02 de novembro de 2026
Ensinar judô exige respeito à capacidade de aprender e ao ritmo de cada criança © Imagem gerada por IA / Global Comunicação
A dimensão socioeducativa do judô se revela nas escolhas cotidianas de quem ensina: na conduta do professor, na linguagem utilizada e no respeito à capacidade de aprender de cada criança. Neste artigo, o professor Marco Antônio Domingues reflete sobre os riscos de infantilizar o ensino e retoma uma lição de Stanlei Virgílio, uma das maiores referências da historiografia do judô brasileiro. Em A arte do judô, o mestre explica por que a terminologia japonesa constitui uma linguagem universal, capaz de conectar praticantes de diferentes países e preservar a identidade da modalidade.
Com quase meio século de vivência no judô e 35 anos dedicados à docência, consolidei uma convicção que a prática reafirma diariamente: as crianças aprendem pelo exemplo. A maneira como o professor ensina, se comunica e trata as pessoas transmite valores que nenhum discurso, sozinho, consegue sustentar.
É a conduta cotidiana do sensei que dá sentido às orientações sobre respeito, responsabilidade e convivência. Antes de cobrar determinada postura dos alunos, precisamos demonstrá-la em nossas próprias atitudes, dentro e fora do tatami.
Esse compromisso também se manifesta na linguagem. Ensinar os nomes corretos das técnicas integra a formação do judoca e o aproxima de um conhecimento compartilhado por praticantes de diferentes países. A precisão terminológica tem, portanto, uma função educativa que vai além da preservação de uma tradição.
O professor Stanlei Virgílio já explicava essa importância em A arte do judô. No capítulo “A prática”, observava que a nomenclatura japonesa é universal e permite o entendimento entre judocas de diferentes línguas. Também lembrava com frequência que, com o tempo, essas palavras se tornam familiares, deixando de representar uma dificuldade de compreensão ou pronúncia.

Sua reflexão permanece atual. O estranhamento inicial diante de um nome desconhecido faz parte da aprendizagem. Cabe ao professor apresentar o termo, explicar seu significado e associá-lo à demonstração do movimento, respeitando o ritmo de cada aluno e reconhecendo que cada criança tem seu próprio tempo para compreender e assimilar o que lhe é ensinado.
Uma técnica de projeção como o ippon-seoi-nage deve ser apresentada pelo nome que a identifica. Substituí-lo por expressões como “golpe da bananinha” empobrece a transmissão do conhecimento e dificulta a construção de um repertório técnico comum e universal.
O recurso lúdico pode ajudar a explicar um movimento e tornar a aula envolvente. O problema surge quando a brincadeira ocupa permanentemente o lugar do conteúdo, e a criança deixa de ter acesso àquilo que é verdadeiramente capaz de aprender.
“Aprender em conjunto exige que cada criança tenha espaço para perguntar, errar e tentar novamente.”
As crianças demonstram grande capacidade de assimilação quando recebem orientações claras, encontram estímulo e participam de um ambiente que valoriza a descoberta. Simplificar uma explicação é uma competência pedagógica; esvaziar o conhecimento para torná-lo supostamente acessível significa subestimar quem aprende.
O judô foi estruturado por Jigoro Kano como uma proposta de educação, apoiada em princípios como sei-ryoku-zen-yo, o melhor uso da energia, e jita-kyoei, a prosperidade e o benefício mútuos. Seus nomes, suas práticas e suas formas de convivência participam dessa construção.
Quando ensinamos uma técnica, transmitimos também uma maneira de estudar, de enfrentar dificuldades e de respeitar um conhecimento construído ao longo de gerações. O cuidado com a terminologia deve acompanhar o cuidado com a execução, com a segurança e com as relações entre os praticantes.
Ao longo da docência, também observamos como as crianças passam a participar ativamente desse ambiente. Quando as orientações são apresentadas com firmeza, clareza e afeto, elas compreendem os combinados e começam a ajudar umas às outras, seja ao recordar um nome, seja ao demonstrar uma atitude de respeito.
Essa colaboração precisa ser conduzida pelo professor para que a correção entre colegas seja uma forma de apoio, sem constrangimento ou exposição. Aprender em conjunto exige que cada criança tenha espaço para perguntar, errar e tentar novamente.
Nosso compromisso ultrapassa a formação de atletas. O judô oferece oportunidades diárias de desenvolver autonomia, responsabilidade e consideração pelo outro. Honrar esse potencial começa pelo exemplo do sensei e pelo respeito à inteligência de cada aluno.
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