11 de julho de 2026
Cornel Mușat: campeão nos tatamis e referência na formação de gerações do Karatê Tradicional © Imagem gerada por IA / Global Comunicação
O Campeonato Mundial de Karatê Tradicional da ITKF vai muito além da disputa por medalhas. A cada edição, a competição reúne diferentes escolas, culturas e filosofias de trabalho que ajudam a construir o presente e o futuro da modalidade. Com esse propósito, a Revista Budô e a Global Sports iniciam uma série internacional de entrevistas exclusivas com os representantes das cinco nações mais bem classificadas no 22º Campeonato Mundial da ITKF, realizado em Portugal: Egito, Brasil, Polônia, Romênia e Portugal.
A série começa pela Romênia, representada por Cornell Mușat, uma das personalidades mais respeitadas do Karatê Tradicional contemporâneo. Oito vezes campeão mundial durante a era de Sensei Hidetaka Nishiyama, ele integrou uma geração que ajudou a consolidar a Romênia entre as principais potências da modalidade e, hoje, lidera a seleção nacional como treinador, além de atuar como integrante do Comitê Técnico Global da ITKF.

A equipe romena celebra o título por equipes de kumite no Campeonato Europeu de Karatê Tradicional de 1997, em Skopje, Macedônia, sob o olhar do mestre Hidetaka Nishiyama, referência mundial e principal responsável pela difusão do Karatê Tradicional moderno © Arquivo
Ao longo da entrevista, Cornell compartilha sua visão sobre a formação de atletas, a preparação da equipe romena para o Mundial do Cairo, o legado de Sensei Nishiyama, os desafios da governança da ITKF Global e o futuro do Karatê Tradicional. Mais do que recordar conquistas, ele apresenta uma reflexão sobre liderança, responsabilidade e a missão de transmitir às novas gerações os valores que moldaram sua trajetória dentro e fora do tatami.
Oito vezes campeão mundial durante a era de Sensei Hidetaka Nishiyama, Cornell Mușat explica que sua transição de atleta para treinador não representou uma mudança de rumo, mas a continuidade natural de uma trajetória construída ao longo de décadas no Karatê Tradicional. Ao recordar sua formação, ele fala sobre o legado recebido de seus mestres, a importância do trabalho coletivo, a evolução da Seleção Romena e os valores que procura transmitir às novas gerações.
Olhando para trás, acredito que minha transição de atleta para treinador não representou uma ruptura, mas a continuidade natural da minha trajetória no Karatê Tradicional. Comecei a treinar em 1990, logo após a Revolução Romena, sob a orientação dos senseis Floricica Pricob e Vasile Pricob. Desde o início compreendi que o Karatê Tradicional vai muito além do desempenho esportivo. É uma escola de formação do caráter, onde aprendemos disciplina, respeito e a busca permanente pela superação.

Professores da Romênia participam do Master Course de Paris, um dos mais importantes encontros internacionais de formação do karatê tradicional: Roxana Cruher shichi-dan (7º dan), Oana Garlesteanu ni-dan (2º dan) e Dragu Andrei sho-dan (1º dan). De costas, Dana Alexandra Ionesco yon-dan (4º dan) © Vanessa Silvera
Ainda como atleta de alto rendimento e integrante da seleção romena, passei a dedicar cada vez mais tempo à formação de jovens praticantes. Foi nesse momento que percebi que a satisfação de acompanhar o crescimento de um atleta pode ser tão grande quanto a de subir ao pódio. No início da carreira, buscamos vencer por nós mesmos, pelo clube e pelo país. Com o tempo, porém, entendemos que o verdadeiro legado está nas pessoas que ajudamos a formar. Foi aí que percebi que poderia contribuir para o desenvolvimento do Karatê Tradicional não apenas por meio dos meus resultados, mas também preparando novas gerações.
Tive o privilégio de representar a Romênia entre 1993 e 2012, período em que o Karatê Tradicional viveu uma fase extraordinária sob a liderança de Sensei Hidetaka Nishiyama, nossa maior referência técnica e moral. Nesse intervalo conquistei oito títulos mundiais em kumitê individual, fuku-go e kumitê por equipes. Ainda assim, estou convencido de que nenhum campeão é formado sozinho. Por trás de cada medalha existe uma equipe: treinadores, companheiros de treino, dirigentes e uma federação capaz de criar, ano após ano, as condições necessárias para a excelência. Cada uma das minhas conquistas pertence também a todas essas pessoas.

Cornel Mușat enfrenta Dejan Nedev, da Macedônia, durante o Campeonato Mundial de Karatê Tradicional da ITKF, disputado em 2012, em Lódz, Polônia © Arquivo
Como atleta, meu foco estava concentrado na preparação individual e em cada combate. Ao me tornar treinador, minha perspectiva mudou completamente. Passei a enxergar cada atleta como um projeto de longo prazo, compreendendo que o desempenho não surge da noite para o dia e que o verdadeiro sucesso não se resume às medalhas, mas à formação de pessoas de caráter por meio do Karatê. Hoje, minha maior satisfação não está mais nas vitórias pessoais, mas em ver a experiência da nossa geração sendo transmitida às que vêm depois.
Desde 2015 integro a Comissão Técnica da Seleção Romena. Faço questão de utilizar o termo “comissão” porque ele traduz fielmente nossa forma de trabalhar. O desempenho não é resultado da atuação de uma única pessoa, mas da cooperação entre treinadores que compartilham a mesma filosofia e os mesmos objetivos. Planejamos juntos, analisamos juntos e tomamos em conjunto as decisões mais importantes sobre a preparação da equipe nacional.

Sandrine El Marhomy, Gilberto Gaertner, Cornel Mușat e Justo Gómez durante o Master Course de Paris 2026 © Vanessa Silvera
Essa mesma filosofia orienta a Federação Romena de Karatê Tradicional (FRKT). A Romênia tornou-se uma das nações mais respeitadas da ITKF Global não pelo trabalho de um único atleta ou treinador, mas pela força de uma organização construída ao longo dos anos pelos clubes, instrutores, árbitros, comissões especializadas e todos aqueles que contribuem para o desenvolvimento do Karatê Tradicional. Esse trabalho foi iniciado por Sensei Dan Stuparu, fundador e primeiro presidente da FRKT, responsável por introduzir essa arte marcial no país, e hoje tem continuidade sob a liderança de Sensei Nicolae Marandici. Os resultados internacionais da Romênia refletem esse esforço coletivo.
No dia a dia procuro transmitir aos atletas os mesmos valores que moldaram minha formação: humildade, perseverança e capacidade de adaptação. A técnica é aperfeiçoada com treinamento, a condição física é construída com trabalho, mas é o caráter que sustenta o atleta nos momentos mais difíceis.

Seleção da Romênia reunida durante o Campeonato Europeu de Karatê Tradicional, realizado na Sérvia, em 2025 © Vanessa Arquivo
Hoje considero que minha maior conquista não são apenas os títulos mundiais, mas a oportunidade de contribuir para a formação das novas gerações que representarão a Romênia no futuro. Para mim, esse é o verdadeiro significado do Karatê Tradicional: cada geração recebe um legado, o desenvolve e tem a responsabilidade de transmiti-lo mais forte e mais rico à geração seguinte.
A preparação da Seleção Romena para o 23º Campeonato Mundial da ITKF, que será disputado no Cairo, é resultado de um trabalho contínuo desenvolvido ao longo de todo o ano. Cornell Mușat explica como a Federação Romena estrutura esse processo, detalha a dimensão da equipe nacional, analisa os desafios da preparação para um Mundial e deixa claro que a Romênia viajará ao Egito determinada a disputar novamente as primeiras posições do Karatê Tradicional mundial.
A preparação para um Campeonato Mundial nunca começa apenas alguns meses antes da competição. Na FRKT, a formação das seleções nacionais é um processo permanente, desenvolvido ao longo de todo o ano por meio do trabalho realizado pelos clubes filiados e pelas equipes técnicas em todo o país. Cada competição nacional, cada estágio de treinamento e cada sessão de prática representa mais uma etapa na formação de atletas que, no futuro, poderão vestir o uniforme da seleção romena.

Cornel Mușat celebra o título de campeão europeu de fukugo no Campeonato Europeu da ETKF, realizado em Kiev, Ucrânia, em 2000 © Arquivo
Naturalmente, existem momentos decisivos nessa preparação. Um dos mais importantes é o Estágio Nacional de Verão, realizado em Olimp, que reúne atletas, treinadores e toda a equipe técnica em um período de treinamento intensivo e unificado. Em seguida, o Campeonato Nacional, disputado em setembro, define a composição final da delegação que representará a Romênia no Cairo.
Atualmente, cerca de 350 atletas de todo o país participam do programa de preparação das seleções nacionais. Esse número demonstra não apenas o interesse pelo Karatê Tradicional, mas também a solidez do sistema construído pela Federação FRKT em conjunto com seus clubes filiados. Por trás de cada atleta existe um treinador, um dojô e uma comunidade que investem tempo, conhecimento e dedicação em sua formação. Os resultados internacionais da Romênia refletem esse esforço coletivo.
Historicamente, a Romênia participa dos Campeonatos Mundiais da ITKF com delegações completas, representando todas as faixas etárias. Atletas, treinadores, árbitros, dirigentes e integrantes da equipe técnica viajam juntos porque acreditamos que o alto rendimento é resultado do trabalho de uma equipe, e não de esforços individuais. O número definitivo de participantes será conhecido após o Campeonato Nacional, mas o processo de seleção é rigoroso e baseado no mérito, nos resultados esportivos e no nível real de preparação dos atletas.
O Campeonato Mundial da ITKF representa o ponto mais alto do Karatê Tradicional. Para cada atleta, é a oportunidade de medir seu nível diante dos melhores praticantes do mundo. Para a Federação Romena, porém, esse evento tem um significado ainda maior: demonstrar que o trabalho realizado diariamente em cada clube e em cada dojô é capaz de produzir resultados no mais alto nível internacional.

Em seiza, Cornel Mușat evidencia a disciplina, o respeito e a busca pelo aperfeiçoamento contínuo, valores que sustentam a prática do Karatê Tradicional © Vanessa Silvera
No Mundial de Portugal, a Romênia encerrou a competição na quarta colocação geral, conquistando quatro medalhas de ouro, oito de prata e 14 de bronze. Foi um resultado expressivo, que confirmou a força do Karatê Tradicional romeno. Ainda assim, a experiência nos ensinou que cada Campeonato Mundial começa do zero. As conquistas anteriores fortalecem a confiança, mas não garantem o futuro. Cada resultado precisa ser reconstruído por meio do trabalho, da seriedade e da união.
Nosso objetivo é claro: queremos lutar pelo primeiro lugar no quadro geral de medalhas. É uma meta ambiciosa, assumida com total responsabilidade. Não iremos ao Cairo apoiados no passado, mas no trabalho que realizamos diariamente. Confiamos em nossos atletas, na comissão técnica e em toda a estrutura da FRKT para manter a Romênia entre as principais forças da ITKF Global.
Os desafios são muitos. Preparar uma seleção exige um grande esforço organizacional e financeiro. Além disso, vivemos em uma sociedade em que os jovens estão constantemente expostos à tecnologia e a um ritmo de vida muito diferente daquele que vivemos. Justamente por isso, acredito que nossa missão vai além da formação de campeões. Precisamos mostrar às novas gerações que o Karatê Tradicional oferece valores que nenhuma tecnologia é capaz de substituir: disciplina, respeito, autocontrole, perseverança e o sentimento de pertencimento a uma comunidade unida pelos mesmos princípios.

Karatecas romenas durante avaliação técnica conduzida por Justo Gómez no Master Course de Paris © Vanessa Silvera
Também considero essencial preservar, de forma íntegra, a linha técnica e a filosofia transmitidas por Sensei Hidetaka Nishiyama. Tradição e alto rendimento não são conceitos opostos; ao contrário, complementam-se. Estou convencido de que foi justamente essa fidelidade aos princípios que fez da Romênia uma referência no Karatê Tradicional internacional. No Cairo, entraremos no tatami com o objetivo de conquistar os melhores resultados, mas também com a responsabilidade de representar, com dignidade, toda a comunidade romena de Karatê Tradicional e os valores que ela preserva há mais de três décadas.
Mais do que um multicampeão mundial, Cornell Mușat pertence à geração de atletas que teve o privilégio de competir e de ser formada durante a liderança de Sensei Hidetaka Nishiyama. Ao recordar esse período, ele explica como os ensinamentos do fundador da ITKF moldaram sua visão sobre o Karatê Tradicional, influenciam seu trabalho à frente da Seleção Romena e orientam sua atuação como integrante do Comitê Técnico Global da entidade.
Pertenço a uma geração privilegiada. Tive a oportunidade de me formar e competir em um período em que o Karatê Tradicional era liderado por Sensei Hidetaka Nishiyama. Essa experiência marcou profundamente minha carreira e a maneira como compreendo esta arte marcial até hoje. Para a minha geração, Sensei Nishiyama não foi apenas um grande mestre, mas uma referência permanente de rigor, caráter, comprometimento e responsabilidade.

Cornel Mușat durante convite oficial ao Parlamento Europeu, em Bruxelas, Bélgica, em 2022 © Vanessa Silvera
Muitas pessoas conhecem sua extraordinária contribuição para o desenvolvimento do Karatê Tradicional em todo o mundo. Para aqueles que tiveram o privilégio de aprender com sua filosofia, porém, sua influência vai muito além da dimensão técnica. Ele nos ensinou que a técnica é indispensável, mas que o verdadeiro valor do Karatê se revela no caráter da pessoa. Uma técnica poderosa, desprovida de autocontrole, respeito e responsabilidade, jamais representa o espírito do Karatê Tradicional.
Há um ensinamento que me acompanha em todas as etapas da vida: “Hoje um pouco melhor do que ontem; amanhã um pouco melhor do que hoje.” Essa frase de Sensei Nishiyama tornou-se uma referência não apenas para a Federação Romena, mas também para minha maneira de enxergar a vida. Ela não fala de perfeição, mas de evolução contínua, do compromisso de nos tornarmos, todos os dias, pessoas um pouco melhores. Considero essa uma das lições mais valiosas que um praticante pode receber.

Cornel Mușat acompanha atividade técnica do 33º Master Course da ITKF Global, em Paris, ministrada pelo professor doutor Gilberto Gaertner, Chairman da ITKF © Vanessa Silvera
Na Seleção Romena procuramos preservar esse legado em todas as etapas da preparação. Buscamos os melhores resultados esportivos, mas jamais à custa dos princípios que definem o Karatê Tradicional. Esse espírito deve estar presente na forma como treinamos, competimos e, sobretudo, como nos comportamos fora do tatami.
Desde 2025, como membro do Comitê Técnico Global da ITKF, sinto uma responsabilidade ainda maior. Ela vai muito além da definição de padrões técnicos, regulamentos ou da organização de competições. Trata-se de manter viva uma filosofia que formou gerações de praticantes e fez do Karatê Tradicional uma modalidade respeitada internacionalmente. Ao mesmo tempo, essa missão não pertence a uma única pessoa. Ela deve ser compartilhada por todos aqueles que acreditam nos valores do Karatê Tradicional e na continuidade do caminho aberto por Sensei Nishiyama.

Cornel Mușat durante demonstração de tameshiwari realizada em Cluj-Napoca, Romênia, em 2017 © Arquivo
Se tivesse que resumir o maior legado deixado por Sensei Nishiyama em uma única palavra, escolheria o Caminho. O Karatê ITKF não é apenas um conjunto de técnicas nem um esporte. É uma forma de viver, um processo permanente de aprendizado, disciplina, autocontrole e aperfeiçoamento pessoal.
Se conseguirmos preservar essa compreensão e transmiti-la às futuras gerações, o legado de Sensei Nishiyama continuará vivo em cada praticante, independentemente do país de origem. É por isso que acredito que todos nós temos a responsabilidade de transmitir aquilo que recebemos. Não de maneira mecânica ou protocolar, mas com o mesmo compromisso com que esses ensinamentos chegaram até nós: hoje um pouco melhor do que ontem; amanhã um pouco melhor do que hoje.
Ao refletir sobre o futuro do Karatê Tradicional, Cornell Mușat defende que a modalidade não deve viver apenas da lembrança dos tempos de Sensei Hidetaka Nishiyama. Para ele, o maior desafio da ITKF é preservar sua identidade filosófica e técnica, ao mesmo tempo em que encontra novas formas de dialogar com as gerações mais jovens. O caminho, afirma, não passa por mudar a essência do Karatê Tradicional, mas por tornar sua mensagem mais compreensível e relevante para o mundo contemporâneo.
É verdade que muitos praticantes consideram o período em que Sensei Hidetaka Nishiyama liderou o Karatê Tradicional como uma era de referência. Foi uma fase marcada por grande clareza técnica, unidade e expansão internacional. No entanto, acredito que seria um erro olhar para esse período apenas com nostalgia. Um legado verdadeiro não é uma peça de museu; é uma responsabilidade que precisa ser levada adiante.

Cornel Mușat celebra o título mundial de fukugo no Campeonato Mundial da ITKF, realizado em Varsóvia, Polônia, em 1998 © Arquivo
O Karatê Tradicional tem futuro justamente porque seus princípios permanecem sólidos. Disciplina, respeito, autocontrole, aperfeiçoamento contínuo e capacidade de superar os próprios limites não pertencem ao passado. Pelo contrário, são valores de que a sociedade contemporânea talvez necessite mais do que nunca. Em um mundo cada vez mais acelerado, ruidoso e superficial, o Karatê Tradicional oferece aos jovens um espaço de equilíbrio, concentração e desenvolvimento humano.
Por isso, não acredito que o Karatê Tradicional precise mudar para se tornar mais atrativo. Os valores, a filosofia e os padrões técnicos transmitidos por Sensei Nishiyama são atemporais e devem ser preservados. O que precisa evoluir é a maneira como os apresentamos às novas gerações. Crianças e jovens precisam compreender que o Karatê não se resume a técnicas, graduações ou competições. Trata-se de um caminho de formação pessoal, baseado na disciplina, no respeito e no autocontrole.

O kihon sempre foi uma das principais características de Cornel Mușat, refletindo a precisão técnica e a potência que marcaram sua trajetória nos tatamis © Vanessa Silvera
Percebo que os jovens continuam procurando propósito, ainda que nem sempre expressem isso. Eles buscam referências, pertencimento e exemplos autênticos. O Karatê Tradicional pode oferecer tudo isso, desde que seja ensinado por instrutores conscientes de que sua missão vai muito além da preparação de atletas. Nosso verdadeiro papel é formar pessoas. Se conseguirmos transmitir essa mensagem de maneira mais eficiente, tenho convicção de que continuaremos atraindo novas gerações.
Naturalmente, precisamos estar presentes no mundo de hoje. Devemos utilizar melhor as ferramentas de comunicação, ampliar a visibilidade das competições e explicar à sociedade, de forma mais clara, o verdadeiro significado do Karatê Tradicional. Modernizar a comunicação, porém, não significa modificar a essência da nossa arte. Podemos utilizar recursos contemporâneos sem abrir mão dos princípios que definem nossa identidade.

Cornel Mușat conquista o título mundial de Kumite Individual no Campeonato Mundial da ITKF, disputado em Łódź, Polônia, em 2012 © Arquivo
O maior desafio está justamente em preservar esse equilíbrio. De um lado, temos o dever de permanecer fiéis aos fundamentos técnicos e filosóficos do Karatê Tradicional. De outro, precisamos compreender a realidade em que vivem crianças e jovens. Se abandonarmos nossos princípios, corremos o risco de perder nossa identidade. O caminho correto está entre esses dois extremos.
A experiência da FRKT demonstra que esse equilíbrio é possível. Contamos com clubes sólidos, bons treinadores, jovens atletas e uma estrutura capaz de produzir resultados expressivos sem abrir mão dos valores fundamentais. Acredito que essa também deva ser a direção da ITKF: continuidade, união, abertura inteligente para o futuro e fidelidade ao Caminho que recebemos daqueles que vieram antes de nós.
Ao abordar os desafios institucionais da ITKF, Cornell Mușat defende que a credibilidade de uma organização internacional depende não apenas das decisões que toma, mas da forma como elas são construídas. Para ele, o modelo colegiado concebido por Sensei Hidetaka Nishiyama continua sendo essencial para garantir equilíbrio, transparência e legitimidade às competições, à arbitragem e ao desenvolvimento técnico do Karatê Tradicional. Como integrante do Comitê Técnico Global da ITKF, ele também compartilha sua visão para o futuro da entidade.
Em uma organização internacional como a ITKF, a maneira como as decisões são tomadas é tão importante quanto as próprias decisões. O Karatê Tradicional foi construído sobre princípios como respeito, responsabilidade e equilíbrio, e esses valores também precisam estar refletidos na estrutura institucional da entidade. Por isso, acredito que o modelo colegiado, no qual as questões relacionadas às competições e à arbitragem são conduzidas por um Comitê de Arbitragem de Torneios, não é apenas importante, mas absolutamente necessário.

Cornel Mușat executa um kata durante o 33º Master Course da ITKF Global, em Paris, sob a observação do professor doutor Gilberto Gaertner, Chairman da ITKF © Vanessa Silvera
Esse sistema não representa uma simples solução administrativa. Ele expressa uma filosofia. No Karatê Tradicional, decisões relevantes não devem resultar da vontade isolada de uma única pessoa. Competições, arbitragem, padrões técnicos e interpretação das regras precisam estar protegidos por um mecanismo baseado na responsabilidade compartilhada. Dessa forma, as decisões tornam-se mais equilibradas, mais confiáveis e mais facilmente aceitas por toda a comunidade internacional.
Sensei Hidetaka Nishiyama compreendia profundamente essa necessidade. O modelo que concebeu foi pensado para preservar a justiça das competições e fortalecer a unidade do Karatê Tradicional. Quando diferentes especialistas analisam uma situação em conjunto e assumem coletivamente a responsabilidade pelas decisões, o risco de avaliações subjetivas ou desequilibradas diminui significativamente. Ao mesmo tempo, transmite-se uma mensagem clara de respeito aos atletas, treinadores, árbitros e federações filiadas.
Estou convencido de que um modelo de decisões colegiadas fortalece a credibilidade da ITKF. Em uma modalidade fundamentada na tradição, não podemos falar em autoridade sem responsabilidade, nem em unidade sem participação. As federações nacionais precisam sentir que integram uma estrutura internacional equilibrada, na qual a opinião dos especialistas é efetivamente considerada e as decisões são tomadas em benefício do Karatê Tradicional, jamais em favor de interesses individuais ou de grupos específicos.

Cornel Mușat conquista o título mundial de Fukugo no Campeonato Mundial da ITKF, disputado em Davos, Suíça, em 2004 © Arquivo
Minha experiência na Federação Romena de Karatê Tradicional confirma essa convicção. Os resultados mais sólidos surgem quando existe trabalho em equipe, diálogo e responsabilidade compartilhada. Na Romênia, a atuação integrada das comissões técnica, de arbitragem e disciplinar, aliada à cooperação entre treinadores, árbitros, clubes e dirigentes, permitiu construir um sistema estável, capaz de sustentar tanto o alto rendimento quanto o desenvolvimento institucional. Acredito que esses mesmos princípios devam orientar também a ITKF.
Como membro do Comitê Técnico Global da ITKF, imagino uma organização cada vez mais unida, forte e respeitada, sustentada por valores claros, elevados padrões técnicos e responsabilidade compartilhada. A ITKF deve ser um espaço em que a tradição não seja utilizada como argumento para impedir mudanças, mas como o alicerce de um desenvolvimento saudável. Ao mesmo tempo, qualquer evolução precisa preservar a identidade do Karatê Tradicional.
Vejo o futuro da ITKF com otimismo, desde que consigamos permanecer unidos. Precisamos fortalecer a cooperação entre as federações filiadas, estabelecer critérios claros, promover competições bem organizadas, garantir uma arbitragem cada vez mais confiável e consolidar uma visão técnica coerente. Se esses pilares continuarem sendo sustentados pelo respeito mútuo e pela responsabilidade coletiva, estou convencido de que a ITKF se tornará ainda mais forte e deixará às futuras gerações uma organização à altura do legado que recebemos.
Ao encerrar a entrevista, Cornell Mușat dirige uma mensagem às novas gerações de praticantes de Karatê Tradicional. Mais do que falar sobre títulos ou resultados, ele reflete sobre o significado do Budô, a responsabilidade de cada praticante e o legado que deve ser transmitido às futuras gerações. Para o treinador romeno, as medalhas passam; o caráter construído ao longo do Caminho permanece.
Se pudesse deixar uma única mensagem aos jovens que hoje iniciam sua trajetória no Karatê Tradicional, diria para nunca perderem de vista o verdadeiro motivo pelo qual entraram em um dojô. É natural sonhar com vitórias, medalhas e títulos. Todos nós já tivemos esses objetivos. No entanto, com o passar dos anos, compreendemos que as conquistas esportivas representam apenas uma parte da jornada.
O Karatê Tradicional é um caminho de desenvolvimento humano. Cada treino, cada dificuldade superada e cada desafio enfrentado contribuem para formar pessoas mais disciplinadas, responsáveis, resilientes e respeitosas. As medalhas são importantes e merecem ser valorizadas, mas não definem o valor de um praticante. O que realmente o distingue é a maneira como ele se comporta dentro e fora do tatami.
Também gostaria de dizer aos jovens que tenham paciência. Vivemos em uma época marcada pela velocidade e pela busca de resultados imediatos. No Karatê Tradicional, porém, a evolução acontece gradualmente. Não existe crescimento sólido sem dedicação, perseverança e constância. Cada treino representa mais um pequeno passo em direção ao aperfeiçoamento. O importante não é ser melhor do que os outros, mas tornar-se, a cada dia, uma pessoa melhor do que ontem.
Nunca se esqueçam de respeitar seus professores, seus companheiros de treino e todos aqueles que contribuíram para que vocês chegassem até aqui. Nenhum praticante constrói sua trajetória sozinho. Sempre haverá um mestre disposto a ensinar, colegas que ajudarão no aprendizado e uma comunidade que compartilhará os mesmos valores. A gratidão faz parte do Caminho.
Ao mesmo tempo, não tenham medo dos desafios. Derrotas, dificuldades e momentos de frustração fazem parte da formação de qualquer atleta e de qualquer ser humano. Muitas vezes, aprendemos mais nas derrotas do que nas vitórias. O importante é manter a capacidade de aprender, corrigir os próprios erros e seguir em frente com humildade e determinação.
Sinto-me profundamente grato por tudo o que o Karatê Tradicional me proporcionou. Como atleta, permitiu-me representar meu país e conquistar títulos mundiais. Como treinador, oferece-me a oportunidade ainda mais valiosa de ajudar a formar novas gerações. Hoje compreendo que esse talvez seja o maior privilégio que um praticante pode receber: transmitir adiante aquilo que um dia lhe foi ensinado.
Esse é o legado que desejo deixar. Que cada jovem compreenda que o Karatê Tradicional não termina quando acaba uma competição nem quando se conquista uma graduação. Ele acompanha cada decisão da nossa vida. Se conseguirmos preservar esse espírito e transmiti-lo às gerações futuras, estaremos honrando o trabalho de nossos mestres e garantindo que o verdadeiro significado do Karatê Tradicional permaneça vivo por muitas décadas.