O Budô precisa de praticantes

A força do Budô está nos praticantes que mantêm viva a tradição e fazem do respeito, da disciplina e do aprendizado um compromisso para toda a vida © Global Esportes / Imagem ilustrativa gerada por IA

Engenheiro, professor yon-dan (4º dan) e secretário-geral da ITKF Global, Luiz Alberto Küster reflete, neste artigo, sobre a preservação dos princípios do karatê tradicional, o compromisso com o compliance na gestão da entidade, o trabalho dos praticantes que a sustentam e a responsabilidade de competir sem perder de vista os valores do Budô.

Por Luiz Alberto Küster
Curitiba, 21 de setembro de 2026

Durante muitos anos, a ITKF buscou o reconhecimento olímpico. Não o conseguimos. Naquele momento, pareceu uma derrota. Hoje, olhando para trás, talvez devamos fazer uma pergunta diferente: E se aquela derrota tiver sido justamente o que nos permitiu sobreviver como instituição e preservar a essência do karatê tradicional?

O problema nunca esteve em participar de uma grande organização esportiva. O problema começa quando, para fazer parte dela, precisamos mudar aquilo que somos.

O sistema olímpico moderno exige modalidades cada vez mais compreensíveis para grandes audiências, adequadas à televisão, ao entretenimento e à dinâmica do espetáculo. Se tivéssemos entrado naquele sistema e, ao longo dos anos, adaptado nossas regras, nossos conceitos técnicos e nossa filosofia a essas exigências, quanto do karatê tradicional teria permanecido? Quanto restaria do Budô?

Talvez aquilo que durante anos consideramos uma derrota tenha sido, na realidade, nossa proteção.

A vitória não é o objetivo final

Nossa Constituição afirma com absoluta clareza: “A vitória, em si, não é o objetivo final do karatê tradicional.”

No conceito tradicional de shi-ai, dois praticantes não se encontram apenas para determinar quem é superior. Eles testam um ao outro e, através desse encontro, descobrem aquilo que ainda precisam desenvolver.

Queremos vencer. Naturalmente. Mas uma medalha não pode ser mais importante do que aquilo que aprendemos no caminho. Muitas vezes aprendemos mais perdendo do que ganhando.

E é aqui que surge uma diferença essencial entre espetáculo e Budô. Nos grandes esportes profissionais, milhares de espectadores se reúnem para assistir a um pequeno número de atletas competir. No karatê tradicional, frequentemente ocorre o contrário: temos mais praticantes do que espectadores.

Isso não é sinal de fraqueza. É uma das nossas maiores forças. Significa que nossa comunidade não existe principalmente para assistir ao karatê. Existe para praticá-lo.

Nosso valor não está no tamanho das arquibancadas. Está nas pessoas que entram no dojô, vestem o karate-gi, repetem uma técnica milhares de vezes, erram, corrigem, aprendem, envelhecem e continuam treinando.

O grande espetáculo esportivo precisa da audiência. O Budô precisa do praticante.

Andrew Jennings mostrou, em The New Lords of the Rings, como o gigantesco universo do esporte internacional pode também ser contaminado pelo poder, pela vaidade, pelos interesses econômicos e pela corrupção.

O karatê tradicional escolheu permanecer em outro lugar. Não porque sejamos melhores. Mas porque nossa finalidade é outra.

Queremos pessoas praticando karatê, não apenas consumindo karatê. Pessoas que encontrem no Budô uma ferramenta para enfrentar a impermanência que caracteriza nossas vidas: as vitórias e as derrotas, a juventude e o envelhecimento, a saúde e a doença, os momentos de força e aqueles em que precisamos recomeçar.

Talvez essa seja uma das maiores riquezas que ainda temos para preservar.

Aqueles que mantêm a ITKF Global viva

Sem os recursos do sistema olímpico, a ITKF é sustentada pelo trabalho voluntário de sua liderança, dos membros do Comitê Técnico, dos árbitros e dos colaboradores. Nenhum membro da administração da ITKF recebe salário para servir à federação. E nossos recursos vêm, essencialmente, de quase 40 países filiados que estão rigorosamente em dia com suas obrigações perante a ITKF.

Isso não é uma simples estatística administrativa. Cada anuidade paga representa professores ensinando depois de um dia inteiro de trabalho, dirigentes nacionais oferecendo voluntariamente horas de suas vidas, atletas custeando treinamentos e viagens, pequenos dojôs mantendo suas portas abertas e famílias fazendo sacrifícios para que seus filhos continuem praticando karatê.

http://www.shihan.com.br

Esse dinheiro não vem de grandes contratos comerciais. Vem dos nossos praticantes. Vem do trabalho. Muitas vezes, literalmente, vem do suor.

Por isso, cada um desses quase 40 países merece nosso reconhecimento e nossa gratidão. São eles que sustentam nossa independência. São eles que permitem manter nosso portal, nossa estrutura técnica e administrativa, proteger a marca ITKF e assegurar a presença institucional da federação onde ela é necessária.

São esses mesmos recursos que mantêm um escritório contábil profissional no Brasil, país da sede jurídica da ITKF, garantindo que nossa contabilidade e nossas obrigações legais, fiscais e administrativas permaneçam rigorosamente em dia.

Pode parecer elementar. Mas nossa história recente demonstrou que até o elementar exige competência, disciplina e responsabilidade. Temos uma obrigação moral de respeitar cada dólar recebido porque sabemos de onde ele veio. Administrá-lo corretamente é também uma forma de honrar quem o produziu.

Cairo: competir sem perder aquilo que somos

Dentro de poucas semanas, estaremos reunidos no Cairo para o 23º Campeonato Mundial da ITKF. Queremos grandes técnicas, grandes performances e grandes campeões. Mas precisamos chegar ao Cairo lembrando aquilo que nossa própria Constituição nos ensina.

O futebol é uma gigantesca indústria mundial. Conta com árbitros profissionais, câmeras em praticamente todos os ângulos, revisão eletrônica e alguns dos recursos tecnológicos mais sofisticados disponíveis no esporte mundial. Mesmo assim, continuamos a assistir a discussões, reclamações, confrontos entre atletas e pressões sobre árbitros que frequentemente obscurecem o próprio jogo.

No Cairo, não podemos permitir que uma medalha se torne mais importante do que os princípios que nos trouxeram até aqui.

Nossos árbitros são voluntários. Muitos viajam grandes distâncias utilizando seus próprios recursos. Em certo sentido, eles “pagam” pelo privilégio e pela responsabilidade de servir ao karatê tradicional.

Podem cometer erros. São seres humanos. Técnicos podem discordar. Dirigentes podem se frustrar. Atletas podem perder. Mas nada disso justifica agressões, pressões indevidas, disputas mesquinhas ou qualquer comportamento incompatível com o Budô.

Se afirmamos que a vitória não é nosso objetivo final, precisamos demonstrá-lo justamente quando a vitória nos escapa.

Que nossos líderes deem o exemplo. Que nossos técnicos ensinem também pelo comportamento. Que nossos árbitros sejam respeitados. Que nossos atletas saibam vencer. E, principalmente, que saibam perder.

O pódio dura alguns minutos. Aquilo que aprendemos no dojô, através da prática constante, pode permanecer conosco por toda a vida.

Durante muitos anos quisemos entrar no mundo dos Senhores dos Anéis. Não conseguimos. Hoje, talvez devamos agradecer por isso. Porque aquela derrota pode ter nos permitido continuar sendo aquilo que somos: uma federação independente e fraterna, sustentada pelos próprios praticantes e fundamentada na amizade, no respeito e na responsabilidade.

Talvez nosso maior triunfo tenha sido preservar pessoas que praticam, que suam, que erram, que aprendem e que evoluem, em vez de transformar o karatê tradicional em mais um espetáculo midiático destinado principalmente a ser assistido.

O espetáculo termina quando as luzes se apagam. O Budô continua na manhã seguinte, quando alguém entra novamente no dojô e começa a treinar. É por isso que precisamos de praticantes.

Sejam todos muito bem-vindos ao Cairo. Nos encontraremos no tatami.

OSS!

https://www.originaltatamis.com.br/