11 de janeiro de 2026
A história da arbitragem brasileira no judô demonstra que nenhuma trajetória sólida se constrói por acaso. Ao longo de décadas, o país consolidou uma escola reconhecida internacionalmente, sustentada por estudo, método, responsabilidade institucional e, sobretudo, pelo fomento contínuo da cultura do judô.
Se ontem o olhar esteve voltado à construção histórica dessa escola — com nomes que projetaram o Brasil no cenário mundial e ajudaram a estruturar os fundamentos da arbitragem internacional —, hoje o foco se desloca para o futuro. Um futuro que não se apresenta como ruptura, mas como continuidade consciente, ancorada em processos formativos sólidos e na leitura madura do papel da arbitragem dentro da modalidade.
É nesse contexto que emerge uma nova geração de árbitros brasileiros, oriundos de diferentes estados do país, cada um carregando consigo as particularidades, vivências e o DNA do judô desenvolvido em seus respectivos estados. Perfis distintos, trajetórias singulares, mas unidos por uma mesma compreensão: arbitrar é mais do que aplicar regras — é preservar o equilíbrio, educar pelo exemplo e sustentar a credibilidade do judô.

A jovem Kamila Elisabete Lemos, primeira árbitra FIJ A da Região Sul, referência de leitura técnica e postura na arbitragem brasileira © Arquivo
A nova geração da arbitragem brasileira apresentada nesta reportagem é composta por Kamila Elisabete Lemos (SC), Renata Moreira (RS), Sérgio Ricardo Borba (SC), Gabriela Simone Harnisch (PR) e Rodrigo Alves da Silva (MG).
A partir de suas próprias avaliações, os árbitros convidados analisam os processos que estruturam a arbitragem brasileira, revelando como diferentes contextos estaduais, experiências de formação e níveis de atuação contribuem para a consolidação de uma cultura técnica sólida e para a projeção do Brasil no cenário internacional.
Natural de Joinville (SC), Kamila Elisabete Lemos nasceu em 29 de maio de 1993 e iniciou na arbitragem em 2008, movida pelo desejo de conhecer todas as áreas do judô e evoluir também como atleta. Faixa-preta san-dan (3º dan), bacharel em Educação Física (026196-G/SC) e integrante do Dojô Ippon São José (SC), aluna dos senseis Silvio Acácio Borges e Icracir Rosa, Kamila construiu sua trajetória passo a passo em um esporte em permanente transformação e tornou-se a árbitra brasileira mais jovem a conquistar a graduação FIJ A — marco que a projeta como a FIJ A mais nova do Brasil.

Kamila Lemos em atuação em etapa do Grand Prix, evento do World Tour da FIJ © Arquivo
Ao refletir sobre os critérios avaliados pela Comissão de Arbitragem da Federação Internacional de Judô, Kamila aponta que o equilíbrio entre domínio técnico e postura comportamental é determinante para a consolidação do árbitro no cenário internacional.
“Eu acredito que eles avaliam o árbitro principalmente por dois pontos: a parte técnica e o comportamento. Na parte técnica, é essencial conhecer muito bem as regras, saber tomar decisões rápidas e se adaptar às várias situações, principalmente por o judô ser um esporte que está em constante mudança”, afirma.

Kamila Elisabete Lemos recebe o certificado de participação no Campeonato Mundial Júnior de Lima, entregue por Tina Trstenjak, comissionada da FIJ no evento © Arquivo
No aspecto comportamental, Kamila considera que o controle emocional e a postura profissional pesam tanto quanto o conhecimento técnico, sobretudo em ambientes de pressão elevada, nos quais o árbitro precisa ser firme sem perder o equilíbrio.
“Já no comportamento, eles observam se o árbitro consegue ter um controle emocional adequado e equilibrado, sendo imparcial, sabendo se comunicar e tendo uma postura profissional”, completa.

Em processo contínuo de formação, Kamila Elisabete Lemos participa de estágio internacional durante o Porec Cadete European Cup 2024, sob coordenação de Annamaria Friedrich (Hungria) e Nuno Carvalho (Portugal) © Arquivo
Ao falar sobre o monitoramento permanente do sistema internacional, Kamila reforça que a chegada a esse patamar é consequência de anos de dedicação e preparação, e que, a partir desse ponto, o desafio passa a ser demonstrar consistência e maturidade em cada atuação.
“A preparação para esse nível de competição é resultado de muitos anos de trabalho e dedicação. Hoje, estando nesse momento da carreira, meu foco principal é realizar uma boa atuação, demonstrar todo o meu potencial e o conhecimento que adquiri ao longo do tempo, mostrando que estou preparada e que mereço estar nesse nível de competição. Foi esse processo que me trouxe até aqui”, diz.

Kamila arbitrando na Seletiva Sênior dde 2025 © Arquivo
Para ela, a ascensão dentro da arbitragem foi sustentada por postura e coerência em todos os espaços atuando com ética e comunicação clara com atletas, técnicos e equipes de trabalho. “O que mais pesou na minha ascensão foi a postura profissional em todos os momentos, dentro e fora da área de competição. Sempre procurei agir com ética, respeito e imparcialidade, e principalmente o controle emocional em situações de pressão”, ressalta.
Nos momentos mais críticos das competições, Kamila afirma que a segurança nasce do preparo acumulado ao longo da trajetória. O estudo das regras, somado à experiência prática, permite decisões rápidas mesmo sob enorme pressão.
“Eu trabalho isso com muita preparação e consciência do meu papel. Entro em cada competição sabendo da responsabilidade que carrego. Nos momentos mais críticos, confio no meu preparo, no estudo das regras e na experiência adquirida ao longo da minha trajetória”, explica.

Aprovação de Kamila Elisabete Lemos como árbitra FIJ A ocorreu em junho de 2024, em Lima © Arquivo
No recorte feminino, Kamila observa avanços nítidos no reconhecimento das árbitras no judô internacional, com mais espaço, visibilidade e confiança, reforçados por processos institucionais que ampliaram oportunidades, investiram em formação e buscaram igualdade de condições.
“Hoje existe mais espaço, mais visibilidade e mais confiança no nosso trabalho… considero muito importantes os avanços institucionais que abriram oportunidades, investiram em formação, avaliações mais transparentes e igualdade de condições”, avalia.

Kamila sendo examinada para FIJ B © Arquivo
Ela também destaca o papel das árbitras mais experientes como referências que orientam e abrem caminhos, contribuindo para a formação técnica e para a consolidação de novas gerações no cenário internacional.
“As árbitras mais experientes têm um papel muito importante, que é orientar, apoiar e servir de referência para quem está começando… podemos ajudar na formação técnica, compartilhar experiências e, principalmente, abrir caminhos”, afirma.
Questionada sobre preconceito, Kamila reconhece que, por ser mulher e muito nova, viveu situações de resistência no início, mas afirma que sempre respondeu com trabalho e resultados — e que esse reconhecimento ajuda a abrir espaço também para outras mulheres.
“Já enfrentei algumas situações de preconceito e resistência, principalmente no início. Mas sempre procurei responder com trabalho, postura e resultados. Com o tempo, a competência fala mais alto e o reconhecimento vem”, conclui.
Ao deixar uma mensagem aos árbitros mais jovens, Kamila não romantiza o caminho: destaca que poucos conseguem permanecer e evoluir até o alto nível, e por isso é necessário fazer bem feito cada etapa, com humildade e persistência, sem obsessão por atalhos.
“Eu diria para que eles façam aquilo que realmente gostam, porque só assim conseguem se manter firmes no caminho. É importante não focar apenas no alto nível, mas sim em fazer um bom trabalho em cada etapa, com dedicação, humildade e persistência”, orienta.
Nascido em 22 de dezembro de 1974, em São Paulo (SP), Sérgio Ricardo Borba construiu toda a sua identidade esportiva em Balneário Camboriú (SC), onde reside desde um ano e meio de idade. Faixa-preta 5º dan, árbitro FIJ A, licenciado e bacharel em Educação Física (4180-G/SC), com pós-graduação em Educação Física Escolar, Fisiologia e Judô, Borba representa um perfil de arbitragem forjado na constância, no estudo e na vivência profunda da modalidade. Atua pela Associação de Artes Marciais Borba, em Balneário Camboriú, e iniciou sua trajetória na arbitragem em 1996, após encerrar precocemente a carreira como atleta em razão de uma grave lesão no joelho, incentivado pelo pai, Nilson Manoel de Borba, professor kodansha hachi-dan (8º dan) e árbitro internacional sul-americano FIJ C.
Para Borba, a base da arbitragem de alto nível começa pelo domínio absoluto do judô. “Em primeiro lugar, o árbitro deve ter total conhecimento das 100 técnicas do Kodokan. Por isso, a exigência da FIJ de que os candidatos aos exames continental e internacional tenham concluído o IJF Academy, que é o curso da FIJ”, explica. Segundo ele, além da técnica, fatores como controle emocional, comprometimento com a equipe, responsabilidade, organização pessoal e apresentação adequada são indispensáveis para uma atuação consistente.

Com trajetória consolidada, Sérgio Borba integra o seleto grupo de árbitros FIJ A do Brasil © Arquivo
Ao abordar o sistema de monitoramento internacional, Sérgio Borba ressalta a complexidade do cenário brasileiro, tanto pela dimensão territorial do país quanto pelo número expressivo de árbitros FIJ em atividade. “O monitoramento é bastante complexo, porque o Brasil é muito grande e o número de árbitros FIJ é desproporcional em relação ao restante do mundo. Isso torna muito difícil entrar no circuito dos grandes eventos”, observa.
Ainda assim, Borba reforça que o preparo precisa ser permanente, independentemente de convocações ou escalações. “É fundamental estar sempre assistindo a vídeos, estudando o SOR – Sport and Organisation Rules e as Refereeing Rules (Regras de Arbitragem), que compõem o livro de regras da FIJ, além de praticar judô e conhecer profundamente as técnicas. Esse preparo não é apenas antes dos eventos, é durante toda a carreira”, afirma.

Raul Camacho Perez, diretor de arbitragem da FIJ, entrega a Sérgio Borba o certificado de árbitro FIJ A © Arquivo
Para o árbitro catarinense, a progressão na arbitragem não ocorre por saltos, mas por um processo contínuo que começa no nível estadual, passa pelo nacional, pelo continental e chega ao internacional. “Esse conhecimento e esse estudo têm que ser constantes para que possamos ser cada vez mais corretos e justos durante os combates”, afirma. A tecnologia, segundo ele, tornou-se aliada importante nesse processo, com múltiplos ângulos de câmera que ajudam a reduzir equívocos e preservar a integridade das lutas.
Ao tratar da arbitragem em grandes eventos, Borba destaca o peso das decisões e o impacto direto que elas têm sobre a trajetória de atletas e técnicos. “Nós lidamos com o sonho e o trabalho de uma vida inteira. Por isso precisamos estar muito preparados técnica, física e psicologicamente”, afirma. Ele lembra que competições longas, sob condições climáticas extremas, exigem também planejamento físico e períodos adequados de descanso, assim como ocorre com os atletas. “A equipe de arbitragem deve estar tão preparada quanto os atletas, para que o julgamento seja o mais correto e justo possível.”

Sérgio Borba exibe seu certificado de árbitro FIJ A © Arquivo
Ao deixar uma mensagem aos árbitros mais jovens, Sérgio Borba é direto e pedagógico. “Pratiquem judô, conheçam profundamente a competição no shiai-jô, treinem todos os dias, estudem as regras e pesquisem vídeos”, orienta. Ele destaca ainda a importância do domínio de idiomas, especialmente o inglês. “No exame FIJ A, passamos por prova escrita em inglês, entrevista em inglês e, por fim, somos examinados no tatami. Não adianta falar inglês se não tiver domínio prático da arbitragem, nem arbitrar bem sem conhecer profundamente as regras.”
Para Borba, o caminho da arbitragem é feito de estudo permanente, aprendizado contínuo e compromisso com o país. “Não adianta apenas chegar ao posto mais alto da arbitragem mundial. O importante é continuar estudando, trabalhando e ajudando o Brasil”, conclui.
Natural de Porto Alegre (RS), onde nasceu em 13 de maio de 1986, Renata Moreira construiu sua trajetória no judô a partir de uma combinação pouco comum entre formação técnica, sensibilidade humana, perseverança e preparo acadêmico. Aluna de uma importante referência da arbitragem brasileira, o sensei Luiz Alberto Figueira de Moraes, Renata é faixa-preta yon-dan (4º dan), árbitra FIJ B e instrutora de judô formada pela IJF Academy. Pioneira, tornou-se a primeira mulher do Rio Grande do Sul a conquistar a graduação FIJ B e é, até hoje, a única árbitra do estado com certificação paralímpica. Bacharel em Educação Física (2014) e licenciatura (2020), possui pós-graduação em Psicologia Aplicada ao Comportamento Humano, pela Faculdade São Marcos, e em Aspectos Metodológicos do Brasil e do Japão, pela Fetac. Atua à frente da Sensei Renata Escola de Judô, em Porto Alegre, e possui registro profissional no CREF 022876-G/RS.

Renata Moreira arbitra a final dos pesos ligeiros no Open Oceania, em Gold Coast (Austrália), em novembro de 2025; em pé, o vice-campeão olímpico Yang Yung-Wei, representante do Taipei © Arquivo
Sua entrada na arbitragem ocorreu em 2014, motivada por uma leitura muito clara do próprio caminho dentro do judô. Inspirada por seu sensei, Renata compreendeu que, embora não se enxergasse como atleta de alto rendimento ou técnica, desejava permanecer no ambiente competitivo e contribuir ativamente com a modalidade.
“Eu já estava na faculdade e não me via como competidora ou técnica, mas gosto do ambiente competitivo. Vi na arbitragem uma vertente de poder continuar a contribuir com o judô”, explica.
Para Renata, a avaliação de um árbitro passa, antes de tudo, pelo domínio do judô contemporâneo. O conhecimento das regras e das variações técnicas utilizadas pelos atletas hoje é indispensável, assim como a capacidade de comunicação clara no ambiente internacional.
“O domínio do judô atual, com conhecimento das regras e das variações técnicas utilizadas hoje pelos atletas, é essencial. Além disso, o inglês é fundamental para uma comunicação clara com supervisores e colegas, assim como uma postura profissional, ética e colaborativa dentro e fora do tatami”, afirma.

Kate Corkery, presidente da Oceania Judo Union, entrega a Renata Moreira o certificado de Árbitra Continental FIJ B ao final do Open Oceania, em Gold Coast, Austrália © Arquivo
Embora ainda não tenha atuado nos grandes eventos do circuito internacional, Renata trata esse estágio com naturalidade e maturidade, compreendendo a progressão como parte de um processo que exige tempo, preparo e assimilação de experiências em cada nível.
Ao analisar sua evolução dentro da arbitragem, ela destaca que saber ouvir foi determinante para seu crescimento. A escuta atenta a supervisores e coordenadores experientes permitiu alinhar sua atuação aos padrões exigidos em cada etapa da carreira. “Além do conhecimento técnico, foi decisivo saber ouvir supervisores e coordenadores em todos os eventos nacionais. Absorver essas orientações, manter uma postura empática, uma comunicação clara e o controle emocional foram fundamentais para minha evolução até a conquista da graduação FIJ B”, relata.
Nos momentos de maior pressão, Renata explica que o equilíbrio emocional não se constrói durante a luta, mas muito antes dela. O estudo contínuo das regras, aliado à experiência prática, permite transformar a pressão em parte natural do processo competitivo.
“O equilíbrio emocional é construído antes da competição, com estudo constante das regras, experiência e preparação. Nos momentos críticos, confio no meu conhecimento técnico, mantenho o foco total na ação e deixo de lado qualquer influência externa”, afirma. “Se fui designada para determinada luta, é porque meus superiores veem qualidades em mim. A experiência ajuda a transformar a pressão em parte do processo.”

Na Seletiva Nacional Sub 18 de dezembro de 2017, em Porto Alegre, Renata Moreira foi a única árbitra em atuação ao lado de referências da arbitragem brasileira como Edison Minakawa, Edilson Hobold, Laedson Lopes, Kendi Yamamoto, Luiz Alberto Figueira de Moraes, Sérgio Borba e Luiz Sérgio Papa, entre outros © Arquivo
No recorte feminino, Renata faz uma leitura lúcida da evolução da representatividade das árbitras no judô. Ela recorda que, no início da trajetória, a presença feminina era mínima, inclusive em eventos nacionais. “No meu primeiro evento nacional, durante a gestão do sensei Minakawa, eu era a única mulher na foto oficial”, recorda.
Hoje, segundo ela, o cenário é outro. A ampliação de oportunidades e o trabalho institucional consistente permitiram um crescimento real da presença feminina na arbitragem. “A evolução é evidente. A representatividade das árbitras cresceu de forma consistente e acredito que em breve alcançaremos um equilíbrio próximo de 50%. Isso foi resultado de um trabalho institucional planejado, com mais oportunidades e critérios claros.”
Renata também destaca o papel das árbitras mais experientes como referências diretas para quem está em formação, não apenas pelo exemplo técnico, mas pelo acolhimento e pela exigência responsável. “As árbitras mais experientes têm a responsabilidade de formar e abrir caminhos, compartilhando conhecimento, exigindo excelência e oferecendo apoio nos momentos decisivos”, afirma.
“Nos últimos dois anos, fui ‘adotada’ por colegas mais experientes que me ajudaram a estudar e a desenvolver a maturidade necessária para prestar o exame. Árbitras como Érika Damasceno, Kamila Elisabete, Bruna Neves e Gabriela Harnisch são exemplos claros desse papel.”

Após ser informada de que obteve o melhor desempenho entre os candidatos à graduação FIJ B na Austrália, Renata Moreira recebe o certificado das mãos de Lubomir Petr, comissário de arbitragem da Oceania Judo Union; Raul Camacho Perez, diretor de arbitragem da FIJ; e Pasquale Chyurlia, secretário da Comissão de Arbitragem da FIJ © Arquivo
Ao abordar possíveis situações de preconceito, Renata mantém uma postura serena e objetiva. Reconhece episódios pontuais de desconforto, mas ressalta que sempre encontrou respaldo em gestões sérias, comprometidas em garantir um ambiente profissional e respeitoso.
“Vivenciei algumas situações pontuais de desconforto, como acontece em ambientes historicamente desafiadores, mas sempre encontrei respaldo em gestões sérias, que atuaram de forma firme para garantir um ambiente seguro, profissional e respeitoso para todos”, conclui.
Ao se dirigir aos árbitros mais jovens que desejam seguir esse caminho, Renata reforça que o sonho precisa vir acompanhado de planejamento e disciplina, sem expectativas imediatistas.
“Aos árbitros mais jovens, deixo a mensagem de que sonhar é importante, mas o sonho precisa estar acompanhado de planejamento e preparação. Assistam competições, estudem o judô atual, pratiquem as movimentações e invistam no próprio desenvolvimento”, orienta. “O caminho exige dedicação e paciência, mas o reconhecimento vem.
Natural de Marechal Cândido Rondon (PR), onde nasceu em 25 de outubro de 1991, Gabriela Simone Harnisch construiu sua trajetória no judô a partir de uma formação profundamente ancorada no conhecimento, na reflexão crítica e no compromisso com o processo. Faixa-preta san-dan (3º dan), árbitra continental FIJ B, Gabriela é graduada em Educação Física (035148-G/PR), especialista em Práticas de Ensino na Educação Física, mestre e doutora em Educação Física pela Unicamp, além de pós-doutora em Educação Física pela Unioeste. Atua pela Associação de Judô Fujiyama, em Marechal Cândido Rondon, da qual é atualmente presidente.
Sua trajetória na arbitragem teve início em 2009, impulsionada pelo exemplo dos senseis de seu dojô, entre eles o professor Júnior Gimenez e, de maneira fundamental, o professor Edilson Hobold — referência histórica da arbitragem paranaense e brasileira, reconhecido pela atuação consistente no circuito nacional e internacional e por sua contribuição determinante na formação de árbitros. Falecido no exercício da função, Hobold deixou um legado técnico e ético que marcou profundamente gerações.
“O exemplo dos senseis do meu dojô foi determinante. O professor Edilson Hobold mostrou, na prática, o que significa arbitrar com responsabilidade, conhecimento e postura, ensinando que a arbitragem também é uma forma de educar dentro do judô”, relata Gabriela.

Gabriela Simone Harnisch em atuação no Campeonato Sul-Americano, realizado na Colômbia, em outubro de 2024 © Arquivo
Para Gabriela, o principal critério técnico para a aprovação de um árbitro no cenário internacional está diretamente ligado ao domínio das regras e à capacidade de comunicação no ambiente global da modalidade.
“Acredito que o conhecimento das regras, o SOR, seja o mais relevante. Em segundo lugar, elenco o conhecimento do idioma inglês, que possibilita a interação, o êxito na entrevista e a comunicação de forma geral no ambiente dos eventos internacionais”, afirma.
Ao tratar do sistema de observação internacional, Gabriela demonstra maturidade ao reconhecer que ainda não vivenciou diretamente os grandes eventos do circuito mundial, optando por uma leitura honesta e responsável do próprio momento de carreira. “Ainda não tive a oportunidade de viver esses eventos e esses ambientes e, por isso, não tenho condições de opinar a respeito”, pondera.
Para ela, a progressão do árbitro exige muito mais do que domínio técnico. Pressão, exposição midiática e a necessidade de argumentação constante fazem parte do cotidiano da arbitragem em níveis mais elevados.
“Certamente exige muito mais do que conhecimento técnico. Exige a maneira de lidar com a pressão que vem de vários âmbitos, o conhecimento e a habilidade que possibilitam argumentar com treinadores e atletas, além da mídia que está o tempo todo nos cercando”, observa. “Se fosse só conhecimento técnico, seria fácil. Mas, se fosse fácil, também não teria graça.”

Certificado de árbitra FIJ B de Gabriela Simone Harnisch, obtido em Lima, em 2024 © Arquivo
Nos momentos de maior tensão competitiva, Gabriela admite ser exigente consigo mesma, mas demonstra consciência sobre os limites humanos da função arbitral. “Eu me cobro muito. Não quero errar, não quero ser responsável por resultados equivocados”, afirma. “Quero apenas mediar os combates de maneira que a regra prevaleça e o resultado correto se efetive. Ao mesmo tempo, aceito que nós, árbitros, somos humanos e passíveis de erro.”
Segundo ela, o avanço tecnológico e os mecanismos de apoio à arbitragem ajudam a minimizar falhas, enquanto estratégias pessoais de controle emocional são fundamentais para lidar com ansiedade e nervosismo. “Busco sempre estratégias para me acalmar e lidar com a ansiedade para conseguir atuar de maneira que isso não me atrapalhe”, completa.
Ao se dirigir aos árbitros mais jovens, Gabriela faz um convite pouco comum em ambientes altamente competitivos: valorizar o caminho, e não apenas o objetivo final. “Sejam felizes no processo e não somente no resultado final. Sejam felizes enquanto estão no shiai-jô”, aconselha. “Desfrutem das amizades que o judô proporciona e aproveitem os momentos com os amigos.”

Gabriela Simone Harnisch em atuação nos Jogos da Juventude, realizados em Brasília, em setembro de 2025 © Arquivo
No recorte feminino, Gabriela avalia que o reconhecimento das árbitras vem sendo construído a partir da competência demonstrada no exercício da função, e não por concessões simbólicas.
“O trabalho desenvolvido pelas árbitras tem sido cada vez mais reconhecido e valorizado, não por serem mulheres, mas pela competência que têm demonstrado”, afirma. Ela destaca ainda o papel institucional de gestões que promoveram a equidade de gênero e criaram oportunidades reais de atuação.
“No Brasil, o trabalho feito pelo sensei Minakawa na gestão da arbitragem e da sensei Thiara na gestão de eventos abriu espaço para que eu e todas as demais pudéssemos mostrar nosso trabalho”, reconhece.
Gabriela também faz questão de ressaltar a importância de sensei Marilaine Ferranti como referência direta no processo de promoção recente das árbitras.
“Nós que fomos promovidas recentemente recebemos apoio de uma pessoa muito importante: a sensei Marilaine Ferranti, a primeira árbitra FIJ A do Brasil. Antes de nós, ela trilhou esse caminho sozinha e enfrentou desafios gigantescos. A ela, minha eterna gratidão.”

Gabriela Harnisch no Open Pan-Americano de Lima 2025 © Arquivo
Para Gabriela, o papel das árbitras mais experientes é essencialmente o acolhimento e a orientação, garantindo que as novas integrantes se sintam parte do grupo e saibam lidar com situações delicadas. “A principal função é o acolhimento das demais que estão chegando, fazer com que elas se sintam parte desse grupo e orientar diante de situações que, às vezes, são desconfortáveis”, explica.
Ao abordar o tema do preconceito, Gabriela é direta e firme. Reconhece que o judô ainda é um espaço majoritariamente masculino, mas entende que a presença feminina é um caminho irreversível. “Para alguns, ainda é difícil ver a ascensão de uma mulher diante de sua competência. Mas acho que a presença das mulheres nos espaços do judô é um caminho sem volta”, conclui. “Quem não concorda terá que conviver com isso, gostando ou não.”
Natural de Santos Dumont (MG), onde nasceu em 11 de março de 1985, Rodrigo Alves da Silva construiu sua trajetória no judô a partir de uma relação direta com o tatami e com o ambiente competitivo. Aluno do sensei Hevilmar dos Santos Rocha, é formado em Educação Física (015861-G/MG), pós-graduado em Treinamento Esportivo e Ergonomia, instrutor de judô pela IJF Academy. Rodrigo é faixa-preta yon-dan (4º dan), árbitro FIJ B – Continental, representa a Federação Mineira de Judô e atua pelo AER Usipa, em Ipatinga (MG), e possui domínio intermediário do inglês e conhecimento básico de espanhol.

Registro de Rodrigo Alves da Silva durante a prova prática do exame para árbitro FIJ B – Continental, realizada em Tashkent, Uzbequistão, em maio de 2025 © Arquivo
Sua entrada na arbitragem ocorreu em 2009, motivada pelo desejo de permanecer no ambiente competitivo e de buscar evolução constante nos níveis de alto rendimento. Para Rodrigo, a arbitragem sempre esteve associada à prática do judô e à vivência diária do dojô, fatores que considera determinantes para uma atuação segura e equilibrada.
“É necessário um conhecimento avançado das regras e das técnicas do judô, além do domínio do inglês para conseguir interagir com coordenadores, supervisores e colegas”, afirma. Para Rodrigo, esse repertório técnico precisa caminhar lado a lado com maturidade emocional e disciplina judoísta, especialmente em contextos de alta pressão, nos quais a estabilidade do árbitro é determinante para a condução justa dos combates.”
Ao abordar o sistema de observação internacional, Rodrigo demonstra naturalidade diante do rigor do monitoramento e reforça que a chave está na preparação contínua, e não apenas nos momentos que antecedem as competições.
“Para mim é tranquilo, desde que haja a necessidade de se manter ativo na prática do judô, com estudo constante das regras e acompanhando as pequenas mudanças adotadas a cada temporada”, explica.
Para o árbitro mineiro, a progressão na arbitragem exige um conjunto de valores que vai além do conhecimento técnico. Postura, ética e respeito à hierarquia aparecem como pilares centrais de sua formação. “Companheirismo, cordialidade, boa comunicação e respeito hierárquico são essenciais”, destaca. “Compreender as orientações e acatar de forma serena as decisões dos superiores faz parte do processo.”

Rodrigo Silva durante a prova teórica do exame para árbitro FIJ B – Continental, realizada em Tashkent, Uzbequistão © Arquivo
Nos grandes eventos, quando as decisões precisam ser tomadas em frações de segundo, Rodrigo acredita que a segurança nasce da preparação técnica aliada à vivência constante nos tatamis. “Quando estamos preparados tecnicamente, com conhecimento das regras e do judô, fica mais fácil avaliar”, afirma. “O costume de estar sempre no tatami, treinando, dando aula, auxilia ainda mais, além do suporte técnico do VAR. Com a combinação desses fatores, não há por que nos desestabilizarmos.”
Ao se dirigir aos árbitros mais jovens, Rodrigo adota um tom direto e prático, condizente com sua própria trajetória. Para ele, o caminho passa necessariamente pela vivência cotidiana, pelo estudo e pela escuta atenta aos mais experientes.
“Treinem judô, estudem as regras, estudem inglês, façam o IJF Academy e auxiliem suas federações”, orienta. “Aproveitem todas as oportunidades de estar no shiai-jô, se coloquem à prova e escutem sempre os mais graduados que vocês confiam e têm como referência.”

Sensei Rodrigo exibe o certificado de conclusão da IJF Academy no Instituto Kodokan, em Tóquio, em maio de 2025 © Arquivo
Consciente de que a caminhada é longa, Rodrigo conclui com uma mensagem realista e motivadora. “A jornada é repleta de desafios, mas vencê-los nos traz grande aprendizado e satisfação.”
A história da arbitragem brasileira no judô nunca foi construída por atalhos. Desde sua gênese, marcada por personagens que ajudaram a estruturar regras, métodos e valores no cenário internacional, até a consolidação de uma escola reconhecida mundialmente, o Brasil sempre compreendeu a arbitragem como parte essencial do fomento da cultura do judô — não apenas como instrumento de julgamento, mas como pilar formativo da modalidade.

Professor Rodrigo ao lado de Florin Daniel Lascau, diretor de Esportes da IJF Academy, no Instituto Kodokan © Arquivo
O presente retratado nesta série revela uma geração que não surge por acaso. Kamila Elisabete Lemos, Sérgio Ricardo Borba, Renata Moreira, Gabriela Simone Harnisch e Rodrigo Alves da Silva representam trajetórias distintas, oriundas de diferentes estados, com formações, vivências e leituras próprias do judô. Ainda assim, compartilham um mesmo denominador comum: a compreensão de que arbitrar é um exercício permanente de estudo, equilíbrio, ética e responsabilidade institucional.
Ao dar voz a esses árbitros, a reportagem evidencia que o futuro da arbitragem brasileira está ancorado em processos sólidos, na transmissão de conhecimento entre gerações e no respeito à diversidade de caminhos que compõem o judô nacional. Há, nas falas e trajetórias apresentadas, a clara noção de que a ascensão individual só faz sentido quando associada ao fortalecimento coletivo da modalidade.

Registro de Rodrigo Alves da Silva com o escudo, a gravata e o certificado de árbitro FIJ B – Continental © Arquivo
Se o passado legou referências que projetaram o Brasil no mais alto nível da arbitragem mundial, o presente demonstra maturidade e consciência do papel desempenhado dentro e fora do tatami. E o futuro, que já se desenha a partir dessa nova geração, aponta para uma arbitragem cada vez mais preparada para lidar com os desafios técnicos, humanos e institucionais de um esporte em constante transformação.

Registro de Renata Moreira, Sérgio Borba e Kamila Lemos no Meeting Interestadual 2025, em Blumenau © Arquivo
Mais do que formar árbitros, a arbitragem brasileira segue cumprindo sua missão histórica: educar pelo exemplo, preservar a integridade do combate e garantir que o judô continue sendo um espaço de justiça, respeito e desenvolvimento humano. É nesse equilíbrio entre tradição e renovação que se sustenta a credibilidade da escola brasileira de arbitragem — ontem, hoje e amanhã.

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