Kristiina Pekkola: “Igualdade de gênero não é estratégia — é um direito humano fundamental”

Kristiina Pekkola presidente da Federação Sueca de Judô e vice-presidente da União Europeia de Judô © Gabi Juan / EJU

Presidente da Federação Sueca de Judô, vice-presidente da União Europeia de Judô e colaboradora da IJF Academy, Kristiina Pekkola analisa liderança feminina, governança esportiva e o futuro do judô rumo a Los Angeles 2028

Por Farzad Youshanlou / Sportsin
Curitiba, 27 de fevereiro de 2026

Em entrevista ao SportsIn, Kristiina Pekkola, presidente da Federação Sueca de Judô, vice-presidente da União Europeia de Judô e colaboradora da IJF Academy na área de educação, compartilha sua visão sobre igualdade de gênero, governança esportiva e o papel do judô no cenário olímpico.

Para Pekkola, a igualdade de gênero não é uma ambição estratégica, mas um direito humano fundamental. Ela fala de forma direta sobre as barreiras estruturais ainda enfrentadas pelas mulheres em posições de liderança no esporte, ao mesmo tempo em que demonstra confiança na condução atual da Federação Internacional de Judô. Em sua avaliação, a modalidade está bem posicionada para consolidar suas conquistas e voltar a brilhar nos Jogos Olímpicos de Verão de 2028, em Los Angeles.

A gestão de Kristiina Pekkola consolida avanços estruturais e projeta o judô europeu a um novo patamar de governança © Sportsin

Sua trajetória reflete avanços mais amplos do esporte sueco em uma das sociedades mais progressistas da Europa no que diz respeito à igualdade cívica. Para atletas e dirigentes ao redor do mundo, sua carreira representa um exemplo concreto de como é possível alcançar espaços de liderança e superar obstáculos de forma consistente.

Entrevista

Em 2025, a Federação Sueca de Judô foi eleita a melhor federação esportiva da Suécia, superando entidades populares como as federações de futebol e esqui. Como foi possível levar o judô sueco a esse reconhecimento?

Esse reconhecimento é resultado de vários anos de trabalho consistente, com foco no desenvolvimento de longo prazo, na inclusão e no profissionalismo. Investimos fortemente na formação de jovens, no desenvolvimento de treinadores e na construção de uma base ética sólida em toda a organização.

O que mais me orgulha é termos alcançado esse sucesso de forma coletiva. Atletas, treinadores, clubes, voluntários e funcionários contribuíram. Criamos uma cultura de colaboração, transparência e responsabilidade compartilhada. Quando todos caminham na mesma direção, conquistas importantes se tornam possíveis. Aprendemos que a direção que escolhemos seguir é mais importante do que a velocidade.

“Não tratamos a igualdade de gênero como um projeto isolado, mas como um princípio que orienta todas as decisões, da seleção das equipes à governança.”

A Suécia é reconhecida mundialmente por suas políticas de igualdade de gênero. Como isso se reflete no judô sueco?

A igualdade de gênero, para nós, é uma questão de direitos humanos. É essencial garantir oportunidades iguais para meninos e meninas desde a infância, assegurar representatividade equilibrada nos cargos de liderança e desenvolver programas que apoiem as mulheres, do ambiente de trabalho à diretoria.

Priorizamos a boa governança, vivendo de acordo com nossos valores fundamentais. Quem ocupa posições de liderança precisa estar presente e agir com autenticidade. Na Suécia, não tratamos a igualdade de gênero como um projeto isolado, mas como um princípio que orienta todas as decisões — da seleção das equipes à governança institucional. Isso ajuda a criar um ambiente seguro, inclusivo e propício ao desenvolvimento de todos.

Ainda há poucas mulheres à frente de federações esportivas. Na sua visão, quais são as principais barreiras que impedem mais mulheres de chegarem a esses cargos?

Persistem barreiras estruturais e culturais importantes. Muitas mulheres não têm acesso às mesmas redes de contato e mentorias que historicamente beneficiaram os homens. Em alguns contextos, os modelos de liderança ainda são baseados em expectativas ultrapassadas, que não refletem a diversidade da sociedade atual.

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Também é preciso considerar que muitas mulheres enfrentam a chamada dupla jornada, conciliando responsabilidades profissionais e familiares, o que torna a liderança ainda mais desafiadora sem o apoio institucional adequado. Ampliar a presença feminina exige ações intencionais: processos de recrutamento transparentes, educação, programas de mentoria e a valorização de modelos femininos que inspirem e abram caminhos para as próximas gerações.

Como vice-presidente da União Europeia de Judô, que iniciativas você considera prioritárias para o desenvolvimento das mulheres no continente?

Acredito que o fortalecimento das mulheres em todas as funções beneficia todo o ecossistema do judô. Um esporte só prospera plenamente quando sua liderança e seus participantes refletem a diversidade da comunidade que representa.

Na Europa, precisamos criar caminhos sustentáveis para as mulheres, não apenas como atletas, mas também como treinadoras, árbitras e dirigentes. Isso envolve diversidade, boas práticas de governança, referências inspiradoras e uma visão de sustentabilidade a longo prazo.

Em alguns países do Oriente Médio, as mulheres enfrentam fortes restrições à prática esportiva. No Irã, por exemplo, judocas estão impedidas de competir internacionalmente desde 1979. Qual é a sua visão sobre essa realidade?

O esporte deve ser um direito universal. É profundamente preocupante que, ainda hoje, mulheres sejam impedidas de participar livremente ou de representar seus países em competições internacionais.

O judô, em sua essência, ensina valores como respeito, coragem e crescimento pessoal — princípios que deveriam estar acessíveis a todos. Tenho profunda admiração pelas mulheres que continuam lutando por seus direitos esportivos básicos. A resiliência delas reforça a responsabilidade da comunidade esportiva internacional em defender igualdade, dignidade humana e acesso justo ao esporte, sempre respeitando os contextos culturais, mas sem abrir mão desses valores fundamentais.

Pensando no futuro, como você avalia o papel do judô nos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028?

O desempenho do judô em Paris demonstrou a força e o apelo global da modalidade. Para Los Angeles 2028, vejo um potencial ainda maior. O judô segue crescendo em participação, interesse da mídia e nível técnico em todo o mundo.

Nosso grande desafio — e também nossa oportunidade — é continuar modernizando o esporte, sem perder de vista suas tradições. Se investirmos em diversidade, visibilidade, engajamento dos jovens e eventos de alta qualidade, tenho convicção de que o judô seguirá como uma das modalidades mais respeitadas e inspiradoras do programa olímpico.

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