11 de outubro de 2026
No karatê, José Silva encontra mais disposição e alegria para viver © Global Sports
José da Silva responde com seriedade quando o assunto é a responsabilidade de ser faixa preta. É preciso pensar duas vezes antes de tomar uma decisão precipitada, explica. Aos 94 anos, ele acompanha a provocação sem perder o passo: “Sim, e com isso, felizmente, tenho feito menos bobagens.”
Há espaço para esse humor no relato de um homem que começou a praticar karatê aos 87 anos. José fala dos próprios limites, reconhece as dificuldades de memorizar movimentos do kata e admite que precisa se esforçar. Também conta dos amigos, da falta que sente quando não treina e da satisfação de continuar aprendendo. Na conversa, essas experiências aparecem com a familiaridade de quem encontrou uma atividade que passou a direcionar sua vida e a dar maior sentido a ela.
Três noites por semana, às segundas, quartas e sextas-feiras, das 19h30 às 21h, ele treina na academia Strongest, em Curitiba, sob a orientação do professor João Cruz. Às terças e quintas-feiras, a musculação no Centro de Esporte e Lazer Dirceu Graeser, da Prefeitura de Curitiba, completa sua rotina de treinamento.
A faixa preta veio depois de um percurso que José resume em sete anos de treino e muita dedicação. O tempo exigido para chegar à graduação não parece ter diminuído seu interesse pelo que ainda precisa aprender. Hoje, a pergunta sobre até quando pretende continuar recebe uma resposta curta: “Enquanto tiver força e estiver respirando”.
Nascido em 30 de setembro de 1932, em Avaí, no interior de São Paulo, José exerceu profissões bastante diferentes antes de se aposentar. Trabalhou como contador, vendeu máquinas contábeis para a Olivetti e, já em Curitiba, fez um curso de afinação de pianos. Segundo seu relato, a formação ocorreu na representação da fábrica Steinfeld & Co., de Berlim, e o tornou técnico afinador.

Aos 94 anos, José Silva mantém uma rotina de treinos que desafia o corpo e a mente © Global Sports
Das contas à mecânica dos instrumentos, precisou aprender mais de uma vez a lidar com um ofício novo. Décadas depois, voltaria à condição de iniciante, agora diante dos movimentos e das exigências de uma arte marcial.
O contato com o dojô, porém, tinha um antecedente familiar. Em Maringá, era ele quem levava o filho, então com quatro anos, às aulas de judô do professor Antônio Andrade. José também praticou. O filho era federado; ele, não. Ao recordar aquele período, associa a ausência de vínculo federativo ao fato de não ter chegado à faixa preta na modalidade.
A mudança para Curitiba trouxe uma rotina de viagens profissionais. Mais tarde, a aposentadoria deixou um tempo livre com o qual ele precisou aprender a conviver. A proximidade de uma escola de karatê abriu uma possibilidade que resolveu conhecer pessoalmente.
“Quando cheguei aqui em Curitiba, eu viajava muito a trabalho. Depois que me aposentei, notei que estava ficando muito parado e percebi que aquilo não ia me fazer bem. Surgiu um dojô pertinho de casa, fui fazer uma visita, descobri que era uma escola de karatê, gostei do sensei, que era o professor João Cruz, me entusiasmei e hoje sou faixa preta.”
Tinha 87 anos. Fisicamente, considera que estava relativamente bem, embora se sentisse fraco e desanimado. A decisão de começar não nasceu de uma experiência anterior no karatê nem de um projeto de graduação. Houve uma visita, uma boa impressão do professor e disposição para experimentar.
Com o passar dos anos, o treino ganhou lugar no calendário e nas relações de José. Para compreender o que isso representa, basta ouvi-lo falar dos dias em que a aula não acontece.
“Muito bem, sou outra pessoa hoje. Quando não treino, sinto muita falta”, afirma. Nos feriados, a ausência da atividade também aparece nas sensações físicas: “O corpo começa a sentir”.
Maria Parrilha acompanha essas mudanças de uma posição privilegiada. Casada com José há quase 73 anos, ela conhece o marido de muito antes de ele adquirir o primeiro karatê-gi e acrescenta à entrevista observações que dificilmente caberiam em uma avaliação formal.
“Quando ele não vem treinar, fica mais chato”, diz. Em seguida, explica o que percebe na rotina: “Quando ele treina, não sente dores, as pernas não incomodam. Treinando, ele fica muito melhor em todos os aspectos”.

José Silva demonstra destreza ao se defender de um ataque com shinai durante o treino © Global Sports
A espontaneidade de Maria ajuda a trazer a conversa para dentro de casa. O treino termina no dojô, mas o modo como José volta de lá também faz parte dessa história. Mais adiante, quando lhe perguntamos quem é mais bravo, a esposa ou o professor, ele aproveita outra oportunidade para provocá-la.
“Ah, eu prefiro muito mais estar com ele”, responde, antes de desfazer qualquer dúvida: “Brincadeira, a minha esposa é maravilhosa”.
Na prática do dojô, José tem uma preferência definida pelo kata, especialmente o Ten-no-Kata Omote. A sequência de movimentos exige que se lembre do que vem a seguir enquanto cuida da execução. Para ele, essa combinação faz do exercício um trabalho que continua para além da repetição física.
“Não parece, mas fazer o kata demanda enorme concentração, muito treino físico e estudo.”
É nesse aprendizado que ele identifica o maior desafio atual. A disposição para treinar convive com os momentos em que a sequência escapa da memória. José não os esconde nem fala como se a faixa preta tivesse eliminado as dificuldades.
“O maior desafio é o mental, porque a gente sente aqueles brancos na execução do kata, por exemplo. Eu demoro um pouco mais para memorizar. Então, o sensei cobra esforço e dedicação enfaticamente, e a coisa acaba acontecendo.”

Sob a orientação do professor João Cruz, José Silva aprimora os movimentos e preserva o prazer de aprender © Global Sports
Ao avaliar sua trajetória, José distingue a dificuldade de aprender uma sequência da percepção que tem sobre sua condição mental ao longo dos anos. Sua comparação parte da própria experiência, de como se sentia quando começou e de como se percebe hoje.
“O que eu sinto é que, nesses anos todos frequentando o dojô, não tive mais perdas. Consegui manter o mesmo nível cognitivo que possuía quando comecei a treinar. Supondo que eu tivesse perdido uma porcentagem da minha condição cognitiva, mental como um todo, o que me restou se estabilizou. Na minha percepção, não tive mais degeneração em função da consistência da prática do karatê.”
Esse é um testemunho pessoal, sem avaliação clínica apresentada que permita estabelecer estabilização cognitiva ou atribuí-la exclusivamente ao karatê. A experiência relatada reúne exercícios, aprendizado, convivência e uma rotina que inclui também a musculação. É nesse conjunto que José reconhece mudanças importantes.
Quando explica sua convicção, ele passa dos movimentos aos relacionamentos. O dojô é um lugar onde encontra pessoas interessadas no que tem a dizer e onde também pode perguntar, aprender e participar.
“Tenho certeza de que isso está diretamente ligado à prática, porque todas as questões mudaram. Hoje convivo com mais pessoas, tenho vários amigos aqui no dojô, converso com eles, faço perguntas e eles também me perguntam. Por eu ser faixa preta, eles me questionam sobre muita coisa.”
A graduação acrescentou uma posição nova nessa convivência. O aluno que continua precisando de ajuda para memorizar também é procurado pelos colegas. Receber perguntas e compartilhar o que aprendeu passaram a integrar sua experiência, junto com a responsabilidade que atribui à graduação.
“Meu mundo voltou a ser amplo, em todos os aspectos: muscular, cognitivo e social. Tudo isso melhorou muito por eu estar praticando essa atividade com dedicação. Sempre me dediquei muito. Em tudo o que fiz na vida, me dediquei a fundo, e talvez esse seja um diferencial.”
Do outro lado dessa relação está João Cruz, sho-dan pela Nihon Karate Kyokai e yon-dan pela Confederação Brasileira de Karatê Tradicional. Com 54 anos de prática, o professor precisou enfrentar uma situação nova ao receber José: nunca havia acompanhado um aluno com tamanha longevidade.
O entusiasmo com a chegada veio acompanhado da necessidade de observar como ele respondia às aulas. O atestado médico exigido fazia parte desse cuidado, mas João Cruz sabia que o acompanhamento e a atenção continuariam durante os exercícios.
“É uma alegria muito grande e uma enorme responsabilidade tê-lo conosco. Tive uma preocupação com a observação do comportamento do aluno em relação à parte física. Apesar de ele ter o atestado médico, nada é mais preventivo do que observarmos constantemente o comportamento dele nos treinamentos.”

Em pé, na ponta esquerda, Maria Parrilha acompanha José Silva ao lado dos colegas de treino © Global Sports
José, por sua vez, fala do professor com uma confiança construída nessa convivência. Questionado sobre a qualidade das aulas, responde: “Indubitavelmente, não haveria um sensei melhor que ele. É muito dedicado e paciente com todos nós”.
A conversa permite testar os limites desse elogio. João teria mais paciência com ele ou com as crianças? José escolhe as crianças e acrescenta, em tom de brincadeira, que um idoso é quase uma delas. A observação vem de quem aceita ser corrigido e ainda consegue rir da própria condição de aprendiz.
Para João, o significado da faixa preta de José deve ser procurado no trabalho realizado ao longo dos treinos. A idade exige atenção, mas o professor faz questão de explicar os critérios pelos quais reconhece o aluno.
“Para os colegas, ele sempre foi um exemplo de persistência e assiduidade. O sho-dan que recebeu é de extremo mérito. Total meritocracia. Em meus 54 anos de karatê-dô, conheci poucos faixas pretas com as qualidades que o senhor José possui. Tenho enorme orgulho de ter formado esse grande faixa preta.”

A convivência no dojô amplia as amizades de José Silva e fortalece seu vínculo com a prática do karatê © Global Sports
Ao falar das virtudes que observa, João também revela a dimensão afetiva desse encontro. “Primeiro, Deus me abençoou por fazer com que eu o conhecesse”, afirma. “José é um homem de muitas virtudes. Posso afirmar que é um karatedoka na acepção da palavra, agindo sempre com persistência, perseverança e respeito por todos nós.”
João Cruz explica que o Ten-no-Kata Omote, preferido de José, tem sua criação atribuída a Gichin Funakoshi, fundador do karatê Shotokan, embora também haja atribuições a seu filho, Yoshitaka Funakoshi, conhecido como Gigo. Gichin nasceu em 10 de novembro de 1868, em Shuri, no então Reino de Ryukyu, e morreu em 26 de abril de 1957, em Tóquio, aos 88 anos.
A explicação ajuda a compreender por que uma sequência aparentemente simples pode ocupar tanto a atenção de José. Reconhecer os movimentos é apenas uma etapa do aprendizado; o trabalho continua na maneira de realizá-los no dia a dia.
Aos 94 anos, José segue nesse trabalho. Há movimentos a aperfeiçoar, sequências a memorizar e colegas com quem conversar. Ele não diz que tudo ficou fácil. Comprometido e resignado, explica que demora um pouco mais, que o professor cobra e que, com esforço, consegue realizar os katas.
Entre uma resposta e outra, ainda encontra tempo para brincar e admitir, rindo, que após tornar-se faixa preta tem feito menos bobagens. Essa responsabilidade encontrou lugar em sua vida sem lhe tirar a liberdade e a alegria de viver.
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