08 de outubro de 2026
Sensei Nishiyama expressa sua alegria ao entregar o ouro a Justo Gómez na Copa do Mundo da ITKF de 2007, em Varsóvia, na Polônia, que reuniu os oito atletas mais bem colocados no ranking da entidade © Arquivo
Uma pergunta sobre a respiração no kata Gojushiho Dai encontrou espaço na sala de espera de um consultório médico. O professor Justo Gómez havia acompanhado o sensei Hidetaka Nishiyama até ali por causa de uma dor no joelho. Naquele intervalo entre a chegada e o atendimento, a conversa tomou o caminho que tantas vezes aproximava os dois: o estudo do karatê.
“Lembro de uma ocasião em que ele me levou ao seu médico por causa de uma dor no joelho. Enquanto esperávamos, perguntei sobre a respiração no kata Gojushiho Dai. Durante os aproximadamente 45 minutos de espera, ele me deu uma explicação extraordinariamente detalhada. É assim que me lembro dele: disposto a ensinar e transmitir com entusiasmo e profundidade, mesmo em uma situação cotidiana. Para mim, aqueles momentos tiveram um valor imenso, tanto pelo que aprendia quanto pela proximidade e pela atenção que ele me dedicava.”
A lembrança abre uma dimensão da formação de Gómez que os resultados esportivos e as graduações não alcançam sozinhos. Ao revisitar sua trajetória, ele recupera as circunstâncias em que o conhecimento era compartilhado, o tempo necessário para compreendê-lo e os vínculos construídos durante esse processo.

Em Los Angeles, o sensei Hidetaka Nishiyama orienta Justo Gómez durante o treinamento, em um registro das correções que marcaram seu aprendizado no dojô © Arquivo
É desse percurso que parte sua reflexão sobre o Mundial da ITKF Global no Cairo. Competidor, professor e integrante do Comitê Técnico Sênior da entidade, o sensei argentino acompanha o presente da modalidade com uma questão que atravessa toda a entrevista: como transmitir, em profundidade, os ensinamentos recebidos aos praticantes que não tiveram a oportunidade de conviver com Hidetaka Nishiyama.
Justo Rodolfo Gómez nasceu em 8 de abril de 1966, em Estanislao del Campo, na província argentina de Formosa, e reside em Buenos Aires. Sua aproximação com Nishiyama começou em um curso internacional e se aprofundou ao longo das viagens que fazia para estudar e aprender com ele.
“Minha relação de aprendizado com o sensei Hidetaka Nishiyama foi construída ao longo de anos de busca, dedicação e contato direto com seu ensino. Eu o conheci em um curso internacional e, desde aquele primeiro encontro, fiquei impressionado com a profundidade de seus conhecimentos e com a precisão com que explicava cada aspecto do karatê. Essa admiração me levou a acompanhá-lo em cursos e seminários pelo mundo.”

Treinamento matutino nas praias de La Jolla, em San Diego, na Califórnia, durante o Master Course de 2006, em mais um registro da formação de Justo Gómez nos Estados Unidos © Arquivo
Os encontros internacionais ofereciam uma primeira oportunidade de aproximação. A convivência no dojô permitia prolongar o estudo, retomar dificuldades e acompanhar o trabalho para além da duração de um evento.
“Eu viajava aos Estados Unidos para participar dos Master Courses, que duravam sete dias, e depois ficava dois ou três meses treinando em seu dojô de Los Angeles. Essas temporadas me permitiram receber suas correções de maneira contínua, fazer perguntas e aprofundar aspectos que exigiam tempo e prática para serem compreendidos. O vínculo também cresceu nas conversas e nos momentos compartilhados fora do dojô.”

Hidetaka Nishiyama entrega a medalha de ouro a Justo Gómez, campeão de fukugô no Campeonato Mundial da ITKF de 1994, em Treviso, na Itália © Arquivo
É nesse ambiente de convivência que se situa outra recordação, desta vez relacionada à carreira competitiva. A notícia chegou por intermédio da senhora Aiko, então secretária-geral da ITKF, e permaneceu associada a uma reação que Gómez ainda descreve com emoção.
“Dentro dessa relação, houve um episódio que me marcou para sempre. A senhora Aiko se aproximou um dia e, com um sorriso, me disse: ‘O sensei Nishiyama escolheu você’. Surpreso, quase sem acreditar no que estava ouvindo, perguntei: ‘Como, senhora Aiko?’”
O significado daquela escolha dependia de uma regra de participação na Copa do Mundo, conforme o relato do professor.
“Ela então me explicou que cada integrante do Comitê Técnico da ITKF tinha o direito de escolher um único atleta de elite, entre aqueles com melhor trajetória competitiva, para participar da Copa do Mundo. Os demais integrantes haviam escolhido seus respectivos atletas, e o sensei Nishiyama havia escolhido a mim.”
“Ter tido a oportunidade de aprender ao seu lado é um dos maiores privilégios da minha vida e uma responsabilidade que acompanha meu trabalho: continuar aprofundando o que ele me ensinou e transmiti-lo com fidelidade e dedicação às próximas gerações.”
Até esse momento da narrativa, Gómez descreve acontecimentos, deslocamentos e oportunidades de aprendizado. Ao falar de como recebeu a notícia, a memória assume um registro íntimo.
“Fiquei com um nó na garganta e sem palavras. Depois de tanto tempo aprendendo com ele e me esforçando para assimilar e compreender seus ensinamentos, vivi aquilo como uma demonstração de confiança de um professor que eu admirava e respeitava profundamente. Ainda hoje me emociono ao lembrar. Guardo essa experiência com enorme carinho e gratidão.”
A distância temporal permite que ele examine também o lugar dessa convivência nas escolhas profissionais que fez posteriormente.

Gilberto Gaertner, Justo Gómez e Cornel Musat, três importantes referências técnicas da ITKF Global © Angélique Lambert / FKT Budo France
“Ter tido a oportunidade de aprender ao seu lado é um dos maiores privilégios da minha vida e uma responsabilidade que acompanha meu trabalho: continuar aprofundando o que ele me ensinou e transmiti-lo com fidelidade e dedicação às próximas gerações.”
A carreira competitiva de Gómez reúne sete títulos entre Campeonatos Mundiais e Copas do Mundo. São quatro conquistas em Campeonatos Mundiais e três em Copas do Mundo, distribuídas entre kumitê e fukugô.
O primeiro título relacionado pelo professor é o ouro no kumitê na Copa do Mundo de Milão, na Itália, em 1990. Em seguida, vieram o ouro no kumitê do Campeonato Mundial de Montreal, no Canadá, em 1992, e o de campeão do fukugô no Mundial de Treviso, na Itália, em 1994.

Justo Gómez com o troféu de campeão de fukugô da Copa do Mundo da ITKF de 2007, em Varsóvia, na Polônia © Arquivo
Em 2000, venceu o fukugô da Copa do Mundo de Moscou, na Rússia. Foi campeão de kumitê no Mundial de Ferrara, na Itália, em 2001, e no Mundial realizado em Saskatchewan, no Canadá, em 2006. Em 2007, conquistou o ouro no fukugô da Copa do Mundo de Varsóvia, na Polônia.
Sua formação inclui a qualificação como preparador físico de alto rendimento em esportes de combate pelo Instituto Aula 21, em 2012. Recebeu o shichi-dan (7º dan) da International Traditional Karate Federation, a ITKF, em 2019.
Fundador da International Traditional Karate School, a ITKS, ou Escola Internacional de Karatê Tradicional, Gómez é diretor técnico da Seção ITKF Argentina na FAKKO, a Federação Argentina de Karatê e Kobudô Okinawense. Integra o Comitê Técnico Sênior da ITKF Global e atua como examinador Classe A e árbitro Classe A, esta última categoria desde 2014.

Justo Gómez em demonstração durante a Copa do Mundo da ITKF de 2007, em Varsóvia, na Polônia, edição em que conquistou o título de fukugô © Arquivo
Essas funções o colocam em contato com diferentes realidades de ensino e organização. Para dimensionar esse trabalho, ele distingue a atuação pessoal como professor e assessor da estrutura formal de sua escola.
“Minha atividade internacional compreende o ensino, a assessoria técnica e o acompanhamento de instrutores e organizações que trabalham pelo desenvolvimento do karatê tradicional. Essa colaboração não implica necessariamente a existência de uma filial da minha escola, nem assume a mesma forma em todos os países.”

Justo Gómez recebe o diploma das mãos do sensei Hidetaka Nishiyama após o Master Course na UCSDC, nos Estados Unidos, em julho de 2005 © Arquivo
Nesse âmbito, Gómez informa apoiar iniciativas vinculadas à Alemanha, Inglaterra, Polônia, França, Armênia, Uzbequistão, Índia, Bangladesh, Paquistão, Irã, Estados Unidos, Venezuela, Uruguai, Chile, Brasil, Espanha, Congo, Egito, Rússia, Lituânia, Canadá e Tunísia.
A ITKS ocupa um lugar específico nesse percurso, como instituição criada a partir da experiência que ele procura compartilhar com seus alunos.
“A ITKS nasceu com o propósito de preservar e transmitir o legado técnico e educativo do sensei Hidetaka Nishiyama. Sua prioridade é acompanhar o desenvolvimento dos praticantes e professores, com fidelidade aos princípios que recebemos dele.”

Os professores Fernando Silva, Justo Gómez e Luiz Küster durante o Master Course realizado no Brasil, em abril de 2025 © Arquivo
Ao apresentar os vínculos mantidos por meio da escola, o professor menciona países e territórios: Inglaterra, Polônia, Uzbequistão, Índia, Bangladesh, Paquistão, Irã, Estados Unidos, Venezuela, Uruguai, Chile, Paraguai, Brasil, Cuba, Espanha, Congo, Egito, Rússia, Lituânia, Guiana Francesa, México, Peru, Costa Rica, Bolívia, Equador, Donetsk, Croácia, Grécia, Ucrânia e Sri Lanka. A relação descreve locais de apoio e colaboração, sem estabelecer um número de filiais.
“Por meio da escola, mantenho vínculos de ensino e colaboração com praticantes e organizações de diferentes países e territórios. Para precisar nossa presença internacional, é necessário distinguir as filiais formalmente constituídas dos lugares onde realizo acompanhamento técnico.”
A experiência acumulada entre o treinamento, a competição e o ensino também se manifesta na maneira como Gómez observa um atleta. Sua análise acompanha a ação em relação ao adversário e às exigências da situação, oferecendo elementos para discutir o que deve ser reconhecido em um campeonato.
“A compreensão dos princípios se reconhece na coerência da atuação: como o praticante organiza o corpo, administra a distância, percebe a oportunidade e mantém o controle. Quem incorporou os princípios consegue produzir uma ação eficaz com economia de movimento e sem tensões desnecessárias. Sua preparação física, sua intenção e sua resposta técnica trabalham de maneira integrada.”

Curso Técnico Internacional 2026 na Lituânia © Arquivo
O confronto acrescenta uma variável que impede tratar a execução como um gesto isolado. A presença de outro competidor exige decisões e ajustes durante a própria ação.
“Essa compreensão também se expressa na capacidade de adaptação. O praticante consegue conservar a clareza e o equilíbrio diante das ações do adversário, sem perder o respeito nem o controle que nossa prática exige.”
Quando passa da descrição do atleta à responsabilidade de quem o avalia, Gómez apresenta referências concretas de observação.
“Observo a utilização coordenada do corpo, a estabilidade, a distância, o momento da execução e a continuidade da atenção antes, durante e depois da técnica. Para reconhecer esses aspectos, o árbitro precisa de uma formação que reúna conhecimento do regulamento, prática e compreensão técnica. A experiência ajuda a distinguir um movimento visualmente impressionante de uma ação que corresponde aos princípios do karatê tradicional.”

Justo Gómez no pódio após conquistar o título de kumitê no Campeonato Mundial da ITKF em Ferrara, na Itália © Arquivo
A arbitragem aparece, assim, dentro de uma discussão mais ampla sobre a formação dos profissionais da modalidade. Nessa área, ele identifica outro aprendizado recebido durante a convivência com Nishiyama.
“Com Nishiyama, aprendi a importância de desenvolver essa capacidade de observação. Considero que a experiência competitiva pode enriquecê-la muito e deve ser complementada por uma preparação específica e permanente para a arbitragem.”

Treinamento matutino nas praias de La Jolla, em San Diego, na Califórnia, durante o Master Course de 2005, nos Estados Unidos. As atividades começavam às 6h e seguiam até as 7h30 © Arquivo
A passagem entre o dojô e o campeonato merece atenção porque os critérios de premiação também participam da relação entre ensino e competição. Gómez examina esse ponto ao abordar as consequências de uma preparação orientada exclusivamente pela conquista esportiva.
“Existe o risco de deixar em segundo plano a compreensão dos princípios, o sentido da técnica e a formação do caráter quando toda a preparação se reduz à obtenção de um resultado. Também pode se perder a continuidade entre o que ensinamos no dojô e o que premiamos na competição. Por isso, é tão importante que professores, treinadores e árbitros compartilhem critérios coerentes.”
Sua atuação nos cursos procura aproximar essas responsabilidades, trazendo a discussão para o trabalho realizado ao longo da formação.
“Uma arbitragem bem preparada contribui para proteger esses valores, mas a responsabilidade começa muito antes do campeonato, no trabalho cotidiano. Em meus cursos, procuro relacionar a técnica, o ensino e a arbitragem com os princípios do Budô. A competição deve ser uma oportunidade de colocar a formação à prova e continuar aprendendo.”
Integrante do Comitê Técnico Sênior da ITKF Global, Gómez precisa lidar também com o encontro entre profissionais de diferentes países. Nesse campo, seu ponto de partida é o entendimento dos fundamentos que orientam a prática.
“Considero fundamental aprofundar uma compreensão compartilhada dos princípios. Na minha maneira de entender o karatê, a busca do todome-waza, de uma técnica decisiva, ajuda a dar sentido ao trabalho no kata, no kumitê e nas demais especialidades. Na competição, essa busca deve se expressar dentro das condições de controle e segurança estabelecidas pelo regulamento.”

Curso Técnico Internacional 2026 na Lituânia © Arquivo
O princípio ganha consequências distintas conforme a função exercida. Gómez descreve a participação de cada professor no percurso que leva o praticante do aprendizado à avaliação competitiva.
“Os professores devem transmitir os fundamentos; os treinadores, ajudar a aplicá-los sob pressão; e os árbitros, reconhecê-los por meio de critérios consistentes. Minha prioridade é que essas funções estejam conectadas, para que a competição reflita o ensino que queremos preservar.”

Sensei Hidetaka Nishiyama disseca os fundamentos do karatê tradicional para Justo Gómez © Arquivo
O trabalho internacional oferece ocasiões para examinar interpretações que, em seus ambientes de origem, podem não ter sido confrontadas com outras leituras. Para ele, os espaços de capacitação precisam permitir esse exame em situações práticas.
“Os seminários técnicos e os Master Courses são espaços fundamentais para unificar critérios. É necessário que essa capacitação inclua prática, análise de situações concretas e oportunidades para esclarecer diferenças de interpretação.”
Entre as possibilidades que considera relevantes para esse processo, Justo Gómez apresenta uma dinâmica de estudo conjunto.
“Como linha de trabalho, considero valioso aprofundar as atividades em que árbitros e treinadores observam uma mesma execução, explicam suas avaliações e revisam as diferenças a partir dos princípios técnicos e das regras. A coerência se constrói com formação contínua e disposição para revisar o próprio critério. Esse trabalho deve ser mantido durante todo o ano e chegar consolidado ao campeonato.”

Justo Gómez conduz treinamento no European Budo Centre – Dojo Stara Wieś, na Polônia em agosto de 2026 © Joanna Musial / PUTK
As viagens e os cursos permitem a Gómez acompanhar o desenvolvimento de escolas e seleções em diferentes momentos da preparação. Suas expectativas para o Cairo se apoiam nesse contato com o trabalho realizado entre os campeonatos.
“Espero encontrar um nível técnico elevado e uma competição cada vez mais exigente. Nos últimos anos, observei uma evolução considerável nos países que mantêm uma participação constante em seminários e atividades de aperfeiçoamento. Esse trabalho também se refletiu em seus resultados esportivos.”

O conhecimento técnico e a experiência de Justo Gómez o tornam um dos professores mais requisitados da ITKF Global para cursos e seminários pelo mundo © Arquivo
A observação inclui o efeito acumulado da formação sobre a maneira como os professores conduzem o treinamento.
“A continuidade da formação permite aprofundar os conhecimentos, corrigir interpretações e orientar melhor a preparação. Por isso, considero que as delegações que trabalharam dessa maneira chegarão com recursos mais sólidos.”
Em suas visitas recentes à França, à Polônia e à Lituânia, ele encontrou ambientes de treinamento voltados ao estudo dos fundamentos. Esses encontros oferecem um recorte concreto da evolução que espera ver no Mundial.
“Pude observar um interesse renovado em retornar aos fundamentos e compreender melhor sua aplicação. Treinadores e atletas estão reconhecendo o valor de trabalhar a partir dos princípios para melhorar sua eficácia.”
O campeonato acrescentará a esse processo as exigências próprias do confronto e da avaliação. É nesse momento que Gómez situa uma das dificuldades centrais da preparação.
“O desafio é conseguir que essa compreensão se mantenha sob pressão. Conhecer um princípio e ser capaz de explicá-lo é um passo; incorporá-lo até que faça parte da resposta do competidor exige um trabalho muito mais amplo e profundo.”

Curso Técnico Internacional 2026 na Lituânia © Arquivo
Sua projeção sobre o desempenho geral no Cairo reúne aspectos que precisam funcionar simultaneamente durante a disputa.
“Acredito que a diferença estará na capacidade de integrar a preparação física com o domínio técnico e emocional, reconhecer a oportunidade e agir sem movimentos desnecessários. Também será importante que treinadores e atletas compreendam os critérios de avaliação, para que a preparação seja coerente com o que se exige na competição.”

Justo Gómez, Włodzimierz Kwieciński e Gilberto Gaertner no European Budo Centre – Dojo Stara Wieś, na Polônia © Joanna Musial / PUTK
Ao abordar o que gostaria de observar nos participantes, o integrante do Comitê Técnico Sênior da ITKF Global acrescenta a dimensão educativa à análise do desempenho.
“Gostaria de ver no Cairo competidores capazes de sustentar os princípios técnicos e educativos do karatê tradicional sob a pressão da competição: eficácia, controle, oportunidade e respeito pelo adversário. O avanço se reconhece quando o atleta compreende o que faz e consegue aplicá-lo diante de uma situação exigente. Também se expressa em sua conduta, em sua relação com o oponente e em sua capacidade de aprender com o resultado.”

Curso Técnico Internacional 2026 na Lituânia © Arquivo
Um encontro que continua nos dojôs
As expectativas de Gómez para a participação internacional têm origem nas conversas mantidas durante sua atividade como professor. Ele relata perceber disposição para a viagem entre organizações e praticantes com os quais teve contato recentemente.
“Minhas expectativas são muito positivas. Nos países que visitei e entre aqueles que participaram das últimas atividades de capacitação, percebo muito entusiasmo para estar presente. Existe interesse em competir, mas também em se encontrar, trocar experiências e continuar aprendendo. Essa dimensão é fundamental para o crescimento internacional do karatê tradicional.”

No kihon, Justo Gómez impressiona pela força e pela precisão com que expressa a perfeição na execução dos fundamentos do karatê tradicional © Arquivo
A estimativa que apresenta para o número de delegações é pessoal e não corresponde a uma informação oficial de inscrições.
“Minha estimativa é que mais de 30 países poderão estar representados. Eu a baseio no contato que mantenho com professores e organizações e no interesse manifestado durante as atividades internacionais das quais participei. A confirmação cabe à organização do campeonato.”

Justo Gómez transmite os fundamentos do karatê tradicional durante o Master Course de Paris, em 2026 © Angélique Lambert / FKT Budo France
Além da presença no evento, o professor acompanha a distribuição dos resultados entre as delegações. Essa leitura ajuda a observar o desenvolvimento competitivo ao longo do tempo.
“Cada vez vemos mais países capazes de chegar às finais e disputar as primeiras colocações em especialidades nas quais antes tinham menor presença. É um sinal animador de que o conhecimento e a preparação estão chegando a mais lugares. Nosso desafio é fazer com que esse crescimento seja sustentado e se apoie em uma formação sólida de atletas, professores e árbitros.”
“Devemos preservar os princípios técnicos e os valores que dão sentido à nossa prática. É aí que encontro a continuidade com o ensino que recebi do sensei Nishiyama.”
A amplitude do encontro também cria oportunidades para participantes que retornarão a realidades muito diferentes de ensino. É nesse movimento de ida ao Mundial e volta ao trabalho local que Gómez situa uma parte importante do valor desta edição.
“Espero um Mundial de grande nível técnico e, sobretudo, um encontro que fortaleça o trabalho compartilhado entre os países. O entusiasmo que percebo entre os praticantes e as organizações permite esperar uma participação importante. O Egito será uma oportunidade de mostrar o resultado desse trabalho e renovar nosso compromisso com a formação.”

Durante o Gasshuku de 2026, no Budo Center, Justo Gómez ensina a coordenar a respiração explosiva e a mecânica corporal para ampliar a impulsão das pernas © Joanna Musial / PUTK
O alcance do evento, em sua avaliação, poderá ser observado com mais clareza depois que as delegações retomarem suas atividades.
“O que pode tornar esta edição especial é que seu impacto continue depois da competição: que contribua para melhorar o ensino, fortalecer os vínculos entre as delegações e aproximar uma nova geração do conhecimento que Nishiyama nos transmitiu. Esta edição deixará uma marca importante se cada delegação voltar ao seu país com conhecimentos e experiências que enriqueçam o trabalho cotidiano em seus dojôs.”
O contato com praticantes de diferentes idades e culturas coloca a transmissão do conhecimento diante de necessidades concretas. Para quem ensina, cada contexto exige escolhas sobre como explicar, demonstrar e acompanhar o aprendizado.
“Devemos preservar os princípios técnicos e os valores que dão sentido à nossa prática. É aí que encontro a continuidade com o ensino que recebi do sensei Nishiyama. As formas de ensinar podem evoluir. Podemos melhorar a didática, incorporar conhecimentos de pedagogia e preparação física e utilizar recursos que facilitem o aprendizado, desde que respeitem os fundamentos do karatê.”
Essa perspectiva acompanha sua experiência internacional e alcança também as diferenças entre gerações.
“Trabalhar com culturas e gerações distintas exige encontrar explicações e métodos adequados a cada contexto. A fidelidade a um ensinamento também exige compreendê-lo o suficiente para torná-lo acessível àqueles que vêm depois.”

Curso Técnico Internacional 2026 na Lituânia © Arquivo
Os jovens professores ocupam um lugar particular nessa reflexão. Muitos precisam aprofundar sua formação em ambientes onde o acesso a determinados conhecimentos e experiências é limitado. A participação em cursos internacionais pode ampliar esse contato.
“Os cursos permitem perguntar, receber correções e compartilhar a prática com professores de diferentes trajetórias. Podem aproximar esses jovens de conhecimentos e experiências que nem sempre estão disponíveis em seu ambiente cotidiano.”
Para Gómez, ter aprendido diretamente com Nishiyama estabelece um compromisso com esses profissionais. O depoimento situa a memória da convivência dentro de uma tarefa presente de ensino.
“Nós, que tivemos a oportunidade de aprender diretamente com Nishiyama, temos uma responsabilidade especial com esses jovens. Devemos transmitir o conteúdo de seus ensinamentos, explicar o sentido de suas correções e ajudá-los a compreender os princípios por meio da própria prática.”
A duração dos encontros é um limite que precisa ser considerado ao pensar esse acompanhamento. Entre as possibilidades que apresenta, estão recursos e relações de trabalho capazes de sustentar o estudo após a viagem.
“Considero valioso acompanhar esses encontros com materiais didáticos e com uma continuidade de formação entre os países. Assim, o que foi aprendido durante o Mundial pode continuar se desenvolvendo no retorno ao dojô. O melhor resultado seria que os jovens professores voltassem com uma compreensão mais profunda e com ferramentas concretas para ensinar melhor.”
A dimensão institucional atravessa as reflexões de Gómez porque o trabalho dos professores depende também das condições em que é realizado. Ao avaliar a ITKF Global, ele relaciona a organização atual da entidade aos desafios enfrentados após a morte de Nishiyama.
“Considero que a ITKF Global atravessa uma etapa muito favorável de sua reorganização institucional. Depois do falecimento do sensei Hidetaka Nishiyama, um de nossos maiores desafios tem sido dar continuidade à sua obra e sustentar uma referência técnica comum.”
Sua avaliação do presente é acompanhada por uma preocupação com a formação de quem assumirá responsabilidades nos próximos anos.
“Vejo uma etapa favorável de consolidação e uma responsabilidade importante pela frente: dar continuidade ao legado de Nishiyama por meio de uma organização capaz de sustentar sua transmissão. O Mundial do Cairo pode contribuir para esse propósito se fortalecer a confiança entre os países, melhorar a coordenação técnica e abrir oportunidades de formação para novas lideranças.”
Ao longo do depoimento, a convivência em Los Angeles, a experiência nos campeonatos e o trabalho internacional oferecem diferentes perspectivas sobre essa tarefa. O ponto de chegada da reflexão é o ambiente que será deixado para os próximos professores.
“A continuidade desse legado exige pessoas preparadas para ensinar e estruturas que acompanhem seu trabalho. Por isso, devemos pensar tanto na qualidade do presente quanto naqueles que assumirão essa responsabilidade nos próximos anos.”
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