30 de agosto de 2025

O judô brasileiro escreveu, neste sábado (30), em Sófia, um dos capítulos mais luminosos de sua história recente. No quarto e último dia das disputas individuais do Campeonato Mundial Cadete 2025, a carioca Clarisse Vallim, apenas 14 anos e estreante em mundiais, subiu ao tatami sem carregar o peso do favoritismo — e saiu dele consagrada campeã. A jovem da Barreira do Vasco, na Zona Norte do Rio de Janeiro, superou adversárias de peso, derrubou o sonho da francesa número um do ranking mundial e coroou a campanha com um ouro arrebatador nos -70kg, diante da canadense Charlie Thibault. Foi sua primeira medalha internacional de grande porte — e logo o título mundial.
A francesa Lucie Rullier, número um do mundo e principal cabeça de chave do meio-pesado, chegou a Sofia determinada a confirmar seu favoritismo. Ela iniciou a campanha em ritmo frenético, vencendo a georgiana Elene Kurdgelia por ippon em menos de noventa segundos, com um kuzure-kami-shiho-gatame impecável. Depois, superou Chloe Williams (EUA) e, nas quartas de final, bateu Selina Woegerer (AUT), confirmando sua vaga na semifinal. Com autoridade, alcançou a grande final e parecia pronta para coroar sua trajetória com o ouro.
Na outra metade da chave, a canadense Charlie Thibault construiu uma caminhada sólida. Eliminou Chrystal Monthe Noussi (EUA) e Vanessa Karaffova (CZE), antes de superar a polonesa Diana Benkova (POL) na semifinal, com um wazari seguido de juji-gatame.
Momento decisivo: Clarisse Vallim encaixa o juji-gatame que garantiu o ouro mundial nos -70kg © Gabriela Sabau / FIJ
Foi nesse cenário, entre as duas favoritas, que surgiu o nome improvável: Clarisse Vallim. Sem ostentar ranking, mas exibindo talento, segurança, frieza e uma atitude mental invejável, a brasileira passou rodada após rodada até garantir sua vaga na decisão.
O duelo pelo ouro colocou frente a frente duas promessas do judô mundial, ambas vindas do continente americano: a brasileira Clarisse Vallim e a canadense Charlie Thibault. Um cenário improvável para os europeus acostumados a monopolizar os grandes pódios da base, e ainda mais curioso por reunir escolas tão distintas — a brasileira, marcada pela ousadia e pela excelência no ne-waza, e a canadense, herdeira de uma linha técnica mais tradicional do judô europeu. Bastaram quinze segundos para Vallim abrir vantagem com um sode-tsuri-komi-goshi baixo para assinalar um yuko. Na sequência, insistiu na mesma técnica e, na transição, encaixou um juji-gatame perfeito para chegar ao ippon. O sonho canadense foi interrompido de forma fulminante, e o judô mundial conheceu uma nova estrela.
Aos 14 anos, Clarisse Vallim conquista seu primeiro título mundial e coloca o Brasil no topo do pódio em Sofia © Emanuele Di Feliciantonio / FIJ
Sem debate, Clarisse Vallim se tornou campeã mundial cadete aos 14 anos, repetindo o feito de sua compatriota Clarice Ribeiro e reforçando a força do Brasil no cenário internacional.
A conquista de Clarisse Vallim transcende a vitória individual. Aos 14 anos, uma judoca da Baixada Fluminense ousou desafiar a lógica do ranking mundial e demonstrou que o tatami não reconhece favoritismos, mas sim coragem, técnica e determinação. Seu ouro em Sófia não apenas amplia para cinco o número de medalhas brasileiras no Mundial Cadete, mas também reafirma a profundidade e a vitalidade da nova geração.
“O sonho canadense foi interrompido de forma fulminante, e o judô mundial conheceu uma nova estrela.”
Mais do que um título, a campanha da brasileira simboliza o poder de renovação do judô nacional: enquanto os holofotes estavam voltados para as cabeças de chave europeias, foi uma estreante, quase anônima fora das fronteiras brasileiras, quem impôs seu judô com autoridade e escreveu uma das páginas mais surpreendentes da competição.
O feito de Clarisse Vallim ecoa como um aviso ao cenário internacional: o Brasil segue sendo celeiro de talentos, capazes de surgir de onde menos se espera e conquistar o mundo.
A medalha de Clarisse Vallim fechou com chave de ouro a melhor campanha do judô brasileiro em mundiais cadetes. Foram cinco pódios no total — dois ouros, uma prata e dois bronzes — desempenho que colocou o país em terceiro lugar no quadro geral, atrás apenas dos atletas neutros da FIJ e do Uzbequistão, e à frente de potências como Japão e França.
O resultado em Sófia supera o da edição de 2024, em Lima, não apenas em quantidade, mas sobretudo em qualidade. Se no Peru o Brasil havia conquistado um ouro, três pratas e dois bronzes no individual, desta vez vieram dois títulos mundiais com Clarisse Vallim (-70kg) e Clarice Ribeiro (-48kg), confirmando a força de uma nova geração que já nasce acostumada a desafiar os favoritos.
Completaram o quadro de conquistas a prata de Arthur Bonato (-50kg) e os bronzes de Nicole Marques (-52kg) e Laryssa Fonseca (-63kg), além dos quintos lugares de Sarah Mendes (-48kg) e César Godoy (-90kg).
Mais do que os números, o que impressiona é a consistência da equipe brasileira em uma competição que reuniu a nata do judô mundial de base. O terceiro lugar geral não é apenas um dado estatístico: é a afirmação de que o Brasil ocupa hoje um lugar de protagonismo no judô cadete, rivalizando com países historicamente dominantes.
Na disputa pelo bronze, a polonesa Diana Benkova superou a japonesa Kaho Tsuneda com uma transição precisa de ataque e contra-ataque, definindo a luta no solo. O resultado garantiu à Polônia sua quarta medalha no campeonato.
O outro bronze ficou com a georgiana Keti Robakidze, após a desistência da cabeça de chave número um, Lucie Rullier (FRA), que não retornou ao tatami. Assim, a Geórgia também encerrou a categoria no pódio.
Com o ouro no peito, Clarisse não conteve a emoção. Disse sentir “muita felicidade e gratidão”, fruto da rotina diária de buscar ser melhor e alcançar o topo do pódio. Reconheceu o apoio recebido tanto no Flamengo, seu clube, quanto na Confederação Brasileira de Judô, e resumiu: graças a essa preparação intensa, a medalha veio. Em seguida, detalhou que havia estudado todas as adversárias e estava pronta para qualquer situação. Lembrou que já havia derrotado a francesa em um torneio na Polônia, que a japonesa representava um perigo real, mas acabou neutralizada por sua estratégia, e que a polonesa havia lhe imposto dificuldades anteriormente, mas os erros foram corrigidos. Na final, garantiu, já sabia o que a canadense faria. E, preparada e confiante, confirmou a vitória mais importante de sua curta carreira.
Pódio do meio-pesado: Clarisse Vallim celebra o ouro ao lado de Charlie Thibault (CAN), Diana Benkova (POL) e Keti Robakidze (GEO) © Gabriela Sabau / FIJ
Aos 14 anos, Clarisse Vallim é atleta do Clube de Regatas do Flamengo (RJ), orientada pelos senseis Rosicleia Campos, Renan Moutinho, Walter Matheus e Murilo Gouveia. Carioca, começou no judô aos quatro anos, incentivada pelo pai e pelo avô, ambos judocas, no projeto social Samurais do Morro, na Zona Norte do Rio de Janeiro, sob a tutela dos professores Cláudio Carelli e André Silva. Em 2025, além do título mundial, já havia conquistado dois bronzes em competições internacionais: a Thuringia Cup, na Alemanha, em março, e a Copa Europeia de Bielsko-Biala, na Polônia, em maio.
1º – CLARISSE VALLIM (BRASIL)
2º – Charlie Thibault (Canadá)
3º – Diana Benkova (Polônia)
3º – Keti Robakidze (Geórgia)
5º – Kaho Tsuneda (Japão)
5º – Lucie Rullier (França)
7º – Selina Woegerer (Áustria)
7º – Vanessa Karaffova (República Tcheca)
O Mundial prossegue neste domingo (31) com o último dia de disputas, reservado às equipes mistas. O Brasil estreia contra o Canadá e, em caso de vitória, encara nas quartas de final o vencedor do duelo entre Polônia e Grécia.
As eliminatórias começam às 4h30 e o bloco final a partir de 10h30 (horário de Brasília). As lutas podem ser acompanhadas ao vivo pela JudoTVe também no site oficial da Federação Internacional de Judô.
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