“A gente pode fazer o que gosta”: casal com deficiência visual vive paixão pelo judô

No judô paralímpico, os atletas já começam segurando o quimono do adversário © Renan Mattos/Grupo RBS

Casados há quatro anos, atletas de Viamão conciliam a criação de dois filhos com os treinos de judô

Por Henrique Moreira / Diário Gaúcho
Curitiba, 21 de outubro de 2026

Entre os dias 9 e 11 de outubro, Matheus Baldin de Lucas e Thaís Furtado Gonçalves saíram de Viamão rumo a São Paulo para disputar o Grand Prix Nacional de Judô Paralímpico, que reuniu mais de 500 atletas com deficiência visual. Ela voltou com o bronze, na categoria de até 60 quilos, e ele ficou em quinto lugar no grupo acima de 95 quilos.

Os dois se conheceram durante um aniversário de amigos em comum e estão casados há quatro anos. Matheus tem baixa visão desde que nasceu e Thaís tem cegueira total, que surgiu na infância. Ele já praticava judô, e ela aceitou o convite para experimentar. Hoje, aos 37 e 34 anos, ele é faixa-preta e ela, faixa-marrom.

Para Matheus, foi o contato com o esporte adaptado que mudou o jeito de treinar.

– Depois que descobri, comecei a ter maior incentivo para fazer as atividades do jeito que gosto – diz.

Matheus também é auxiliar administrativo em uma empresa que realiza concursos públicos, e Thaís se dedica ao esporte e à casa. A rotina ficou mais apertada com a chegada dos filhos, de quatro e um ano de idade.

– Com os filhos, perdemos um pouco o ritmo, mas conseguimos nos organizar – diz ele.

Eles estão casados há quatro anos © Renan Mattos/Grupo RBS

Cada um faz duas sessões semanais de judô, além de academia e corrida, em horários alternados: enquanto um treina, o outro cuida dos filhos. Thaís ajusta a rotina conforme a necessidade.

– Tenho que acordar cedo para conseguir arrumar as crianças e depois continuar treinando e cuidando da casa – afirma.

Campeã brasileira em 2019 em sua categoria, Thaís retomou as competições aos poucos após as duas gestações. O bronze no último Grand Prix abre a possibilidade de pleitear o Bolsa Atleta Nacional para 2027.

Um tatame para todos

Parte dessa trajetória acontece no Sesc Protásio Alves, onde o casal treina há quatro anos. Lá, eles dividem o espaço com os demais alunos, sem turma separada. A diferença é que as orientações são mais verbais e os atletas já começam segurando o quimono do adversário.

Para Thaís, a adaptação também aconteceu fora do tatame. No início, colegas ajudavam no trajeto até o ginásio e o vestiário.

– Eles me deram apoio depois do dia em que comecei. Hoje, eu já consigo ir sozinha – conta.

https://www.originaltatamis.com.br/

Elton Fofonka, técnico de Programas Sociais do Sesc, diz que a autonomia é um dos objetivos do projeto.

– Promover a inclusão social e tentar garantir uma igualdade de oportunidades, para que essas pessoas desenvolvam as suas potencialidades – afirma.

Essa ideia de independência também aparece na fala de Thaís sobre o que o esporte representa:

– Por ser deficiente, é bom mostrar para os outros que a gente pode fazer o que gosta e sair para fazer as coisas como todo mundo.

Como participar

O Sesc também oferece Goalball (esporte com bola). As vagas para as duas modalidades, dedicadas a pessoas a partir dos 14 anos com deficiência visual ou baixa visão, ficam abertas o ano todo, e não é preciso ter experiência. A inscrição é gratuita, na secretaria do Sesc (Av. Protásio Alves, 6.220).

Judô

  • Para pessoas com deficiência visual ou baixa visão, a partir dos 14 anos.
  • Terças e quintas, às 19h30.

Goalball

  • Esporte em que se arremessa uma bola com as mãos para marcar gols.
  • Treinos às segundas, quartas e sextas, das 18h às 19h30.

http://www.shihan.com.br