Ação da FPJudô e SESI-SP na final do Paulista Sub 15 mostra que o sonho olímpico é possível

Rodrigo Almeida Leal, supervisor de Esportes do SESI-SP; Michel Natan Félix Augusto, judoca do SESI-SP; e Henrique Guimarães, presidente da FPJudô © Global Sports

Presença de Michel Augusto em Indaiatuba aproximou a elite da base paulista do alto rendimento e reforçou uma mensagem essencial: antes da medalha, o judô precisa formar cultura, pertencimento e projetos de vida em torno da modalidade.

Por Paulo Pinto / Global Sports
Curitiba, 17 de maio de 2026

A fase final do Campeonato Paulista Sub 15, realizada em Indaiatuba, teve medalhas, combates intensos, arquibancada cheia, famílias acompanhando as lutas e atletas tentando transformar anos de treino em resultado. Tudo isso já seria suficiente para justificar a importância da competição. Mas houve algo a mais.

Naquele fim de semana, a Federação Paulista de Judô e o SESI-SP produziram um gesto simples na forma, mas poderoso no significado: levaram Michel Natan Félix Augusto ao encontro dos 302 judocas de 82 equipes que disputavam a fase final do estadual. Não era apenas a presença de um atleta consagrado. Era a presença do único judoca brasileiro que, naquele momento, ocupava o primeiro lugar do ranking mundial da Federação Internacional de Judô (FIJ).

Arena do SESI em Indaiatuba foi completamente tomada pelo público, que compareceu em grande número e valorizou a fase final do Campeonato Paulista Sub 15 © Global Sports

Para meninos e meninas com menos de 15 anos, essa imagem tem força. Michel não compareceu ao CAT Sesi Indaiatuba como uma figura distante, inalcançável, protegida pela aura dos grandes campeões. Entrou como alguém que já esteve no mesmo lugar daqueles jovens. Um menino que um dia vestiu o judogi para treinar, caiu, levantou, perdeu, venceu, voltou para casa cansado, sonhou com a seleção brasileira e, passo a passo, edificou uma trajetória até chegar ao topo do mundo.

Essa talvez tenha sido a mensagem mais forte da ação: o alto rendimento não nasce no pódio. Nasce antes. Nasce no dojô, na rotina, no sensei, na disciplina, na relação com o professor, no respeito aos colegas, na família que acompanha, na entidade que organiza, no clube que oferece estrutura e na cultura judoísta que sustenta tudo isso.

O professor Vitor Leopoldo cumprimenta o judoca Michel Augusto durante a final do Campeonato Paulista Sub 15 © Global Sports

O sonho olímpico, quando aparece diante de uma criança, não pode parecer fantasia. Precisa parecer caminho. E foi exatamente isso que a ação conjunta entre FPJudô e SESI-SP colocou diante da nova geração paulista.

A cultura do judô antes da medalha

Falar em formação de base no judô exige cuidado. Não basta reunir jovens em uma competição, entregar medalhas e dizer que o futuro está garantido. O futuro não se constrói apenas com calendário. Constrói-se com ambiente técnico, educativo, ético e de pertencimento. É isso que se chama, de fato, cultura do judô.

Essa cultura não está apenas no rei inicial, na reverência ao professor ou na organização do shiai-jô. Ela está no modo como o judoca aprende a lidar com a vitória e, principalmente, com a derrota. Está na forma como os pais entendem o processo. Está na postura dos técnicos. Está na responsabilidade dos dirigentes. Está na capacidade de fazer uma criança compreender que competir é importante, mas que o judô é maior do que o resultado de uma súmula.

Michel Augusto conduz o pavilhão do SESI-SP durante a cerimônia de abertura do Campeonato Paulista Sub 15 © Global Sports

Ao valorizar a presença de Michel Augusto no Paulista Sub 15, o professor Henrique Guimarães, presidente da Federação Paulista de Judô, reforçou uma linha de pensamento que precisa ganhar cada vez mais espaço no judô brasileiro: “a base não pode ser tratada como etapa menor. A base é o centro de tudo. É ali que se formam os futuros atletas, mas também os futuros professores, árbitros, dirigentes, voluntários, pais conscientes e cidadãos que levarão os valores do judô e os princípios de Jigoro Kano para muito além dos tatamis.”, expôs Guimarães.

A competição estadual Sub 15 não reuniu apenas jovens buscando pontos no ranking paulista e vaga na seleção paulista. Reuniu famílias, clubes, projetos, professores e realidades muito diferentes. Cada atleta que entrou no tatami carregava uma história. Alguns talvez cheguem à seleção brasileira. Outros talvez não sigam no alto rendimento. Mas todos, se forem bem conduzidos, podem sair do judô melhores do que entraram. Esse é o ponto.

Michel Augusto é ovacionado e aplaudido pelo público presente durante a cerimônia de abertura da final do Campeonato Paulista Sub 15 © Global Sports

A cultura do judô não pode depender apenas dos talentos que chegam ao topo. Ela precisa alcançar também aqueles que permanecem no caminho, mesmo sem medalha internacional, porque são eles que mantêm viva a modalidade nos clubes, nas associações, nas escolas e nos projetos sociais espalhados pelas 645 cidades do estado de São Paulo.

O campeão que também já foi promessa

Michel Augusto falou aos jovens atletas sobre sua trajetória, sobre os caminhos que o levaram ao alto rendimento e sobre a importância de reconhecer quem participa da construção de uma carreira. Não há campeão sem rede de apoio. Não há número um do mundo sem professor, clube, rotina, gestão, família, investimento e ambiente de cobrança saudável.

https://www.instagram.com/kimonosakurarp/

Michel lembrou que sua trajetória iniciou em Bastos, em 2010, sob orientação do sensei Uishiro Umakakeba, passou pelo Projeto Futuro e ganhou novo impulso no início de 2021, quando, ainda com 17 anos e na classe Sub 18, foi acolhido pelo SESI-SP. Ao retornar a um Campeonato Paulista Sub 15, agora como referência para centenas de jovens judocas, o líder do ranking mundial dos ligeiros (60kg) reconheceu que a experiência o reconectou com uma fase decisiva de sua formação, justamente a categoria em que conquistou seu primeiro título paulista, em 2017.

“Estar aqui me traz muitas lembranças boas. Foi no Sub 15 que comecei a me destacar, quando conquistei meu primeiro título paulista, em 2017. Voltar agora, prestigiar esse evento e ver esses atletas competindo é motivo de muita felicidade. Fico muito feliz por poder ser exemplo para essa nova geração e também para meus colegas do SESI-SP, porque um dia eu também fui um garoto cheio de sonhos, que tinha referências e se inspirava em grandes nomes. Entre as pessoas que mais me marcaram estão o sensei Umakakeba e Thiago Camilo, que foi medalhista olímpico ainda muito jovem. Eles me inspiraram bastante, assim como muitas outras pessoas que me ajudaram ao longo do caminho”, afirmou Michel Augusto.

Michel Augusto faz a preleção com os atletas do SESI-SP da classe Superligeiro no início da competição © Global Sports

Sua fala teve peso justamente por não parecer distante da realidade dos atletas. Michel não representa apenas o resultado final. Representa o percurso. O treino que ninguém vê. O controle emocional depois de uma derrota. A humildade para corrigir erros técnicos. A confiança no professor. A paciência para amadurecer. A coragem de enfrentar adversários mais fortes. A capacidade de seguir quando o corpo cansa e a cabeça duvida.

Para um atleta Sub 15, ouvir isso de alguém que hoje ocupa o topo do ranking mundial tem outro peso. Não é palestra genérica. Não é frase de efeito. É testemunho!

A pedagogia do exemplo

Para Vitor Soares Leopoldo, coordenador do SESI-SP Judô, sediar a fase final do Campeonato Paulista Sub 15 representou mais do que receber uma competição de base. Foi uma oportunidade de aproximar a estrutura do clube de uma geração que já começa a projetar seus próprios caminhos dentro da modalidade.

“Sediar um Paulista Sub 15 é motivo de muito orgulho para nós. Esta é uma classe em que o SESI-SP tem grande fomento e investimento. Proporcionar um evento para essa garotada é motivo de orgulho, mas também de responsabilidade”, afirmou.

Victor Soares Leopoldo, coordenador do SESI-SP Judô; André Luis Martins da Silva, gerente regional do SESI Indaiatuba; Michel Augusto; Henrique Guimarães, presidente da FPJudô; e Rodrigo Almeida Leal, supervisor de Esportes do SESI-SP © Global Sports

A responsabilidade citada por Vitor não se limita à organização do evento. Ela passa pela compreensão de que muitos daqueles jovens já enxergam o judô como projeto de vida. Competir dentro da casa do SESI-SP, nesse contexto, amplia o sentido da experiência.

“Esses judocas têm o objetivo de chegar ao topo do alto rendimento. O fato de poderem lutar em casa é muito importante, porque aumenta o brilho e a visibilidade interna para eles. Mas também aumenta a responsabilidade”, destacou.

Ao comentar a presença de Michel Augusto na competição, Vitor foi direto ao ponto. A iniciativa, desenvolvida em conjunto pelo SESI-SP e pela Federação Paulista de Judô, não nasceu apenas como uma homenagem ou uma visita protocolar de um atleta consagrado. Ela nasceu de uma compreensão formativa: aproximar a nova geração de uma referência concreta do alto rendimento, em sintonia com um princípio adotado pelo SESI-SP em seu trabalho de base — a pedagogia do exemplo.

“O SESI-SP tem um projeto que, na verdade, é um princípio utilizado como proposta de trabalho: o princípio da pedagogia do exemplo. Nossos atletas precisam ser exemplos para os alunos e para os demais atletas da casa. Isso faz parte da cultura do SESI”, explicou.

Michel Augusto com os treinadores e atletas da classe Superligeiro do SESI-SP © Global Sports

Foi com esse propósito que Michel foi levado ao encontro da nova geração. O número um do ranking mundial dos ligeiros não esteve em Indaiatuba apenas para ser visto, fotografado ou aplaudido. Esteve ali para cumprir uma função formativa: mostrar, com a própria presença, que a distância entre a base e o alto rendimento pode ser vencida com trabalho, humildade e compromisso.

“Trouxemos o Michel aqui para ser espelho dessa geração que surge em busca de espaço e visibilidade nos cenários estadual, nacional e mundial”, afirmou Vitor.

Na avaliação do coordenador, quando um atleta da base vê de perto alguém que chegou ao topo, o sonho deixa de ser uma ideia distante e passa a ter rosto, história e caminho. O efeito é técnico, emocional e educativo.

“Ele veio mostrar: sou o atleta número um do ranking mundial, sou atleta olímpico, mas tenho humildade e comprometimento suficientes para estar aqui. Vim mostrar a todos vocês que cresci aqui, estou aqui com vocês, dando força, ajudando, passando um pouco da minha experiência e mostrando que é possível, sim, chegar ao topo do mundo”, ressaltou.

Michel Augusto e Rodrigo Almeida Leal após a cerimônia de abertura do Campeonato Paulista Sub 15 © Global Sports

A ação, segundo Vitor, sintetiza um dos pontos mais fortes da proposta formativa do SESI-SP e dialoga diretamente com os valores mais profundos do judô. Formar atletas é importante. Formar referências é ainda mais decisivo.

“Como gestor e também como judoca, vejo que isso aumenta a autoestima e a confiança dos atletas dessa geração que estão aqui. Eles terão para sempre como referência um atleta que está no topo, mas que também é exemplo de humildade e comprometimento”, observou.

“Posso ser o número um do mundo, mas estou aqui. Vim hoje ajudar e passar confiança a cada um de vocês. Isso é um exemplo claríssimo do princípio da pedagogia que o SESI-SP utiliza na formação das novas gerações de esportistas e, principalmente, na formação integral de seres humanos. E, certamente, é um dos pilares do judô”, concluiu.

Henrique Guimarães reforça o sentido formativo da ação

Para o professor Henrique Guimarães, presidente da FPJudô, a presença de Michel Augusto em Indaiatuba, cumpriu uma função que vai muito além da inspiração momentânea. A ação, realizada em parceria com o SESI-SP, aproximou os jovens atletas de uma referência concreta do alto rendimento e mostrou que o sonho olímpico precisa ser apresentado à base como possibilidade real, desde que sustentado por formação, disciplina, estrutura e valores.

“Quando um atleta Sub 15 olha para o Michel Augusto, ele não vê apenas o número um do ranking mundial ou um judoca olímpico. Ele vê alguém que também começou menino, que também teve professores, que também passou por derrotas, dúvidas, treinos difíceis e etapas de amadurecimento. Essa é a grande mensagem pedagógica dessa ação: mostrar que o topo existe, mas que ele só é alcançado por quem respeita o caminho, a formação e a cultura do judô”, destacou Henrique Guimarães.

Henrique Guimarães e Michel Augusto realizam a premiação do ligeiro Arthur Ribeiro, do SESI-SP © Global Sports

O dirigente também ressaltou que iniciativas desse tipo ajudam a fortalecer a compreensão de que a base não deve ser tratada apenas como categoria competitiva, mas como ambiente de construção humana e esportiva. Para ele, a parceria entre FPJudô e SESI-SP traduziu, na prática, a responsabilidade de formar atletas com ambição, mas também com humildade, pertencimento e consciência do papel que o judô exerce dentro e fora dos tatamis.

“O Campeonato Paulista Sub 15 revelou campeões, formou a seleção paulista e movimentou dezenas de equipes, mas o maior legado talvez esteja nessa semente plantada em cada jovem judoca. O Michel esteve aqui como exemplo vivo de que é possível chegar, mas também como prova de que ninguém chega sozinho. É preciso professor, família, clube, federação, disciplina e propósito. Quando conseguimos unir tudo isso, deixamos de realizar apenas uma competição e passamos a formar uma geração”, concluiu o presidente da FPJudô.

Mais do que campeões estaduais

O Campeonato Paulista Sub 15 consagrou campeões estaduais e definiu caminhos para a formação da seleção paulista. Esse é o lado objetivo da competição. O lado mensurável. O que aparece nas chaves, nas medalhas, nos resultados. Mas o legado daquele encontro não cabe apenas na classificação final.

Essa é a força da cultura do judô. Ela não termina quando a luta acaba. Continua na postura, na memória, na conduta e na maneira como cada geração entrega à próxima aquilo que recebeu.

Indaiatuba recebeu uma competição. Mas recebeu também uma mensagem. O topo existe. O sonho olímpico é possível. Só que o caminho até lá não começa no aeroporto, na seleção brasileira ou no circuito mundial.

Começa muito antes. Inicia quando uma criança entende que o judô não é apenas uma luta. É uma forma de viver e caminhar.

https://www.originaltatamis.com.br/