Alternativas não convencionais para a perda de peso para atletas de wrestling

Perda de peso mal conduzida compromete o equilíbrio fisiológico e o desempenho dos atletas © United World Wrestling Press

A partir de ampla revisão científica, o professor Sérgio Santos analisa práticas de perda rápida de peso no wrestling e discute riscos, limites fisiológicos e alternativas mais controladas para preservação da saúde e do desempenho esportivo.

Por Sérgio Luiz Carlos dos Santos
Revista Multidisciplinar do Nordeste Mineiro (Remunom)
Curitiba, 20 de janeiro de 2026

Este é mais um conteúdo de alto rigor acadêmico produzido pelo professor Sérgio Luiz Carlos dos Santos, pós-doutor em Ciências do Esporte e uma das principais referências brasileiras na produção de conhecimento aplicado aos esportes de combate. Com sólida trajetória acadêmica e extensa vivência prática, o autor transita com autoridade entre ciência, treinamento e realidade competitiva de modalidades como judô, karatê, jiu-jitsu e wrestling.

Publicado na Revista Multidisciplinar do Nordeste Mineiro (Remunom) — periódico de alcance nacional e internacional, reconhecido por seu rigor científico —, o artigo aborda um dos temas mais sensíveis e recorrentes no alto rendimento: a perda de peso pré-competitiva. Trata-se de um fator determinante para o desempenho esportivo e, ao mesmo tempo, um dos principais vetores de risco à saúde de atletas de combate.

Estratégias de redução de peso exigem controle científico para preservar força, potência e saúde © United World Wrestling Press

Com foco específico em atletas de wrestling do ensino médio (High School) e universitário (College) dos Estados Unidos, o estudo revisa práticas tradicionais e alternativas de perda de peso, analisando seus impactos fisiológicos, hormonais e funcionais. Ao longo do texto, o autor discute não apenas métodos isolados, mas também a combinação de estratégias — como treinamento de alta intensidade, dieta e desidratação controlada —, sempre à luz da literatura científica e das diretrizes de entidades como o American College of Sports Medicine (ACSM).

Para acessar o artigo científico original, clique AQUI.

Resumo

A perda de peso é uma prática amplamente difundida entre atletas de wrestling e de outros esportes de combate, frequentemente associada à busca por vantagem competitiva. Esta revisão de literatura tem como objetivo apresentar alternativas de perda de peso voltadas a atletas de wrestling do ensino médio e universitário norte-americano.

O estudo analisa métodos isolados e combinados, como treinamento de alta intensidade, desidratação e restrição alimentar, discutindo seus efeitos sobre o desempenho e a saúde. A chamada perda rápida de peso (PRP), geralmente realizada em períodos de até três semanas, envolve práticas severas como restrição de líquidos, exercícios extenuantes, uso de roupas emborrachadas, saunas, indução de vômitos e, em alguns casos, o uso de agentes farmacológicos.

https://www.originaltatamis.com.br/

Dados de pesquisas com atletas de esportes de combate indicam alta frequência de métodos como corrida (91,1%), sauna (55,6%), roupas emborrachadas (48,8%) e diuréticos (11,1%), reforçando a necessidade de discussão crítica e científica sobre essas práticas.

  1. Introdução

A perda rápida de peso, conhecida como “corte de peso”, é prática recorrente entre lutadores norte-americanos do ensino médio e universitário. Embora fortemente condenada pelo ACSM, o tema já motivava debates científicos desde a década de 1970, quando começaram a surgir posicionamentos oficiais e ampla produção acadêmica sobre seus riscos.

Essas estratégias envolvem exercícios extenuantes, desidratação passiva por exposição ao calor e restrição severa de alimentos e líquidos. Em competições de curta duração — muitas delas realizadas em um ou até três dias —, a recuperação energética rápida torna-se um fator crítico, influenciando diretamente o desempenho.

A perda rápida de peso, quando não monitorada, impõe riscos metabólicos e hormonais ao atleta © United World Wrestling Press

No wrestling internacional, há um intervalo de aproximadamente 24 horas entre a pesagem e a competição (United World Wrestling, 2025). Já no wrestling universitário norte-americano, esse intervalo pode ser de apenas duas horas, o que leva muitos atletas a priorizarem estratégias extremas de redução e recuperação acelerada de peso.

Estudos indicam que lutadores adolescentes frequentemente reduzem entre 9% e 13% do peso corporal durante a temporada competitiva, atingindo níveis de gordura corporal extremamente baixos, com potenciais impactos negativos ao sistema endócrino e ao equilíbrio hormonal (ACSM, 1999).

  1. Referencial teórico

A literatura aponta que reduções abruptas de peso superiores a 2 kg eram comuns entre lutadores universitários, chegando a mais de 2,7 kg em cerca de 20% dos casos (Tipton & Tcheng, 1969; Tipton et al., 1970). Apesar de estudos históricos, a prática persiste, e episódios de morte associados ao corte de peso foram registrados, como em 1997, quando três lutadores universitários faleceram devido a métodos extremos.

Como resposta, a NCAA estabeleceu, em 1998, limites mínimos de gordura corporal, seguidos por recomendações da NFHS para atletas do ensino médio. Pesquisas posteriores analisaram os efeitos da desidratação moderada (2–3%) e seus impactos na força, potência e resistência muscular, apontando que, quando controlada, pode não comprometer o desempenho imediato, embora os riscos aumentem conforme a magnitude e a velocidade da perda de peso.

O autor destaca que o principal problema não está apenas no método, mas na falta de controle, no excesso e na repetição crônica, especialmente em atletas adolescentes, cujo organismo ainda está em desenvolvimento.

  1. Efeitos mais graduais da perda de peso

Estudos como os de Horswill et al. (1990) e Rankin et al. (1996) demonstram que perdas graduais de peso, mesmo em curto prazo, podem comprometer o desempenho em testes específicos de alta intensidade, sobretudo quando associadas à restrição energética severa. Dietas ricas em carboidratos mostraram-se fundamentais para atenuar esses efeitos, especialmente em competições com múltiplas lutas no mesmo dia.

  1. Discussão

Análises em lutadores adolescentes revelaram quedas significativas na força e no torque muscular após perdas abruptas de peso, com recuperação completa ocorrendo apenas após vários meses. Esses achados reforçam que o impacto da PRP não é apenas imediato, mas também prolongado, afetando o rendimento e a saúde a médio prazo.

  1. Metodologia

O estudo envolveu atletas de luta olímpica da Universidade Federal do Paraná, totalizando 60 participantes, com média de idade de 24,3 anos e tempo médio de prática de quatro anos. A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas estruturadas, com posterior tabulação e análise descritiva.

Conclusão e considerações finais

O estudo conclui que não existe um método único ideal para a redução de peso em atletas de wrestling. Cada estratégia apresenta riscos e benefícios, dependendo do perfil do atleta, do controle fisiológico e da condução do processo. No entanto, o autor reforça que a saúde deve ser sempre prioridade, sobretudo em atletas adolescentes, cujas práticas extremas continuam sendo severamente criticadas pelo Colégio Americano de Medicina Esportiva.

Professor Sérgio Luiz Carlos dos Santos © UFPR

Sobre o autor

O professor Sérgio Luiz Carlos dos Santos é pós-doutor em Ciências do Esporte pela Universidade de Barcelona; doutor e mestre em Educação e Pedagogia do Esporte; pós-graduado pela University of Tsukuba (Japão), como bolsista do Ministério da Educação japonês; e licenciado em Educação Física pela USP.

Atuou por mais de 20 anos como professor de judô, wrestling e esgrima na Universidade Federal do Paraná, além de professor convidado em cursos de mestrado e doutorado na Universidade de Barcelona. Foi também professor de Judô e Educação Física no Colégio Dante Alighieri. É autor de 14 livros e centenas de artigos científicos.

https://www.instagram.com/kimonosakurarp/