25 de janeiro de 2026
Do tatami ao direito, o mesmo método, o mesmo centro, a mesma lucidez diante do conflito © Imagem criada por IA / Global Sports
A advocacia não é uma profissão para impulsivos. É um ofício que cobra estrutura quando a pressão aperta, lucidez quando o conflito cresce e firmeza quando o cenário é incerto. Por isso, ao longo dos anos, percebi que poucas práticas formam tão bem um advogado quanto o judô.
O judô nasce de uma herança antiga. Antes de ser esporte, carrega a lógica do Budô, inspirada nos guerreiros japoneses: sobreviver não pela força bruta, mas pela técnica, pelo equilíbrio e pela leitura correta do momento. Jigoro Kano transforma o combate em caminho. Retira o excesso, preserva o essencial e cria um método para formar caráter. Não se trata de vencer o outro, mas de não perder a si mesmo.
No tatami, a lição é imediata: quem força demais perde a base. Quem acelera sem controle se expõe. Quem age no impulso entrega o corpo e cai. Na advocacia, o paralelismo é evidente. Teses infladas, pedidos exagerados, posturas agressivas e decisões emocionais costumam parecer fortes no início, mas quase sempre abrem espaço para o erro. O processo, assim como o combate, pune a pressa e recompensa o fundamento.
“Não se trata de vencer o outro, mas de não perder a si mesmo.”
O judô ensina algo raro no mundo moderno: paciência ativa. Não é passividade, é estratégia. A projeção não acontece quando se quer, mas quando o outro se desequilibra. No direito, muitas vitórias também nascem assim: do tempo certo de falar, do momento correto de negociar, da maturidade para sustentar uma estratégia sem se desorganizar no meio do caminho. Quem tenta resolver tudo rápido costuma resolver mal.

Acácio Lourenção Júnior ostenta a medalha de ouro conquistada no Mundial de Judô de Phoenix, no Arizona, marco de uma trajetória construída com técnica, disciplina e consistência © Arquivo
Há ainda o valor da leitura de cenário. No judô, o detalhe decide: o peso que muda, a pegada que afrouxa, o instante de hesitação. No jurídico, não é diferente. Um documento esquecido, uma contradição ignorada, um risco mal avaliado podem definir o resultado de um caso. O advogado técnico aprende a ler o centro do problema antes de agir. Quem enxerga antes, controla.
Os ensinamentos transmitidos por mestres como o sensei Massaro Yanaguimori reforçam essa lógica: postura, equilíbrio e respeito ao método vêm antes do ataque. Postura não é estética; é destino. No tatami, ela mantém você de pé. Na advocacia, preserva sua credibilidade, sua estratégia e sua autoridade.
“O processo, assim como o combate, pune a pressa e recompensa o fundamento.”
O judô também treina algo indispensável ao advogado: controle emocional sob pressão. Quando o combate aperta, o instinto manda fazer força e gastar tudo de uma vez. A técnica manda respirar, ajustar e manter a lucidez. O cotidiano jurídico é feito dessa mesma tensão: audiências difíceis, clientes ansiosos, prazos curtos e decisões que impactam vidas e patrimônios. Quem perde o centro perde clareza. E quem perde clareza, erra — em qualquer cenário.
O advogado é, sim, um guerreiro. Mas seu campo de batalha não é a violência — é a civilidade. Sua arma não é o grito — é o fundamento. Sua vitória não está em esmagar o outro, mas em sustentar o conflito até produzir solução. Como no judô, vencer não é desorganizar o adversário a qualquer custo, mas não esmorecer quando o jogo aperta.
No fim, o judô ensina uma verdade simples e dura: resultado não vem do excesso, vem da consistência. Não vem do barulho, vem da precisão. Não vem da força, vem da técnica. E, quando o advogado aprende a manter o equilíbrio no tatami, passa a manter o equilíbrio também no direito.
Isso não é metáfora. É método, é caminho, é dô!

O advogado Acácio Lourenção Júnior © Arquivo