A escola brasileira de arbitragem no judô: da gênese ao futuro

Shigeto Yamazaki arbitrou em 12 finais olímpicas © Arquivo

Da atuação visionária de Yamazaki à construção institucional liderada por Catalano, passando pelo prestígio internacional de Maranhão e Minakawa, até a maturidade estratégica representada por Mariano, a arbitragem brasileira consolidou uma trajetória de excelência que projeta o país como referência mundial e pilar permanente no fomento da cultura do judô.

Por Paulo Pinto / Global Sports
Curitiba, 10 de janeiro de 2026

A história da arbitragem brasileira no judô não é episódica nem circunstancial. Ela se constrói como escola, com método, produção e transmissão de conhecimento, protagonismo internacional e compromisso geracional. Uma linhagem que começa com Shigeto Yamazaki, ganha forma institucional com Carlos Catalano Calleja, consolida prestígio mundial com Emmanuel Mattar e Edison Minakawa, e alcança maturidade estratégica com André Mariano.

Em 1984 Carlos Catalano Calleja tornou-se diretor de arbitragem da Federação Internacional de Judô, função que exerceu até sua morte, em 15 de novembro de 1994 © Família Catalano Calleja

Shigeto Yamazaki: pesquisador que lançou as bases – anos 1950–1970

Fundador de sua academia em 1957, o professor Shigeto Yamazaki foi um pioneiro absoluto na compreensão da arbitragem como campo técnico e científico do judô. Em 1971, esteve no Campeonato Mundial da Alemanha por iniciativa própria, observando sistematicamente os critérios de arbitragem internacional. Em 1973, em Lausanne, aprofundou suas análises sobre posicionamento, pontuação e penalidades dentro do shiai-jô.

Um dos principais árbitros do mundo de sua geração, Maranhão construiu um vasto currículo, com participação em três Jogos Olímpicos, oito Campeonatos Mundiais Sênior, cinco Mundiais Sub 20, cinco Jogos Pan-Americanos, duas Copas Jigoro Kano, entre outros eventos internacionais © Arquivo

No Pan-Americano do Panamá, em 1974, prestou exames ao lado de 64 candidatos, sendo sete brasileiros. Apenas Yamazaki foi aprovado, e, diante de sua performance excepcional, foi elevado diretamente a árbitro internacional, sendo convocado para os Jogos Olímpicos de Montreal 1976. Em 1975, no Mundial de Viena, apresentou os resultados de suas pesquisas sobre arbitragem. Em Montreal, foi considerado o melhor árbitro das finais olímpicas.

Arbitrou ainda nos Jogos Olímpicos de Moscou (1980), Los Angeles (1984) e Seul (1988), além de Campeonatos Mundiais em Viena, Paris, Maastricht, Moscou, Roma e Porto Rico, e eventos das Forças Armadas, Universitário e Júnior. Yamazaki não apenas arbitrou: formou uma mentalidade.

Edison Minakawa, referência da arbitragem brasileira, atuou em Jogos Olímpicos e construiu uma trajetória marcada por longevidade, rigor técnico e reconhecimento internacional © Arquivo

Carlos Catalano Calleja: o arquiteto institucional – anos 1960–1990

Aluno direto de Yamazaki, Carlos Catalano Calleja ingressou no judô em 1958 e já em 1960 era sho-dan, numa progressão rara. Atuou na Federação Paulista de Judô como coordenador e diretor técnico e, em 1967, colaborou na tradução das regras internacionais de arbitragem, além de integrar a comissão de aulas da Universidade de São Paulo, onde desenvolvia pesquisas acadêmicas sobre arbitragem.

André Mariano, referência da arbitragem internacional, atuou nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 e Paris 2024 e atualmente exerce a função de Supervisor de Arbitragem da Federação Internacional de Judô © Arquivo

Em 1975, após participar de clínica internacional ministrada por Charles Palmer e John Osaka, organizou, ao lado de Yamazaki, o primeiro curso de arbitragem da FPJudô, formando o primeiro quadro oficial da entidade. No mesmo ano, em Buenos Aires, prestou exames para árbitro Pan-Americano e Internacional B: entre 30 candidatos, foi o único aprovado.

Em 1976, já como diretor técnico da CBJ, organizou a primeira clínica nacional de arbitragem e estruturou o primeiro quadro nacional. Foi promovido a árbitro internacional A em Maracaibo, na Venezuela, liderou a implantação do sistema de arbitragem sul-americano, arbitrou os Mundiais de Paris (1979) e Maastricht (1981), e os Jogos Olímpicos de Moscou (1980).

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Já doutor, em 1984 tornou-se diretor de arbitragem da Federação Internacional de Judô, função que exerceu até sua morte, em 15 de novembro de 1994. Organizou e dirigiu a arbitragem dos Jogos Olímpicos de Los Angeles (1984), Seul (1988) e Barcelona (1992) — feito raríssimo. Sua trajetória foi interrompida quando naturalmente se projetava para a presidência da FIJ.

Emmanuel Mattar (“Maranhão”) – prestígio consolidado anos 1990–2000

O árbitro FIJ A Emmanuel Mattar, o “Maranhão”, foi uma das maiores referências da arbitragem brasileira e mundial. Natural do Rio de Janeiro, atuou em três Jogos Olímpicos — Sydney 2000, Atenas 2004 e Pequim 2008 — e em oito Campeonatos Mundiais Sênior, integrando o núcleo de maior confiança e prestígio da FIJ.

Shigeto Yamazaki é cumprimentado após ser aprovado como árbitro internacional no Pan-Americano do Panamá, em 1974 © Imagem ilustrativa gerada por IA / Global Sports

Além da atuação nos grandes palcos, destacou-se pela formação de novos árbitros, ajudando a sustentar a continuidade da escola brasileira. Faleceu em novembro de 2020, deixando um legado de autoridade técnica e respeito internacional.

Edison Minakawa: tradição, longevidade e excelência – anos 1980–2010

Filho do mestre Hiroshi Minakawa, o professor kodansha Edison Minakawa iniciou-se no judô ainda na infância e foi incentivado pelo pai a ingressar na arbitragem. Com 34 anos de atuação, mantinha presença constante em eventos internacionais da FIJ.

Maranhão, nome histórico da arbitragem brasileira, marcou sua geração pela leitura refinada das lutas, autoridade e respeito absoluto nos maiores palcos do judô mundial © Arquivo

Participou de sua primeira Olimpíada em Londres 2012 e viveu o ponto máximo da carreira nos Jogos Olímpicos do Rio 2016, quando atuou “em casa” e foi indicado como o melhor árbitro da Olimpíada, coroando uma trajetória marcada por sacrifício pessoal, apoio familiar e excelência técnica.

Após os Jogos do Rio 2016, assumiu a direção de arbitragem da Federação Paulista de Judô e, posteriormente, passou a exercer a coordenação nacional de arbitragem da Confederação Brasileira de Judô, cargo que ocupa até hoje.

Professor Edison Minakawa, símbolo de dedicação e coerência na arbitragem, construiu sua trajetória com discrição, rigor técnico e profundo respeito aos valores do judô © Arquivo

André Mariano: maturidade estratégica e transição geracional – anos 2010–2020

O árbitro FIJ A André Mariano representa a fase de maturidade institucional da arbitragem brasileira. Atuou nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 e Paris 2024, após uma trajetória construída passo a passo — do trabalho como assistente de câmeras na Rio 2016 à atuação plena nos tatamis aconteceu nas edições seguintes.

Após Paris, optou conscientemente por não permanecer mais um ciclo olímpico como árbitro, entendendo que a fila precisa rodar para que a nova geração tenha oportunidades. Propôs-se, então, a assumir uma função estrutural. Pouco depois, recebeu convite formal do presidente Marius Vizer e tornou-se Supervisor de Arbitragem da FIJ — o primeiro do continente americano.

Shigeto Yamasaki, Carlos Catalano Calleja e Dante Kanayama no Campeonato Sul-Americano de Judô (1974) na Argentina, © Família Catalano Calleja

Mariano resume com clareza a hierarquia da arbitragem mundial: Diretor de Arbitragem → Supervisor de Arbitragem → Árbitros.

O sentido dessa linha histórica

Essa trajetória demonstra que o Brasil não apenas revelou árbitros, mas construiu uma escola de arbitragem, baseada em estudo, ética, protagonismo internacional e responsabilidade com o futuro. É sobre esse lastro — Yamazaki, Calleja, Mattar, Minakawa e Mariano — que se projetam agora os novos árbitros brasileiros aprovados pela FIJ, dando continuidade a uma tradição que é, antes de tudo, parte intrínseca da cultura do judô.

Raul Camacho Perez e André Mariano dos Santos, supervisores de arbitragem da FIJ © Tamara Kulumbegashvili / FIJ

Nova geração

A história da arbitragem brasileira no judô mostra que nada surge de forma isolada. Cada geração é fruto de planejamento, método, responsabilidade coletiva e fomento contínuo da cultura do judô — um processo que vai muito além da simples preparação técnica e exige acolhimento, leitura institucional e compromisso com o futuro da modalidade.

Na sequência desta série, a Revista Budô apresentará cinco novos árbitros brasileiros, formados pela Confederação Brasileira de Judô e aprovados pela Federação Internacional de Judô, que passam a integrar o cenário internacional como continuidade legítima de uma escola construída com rigor, ética e visão de longo prazo.

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