01 de abril de 2025

Professor de judô e jiu-jitsu, autor do livro Aprendiz de Samurai, que inspirou o filme A Grande Vitória, Max Trombini é um dos nomes mais respeitados da pedagogia esportiva no Brasil. Nesta entrevista, realizada com o apoio da Original Tatamis Yamamura, ele fala à Revista Budô sobre trajetória, empreendedorismo, espiritualidade, superação e a transformação que o esporte pode causar na vida de uma pessoa.
“Tudo começou com um curso do Sebrae,” relembra Max Trombini. “Foi por indicação de um amigo acadêmico que dizia: ‘Você precisa se capacitar, sair dos tatamis, buscar recursos externos’. Foi ele quem despertou em mim o hábito da leitura. Eu brincava que só lia as tirinhas do Chico Bento, aquelas que nem precisam de texto. Mas esse amigo me deu um livro de empreendedorismo e aquilo me tocou. Percebi que, se quisesse mudar a vida das pessoas, precisava ampliar minha visão e oferecer, nas aulas, muito mais do que técnicas de luta.”
O requintado dojô da MXT Fight Academy equipado com tatami olímpico da Original Tatamis Yamamura © Global Sports
No início, foi um desconforto. Eu tinha uma equipe de competição forte no jiu-jitsu, com campeões brasileiros, mundiais e até atletas do UFC. Me ausentar para cursos como o Empretec ou o de Programação Neurolinguística tirava o foco do dia a dia da academia. Mas a longo prazo, os resultados apareceram. A Mxt Brazilian Jiu Jitsu começou a se tornar um espaço de bem-estar, e passamos a empreender de fato, tornando a academia rentável, sustentável e com a metodologia replicável Inclusive, os tatamis do meu dojô, são da Original Tatamis Yamamura, que sempre se destacou pela qualidade e pelo profissionalismo com que trata os clientes e parceiros — algo raro neste segmento.
Uma das dinâmicas que mais me marcou foi a da “Linha do Tempo”, em que você revisita sua história desde a infância, reconhecendo crenças limitantes e fortalecedoras. Comecei a enxergar comportamentos em meus alunos que explicavam, por exemplo, por que uns iam melhor nas competições do que outros. O que era um curso de empreendedorismo virou um curso de vida.
Essa experiência me inspirou a escrever. Levei dois anos anotando memórias num caderno, que virou o esboço do meu livro. A edição levou quatro anos. Um dia, dei esse caderno para o jornalista Carlos Tramontina, um amigo de longa data. Ele demorou para ler, mas quando leu, me chamou para conversar. Disse: “Tem muitos erros de português, mas tem uma baita história aqui.”
Sensei Max com Tadahiro Nomura (nascido em 10 de dezembro de 1974), primeiro judoca a conquistar três ouros olímpicos consecutivos na categoria até 60kg © Arquivo
Não sei de onde tirei forças para escrever. Talvez tenha sido algo espiritual. Não religião — espiritualidade. A história, sem querer, seguiu o formato da Jornada do Herói. Nem sabia o que era isso na época. Tramontina sugeriu que eu procurasse um escritor. Acabei me conectando com o Wagner, recém-formado em jornalismo, que assumiu o projeto. Ele tinha uma pegada lírica que combinou com meu texto.
“A filosofia da luta é mais forte do que nossas fraquezas.”
Confesso que chorei ao escrever vários capítulos. Me lembro da morte do meu avô, dos momentos difíceis com minha mãe. Certa vez, um fisioterapeuta que assistiu ao filme me perguntou se era verdade a cena do vaso quebrado. Era. Minha mãe limpava casas de veraneio em Ubatuba e eu, agitado, quebrei um vaso caro. Ela me deu uma dura e disse: “Não quero ver você aqui o resto da sua vida.” Aquilo mexeu comigo. Vi ali uma missão.
Max Trombini e seu filho Enzo diante da estátua de Jigoro Kano, no Instituto Kodokan, no início deste ano. Atualmente, Enzo é atleta sub 21 do Esporte Clube Pinheiros © Arquivo
O primeiro nome do livro seria A Lua de Max, inspirado em uma memória com meu avô. Estávamos deitados num barraco de chão batido. Eu olhei pro teto e disse: “Se chover hoje, molha tudo.” E ele respondeu: “Mas olha a lua… Em qual mansão a gente vê isso?” Foi um momento de beleza em meio à dificuldade, como no filme A Vida é Bela.
No fim, o título Aprendiz de Samurai acabou sendo escolhido por ter mais apelo comercial — e funcionou. O livro chegou à lista da Veja como o quinto mais vendido no país. E, vindo de uma condição social muito simples, Max fez questão de dar um passo raro: doou toda a renda da obra ao Instituto Gaya, um projeto social voltado ao judô. Não ficou com um centavo do livro, nem do filme. Optou por transformar aquele sucesso em uma ponte para quem mais precisava. Como ele próprio diz, capitalizou apenas em palestras e na visibilidade que isso gerou para o esporte que o formou como homem.
Depois, fui procurado por alguém que dizia ser universitário, interessado na história. Na verdade, ele era da produtora O2, do Fernando Meirelles. Queriam transformar o livro em filme. No começo, me comparei com nomes como Aurélio Miguel e Rogério Sampaio — pensei: “Quem sou eu?” Mas Fernando disse que era uma história de valores universais, com o judô apenas como pano de fundo.
Hoje recebo mensagens de projetos sociais e sessões de cinema que exibem o filme. Muita gente começou no judô por causa dele. Isso, pra mim, é a maior recompensa: mostrar que o esporte pode transformar vidas e oferecer um espaço digno na sociedade.
Trombini com Hitoshi Saito (1901 / 2015). Saito conquistou dois ouros olímpicos: Los Angeles (1984) e Seul (1988) © Arquivo
O judô traz os valores sólidos do povo japonês e sua cultura milenar. O problema nunca é a luta — são as pessoas. Isso vale pra tudo na vida. Lembro de uma palestra em que um homem me desafiou: “E se seu pai tivesse sido agredido num trânsito por um lutador de jiu-jitsu?” Eu perguntei se ele processaria um médico que comete erro. Ele disse que sim. Então eu respondi: “Você processou o professor, não o jiu-jitsu. Assim como processaria o médico, não a medicina.”
Aquilo veio de dentro. Porque eu acredito profundamente na minha arte. Já cometi erros, sou um cara falho, mas o judô me ajuda a ser alguém melhor. A filosofia da luta é mais forte do que nossas fraquezas. Assim como os textos sagrados ou os grandes livros: eles são registros do que deu certo e errado na humanidade. E se a gente se basear neles, pode não ser perfeito, mas será certamente mais consciente.
Max Trombini exibe as capas do livro Aprendiz de Samurai, do DVD do filme A Grande Vitória e da biografia sobre sua trajetória, publicada no Japão © Global Sports
Ao longo da entrevista, Trombini falou bastante sobre o judô, mas não poderia deixar de lado o papel do jiu-jitsu em sua formação. Questionado sobre onde essa arte marcial se encaixa em sua trajetória, ele responde com carinho e precisão.
“Minha história com o jiu-jitsu começou graças a um grande amigo, Waldomiro Perez Júnior, que também era judoca, faixa-marrom na época. Eu já era faixa-preta e treinávamos juntos. Ele começou a fazer aulas com o saudoso professor Marcelo Behring, em São Paulo, e sempre que ia para Ubatuba — onde ficava sua casa — montava um tatami no fundo do quintal. Ali, sob a orientação do Marcelo, começaram a acontecer os primeiros treinos, e foi nesse ambiente que dei meus primeiros passos no jiu-jitsu.”
O sistema de amortecimento de impacto da MXT Fight Academy é fornecido pela Original Tatamis Yamamura, garantindo mais segurança e conforto aos alunos durante os treinos © Global Sports
A princípio, a motivação de Trombini era aprimorar sua técnica de chão (ne-waza) para se destacar ainda mais nas competições de judô. “Fui buscar o jiu-jitsu como ferramenta de evolução no judô, mas acabei me apaixonando pela luta. Sempre tive facilidade em conduzir treinos, e essa parceria com o Júnior foi muito forte.”
Com o passar dos anos, essa parceria resultou na fundação da equipe Companhia Paulista de Jiu-jitsu. “Trabalhávamos na Companhia Atlética, mas como não poderíamos competir ou abrir novas unidades com essa bandeira, criamos a Companhia Paulista. Foi assim que nasceu essa equipe, que revelou grandes nomes do jiu-jitsu em São Paulo.”
Registro de 2006 do treino entre o time de BJJ do sensei Max Trombini e a seleção A do Japão, que reuniu nove medalhas de ouro olímpicas. Estavam presentes lendas como Hitoshi Saito, Tadahiro Nomura, Keiji Suzuki, Yasuyuki Muneta e Satoshi Ishii © Arquivo
Com uma história que inspira e ensina, Max Trombini fez da dor matéria-prima e do esporte uma linguagem de superação. Seu legado nos lembra que, antes de formar atletas, é preciso formar pessoas.
O professor Max Trombini é faixa-preta roku-dan (6 dan) na International Brazilian Jiu-Jitsu Federation (IBJJF) e yon-dan (4º dan) pela Confederação Brasileira de Judô (CBJ).