Falta de comando e fragilidade política deflagram processo sucessório na Confederação Brasileira de Judô

Ney Wilson e Sílvio Acácio Borges na assembleia eletiva realizada em março de 2017 no Hotel Windsor Plaza em Copacabana

Processo prematuro, deflagrado pelo próprio presidente da CBJ em novembro de 2018, expõe um quadro com vários nomes para o pleito de março de 2021

Gestão Esportiva
12 de setembro de 2019
Por PAULO PINTO I Fotos BUDOPRESS, GLOBO/JOÃO COTTA e FACEBOOK
Curitiba – PR

Tradicionalmente o processo eleitoral da Confederação Brasileira de Judô (CBJ) começa após o término dos Jogos Olímpicos e culmina na assembleia eletiva propriamente dita, que por lei deve ocorrer até 15 de março do ano seguinte.

Contudo, a falta de comando e a fragilidade política da atual gestão já deflagraram o processo sucessório na CBJ, paradoxalmente desencadeado no dia 21 de novembro de 2018 pelo próprio Sílvio Acácio Borges. O presidente da entidade lançou-se à reeleição durante a assembleia geral extraordinária realizada na sede da entidade, no bairro do Botafogo, no Rio de Janeiro. Tal atitude, segundo fomos informados, contrariou até mesmo Paulo Wanderley Teixeira, presidente do Comitê Olímpico do Brasil, que nos bastidores repudiou o ato impensado de seu sucessor ao se lançar candidato sem o seu consentimento.

Segundo afirmam os professores fluminenses mais graduados, o medalhista olímpico Flávio Canto é um dos mais fervorosos defensores da candidatura Ney Wilson

Durante o workshop do mestre japonês Hirotaka Okada, realizado em fevereiro deste ano na Arena Carioca 3 pela FJERJ, comentou-se amplamente que o medalhista olímpico Flávio Canto já anunciava que Ney Wilson Silva, gestor de alto rendimento da CBJ, será o próximo presidente da CBJ.

Agora recebemos a informação de que o presidente da Federação Universitária Paulista (Fupe), Aurélio Miguel, outro gigante dos tatamis, já está em campanha para eleger Ney Wilson, fato revelado por vários atletas e pessoas que estiveram com o campeão olímpico, que foi a Tóquio a convite justamente do gestor de alto rendimento da CBJ.

Mas, se os medalhistas olímpicos estão em campanha, o presidente da CBJ não está parado. Mesmo com a grave crise financeira que assola o País e principalmente a entidade, Sílvio Acácio Borges não perde uma oportunidade de fazer campanha, proporcionando viagens internacionais aos presidentes das federações estaduais.

Membros da comissão técnica da CBJ, o ex-vereador Aurélio Miguel, o medalhista olímpico Walter Carmona, Akio Shiba e Sebástian Pereira, vice-campeão mundial de judô e gerente de identificação e desenvolvimento de talentos do COB comemorando o bronze por equipes mistas em Tóquio

Em todos os grand slams e grands prix o dirigente envia um ou mais presidentes para passear no exterior, repetindo uma prática instituída pelo saudoso professor Joaquim Mamede, ex-presidente da CBJ, criador de esquemas criticados por seus opositores que se perpetuam até hoje.

Somente para o Campeonato Mundial de Tóquio, Sílvio Acácio patrocinou a viagem de dois presidentes estaduais com verbas oriundas do Ministério do Esporte e do Comitê Olímpico do Brasil.

Quadro político insustentável

Contudo, diante os inúmeros fracassos acumulados em pouco mais de dois anos de gestão, um número expressivo de presidentes estaduais (principalmente os preteridos pelo presidente da CBJ) tem expressado enorme insatisfação com a atual gestão. Embora todos se mantenham fiéis à tradição de iniciar a campanha a partir dos Jogos de Tóquio 2020, percebe-se nos bastidores que a disputa interna extrapolou aquilo que há quase 20 anos vinha sendo mantido como norma ou até mesmo pacto político.

Ney Wilson e Sílvio Acácio com Marcelo Ornelas França, presidente da Febaju em Hamamatsu

Outro fato surpreendente é que, no período em que Paulo Wanderley Teixeira esteve no comando da CBJ, o processo eletivo se dava sempre em torno de dois nomes ou chapa única. Hoje, além de Ney Wilson e do presidente da entidade, surgem mais duas lideranças envolvidas no pleito marcado para 15 de março de 2021.

Até mesmo pelo protagonismo que exerce nas áreas técnica e de arbitragem, São Paulo desponta como uma força natural a ser sempre considerada para o pleito e, segundo corre a boca pequena, desta vez o Nordeste vai apresentar candidatura própria.

Pelo visto, muita água ainda vai passar sob esta ponte. Resta apenas saber se até a data da assembleia eletiva alguma coisa restará ainda da CBJ que nos foi legada por Paulo Wanderley e pela equipe de profissionais que elevou o judô brasileiro ao mais alto nível no que diz respeito à gestão esportiva.

O presidente da Fupe e Walter Carmona com os professores Samir Guedes Salomé, Akio Shiba e João Azen diante do Nippon Budokan, a arena edificada no centro de Tóquio em 1964