Klaus Glahn: formação, crescimento pessoal e amizades estão entre os legados do judô

Klaus Glahn assina o Mural dos Atletas Olímpicos, em Lausanne © Gabriela Sabau / FIJ

Medalhista olímpico em Tóquio 1964 e Munique 1972, além de ter subido ao pódio em cinco Campeonatos Mundiais, o professor kodansha alemão relembra encontros históricos e os ensinamentos que levou dos tatamis para a vida.

Por Jo Crowley / FIJ
26 de outubro de 2026

O judô é especial por muitas razões. Uma das mais cativantes é o esforço permanente para manter por perto aqueles que construíram sua história. A cada geração surgem novas referências, e a comunidade mundial do judô preserva o reconhecimento a todas elas. Medalhistas olímpicos e mundiais, grandes dirigentes e treinadores inspiradores tornam-se parte essencial da história e do espírito da modalidade.

O nome de Klaus Glahn, da Alemanha, é conhecido em todo o mundo. Professor kodansha kyuu-dan (9º dan), bronze olímpico em Tóquio 1964 e prata em Munique 1972, cinco vezes medalhista mundial e três vezes campeão europeu, ele continua profundamente ligado ao esporte. Aos 84 anos, durante o Campeonato Mundial de Baku 2026, compartilhou histórias e reflexões de sua longa trajetória no judô.

Klaus Glahn na Casa Olímpica, em Lausanne, na Suíça © Gabriela Sabau / FIJ

Participar da primeira edição dos Jogos Olímpicos com o judô no programa já seria, por si só, uma lembrança especial. Aquele momento fez história e abriu caminho para todos os judocas que disputariam as edições seguintes.

“Na outra metade da chave, em 1964, vi Anton Geesink derrotar Theodore Boronovskis, da Austrália, na semifinal. Depois, enfrentei Kaminaga, do Japão, e ele me venceu. Em seguida, presenciei um momento histórico: Geesink o derrotou na final. Fiquei muito impressionado. Ele venceu no solo e, depois, impediu que seus torcedores e amigos invadissem o tatami. Foi uma grande demonstração de respeito, muito valorizada pelos japoneses.”

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Takehide Nakatani conquistou o primeiro ouro olímpico do judô ao derrotar o suíço Eric Hänni na final, com um trabalho excepcional de ashi-waza, as técnicas de perna. Mais tarde, tornou-se treinador na Alemanha, quando Glahn ainda integrava a seleção do país. “Em uma das viagens com ele como treinador, estávamos todos jogando cartas. Ele tinha uma mentalidade vencedora até no jogo de cartas. Muitos na Alemanha se impressionavam com a inteligência de sua técnica.” Sua maneira de encarar os desafios era igualmente importante.

“Fiz muitos amigos verdadeiros no judô. Chamo o senhor Uemura de ‘Uemura Senshu’, que significa lutador! Hoje, claro, ele é o presidente do Kodokan, mas parte do caminho que o levou até lá começou com sua trajetória como um verdadeiro lutador.” Amigos até hoje, o campeão olímpico Haruki Uemura e Glahn aproveitam os eventos pelo mundo para se reencontrar, como aconteceu em Baku. Campeões de diferentes gerações apontam a amizade como um dos maiores legados de uma vida no esporte.

Haruki Uemura, Klaus Glahn, Florin Daniel Lascau e Jean-Luc Rougé em Baku © Gabriela Sabau / FIJ

Durante os seis meses em que treinou em Tenri, no Japão, Glahn conviveu com Kazuhiro Ninomiya, que conquistaria o ouro olímpico em 1976. “Treinávamos muito juntos, mas ele também me estudava. No Japão, parecia que não conseguia fazer muita coisa contra mim. Mas, quando nos enfrentamos no Mundial de 1973, em Lausanne, ele me derrotou logo no início. Aprendi algo novo com aquilo!”

O aprendizado tem tanto valor quanto as conquistas. Glahn não tem dúvidas disso. “A vida exige muito autocontrole. Isso é importante, e tenho certeza de que desenvolvi o meu no judô.” Ele cita como exemplo a necessidade de controlar as emoções ao subir ao pódio depois de perder uma final. Agir corretamente nesses momentos também é uma responsabilidade.

“O judô teve um papel fundamental na formação da minha personalidade. Comecei no início da adolescência e, depois de apenas seis semanas de treino, participei da minha primeira competição. Percebi que podia explorar as possibilidades de controlar os adversários. Aprendi a não ter medo. O judô também me ajudou a manter a forma e a me sentir seguro ao longo de toda a vida. Essa autoconfiança me acompanha desde os primeiros dias na modalidade.”

Klaus Glahn e Kazuhiro Ninomiya em Lausanne, em 1973 © David Finch / Getty Images

Levar os ensinamentos do judô para o cotidiano, além dos tatamis, também ocupa um lugar importante em suas reflexões. “Quando você ganha uma medalha, no primeiro dia todos o parabenizam. No segundo, os cumprimentos já não são iguais. No terceiro, você volta à vida normal. Procuro sempre manter os pés no chão. Volto para casa, encontro minha esposa, jantamos juntos e valorizo tudo o que me faz bem. O judô é uma dessas coisas, a família é outra, e há muitas mais.”

Ouvir Klaus Glahn recordar a convivência com seus contemporâneos nos anos de formação do judô internacional é abrir uma janela para a história. Suas palavras carregam respeito e alegria. Poucos legados poderiam expressar melhor a realização de uma vida dedicada ao judô.

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