A formação de árbitros no Brasil: como a CBJ forma e desenvolve as novas gerações da arbitragem nacional

Os árbitros FIJ A André Mariano dos Santos, Edna Pioker, Marilaine Ferrante Antonialli e Edson Lopes Gonçalves da Silva participaram da coordenação e condução do Exame Nacional de Arbitragem © Anderson Neves

Sistema nacional de capacitação, avaliação e progressão de carreira reúne critérios unificados, alinhados aos padrões da FIJ, garantindo isonomia de oportunidades para árbitros de todo o país e a renovação permanente dos quadros da arbitragem brasileira.

Por Paulo Pinto / Global Sports
Curitiba, 12 de junho de 2026

Enquanto centenas de jovens atletas disputavam medalhas no Campeonato Brasileiro Sub 15 de 2026, realizado em Aracaju (SE), uma operação estratégica para o futuro do judô nacional acontecia paralelamente aos combates. Coordenado pela Comissão Nacional de Arbitragem da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), o Exame Nacional de Arbitragem reuniu candidatos de diferentes estados em um processo que exemplifica a estrutura criada pela entidade para formar, avaliar e desenvolver novas gerações de árbitros em todo o país.

Muito além de uma simples prova de regras, o sistema brasileiro de formação da arbitragem envolve critérios nacionais de seleção, avaliações teóricas e práticas, domínio da língua inglesa, conhecimento de kata e acompanhamento permanente do desempenho dos candidatos, em um processo alinhado às exigências da Federação Internacional de Judô (FIJ) e da IJF Academy.

A avaliação prática permitiu aos examinadores observar a atuação dos candidatos em situações reais de competição © Anderson Neves

O resultado é uma engrenagem que busca garantir oportunidades iguais para todas as regiões brasileiras e criar um fluxo contínuo de renovação dos quadros responsáveis por conduzir as competições nacionais e internacionais da modalidade.

Desenvolvimento conceitual

O professor kodansha e árbitro FIJ A, André Mariano dos Santos, coordenador nacional de arbitragem da CBJ e supervisor de arbitragem da Federação Internacional de Judô, explica que a estrutura atualmente adotada foi concebida para assegurar padronização em todo o território nacional.

Árbitros participantes do Exame Nacional de Arbitragem e coordenadores regionais reunidos em Aracaju durante o Campeonato Brasileiro Sub 15 © Anderson Neves

Assim como o judô brasileiro está organizado em cinco regiões para a realização dos Campeonatos Brasileiros Regionais, a arbitragem acompanha essa mesma estrutura. Em cada região, a Coordenação Nacional de Arbitragem designa um coordenador responsável pelo acompanhamento técnico e pelo desenvolvimento dos árbitros dos estados que a compõem.

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Na Região I, a coordenação está sob responsabilidade do árbitro FIJ A Márcio André de Amorim Gomes. A Região II é coordenada pelo árbitro FIJ A Laedson Lopes Gonçalves da Silva Godoy. Na Região III, a função é exercida pelo árbitro FIJ A Marcelo José Colonna de Miranda. A Região IV tem como coordenador o árbitro FIJ A Luiz Emílio Rodrigues Villanueva. Já a Região V é coordenada pela professora Marilaine Ferrante Antonialli, responsável pelo acompanhamento dos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

A experiência prática em competições nacionais é uma das etapas do processo de formação e desenvolvimento da arbitragem brasileira © Anderson Neves

A divisão regional permite que os processos de capacitação ocorram de maneira mais próxima das realidades locais, sem abrir mão da uniformidade técnica exigida pela Coordenação Nacional de Arbitragem.

Formação contínua e progressiva

De acordo com a professora kodansha Marilaine Ferrante Antonialli, a formação da arbitragem brasileira foi estruturada para proporcionar uma evolução gradual dos profissionais, permitindo que cada etapa da carreira seja construída por meio de experiência prática, capacitação contínua e avaliações sucessivas.

André Mariano, Edna Pioker, Marilaine Ferrante e Edson Lopes ao lado dos árbitros que atuaram no Campeonato Brasileiro Sub 15, em Aracaju © Anderson Neves

Segundo ela, os exames para as graduações Nacional C e Nacional B são realizados durante os Campeonatos Brasileiros Regionais, disputados simultaneamente nas cinco regiões do país. Já as avaliações para Nacional A e Aspirante a FIJ acontecem durante os campeonatos nacionais promovidos pela Confederação Brasileira de Judô.

“A ideia é que o árbitro percorra um processo progressivo de formação, adquirindo experiência e conhecimento em cada etapa antes de alcançar os níveis mais elevados da carreira”, explicou.

A atuação prática nos tatamis complementa as avaliações teóricas e integra o processo de progressão na carreira © Anderson Neves

Marilaine destacou ainda que o sistema de cotas adotado pela Coordenação Nacional de Arbitragem busca assegurar representatividade e isonomia de oportunidades entre as federações estaduais, permitindo que árbitros de todas as regiões tenham acesso aos processos de capacitação e progressão.

Preparação para o cenário internacional

Ao abordar a formação dos candidatos ao nível Aspirante a FIJ, considerado a porta de entrada para a arbitragem internacional, Marilaine ressaltou que o processo segue parâmetros alinhados às exigências da Federação Internacional de Judô e da IJF Academy.

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Segundo ela, além da avaliação prática e da prova teórica aplicada integralmente em inglês, os candidatos precisam demonstrar domínio técnico do nage-no-kata por meio de vídeos enviados antecipadamente para análise.

“No caso do Aspirante a FIJ, o candidato precisa encaminhar previamente um vídeo executando o nage-no-kata. Somente após essa avaliação ele estará habilitado para participar do exame prático realizado durante a competição”, explicou.

A formação de árbitros no Brasil combina capacitação contínua, avaliações periódicas e experiência prática em competições oficiais © Anderson Neves

Para a coordenadora, o modelo reflete a compreensão de que o árbitro contemporâneo precisa reunir competências que vão além do conhecimento das regras de competição.

“A formação exige conhecimento técnico do judô, domínio das regras, capacidade de comunicação e familiaridade com os procedimentos internacionais adotados pela Federação Internacional de Judô”, observou.

Legado para o futuro

A experiência vivenciada em Aracaju, que reuniu 48 candidatos de 16 estados, representa apenas uma etapa de um processo contínuo de formação desenvolvido pela arbitragem brasileira.

Ulisses Máximo, diretor de Esportes da SEEL; Euder Melo de Lima, presidente da FSJ; Mariana Dantas, ex-secretária de Estado do Esporte e Lazer de Sergipe; Milber Fernandes Morais Bourguignon, analista de patrocínio do BNDES, patrocinador master do judô brasileiro; de Marcelo Ornelas França, vice-presidente da CBJ; Robnelson Ferreira, diretor administrativo da CBJ; e Marilaine Ferrante Antonialli © Anderson Neves

Na avaliação de Marilaine, por trás de cada novo árbitro aprovado existe uma estrutura nacional formada por coordenadores regionais, instrutores, supervisores e avaliadores que trabalham de forma integrada para garantir a renovação permanente dos quadros da modalidade.

“Nosso objetivo não é apenas aprovar candidatos em um exame. O que buscamos é preparar árbitros para atuar com segurança e qualidade nos diferentes níveis de competição, assegurando a continuidade e o fortalecimento da arbitragem brasileira”, concluiu.

O sistema nacional de arbitragem busca preparar profissionais aptos a atuar nos diferentes níveis de competição do judô brasileiro © Anderson Neves

Justa homenagem

Além de coordenar o exame nacional realizado durante o Campeonato Brasileiro Sub 15, em Aracaju, a professora kodansha Marilaine Ferrante Antonialli recebeu uma homenagem especial em reconhecimento à sua contribuição para o desenvolvimento da arbitragem brasileira.

Primeira mulher do país a conquistar o título de árbitra internacional FIJ A, Marilaine construiu uma trajetória marcada pela participação em eventos nacionais e internacionais de alto nível. Ao longo da carreira, atuou em etapas de Grand Prix, campeonatos mundiais por equipes, competições oficiais da Federação Internacional de Judô, além de eventos continentais como campeonatos pan-americanos e sul-americanos.

Homenageada em Aracaju, Marilaine Ferrante recebeu o reconhecimento de colegas e amigos por sua trajetória e contribuição ao desenvolvimento da arbitragem brasileira © Anderson Neves

Para o coordenador nacional de arbitragem da CBJ, André Mariano dos Santos, a homenagem prestada em Aracaju reconhece não apenas uma carreira de conquistas, mas também o legado deixado para as novas gerações da arbitragem.

“A trajetória da professora Marilaine é marcada por comprometimento, competência e pioneirismo. Quando ela iniciou sua caminhada na arbitragem, o cenário era muito mais desafiador para as mulheres e existiam muito menos oportunidades de atuação em eventos internacionais. Ainda assim, ela construiu seu espaço com trabalho, dedicação e conhecimento, tornando-se uma referência dentro e fora do Brasil.

Reconhecida por seu legado dentro e fora dos tatamis, Marilaine com a homenagem que celebrou sua trajetória pioneira e sua contribuição para o desenvolvimento da arbitragem brasileira © Anderson Neves

Mais do que as credenciais conquistadas ao longo da carreira, o maior legado da Marilaine está nas pessoas que ela inspirou. Muitas árbitras que hoje atuam nos cenários estadual, nacional e internacional seguiram esse caminho porque encontraram nela um exemplo de que era possível chegar ao mais alto nível da arbitragem mundial. Ela abriu portas, quebrou paradigmas e ajudou a mostrar que competência não tem gênero.

Marilaine Ferrante, uma trajetória de pioneirismo e compromisso com a arbitragem brasileira © Anderson Neves

A professora Marilaine fez escola. Seu trabalho influenciou gerações de árbitras e continua inspirando meninas e mulheres que sonham em trilhar o mesmo caminho. Por tudo isso, a homenagem recebida em Aracaju representa um reconhecimento justo a uma das personalidades mais importantes da história da arbitragem brasileira.”

A aprovação no Exame Nacional de Arbitragem marcou mais um passo na trajetória dos novos árbitros promovidos pela CBJ © Anderson Neves

Relatório Final

EXAME NACIONAL DE ARBITRAGEM
Nacional A / Aspirante a FIJ
Avaliados: 48 – Aprovados: 43 – Pendentes: 5

APROVADOS

Pedro Barbezani Carvalho e Ribeiro (RS) – Nacional A
Danielle Perete de Freitas Neves (MS) – Nacional A
Jairo Carvalho Godoy (SP) – ASPFIJ
Roberto Lemes da Silva (RJ) – Nacional A
Kaue Massao Bruschi Palhano (PR) – Nacional A
Luan Barbosa Oliveira Santos (SP) – Nacional A
Danilo Takashi Aoike (SP) – Nacional A
Angel Antonio Carneiro Peleteiro Junior (BA) – Nacional A
Alessandro Santiago dos Santos (SP) – ASPFIJ
Felipe Keller Fleck (RS) – Nacional A
Gilson Gonçalves de Oliveira Filho (MG) – ASPFIJ
Bruno Alberto de Almeida Shimizu (SP) – Nacional A
Marcos Antônio Santos Sales (PE) – Nacional A
Rudson Costa da Rocha (RJ) – Nacional A
Guilherme Kelvin Araujo Alves (DF) – ASPFIJ
Adauto da Silva Neto (PR) – Nacional A
Ralinna Solano da Silva (RN) – Nacional A
Carlos Alberto Ferreira Junior (CE) – Nacional A
Iris Reis Liers (RJ) – Nacional A
Leonardo Lopes Fioravanti (RS) – Nacional A
Washington da Cruz Rodrigues (SC) – ASPFIJ
Naldo Ricardo dos Santos David (MA) – Nacional A
Wesley Lopes da Silva (MG) – Nacional A
Vitor Pereira Manfré (MS) – Nacional A
Nathália Maria Solano Diniz da Silva (RN) – Nacional A
Paulo Edvaldo de Menezes Júnior (SE) – ASPFIJ
Rafael Barbier Lopes (MS) – Nacional A
Mariana Ayumi Nakamura Hayakawa (SP) – Nacional A
Gilvan Andrade Ferreira (SE) – Nacional A
Madalena Moreira da Silva (SE) – Nacional A
André Souza de Oliveira (DF) – Nacional A
Julianne Ferreira de Oliveira (CE) – ASPFIJ
Maria da Paz Souza de Oliveira (RN) – ASPFIJ
Janisson Luiz Gomes da Cunha Cabral (SE) – Nacional A
Eduardo Felipe Alves Vieira dos Santos (PE) – ASPFIJ
David da Silva Fonseca (AL) – Nacional A
Ana Claudia Alexandrino dos Santos (PE) – ASPFIJ
Erica Nayane Santos Farias (AL) – Nacional A
Claudio Henrique dos Santos (CE) – ASPFIJ
Halef Gutierrez e Cruz (PR) – ASPFIJ
Geraldo Limeira Martins Júnior (AL) – ASPFIJ
Lhais Mareco Soares (MS) – ASPFIJ
Caroline do Couto de Aguiar (RS) – Nacional A

PENDENTES 

Nilo Peçanha Ferreira da Silva (AP) – ASPFIJ
Gustavo Santos da Fonseca (BA) – ASPFIJ
Wesley dos Santos Alves (SE) – ASPFIJ
Laryssa Thabyda Magalhães Silva (SP) – ASPFIJ
Elisangela Santos Batista (SE) – ASPFIJ

A Confederação Brasileira de Judô conta com o patrocínio do BNDES, responsável por um aporte estruturante no atual ciclo olímpico da modalidade.

https://www.originaltatamis.com.br/