Egito prepara defesa do título no Cairo: “Ser campeão mundial é uma nova responsabilidade”

Campeã mundial em Portugal em 2024, a seleção egípcia se prepara para defender o título em casa, no Mundial do Cairo de 2026 © ETKF

Após conquistar 36 medalhas em Portugal, seleção anfitriã busca o bicampeonato com preparação criteriosa e renovação. Diretor técnico Mohamed Fawzy fala sobre a pressão de competir em casa e o legado que pretende construir para o Karatê Tradicional.

Por Paulo Pinto / Global Sports
Curitiba, 9 de setembro de 2026

O Egito chegará ao 23º Campeonato Mundial da ITKF, em outubro, no Cairo, com duas responsabilidades: receber a comunidade internacional do Karatê Tradicional e defender o primeiro lugar conquistado em Portugal, em 2024. Para Mohamed Fawzy, diretor técnico da seleção egípcia, a força da torcida precisa se transformar em confiança nos tatamis, enquanto o título deve alimentar a evolução de um trabalho que não pode se acomodar.

Sensei Mohamed Fawzy, roku-dan (6º dan) e diretor técnico da seleção egípcia de Karatê Tradicional © ETKF

A conquista em Vila do Conde colocou os egípcios no topo do quadro geral, com 14 ouros, dez pratas e 12 bronzes. O Brasil terminou em segundo, com 13 ouros, oito pratas e seis bronzes, seguido pela Polônia, com seis ouros, sete pratas e 12 bronzes. A Romênia ficou em quarto, com quatro ouros, oito pratas e 14 bronzes, e Portugal completou as cinco primeiras posições, com três ouros, três pratas e nove bronzes.

São essas seleções que a Revista Budô e a Global Sports acompanham na série de entrevistas sobre a preparação para o Mundial do Cairo. Depois da Romênia, com Cornel Mușat, e de Portugal, com Marco Silva, a palavra agora é do anfitrião e atual campeão.

Seleção egípcia com o troféu de campeã do Mundial de Karatê Tradicional de 2024, em Portugal ©

Também integrante do Comitê Técnico Superior da Federação Internacional de Karatê Tradicional, Fawzy apresenta uma seleção que busca conciliar experiência e renovação. A conquista anterior merece reconhecimento, mas não assegura convocação: desempenho, disciplina e capacidade de responder à pressão orientarão as escolhas.

Na entrevista, o diretor técnico explica o que mudou desde Portugal, avalia os principais adversários e relaciona a busca pelo bicampeonato a um objetivo mais amplo: atrair jovens, fortalecer clubes e ampliar as oportunidades de desenvolvimento da modalidade no Egito e em sua região.

Seleção egípcia de Karatê Tradicional reunida em 2026 © ETKF

O QUE O TÍTULO MUNDIAL DE 2024 REPRESENTOU PARA O KARATÊ TRADICIONAL EGÍPCIO?

Recebemos a conquista de 2024 com imenso orgulho, mas também com a compreensão de que um título mundial não é o fim de uma caminhada: é uma nova responsabilidade. Terminar em primeiro lugar em Portugal, com 36 medalhas, 14 ouros, dez pratas e 12 bronzes, foi um marco para o Karatê Tradicional egípcio.

Ramy El-Mekkawy, chairman da ITKF África e presidente da Federação Egípcia de Karatê Tradicional, com Mohamed Fawzy, diretor técnico da seleção egípcia de Karatê Tradicional © ETKF

Para os atletas, confirmou que preparação disciplinada, compromisso técnico e confiança nas próprias capacidades podem colocar o Egito no mais alto nível. Para a comissão técnica, validou o trabalho realizado nos bastidores e, ao mesmo tempo, elevou o padrão que precisamos manter.

Historicamente, o título demonstrou que o Egito pode disputar a liderança mundial do Karatê Tradicional e construir uma cultura duradoura de alto rendimento, em vez de depender de conquistas individuais isoladas.

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O QUE FOI DECISIVO PARA CONQUISTAR OS 14 OUROS E TERMINAR À FRENTE DOS PRINCIPAIS ADVERSÁRIOS?

Eu não reduziria esse sucesso a um momento ou a um atleta. O fator decisivo foi a consistência da nossa abordagem técnica durante toda a competição. Trabalhamos disciplina, clareza tática, qualidade de execução e capacidade de conduzir cada confronto de acordo com suas exigências e dificuldades.

Delegação egípcia na Copa Ararat de 2026, na Armênia © ETKF

Igualmente importante foi nossa insistência para que cada atleta entrasse na competição com uma identidade técnica clara e a compreensão exata do que precisava fazer. Os 14 ouros foram resultado de preparação coletiva e atenção aos detalhes, e não de uma única decisão tática.

O QUE FOI MANTIDO E O QUE PRECISOU EVOLUIR NA PREPARAÇÃO DEPOIS DO TÍTULO?

A conquista não nos levou a abandonar os princípios que funcionaram, mas a examiná-los de maneira mais crítica. Mantivemos a disciplina do processo de preparação, a ênfase nos fundamentos técnicos, a avaliação sistemática e a importância da experiência competitiva.

Comissão técnica da seleção egípcia de Karatê Tradicional para o Mundial do Cairo © ETKF

O que evoluiu foi o nível de detalhamento e de exigência sobre os padrões de desempenho. Quando você se torna campeão mundial, os adversários passam a estudá-lo de outra maneira, e seus próprios atletas começam a competir sob expectativas maiores.

Nossa tarefa é preservar o que funciona e aprimorar continuamente a precisão técnica, a adaptação tática, a preparação física e a capacidade de enfrentar as dificuldades psicológicas da competição.

Seleção egípcia conquista o primeiro lugar na Copa do Mundo de 2023, no Uzbequistão © ETKF

COMO ESTÁ ORGANIZADA A PREPARAÇÃO PARA O CAIRO E O QUE ESTÁ PREVISTO PARA A RETA FINAL?

Tratamos a preparação como um ciclo progressivo de desenvolvimento do desempenho, com o objetivo de chegar ao Mundial do Cairo na melhor condição, e não simplesmente cumprir uma carga elevada de treinamento.

A fase final deverá se concentrar no refinamento da execução técnica, nas táticas específicas da competição, no controle da intensidade, na recuperação e na preparação psicológica.

“Nossa ambição, portanto, não é apenas vencer campeonatos, mas ajudar a construir o futuro da modalidade.”

Os períodos de concentração e as competições preparatórias são importantes porque permitem testar os atletas sob pressão, identificar lacunas técnicas e realizar os últimos ajustes. Eventuais intercâmbios ou participações internacionais serão utilizados de maneira estratégica, priorizando a qualidade da preparação, e não a quantidade de eventos.

O calendário e os detalhes das participações serão confirmados pelos procedimentos técnicos e administrativos oficiais.

Professores Mohamed Fawzy, Justo Gomez, Gilberto Gaertner e Cornel Mușat no gashuko realizado em agosto no European Budo Centre – Dojo Stara Wieś, na Polônia © ETKF

QUAIS CRITÉRIOS DEFINIRÃO A CONVOCAÇÃO? HAVERÁ RENOVAÇÃO EM RELAÇÃO À EQUIPE CAMPEÃ?

A escolha deve considerar desempenho, regularidade, nível técnico, condições de competir, disciplina e capacidade de execução sob pressão. Os campeões mundiais merecem reconhecimento pelo que conquistaram, mas a convocação não pode se basear apenas na reputação.

Seleção egípcia em Vila do Conde, Portugal, durante o Mundial de 2024 © ETKF

Ao mesmo tempo, a renovação é importante, porque uma seleção forte precisa desenvolver continuamente novos atletas capazes de competir no mais alto nível.

Buscamos esse equilíbrio: preservar a experiência e a mentalidade vencedora dos atletas que já demonstraram sua capacidade, oferecendo oportunidades reais a quem comprovar que pode fortalecer a equipe em 2026.

Seleção egípcia com Mohamed Fawzy, diretor técnico da seleção egípcia, shihan Gilberto Gaertner, chairman da ITKF, e Ramy El-Mekkawy, chairman da ITKF África e presidente da Federação Egípcia de Karatê Tradicional © ETKF

QUAL SERÁ O TAMANHO DA DELEGAÇÃO E COMO ESTÁ ORGANIZADA A EQUIPE DE TRABALHO?

Como diretor técnico, considero importante distinguir o objetivo esportivo dos números que dependem da inscrição definitiva e da aprovação oficial. O total de atletas egípcios ainda será anunciado, mas já podemos apresentar a composição da comissão técnica e da equipe de apoio.

Não gostaria de divulgar números ou nomes preliminares de atletas que possam mudar posteriormente. O que posso destacar é que a delegação será organizada para oferecer o suporte técnico, administrativo, médico e logístico necessário em um Campeonato Mundial realizado no Egito.

https://www.originaltatamis.com.br/

Comissão Técnica e Administrativa

Mohamed Fawzy Ali – Chefe da comissão e diretor técnico
Abdel Fattah Ahmed Hassan – Treinador geral
Sherif Abdel Nabi Abu El-Saoud – Diretor técnico de kata
Islam Mohamed Osman – Diretor técnico de kumitê
Dr. Ayman Shaaban Younis – Diretor técnico de planejamento das cargas de treinamento
Islam Fayek El-Kamar – Treinador
Mohamed Samir – Treinador
Awad Mahdy – Treinador
Shady Mohamed – Treinador
Mohamed Rifai – Diretor administrativo

Comitê Superior de Supervisão da Seleção

Dr. Rami El-Mekkawy – Supervisor geral da seleção
Ibrahim El-Masry – Supervisor técnico da seleção
Profa. Dra. Amal Farouk Salem – Supervisora física e psicológica da seleção
Eng. Mohamed Mostafa Abdel Nabi – Supervisor administrativo da seleção

Comitê Técnico da ITKF Global durante o Master Course de 2025, realizado no Egito © ETKF

QUAIS ATLETAS DESPONTAM COMO OS PRINCIPAIS NOMES DO EGITO PARA O MUNDIAL?

A equipe egípcia tem um grupo forte, com competidores experientes e talentos em ascensão. No entanto, a relação definitiva de atletas, categorias e provas para o Cairo depende da seleção aprovada e das inscrições oficiais.

Prefiro não divulgar nomes ou definir a participação de cada atleta antes da conclusão desse processo. A precisão é essencial, e as categorias podem mudar conforme as decisões da comissão e o registro oficial.

Mohamed Fawzy exibe o troféu de campeão geral do Mundial de 2024, em Portugal © ETKF

Nossa filosofia é construir uma equipe em que atletas de nível mundial e novos competidores se complementem, dando ao Egito competitividade no presente e uma perspectiva sólida para o futuro.

COMO AVALIA BRASIL, POLÔNIA, ROMÊNIA E PORTUGAL? QUAL SERÁ O MAIOR DESAFIO PARA DEFENDER A LIDERANÇA?

Essas seleções representam um nível muito elevado de competição, e respeitamos a evolução e a experiência de cada uma. Brasil, Polônia, Romênia e Portugal têm culturas competitivas fortes, e esperamos que cheguem ao Cairo muito motivados e tecnicamente preparados.

Seleção egípcia de Karatê Tradicional durante treinamento na praia © ETKF

Para o Egito, o principal desafio não é apenas repetir o resultado de 2024. É apresentar um bom desempenho sob expectativas maiores, diante de adversários que tiveram dois anos para analisar o Mundial anterior.

Precisamos evoluir sem nos acomodar. A regularidade técnica, a adaptação tática, a força do conjunto nas diferentes provas e a capacidade de conduzir os momentos decisivos serão fundamentais na tentativa de defender o primeiro lugar.

Professores Mohamed Fawzy e Gilberto Gaertner © ETKF

COMO TRANSFORMAR O APOIO DA TORCIDA EM MOTIVAÇÃO SEM PERDER O EQUILÍBRIO EMOCIONAL?

Competir em casa deve ser tratado como uma vantagem, e não como um peso adicional. Nossa mensagem aos atletas é simples: a torcida está ali para apoiá-los; a responsabilidade de cada um no tatami é executar aquilo para o qual treinou.

Trabalharemos rotinas, comunicação, preparação mental e simulações de competição para que os atletas se sintam confortáveis ao atuar sob atenção e expectativa.

Seleção egípcia na Copa do Mundo de Karatê Tradicional de 2025, na Polônia © ETKF

Também queremos separar o significado emocional de sediar o Mundial das decisões técnicas tomadas durante a disputa. O atleta precisa permanecer concentrado na próxima ação, na próxima troca de técnicas e no próximo ponto, e não na dimensão da ocasião.

O QUE UM BICAMPEONATO NO CAIRO PODERIA REPRESENTAR PARA O DESENVOLVIMENTO DA MODALIDADE?

Um segundo título mundial consecutivo no Cairo teria enorme significado, mas sua importância iria muito além do quadro de medalhas. Demonstraria que o sucesso de 2024 não foi uma conquista isolada, mas parte de um projeto técnico sustentável.

Receber o Mundial e vencer em casa também poderia criar condições importantes para atrair jovens atletas, fortalecer clubes e academias, estimular investimentos na formação de treinadores e na infraestrutura de competições, além de ampliar a participação na modalidade.

Seleção egípcia no Aeroporto do Cairo antes do embarque para Portugal, em 2024 © ETKF

Regionalmente, o Egito tem a oportunidade de se tornar uma referência para o Karatê Tradicional na África e no Oriente Médio, contribuindo também para fortalecer as conexões entre as comunidades da África, da Europa e da Ásia.

Nossa ambição, portanto, não é apenas vencer campeonatos, mas ajudar a construir o futuro da modalidade.

QUE MENSAGEM GOSTARIA DE TRANSMITIR ÀS SELEÇÕES QUE VIAJARÃO AO CAIRO?

A todos os diretores técnicos, treinadores e atletas que virão ao Cairo: vocês não estão vindo apenas para competir, mas para fazer parte de um capítulo importante da história do Karatê Tradicional.

“Nossa ambição, portanto, não é apenas vencer campeonatos, mas ajudar a construir o futuro da modalidade”, afirma Mohamed Fawzy © ETKF

O Egito os recebe com respeito, espírito esportivo e profundo apreço pela família internacional da nossa modalidade. Espero que o campeonato seja marcado por alto nível técnico, competição justa, respeito mútuo e atuações inesquecíveis.

Faremos tudo o que estiver sob nossa responsabilidade para que o Cairo seja um palco à altura dos melhores atletas do mundo.

Que vença o melhor desempenho e que toda a comunidade do Karatê Tradicional deixe o Egito mais forte, mais unida e mais inspirada do que quando chegou, para que a tradição continue a se fortalecer e permaneça pujante.

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