judô brasileiro soma 28 medalhas olímpicas: cinco ouros, quatro pratas e 19 bronzes, incluindo a conquista por equipes mistas em Paris 2024. A primeira delas pertence a Ishii, que também inaugurou a presença brasileira no pódio dos Campeonatos Mundiais, com o bronze em Ludwigshafen, na Alemanha, em 1971. Dois resultados pioneiros, em temporadas consecutivas, que ampliaram as possibilidades de uma modalidade ainda em construção no país.

Uma história que atravessou o oceano

Nascido em 1º de outubro de 1941, em Ashikaga, no Japão, Chiaki Ishii pertencia a uma linhagem em que o judô atravessava gerações. Na biografia escrita por Stanlei Virgílio em “Personagens e Histórias do Judô Brasileiro”, seu avô Seikichi aparece como shichi-dan (7º dan), e seu pai, Yukichi, como hachi-dan (8º dan). Entre os irmãos de Chiaki, Haruo era san-dan (3º dan); Kiyoshi, shichi-dan (7º dan); Isamu, roku-dan (6º dan); e Kingo, ni-dan (2º dan). O próprio Chiaki figurava naquele registro como shichi-dan (7º dan), antes de alcançar o kyuu-dan (9º dan).

Chiaki Ishii recebe o quadro de medalhas da FPJudô das mãos de José Jantália, então vice-presidente e cerimonialista da entidade © Global Sports

Essa herança tinha ligação com as origens do próprio Instituto Kodokan. Segundo Virgílio, Seikichi foi convidado por Jigoro Kano a ingressar na instituição já no sexto grau, em reconhecimento aos seus conhecimentos nas artes de luta. Preferiu, entretanto, encaminhar o filho Yukichi para aperfeiçoar sua formação. Mais tarde, Yukichi transmitiria essa tradição aos seus sete filhos, cinco homens e duas mulheres, todos praticantes de judô e membros do Kodokan.

A disciplina aprendida em casa acompanharia o jovem que estudou pedagogia na Universidade de Waseda e encontrou no Brasil um novo horizonte.

Sua chegada ao país passou por Presidente Prudente, no interior paulista, onde viveu uma experiência ligada à agricultura. O judô, entretanto, conduziu seus passos. Depois de competir em diferentes países sul-americanos, estabeleceu-se em São Paulo e abriu seu dojô na Lapa.

Naturalizado brasileiro em 1969, passou a representar o país internacionalmente. Em Munique, conquistou o bronze na categoria meio-pesado, então até 93kg. O resultado deu ao judô brasileiro uma referência concreta: era possível chegar ao pódio olímpico.

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O vínculo familiar com a modalidade também ganhou continuidade no Brasil. Do casamento com Keiko nasceram Vânia, Luiza e Tânia, todas faixas-pretas. Tânia e Vânia chegaram aos Jogos Olímpicos, e Vânia conquistou o ouro nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, em 1999, prolongando a presença do sobrenome Ishii nos grandes palcos internacionais.

O reconhecimento diante de seus alunos

Entre os registros dessa trajetória está uma homenagem acompanhada em 2010 pela Revista Budô na arena do Clube Concórdia, em Campinas, durante o Campeonato Paulista Júnior. Naquela ocasião, Ishii recebeu o kyuu-dan (9º dan), cercado por alunos que haviam se tornado referências do judô paulista e brasileiro.

O relato da cobertura preserva uma cena reveladora: sereno, mas visivelmente emocionado, o professor nipo-brasileiro foi recebido à mesa de honra. Entre os presentes estava Odair Borges, identificado naquele registro como seu primeiro aluno no Brasil. A reunião de diferentes gerações mostrava quanto de seu trabalho já havia se espalhado pela modalidade.

Chiaki Ishii cercado por ex-alunos e judocas que treinaram com ele e compareceram à homenagem, entre eles Odair Borges, Henrique Guimarães, Ivo Nascimento, Mário Tsutsui, Renato Dagnino, Solange Pessoa de Almeida Vinck, Alexandre Garcia, Carlos Cunha, Elton Quadros Fiebig e Paulino Teruo Namie © Global Sports

Na ocasião, Ishii voltou ao tatami para demonstrar suas técnicas preferidas: o-uchi-gari, o-soto-gari e tai-otoshi. A precisão do desequilíbrio, da entrada e da projeção expôs aos mais jovens o refino técnico que seus antigos alunos conheciam tão bem. O professor homenageado continuava ensinando.

Na cerimônia, Francisco de Carvalho Filho, então presidente da federação, destacou a formação de judocas que, depois de suas próprias conquistas, passaram a transmitir os ensinamentos recebidos de Ishii. Esse talvez seja o retrato mais abrangente de sua contribuição: um conhecimento que continuou a circular por meio daqueles que formou.

Um legado presente nos dojôs

Em nota, a Federação Paulista de Judô (FPJudô) manifestou profundo pesar e prestou solidariedade à família, aos amigos e a todos que conviveram e aprenderam com o professor. A entidade ressaltou seu pioneirismo e uma trajetória marcada por dedicação, coragem e superação. Segundo o comunicado, o velório será restrito aos familiares.

A história de Chiaki Ishii permanece nos registros olímpicos, nas fotografias e nas medalhas. Mas também segue no trabalho diário dos professores que formou e nas gerações alcançadas por seus ensinamentos. O bronze de Munique abriu uma estrada. Sua vida como educador ajudou a preparar quem seguiria por ela.

Um encontro que atravessa mais de meio século

A homenagem de Paulo Wanderley Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), também carrega uma memória pessoal. Em relato à Budô, o dirigente recordou seu primeiro encontro com Chiaki Ishii, em julho de 1974, em Vitória, durante as comemorações do Jubileu de Prata dos Jogos Universitários Brasileiros (JUBs), que celebravam seu 25º aniversário. À época, Paulo presidia a Federação Universitária de Esportes Capixaba (FUEC) e recebeu Ishii como seu convidado no evento, apenas dois anos depois da histórica conquista do bronze olímpico em Munique.

Chiaki Ishii e Odair Borges, seu primeiro aluno no Brasil, unidos por uma amizade de quase meio século © Global Sports

Paulo Wanderley já havia acompanhado Ishii nas competições, mas identifica aquela ocasião como o primeiro contato pessoal entre os dois. Mais de meio século depois, a lembrança do encontro acrescenta à manifestação institucional a perspectiva de quem testemunhou a trajetória do professor desde os primeiros anos de seu reconhecimento olímpico.

“Hoje, o judô brasileiro se despede de uma de suas maiores referências. Chiaki Ishii foi um pioneiro que acreditou no potencial do Brasil e ajudou a mostrar ao mundo a força da nossa modalidade. Sua história não está apenas nas medalhas que conquistou, mas também nos atletas que formou, nos ensinamentos que compartilhou e no caminho que abriu para tantas gerações. Sua contribuição jamais será esquecida. Que sua memória permaneça viva em nosso esporte e continue inspirando todos aqueles que vestem um judogi”, disse Paulo Wanderley, presidente da CBJ.

O reconhecimento de quem também chegou ao pódio

À frente da FPJudô, o professor Henrique Guimarães reúne duas perspectivas sobre essa trajetória: a responsabilidade de preservar a memória da modalidade e a experiência de quem também conquistou o bronze olímpico, em Atlanta 1996. Seu nome está entre os alunos presentes na homenagem a Ishii em Campinas.

“O professor Ishii nos deixou uma responsabilidade: transmitir às próximas gerações o judô que aprendemos com ele. Como judoca e medalhista olímpico, reconheço o significado de seu pioneirismo. Como presidente da Federação Paulista, considero essencial preservar sua história e valorizar os professores que dão continuidade a esse trabalho. Nossa gratidão e nossa solidariedade estão com sua família e com todos os seus alunos.”

https://www.originaltatamis.com.br/