02 de abril de 2026
No budô, a percepção não se limita aos cinco sentidos — ela se constrói na experiência © Global Sports
Aprendemos, nos bancos escolares, que são cinco os sentidos humanos (em japonês, Gokaku – 五感): 視覚 (Shikaku), o sentido da visão; 聴覚(Chōkaku), o da audição; 嗅覚 (Kyūkaku), o do olfato; 味覚 (Mikaku), o do paladar; e 触覚 (Shokkaku), o do tato. Haveria — e estou convencido de que há — um sexto sentido (第六感 – Dairokkan), que podemos chamar de intuição, resultante do uso integrado dos cinco sentidos mencionados, mediados pela mente. Esse sexto sentido pode alcançar o plano metafísico, para alguns justificando a existência do espírito, embora também possa ser compreendido como abstração — isto é, aquilo que não existe no mundo material e tangível, mas apenas no plano do pensamento.
Meu propósito, contudo, é procurar compreender a função e a aplicação de cada um dos sentidos humanos — daqueles cinco anteriormente mencionados — na prática e execução das artes marciais. Para isso, parto daqueles hierarquicamente menos evidentes, ao menos nessa seara da atuação humana, ainda que cada sentido tenha sua própria aplicação e momento de utilização. Seria possível imaginar uma opulenta refeição sem olfato e paladar? Mesmo sentidos considerados mais discretos poderão representar mecanismos fundamentais de compreensão da realidade interna e externa, devendo ser desenvolvidos pelo praticante. Isso se justifica não apenas pela prática da arte que decidiu abraçar, mas pela integridade de sua condição humana, nessa aventura epistemológica que é encontrar um caminho e nele se embrenhar em busca do autoconhecimento.
Todos os dias, quando deixo minha residência e entro no dojô, percebo o odor da madeira — essa substância viva com que assoalhei o “local de iluminação” (dojô – 道場, em que dô – 道 significa “caminho” para o desenvolvimento pessoal, espiritual ou filosófico, e jô – 場, “lugar”, “campo” ou “espaço”). Essa experiência olfativa representa o início de tudo, os primórdios da prática diária, somando-se ao aroma da vegetação ao redor, que compõe a atmosfera propícia ao desenvolvimento que busco junto aos meus alunos e companheiros.
O paladar também assume relevância nesse processo de autoconhecimento e de percepção do entorno. Na prática marcial, com a ativação hormonal do corpo, o praticante atento passa a identificar sensações por meio do gosto presente na saliva e, posteriormente, o sabor salgado da transpiração.
“Vivemos em um universo regido por forças fundamentais, gravidade, eletromagnetismo e as forças nucleares fortes e fracas.”
Todos esses elementos são indispensáveis à composição do cenário, que só se constitui plenamente pela soma de suas partes. De forma intuitiva — ou mesmo em plano subliminar —, a ausência de qualquer deles pode comprometer a integridade do conjunto.
Segue-se a audição, cuja importância transcende em muito a simples decodificação dos sons produzidos pela fala. Para o praticante, a audição assume papel ainda mais relevante. Devemos ouvir os sons do próprio corpo, começando pelos ruídos próprios do esforço, passando pela ação de músculos, ossos e articulações, bem como o contato com as vestes.
Com o tempo, aprendemos a distinguir sons mais grosseiros daqueles mais refinados e fluidos, que indicam a aplicação de técnicas mais eficientes. É também por meio do som que quantificamos nosso contato com o mundo exterior — seja pelo ar, seja, principalmente, pelo contato com o solo.
O ruído dos pés ao tocar o chão possui importância singular. Vivemos em um universo regido por forças fundamentais — gravidade, eletromagnetismo e as forças nucleares forte e fraca —, e é a partir do chão que encontramos apoio para produzir movimento. O som desse contato revela a qualidade do movimento.
Sons excessivamente enfáticos, como batidas fortes contra o piso, indicam dissipação de energia — convertida em vibração e ruído — quando, na verdade, o objetivo é canalizar essa energia em movimento eficiente. O ideal é produzir o máximo resultado com o mínimo dispêndio.
Nesse contexto, os sons têm importância central: permitem avaliar a técnica, interpretar o mundo físico e ajustar a execução. Sons inadequados revelam ações igualmente inadequadas.
Chegamos ao tato, que assume importância ainda maior em relação aos sentidos anteriormente abordados. O contato com o próprio corpo, com o oponente ou com os elementos externos configura-se como um verdadeiro termômetro — uma forma de “visão sem olhar”.
Explico: ao tratarmos da visão, veremos que ela deve estar direcionada ao que realmente importa, sendo impossível perceber tudo simultaneamente. O equilíbrio, porém, depende do correto posicionamento dos membros em relação ao ambiente. Não é eficiente tentar medir a distância entre o pé e o chão com a visão, que deve estar dedicada a outras percepções. Nesse sentido, o tato funciona como uma “segunda visão”, capaz de aferir distâncias e relações espaciais por meio da sensibilidade da pele.
“Essa é a visão a ser buscada: aquela que percebe o invisível, que rompe camadas e alcança a verdade profunda”
Por meio do tato, percebemos cinco elementos: pressão, temperatura, dor, textura e vibração. Desconsiderá-lo nesse processo de conhecimento seria comprometer o próprio aprendizado.
Finalmente, chegamos à visão. Na arte marcial, esse conceito se associa à expressão Mikiri (見切り), que pode ser entendida como “visão profunda”. Trata-se da capacidade de “cortar” as camadas da realidade para alcançar o que está além do aparente.
O termo kiri — presente, por exemplo, em harakiri (腹切り) — ganha aqui sentido metafórico: o mundo é composto por múltiplas camadas que devem ser sucessivamente atravessadas para revelar sua essência. Hoje sabemos que a visão é, em última instância, uma interpretação cerebral de estímulos eletromagnéticos captados pelos olhos. Assim, o que percebemos é uma construção mental.
Esse raciocínio se aplica também ao mundo interno: é necessário “cortar” as camadas do eu para compreender sua profundidade. Trata-se de uma visão transcendente, que vai além da identificação de objetos — uma visão que busca o sentido profundo das coisas.
A visão nos permite medir espaço, distância, equilíbrio e disposição — física e mental — dos seres e objetos. Ao fazê-lo, também nos oferece a dimensão do tempo. Para o artista marcial, ações ocorrem em frações muito menores que um segundo, tornando familiares intervalos como 0,1 segundo ou menos. Assim, o praticante transita entre escalas: do macro ao subatômico.
Essa é a visão a ser buscada: aquela que percebe o invisível, que rompe camadas e alcança a verdade profunda.
O sexto sentido, por sua vez, é de difícil tradução em palavras. Ele representa a síntese dos demais sentidos, elevada à dimensão da experiência e da intuição. É a capacidade de perceber o que não se vê, compreender o que não se explica, e acessar, ainda que parcialmente, o sentido mais profundo da existência.
02 de abril de 2026
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