Aos 33 anos, Rafaela Silva dá um ippon na idade e conquista o ouro no Grand Slam de Paris

Rafael comemora o ouro inédito © Tamara Kulumbegashvili / FIJ

Campeã olímpica e bicampeã mundial, judoca criada na Cidade de Deus formada por Geraldo Bernardes confirma excelência técnica, maturidade competitiva e vence uma das etapas mais difíceis do World Tour da FIJ.

Por Paulo Pinto | Global Sports
Curitiba, 8 de fevereiro de 2026

A vitória de Rafaela Silva no Grand Slam de Paris não é apenas mais uma medalha de ouro no currículo de uma atleta consagrada. É, sobretudo, um gesto simbólico, quase um manifesto esportivo. Aos 33 anos, idade em que boa parte da elite do judô mundial — especialmente no Japão — já se despede dos tatamis, a campeã olímpica brasileira foi a Paris para fazer exatamente o oposto: enfrentar o tempo, a estatística e a cultura da aposentadoria precoce. E venceu.

Nascida e criada na Cidade de Deus, formada no Instituto Reação e lapidada tecnicamente sob a condução do professor kodansha kyuu-dan (9º dan), Geraldo Bernardes, Rafaela construiu uma carreira que sempre desafiou expectativas. Em Paris, palco histórico do judô mundial e uma das etapas mais competitivas do World Tour da Federação Internacional de Judô, ela confirmou que experiência, inteligência competitiva e maturidade emocional seguem sendo ativos decisivos no alto rendimento.

Não se trata de um detalhe menor. O Grand Slam de Paris, ao lado do Grand Slam de Tóquio, é reconhecido como a competição mais exigente do circuito internacional, seja pela densidade técnica das chaves, pela atmosfera historicamente hostil imposta pela torcida local ou pelos próprios simbolismos que cercam o evento. Vencer ali é mais do que conquistar uma medalha: é afirmar estatura esportiva.

Final entre Enkhriilen Lkhagvatogoo (MGL) e Rafaela Silva (BRA), Grand Slam de Paris 2026 © Emanuele Di Feliciantonio / FIJA

O feito ganha ainda mais relevância quando observado sob uma lente comparativa. Nos últimos anos, o judô japonês — referência histórica da modalidade — tem visto seus principais atletas se aposentarem entre os 30 e 32 anos. Casos recentes como o da campeã olímpica Natsumi Tsunoda e do virtuoso Joshiro Maruyama, que encerrou a carreira em 2025 deixando um legado técnico admirável, ilustram essa tendência. Rafaela, porém, escolheu outro caminho. Em vez da despedida, optou pelo enfrentamento.

E enfrentou as melhores. Em Paris, passou por adversárias ranqueadas entre as principais do mundo, superou campeãs mundiais — e potenciais olímpicas — e decidiu a final com autoridade, recorrendo ao ne-waza para encerrar o combate por ippon. Técnica apurada, leitura de luta precisa e a frieza de quem já esteve ali incontáveis vezes — e sabe exatamente o que fazer.

Ao subir no lugar mais alto do pódio, ouvir o Hino Nacional Brasileiro e ver a bandeira verde e amarela ser hasteada no Palais de Bercy, Rafaela fez um gesto simples, mas carregado de significado: curvou-se. Um agradecimento silencioso ao judô, à própria história e ao caminho percorrido. “Arigatô, judô”, como ela mesma resumiria.

Pódio do peso meio-médio (-63 kg) com Rafaela Silva (BRA) ouro; Enkhriilen Lkhagvatogoo (MGL) prata; Kirari Yamaguchi (JPN) bronze; Joanne Van Lieshout (NED) bronze; medalhas, cheques e flores entregues por Thomas Konietzko, presidente da Federação Internacional de Canoagem, e Emilie Andeol, campeã olímpica e mundial, bicampeã europeia e vice-presidente da Federação Francesa de Judô © Sabau Gabriela / FIJ

Judoca mais laureada da história da América do Sul, Rafaela Silva ocupa hoje um lugar singular no cenário continental, superada apenas, em termos de títulos continentais, pela peso-pesado cubana Idalys Ortiz. Campeã olímpica no Rio 2016, medalhista em Paris 2024 por equipes, bicampeã mundial e presença constante nos pódios do World Tour, ela segue reescrevendo sua trajetória sem concessões.

Aos 33 anos, Rafaela não venceu apenas um Grand Slam. Venceu o tempo, desafiou padrões estabelecidos e lembrou ao judô mundial que a excelência não tem data de validade. Em Paris, não foi apenas ouro. Foi afirmação histórica.

Caminho até o ouro

Para chegar ao ouro em Paris, Rafaela Silva precisou atravessar um caminho de altíssimo nível técnico. Nas oitavas de final, superou a italiana Carlotta Avanzado, atleta do top 25 mundial, com um wazari no último segundo de combate. Nas quartas, enfrentou a holandesa Joanne Van Lieshout, campeã mundial em 2024, e novamente venceu com autoridade, anotando mais um wazari.

Em foto de Camila Dantas / CBJ, Rafaela Silva exibe a medalha de ouro que projetou o Brasil à sexta colocação em um certame que reuniu 488 atletas de 78 países © Sabau Gabriela / FIJ

Na semifinal, a brasileira teve pela frente a japonesa Kirari Yamaguchi, então top 8 do ranking mundial. Com leitura precisa da luta, Rafaela marcou um wazari e um yuko, garantindo vaga em sua primeira final no Grand Slam de Paris.

Na decisão, diante da mongol Enkhriillen Lkhagvatogo, atleta do top 10 mundial, Rafaela foi direta e eficiente. Logo nos primeiros 40 segundos, levou o combate para o ne-waza e finalizou a adversária com uma chave de braço bem aplicada. Ippon. Ouro confirmado em um dos palcos mais simbólicos do judô mundial.

Após a conquista, Rafaela destacou o peso e a importância histórica do resultado. “Com certeza é a realização de um sonho. Venho buscando esse ouro no Grand Slam de Paris há muito tempo, e a gente sabe o quanto é difícil. Faziam dez anos que o Brasil não chegava a uma final feminina aqui, então entendemos o tamanho dessa medalha. Estou muito feliz por começar o ano com o pé direito e espero continuar evoluindo meu judô da melhor maneira possível”, afirmou a campeã do meio-médio.

http://www.shihan.com.br

📊 Rafaela Silva no World Tour da FIJ

PRINCIPAIS PÓDIOS INTERNACIONAIS

Ouro

  • Grand Slam Paris – 2026
  • Grand Slam Antalya – 2023
  • Grand Prix Portugal – 2022
  • Grand Prix Budapeste – 2019
  • Grand Slam Baku – 2019
  • Grand Prix Cancún – 2018
  • Grand Prix Budapeste – 2018
  • Grand Prix Tbilisi – 2016
  • Grand Prix Düsseldorf – 2015
  • Grand Prix Düsseldorf – 2011

Prata

  • Grand Slam Qazaqstan Barysy – 2024
  • Grand Prix Portugal – 2023
  • Grand Slam Budapeste – 2022
  • Grand Prix Tbilisi – 2019
  • Grand Slam Düsseldorf – 2019
  • Grand Slam Abu Dhabi – 2017
  • Grand Prix Tbilisi – 2017
  • Grand Slam Rio de Janeiro – 2011
  • Grand Prix Qingdao – 2013

Bronze

  • Grand Slam Abu Dhabi – 2025
  • Grand Prix Guadalajara – 2025
  • Grand Slam Qazaqstan Barysy – 2025
  • Grand Slam Tbilisi – 2024
  • Grand Slam Tbilisi – 2022
  • Grand Slam Brasília – 2019
  • Grand Slam Ekaterimburgo – 2017
  • Grand Slam Paris – 2016
  • Grand Prix Havana – 2016
  • Grand Slam Tóquio – 2014
  • Grand Slam Paris – 2014
  • Grand Slam Moscou – 2013
  • Grand Slam Tóquio – 2012
  • Grand Slam Tóquio – 2011
  • Grand Slam Rio de Janeiro – 2009
  • Masters IJF Almaty – 2012

https://www.originaltatamis.com.br/