27 de outubro de 2026
A estreia do Open São Paulo de ne-waza pela FPJudô amplia o olhar sobre a luta de solo e seu papel na formação de judocas mais completos © Anderson Neves / FP Judô
Dar continuidade à luta quando ela chega ao chão, aprender a sair de posições desfavoráveis e transformar o ne-waza em uma parte mais presente do treinamento. Esses objetivos orientaram a primeira edição do Open São Paulo de Ne-waza, realizada pela Federação Paulista de Judô (FPJudô) no sábado (24), no Ginásio Poliesportivo Antônio Baldusco, em Itapecerica da Serra. Com cerca de 100 inscritos das classes cadete, júnior, sênior e veteranos, no masculino e no feminino, a competição abriu espaço para uma experiência que pretende produzir efeitos além dos resultados daquela jornada.
A iniciativa partiu do professor Moacir Mendes Junior, que apresentou ao presidente Henrique Guimarães uma proposta desenvolvida a partir de sua experiência com a luta de solo e já aplicada em duas competições pela Federação Gaúcha de Judô. Ao acolher o projeto, a FPJudô contratou seu trabalho e mobilizou a coordenação técnica, a equipe de arbitragem e a estrutura de eventos para viabilizar a estreia paulista.

Henrique Guimarães, presidente da FPJudô, destacou a expertise de Moacir Mendes Junior e sua contribuição para o aperfeiçoamento técnico de atletas, professores e árbitros © Anderson Neves / FP Judô
O Open aconteceu simultaneamente à seletiva para o Meeting de Santa Catarina e a um exame de arbitragem Nacional C. Das 12 áreas de competição disponíveis na programação, duas foram destinadas às disputas de ne-waza. A convivência entre as atividades colocou a novidade diante de uma comunidade já reunida para competir, acompanhar atletas e participar de ações de formação.
Para Moacir, o propósito precisava estar claro desde o início: não se tratava de criar outra modalidade, mas de oferecer ao próprio judô uma ferramenta para desenvolver uma parte de seu repertório que, em sua avaliação, ainda recebe atenção insuficiente em muitos ambientes de treinamento.
“Gosto de dizer que coloquei uma lupa sobre o ne-waza. Essa regra é justamente isso: uma lupa que amplia e coloca o ne-waza em evidência. É o ne-waza com o qual o judô já está acostumado, aquilo que vemos diariamente nas competições”, explica.

Autoridades do judô paulista reunidos na cerimônia de abertura © Anderson Neves / FP Judô
A ideia encontrou respaldo na disposição da federação de ampliar as oportunidades de aperfeiçoamento. Na declaração publicada no site da entidade, o professor Henrique destacou a origem da proposta e o motivo de acolhê-la: “O Moacir me trouxe o projeto e eu achei importante a gente prestigiar essa ferramenta de aperfeiçoamento técnico para atletas, técnicos e árbitros”.
O contato entre Moacir e a coordenação técnica paulista antecedia a realização do torneio. Marco Antônio da Costa, o Rato, conta que já conversava com o professor sobre as experiências desenvolvidas no Rio Grande do Sul e sobre a possibilidade de trazê-las para São Paulo. A decisão de Henrique permitiu transformar essas conversas em planejamento, definição de data, preparação da arbitragem e execução.
“No ano passado, eu já havia conversado com o Moacir sobre o trabalho que ele vinha desenvolvendo há algum tempo. Ficamos aguardando o momento adequado para avançar com a proposta”, relata Rato. “Em uma competição, o Moacir conversou com o presidente Henrique, e os dois chegaram a um acordo. O presidente Henrique nos procurou rapidamente para que pudéssemos organizar, em conjunto com o Moacir, essa primeira edição do Open de Ne-waza.”

A decisão encerra um combate e o aprendizado segue com atletas, professores e árbitros © Anderson Neves / FP Judô
Moacir recorda que a mobilização para realizar a edição paulista ganhou intensidade cerca de dois meses antes do evento. Desde as primeiras conversas sobre a execução, insistiu na necessidade de preparar os árbitros e apresentar o funcionamento das regras aos participantes. Mais importante que buscar um número elevado de inscritos, naquele primeiro momento, era demonstrar o sentido técnico da proposta.
“Nosso objetivo era apresentar a competição e, mais do que isso, demonstrar que ela funciona, que tem fundamento e que é judô. Queríamos desmistificar a ideia, presente na cabeça de muitos treinadores e atletas, de que se trata de algo inventado ou criado do zero. Não é nada disso: é tudo judô”, afirma.
A trajetória que sustenta esse trabalho começou no judô em 1985, quando Moacir tinha quatro anos. Faixa-preta desde 1997, construiu uma carreira de alto rendimento que inclui quatro ouros no Campeonato Brasileiro Adulto, o ouro pan-americano de 2006 e o bronze no Mundial Júnior de 2000. Posteriormente, sua experiência passou a ser aplicada à preparação de outros atletas.
No jiu-jítsu, tornou-se faixa-preta em 2008 e desenvolveu um trabalho que também envolve a adaptação de quedas e transições entre as duas práticas. Atualmente, atua na Alliance Canoas Norte e na Alliance Porto Alegre, nesta última ao lado do professor Mário Reis. Essa vivência ajuda a explicar seu interesse pelos mecanismos de aprendizagem da luta de solo, sem que o sistema apresentado no Open tenha como finalidade reproduzir uma competição de jiu-jítsu.

Professores Marco Antônio da Costa, o Rato, Moacir Mendes Junior e Marco Aurélio Uchida © Anderson Neves / FP Judô
Na Sogipa e em trabalhos com judocas da seleção brasileira, acompanhou atletas que atravessaram os ciclos olímpicos do Rio, de Tóquio e de Paris. Entre os nomes que menciona estão Mayra Aguiar, Maria Portela, Rafael Macedo, Leonardo Gonçalves, Daniel Cargnin, Ketleyn Quadros e Felipe Kitadai. No caso de Kitadai, ressalva que a colaboração começou antes da formulação das regras, quando os princípios do método já orientavam seus treinamentos.
O sistema competitivo foi estruturado depois dos Jogos do Rio. A pergunta que o impulsionava, porém, era anterior: por que tantos judocas demonstravam pouca disposição para treinar ne-waza?
Ao observar os combates, Moacir identificou uma diferença entre a capacidade de atacar e a de se defender. Em sua avaliação, muitos atletas aprendiam desde cedo a buscar técnicas ofensivas, mas não recebiam preparação equivalente para reconhecer e resolver situações de risco no solo. Parte deles se habituava a esperar pela interrupção do árbitro, em vez de construir uma saída.

Henrique Guimarães homenageia Moacir Mendes Júnior durante a cerimônia de abertura © Anderson Neves / FP Judô
“Saber se defender é uma obrigação; atacar é uma opção. Então, o primeiro passo é fazer com que os atletas parem de perder lutas no chão. E como conseguimos isso? Trabalhando a parte defensiva”, sustenta.
A resposta que encontrou foi atribuir consequências competitivas a situações que desejava modificar no treinamento. O domínio das costas e o controle da meia-guarda por cima passaram a receber pontuações específicas no sistema, de modo que o atleta em posição defensiva tivesse um motivo imediato para reconhecer o perigo e procurar uma solução.
“Portanto, o objetivo da regra sempre foi melhorar as deficiências defensivas dos atletas, e não criar uma nova modalidade ou um novo esporte, muito menos revolucionar o judô. Minha intenção era ajudá-los a melhorar o desempenho nas competições convencionais de judô.”
A lógica dialoga com uma observação que fez no jiu-jítsu: quando determinada posição custa pontos e pode decidir o combate, o atleta tende a dedicar mais atenção às estratégias para evitá-la. Moacir procurou aplicar esse princípio pedagógico ao ambiente do judô, usando sua linguagem de pontuação e mantendo o foco nas necessidades da modalidade.
“É claro que essa não é a regra oficial da modalidade, mas eu poderia criar um sistema paralelo para educar os atletas e ensiná-los a não oferecer as costas com tanta facilidade”, explica. “Portanto, o objetivo da regra sempre foi melhorar as deficiências defensivas dos atletas, e não criar uma nova modalidade ou um novo esporte, muito menos revolucionar o judô. Minha intenção era ajudá-los a melhorar o desempenho nas competições convencionais de judô.”
Segundo sua avaliação, a aplicação contínua do método trouxe mudanças perceptíveis aos atletas que acompanhava: maior capacidade de defesa, menos derrotas no solo e mais confiança para transformar o ne-waza em possibilidade de vitória. Ele cita Mayra Aguiar como exemplo de atleta que ampliou sua relação com essa parte do combate.

Acompanhar a evolução e reconhecer oportunidades de ataque e defesa: o Open proporcionou uma experiência de aprofundamento na leitura dos combates de ne-waza © Anderson Neves / FP Judô
O processo, acrescenta, também alterou a disposição para treinar. Quando os judocas compreendem o objetivo dos exercícios, percebem a eficácia das técnicas e reconhecem resultados nas lutas, encontram motivação para continuar.
“Isso acontece porque o treinamento se torna divertido, os atletas começam a perceber que as técnicas funcionam, aprendem mais e, principalmente, veem resultados. E os resultados fazem com que tenham mais motivação para continuar treinando”, observa.
Embora dedicado ao solo, o formato começa com os atletas em pé. A escolha é deliberada: preservar a ligação entre tachi-waza e ne-waza. Na explicação de Moacir, iniciar todos os confrontos de joelhos eliminaria uma etapa decisiva para transferir o aprendizado às competições convencionais.
Os atletas dispõem de 30 segundos para estabelecer uma transição. Ela pode nascer de uma oportunidade criada pela ação do adversário ou de uma iniciativa planejada para conduzir o combate ao chão. Uma vez estabelecida a luta no solo, o confronto permanece nessa condição.
“Se eu começo a luta de joelhos, não proporciono a eles a realidade de um combate de judô convencional, no qual o ne-waza e o tachi-waza estão conectados”, argumenta.
Moacir distingue as transições oportunistas, nas quais se aproveita uma ação ou um erro do adversário, das intencionais, construídas com o objetivo de chegar ao ne-waza em condições favoráveis. Como exemplo da segunda possibilidade, menciona a conexão entre tomoe-nage e juji-gatame, na qual a tentativa de projeção e a reação defensiva podem abrir caminho para a chave de braço.
Se os dois atletas permanecem em pé até o término do período previsto, o combate é interrompido e reiniciado de joelhos, com punição para ambos. A regra procura impedir que a preferência pela luta em pé esvazie a finalidade da competição.
A exigência de iniciativa continua no solo. Estar em vantagem não autoriza o atleta a paralisar o confronto. Quem domina uma posição também precisa buscar progressão, sob pena de receber punições por falta de combatividade. Na leitura de Moacir, esse é um dos mecanismos que tornam o formato dinâmico e ajudam a transformar posições estáticas em problemas técnicos a serem resolvidos.
A aprendizagem não se limita aos atletas. Para a professora Marilaine Ferrantti Antonialli, a Bia, coordenadora de arbitragem da FPJudô, o Open representou um desafio diferente dentro de uma jornada que já reunia diversas responsabilidades.
Além da seletiva para o Meeting, a programação incluiu um exame Nacional C autorizado pela CBJ, com 32 candidatos de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Bia coordenou as ações com o auxílio de João David de Andrade, Leonardo Arashiro e Wagner Uchida, integrantes da comissão de arbitragem paulista, e escalou outros três árbitros para auxiliar no exame.

Moacir Mendes Júnior: “Saber se defender é uma obrigação; atacar é uma opção” © Anderson Neves / FP Judô
A preparação específica para o ne-waza começou antes. Em 8 de outubro, um workshop on-line conduzido com Moacir reuniu, segundo Bia, aproximadamente 35 árbitros interessados em conhecer o formato. A atividade permitiu discutir a lógica das regras e identificar integrantes da equipe dispostos a atuar na estreia.
“Foi um desafio, com certeza, porque eu nunca havia trabalhado assim, só em ne-waza”, conta. “A arbitragem sempre tem inovação, está sempre mudando, alterando, atualizando, e os árbitros têm que estar sempre aprendendo, atualizando, reciclando e padronizando.”
No dia da competição, Moacir reuniu técnicos, atletas e os árbitros escalados para uma orientação prática no próprio tatami. Bia participou da atividade, que retomou as regras e abriu espaço para esclarecer dúvidas antes dos primeiros combates.
Ela descreve uma adaptação progressiva: o início exigiu atenção a situações pouco habituais naquele formato, mas a experiência dos árbitros e seu interesse pelo ne-waza ajudaram a dar continuidade ao trabalho. Ao longo das disputas, procurou ampliar a participação da equipe, pensando também nas próximas edições.
“Tentei rodar mais alguns árbitros porque, se acontecer um próximo, a gente já tem pessoal experiente para estar à frente das áreas junto com os atletas”, explica.

Alex Sandro Russo, delegado da 1ª DR Capital; Marco Aurélio Uchida e Marco Antônio da Costa, coordenadores técnicos; Henrique Guimarães, presidente da FPJudô; Moacir Mendes Júnior, responsável técnico pelo Open de ne-waza; Carlos Eduardo Honorato, vice-campeão olímpico; e Marcelo Nery, delegado da 9ª DR ABC © Anderson Neves / FP Judô
Para a coordenadora, uma das contribuições mais importantes foi reforçar a percepção de que a chegada ao solo representa a continuidade da luta. O trabalho de arbitragem precisa reconhecer a evolução das ações, e a vivência mais prolongada dessas situações pode ampliar a capacidade de leitura.
“É uma observação legal para os árbitros entenderem isso como a continuação da luta, não é só em pé”, afirma. “Até os atletas aprendem a se movimentar mais no chão e a ser mais ativos do que passivos. Foi bem positivo mesmo.”
Moacir também elogia a resposta da equipe. Segundo ele, depois dos primeiros combates, as intervenções passaram a se concentrar em dúvidas pontuais. O entendimento das regras deu aos árbitros mais segurança para acompanhar e avaliar as ações.
“Os árbitros que trabalharam no evento estão de parabéns. Eles se dedicaram de verdade e ficaram felizes por fazer parte de uma iniciativa pioneira. Era possível perceber a satisfação deles ao compreenderem a regra e perceberem que continuavam arbitrando judô, apenas aplicado ao ne-waza”, destaca.

Henrique Guimarães e Moacir Mendes Júnior com medalhistas na premiação © Anderson Neves / FP Judô
Sua expectativa é que o contato mais frequente com a luta de solo ajude também nas competições convencionais, especialmente na identificação de progressões, imobilizações e oportunidades de finalização. Ao abordar interrupções que considera prematuras, Moacir relaciona o problema à necessidade de ampliar a vivência técnica, e não apenas ao conhecimento formal das regras.
A supervisão de arbitragem do Open ficou com Ricardo Ozaki, da 7ª Delegacia Regional Sudoeste, e Eudes Gabriel do Nascimento. Atuaram como árbitros Rodrigo Capelucci, Nadia Hori, Danilo Aoike e Marcelo Ubirajara, da 1ª DR Capital; José Anastácio Camarotto, da 7ª DR Sudoeste; e Felipe Hadzic, da 11ª DR Litoral.
Entre os coordenadores técnicos da FPJudô, a avaliação combina a receptividade dos participantes com o potencial de continuidade. Marco Aurélio Uchida considera que o caráter de projeto-piloto exigia preparação cuidadosa e disposição para aprender durante a execução.
“Para uma primeira edição, com um formato totalmente diferente de campeonato, voltado exclusivamente para o ne-waza, esse é um número muito bom. Foi um começo bastante proveitoso para nós. Por isso, o departamento técnico considera que o evento foi um sucesso”, avalia.
Uchida observa que parte da comunidade provavelmente preferiu conhecer a experiência antes de se inscrever. Algumas dinâmicas não eram familiares a todos, ainda que relacionadas ao judô. A realização da primeira edição, em sua leitura, oferece uma referência concreta para ampliar a participação.
“Agora, com uma referência de como o evento acontece, acredito que mais pessoas se sintam motivadas a participar. Embora as regras sejam muito específicas do judô, algumas dinâmicas da luta não eram familiares a todos, e nem todos estavam preparados para esse formato. Ainda assim, acredito que todos conseguiram tirar o melhor proveito da experiência”, afirma.

Henrique Guimarães destaca a importância do ne-waza na formação dos judocas © Anderson Neves / FP Judô
O coordenador ressalta que o trabalho não começou no dia das lutas. Reuniões de planejamento, conversas com Moacir, organização dos procedimentos e preparação da arbitragem antecederam a estreia. Para ele, a resposta dos participantes indica que esse esforço pode ter continuidade.
Rato, por sua vez, destaca a qualidade dos combates e a presença de atletas que mantêm atuação competitiva relevante. Entre os confrontos que mais chamaram sua atenção, menciona a disputa entre Lucas Godoy e Nicolas, marcada pelo conhecimento que os dois têm um do outro e pela determinação de vencer dentro da área de luta.
“Foi uma luta muito disputada. Os dois já têm uma rivalidade esportiva, apesar da amizade que existe fora do tatami. Dentro da área de competição, é natural que cada um queira vencer, e isso tornou o confronto ainda mais interessante”, relata.
O dinamismo também aparece em sua avaliação. A cobrança por iniciativa reduz a possibilidade de administrar uma posição sem desenvolver o combate. Para Rato, a experiência pode ser incorporada a treinamentos conjuntos e intercâmbios, ampliando seu alcance para além do calendário de competições.

Professores Moacir Mendes Júnior e Marco Antônio da Costa, o Rato, fazem os ajustes finais com árbitros e treinadores antes do início da competição © Anderson Neves / FP Judô
“O próximo passo é promover intercâmbios e fortalecer esse formato de regras. Podemos aproveitar os treinamentos e os encontros entre equipes para estimular um estilo de combate mais ativo, incentivando a iniciativa e a agressividade no bom sentido, sempre dentro das características do ne-waza”, propõe.
Essa relação entre competição e rotina de treinamento aparece de forma clara no depoimento de Lucas Godoy. Nascido em Lorena e representante da Associação Yamazaki de Judô, competindo por São José dos Campos, ele já considera o ne-waza um de seus diferenciais. A participação no Open reforçou a percepção de que essa característica pode ser explorada de maneira mais consciente.
“Esse formato de competição me ajudou a direcionar melhor meus treinamentos diários e semanais, pensando em estratégias que fortaleçam meu judô de maneira geral. Isso não beneficia apenas meu desempenho nas competições de ne-waza, mas também nas demais competições de judô, principalmente no que diz respeito às situações de ataque”, explica.
Lucas utiliza o solo como ferramenta ofensiva, mas também vê conexão entre conhecer os ataques e desenvolver respostas defensivas. Entender a construção de uma técnica, identificar as posições e reconhecer o momento em que uma ação se torna perigosa ajuda a ampliar sua capacidade de reação.
“Quando você entende como executar determinada técnica e reconhece as situações que acontecem durante a luta, consegue aprender a se defender melhor”, afirma.

Lucas Godoy destaca o ne-waza como um importante diferencial nas competições de judô © Anderson Neves / FP Judô
Embora também treine jiu-jítsu, o atleta ressalta que seu foco está nas transições e na aplicação ao judô. Por isso, não sentiu necessidade de modificar profundamente sua maneira de lutar para participar do Open: precisou compreender o regulamento e executar um repertório já presente em sua preparação.
Sua experiência acrescenta uma distinção importante à discussão proposta por Moacir. O professor critica a transferência automática da responsabilidade pelo ensino do ne-waza a uma academia de jiu-jítsu, sem acompanhamento das diferenças de regras. Lucas descreve um caminho em que o contato com a outra prática permanece orientado pelas necessidades de seu judô.
“Hoje, no alto rendimento, as diferenças entre os atletas são muito pequenas. Todos estão preparados física, psicológica e mentalmente, além de cuidarem da preparação nutricional. Do ponto de vista técnico, acredito que estar preparado para o ne-waza e ter segurança nessa parte da luta representa mais uma ferramenta e um grande diferencial”, analisa.
Para ele, a continuidade também depende dos professores. Assim como incentivam a participação em campeonatos regionais, inter-regionais e paulistas, os responsáveis pelo treinamento podem estimular a presença em competições de ne-waza e incorporar seus aprendizados ao trabalho nos clubes.
Ananda Alessandra do Prado Russo encontrou no Open uma experiência diferente das competições às quais estava habituada. A satisfação pela conquista do ouro veio acompanhada da percepção de que ainda há espaço para evoluir, sobretudo na defesa e na tomada de decisão.
“Eu descobri que sou capaz de superar desafios e que ainda posso evoluir muito no ne-waza. Fiquei muito feliz por ter sido campeã e por ver que todo o meu esforço valeu a pena”, conta.

Ananda Alessandra do Prado Russo valoriza o aprendizado sobre defesa, estratégia e paciência no solo © Anderson Neves / FP Judô
Uma situação resume esse aprendizado. Controlada pela adversária durante um dos combates, precisou lidar com a dificuldade de sair da posição sem perder a capacidade de observar e decidir.
“Precisei manter a calma, pensar em uma estratégia e esperar o momento certo para tentar sair. Isso me mostrou que preciso continuar trabalhando minha defesa e minha paciência durante as lutas”, relata.
A experiência a levou a valorizar mais o planejamento das ações, tanto para atacar quanto para se defender. A atenção aos movimentos e a paciência para reconhecer oportunidades passaram a integrar sua avaliação do que precisa levar aos próximos campeonatos.
“Aprendi a pensar mais na estratégia, tanto no ataque quanto na defesa. O ne-waza exige bastante atenção e paciência, e essa experiência me ajudou a melhorar minha visão de luta”, afirma. “Foi uma experiência muito boa e, com certeza, gostaria de participar novamente.”
Os depoimentos dos atletas ajudam a concretizar o propósito pedagógico do evento, mas a estreia também revelou exigências a serem trabalhadas. Moacir aponta o condicionamento físico específico como um dos aspectos que mais chamaram sua atenção.

A experiência do Open oferece aos professores novos caminhos para integrar defesa, ataque e transições ao treinamento cotidiano © Anderson Neves / FP Judô
Segundo sua observação, alguns competidores perderam capacidade de ação pelo desgaste, e não necessariamente por diferença de repertório técnico. O contato prolongado, a disputa contínua por posições e as oportunidades mais restritas de recuperar o fôlego impõem uma dinâmica diferente daquela à qual muitos estão habituados na luta em pé.
“No ne-waza, os atletas permanecem em contato o tempo inteiro, e não há tantas oportunidades para interromper o ritmo e recuperar o condicionamento físico. Por isso, o ne-waza é muito intenso”, explica.
Essa avaliação abre uma frente de trabalho para professores e preparadores físicos. A proposta não depende apenas de ampliar o número de técnicas ensinadas, mas de preparar o atleta para executá-las, defender-se e decidir sob a exigência de um confronto prolongado no solo.
Moacir também defende que a expansão do formato venha acompanhada de atenção às faixas etárias e às restrições técnicas de cada classe. Nas categorias mais jovens, a segurança deve orientar a aplicação das regras, respeitando as limitações já previstas para determinadas técnicas e situações de risco.

O primeiro Open paulista criou um espaço de troca entre atletas, professores e árbitros, com aprendizados que podem acompanhar o judoca nas competições convencionais © Anderson Neves / FP Judô
Quanto à evolução do regulamento, sugere reunir árbitros que acumulem experiência nesse tipo de competição para discutir ajustes a partir do que efetivamente acontecer nos eventos. A estrutura principal, em sua avaliação, está estabelecida; o aperfeiçoamento depende de observação, registro e debate.
“Acredito que o esqueleto da regra já está montado, e isso é o principal. Os detalhes ainda precisam ser avaliados com base nos dados que vamos coletar nas próximas competições. A partir daí, poderemos identificar o que deve ser mantido, alterado, incluído ou retirado”, afirma.
A sintonia com o judô permanece como orientação desse processo. “O que for alterado no judô convencional deverá ser adaptado também a essa regra. O que é permitido no judô deve ser permitido nessa competição; o que não é permitido no judô também não deve ser permitido nela”, sustenta.
Ao acolher uma experiência já desenvolvida no Rio Grande do Sul e oferecer estrutura para sua realização em São Paulo, a FPJudô abriu um espaço de experimentação que envolve diferentes responsabilidades: os atletas precisam desenvolver respostas; os professores, organizar o ensino; os árbitros, aprofundar a leitura; e a entidade, avaliar os caminhos de continuidade.

A equipe de arbitragem colocou em prática um formato que exige atenção à continuidade e à progressão da luta no solo © Anderson Neves / FP Judô
Para Moacir, o horizonte é construir uma competência que seja reconhecida também fora do país. Seu desejo não se limita à expansão do torneio, mas ao efeito que a prática sistemática pode produzir no judô brasileiro.
“Quero que cheguemos às competições do circuito mundial e olímpico, aos Grand Slams, aos Grand Prix e aos Jogos Olímpicos, e que todos os países que enfrentarem nossos atletas no chão sintam receio, porque sabem que o Brasil é uma referência em ne-waza. É esse o objetivo”, afirma. “Meu sonho é que, um dia, quando se falar em ne-waza no mundo, o Brasil seja imediatamente lembrado. Falou em ne-waza, falou em Brasil.”
“A proposta do professor Moacir encontrou na Federação Paulista disposição para ouvir, planejar e realizar. Reconhecemos a experiência que ele construiu e mobilizamos nossa equipe para oferecer aos judocas paulistas essa oportunidade. A coordenação técnica, a arbitragem, os professores e os atletas participaram desse processo, e o resultado mais importante é perceber que todos puderam aprender com a experiência.
“O compromisso da federação vai além de organizar competições e entregar medalhas. Precisamos criar condições para que o conhecimento circule, os professores tenham ferramentas de trabalho e os atletas desenvolvam um judô cada vez mais completo e de alto nível. O ne-waza faz parte da nossa modalidade e merece atenção no ensino, no treinamento e na competição.
“Esta primeira edição nos permite ouvir quem participou, avaliar o que funcionou e identificar o que pode ser aperfeiçoado. É assim que queremos construir a continuidade: com responsabilidade, participação e respeito à experiência de cada um. Acolher uma boa proposta e trabalhar coletivamente para colocá-la em prática também é uma forma de cuidar do futuro do judô paulista.”
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