27 de outubro de 2026
Aprender a se levantar também é descobrir que podemos contar uns com os outros © Imagem gerada por IA / Global Comunicação
Antes de executar uma projeção, uma criança precisa aprender a cair. Para continuar aprendendo, precisa confiar em quem está à sua frente. Nessa relação entre coragem e cuidado, esforço individual e responsabilidade pelo outro, começa a ganhar forma uma das contribuições mais duradouras de Jigoro Kano: fazer do encontro entre duas pessoas sobre o tatami uma oportunidade de educação.
Neste 28 de outubro, o Dia Mundial do Judô convida a olhar para essa herança. A homenagem ao fundador se realiza nos dojôs, nos clubes, nas escolas e nos projetos sociais, onde cada professor recebe uma responsabilidade que ultrapassa o ensino de técnicas: ajudar seus alunos a desenvolver capacidades e aprender a conviver.
A celebração mundial foi instituída pela Federação Internacional de Judô (FIJ) em 2011, com o respeito como tema da primeira edição. Em 2026, a palavra escolhida é “Pertencimento”. A proposta coloca em evidência uma questão decisiva para o futuro da modalidade: como fazer com que cada praticante se reconheça como parte da comunidade que o recebe?
A pesquisa sobre a trajetória de Jigoro Kano revela uma particularidade que ajuda a compreender a escolha da data celebrada pelo judô mundial. Seu nascimento foi registrado no 28º dia do décimo mês do primeiro ano da era Man’en, em Mikage, localidade hoje integrada à cidade de Kobe, na província japonesa de Hyogo. A cronologia do Instituto Kodokan preserva essa referência histórica.
Na época, o Japão utilizava um calendário lunissolar, que combinava os ciclos da Lua com referências ao ano solar. Convertida para o calendário gregoriano, aquela data corresponde a 10 de dezembro de 1860, como registra a Biblioteca Nacional da Dieta, do Japão.
“Ao ensinar uma criança a cair com segurança, o judô lhe oferece um começo. Ao ajudá-la a se levantar, confiar e cuidar de quem aprende ao seu lado, mantém aberto o futuro que Jigoro Kano começou a construir.”
Por que, então, celebrar em outubro? Em esclarecimento publicado pela FIJ após consulta ao Kodokan, a instituição japonesa informou que o próprio Kano comemorava seu aniversário em 28 de outubro do novo calendário. A tradição mantida pelo judô acompanha, portanto, uma prática adotada por seu fundador em vida.
A designação Man’en 1 significa o primeiro ano daquela era japonesa. Ela pertence ao sistema de identificação dos anos por eras, conhecido como nengō. Entender essa diferença permite reconhecer tanto a equivalência entre os calendários quanto a razão histórica da celebração em outubro.
Em maio de 1882, Kano fundou o Kodokan nas dependências do templo Eishoji, em Tóquio. Tinha 21 anos pela contagem de idade hoje utilizada. Da investigação das tradições do jiu-jítsu, desenvolveu um método que articulava formação física, intelectual e moral. O estudo do combate passava a integrar um projeto educativo.

Jigoro Kano, à direita, aos 11 anos, antes de iniciar a trajetória que transformaria o ensino do judô © Instituto Kodokan / Tratamento visual por IA
Essa dimensão também aparece em sua atuação fora do dojô. Kano foi professor, dirigiu instituições de ensino e trabalhou na formação de educadores. A Escola Normal Superior de Tóquio, que esteve sob sua direção, integra a história institucional da atual Universidade de Tsukuba. Educação e atividade física eram campos de uma mesma preocupação com o desenvolvimento humano. Universidade de Tsukuba: a contribuição educacional de Kano.
Reconhecer esse percurso ajuda a compreender a responsabilidade de quem ensina judô. A maneira de corrigir um movimento, organizar uma dupla ou acolher um aluno inseguro também educa. O professor transmite valores pelo modo como conduz a aula e trata cada pessoa.
Dois princípios sintetizam o pensamento amadurecido por Kano: sei-ryoku-zen-yo, o melhor uso da energia, e jita-kyoei, benefício e prosperidade mútuos. Associados à Sociedade Cultural do Kodokan, fundada em 1922, eles ampliam o alcance do aprendizado para as relações sociais e para a vida cotidiana.
Usar bem a energia envolve observar, compreender e escolher. No treinamento, isso exige perceber o equilíbrio, reconhecer o momento de agir e ajustar a técnica. Como orientação educativa, convida a empregar as próprias capacidades com propósito e discernimento.
O benefício mútuo acrescenta uma responsabilidade: o progresso pessoal deve contribuir para o desenvolvimento de outras pessoas. Nos escritos de Kano apresentados pela FIJ, o aperfeiçoamento individual está relacionado à participação construtiva na comunidade.
No tatami, essa ideia encontra uma aplicação concreta. Para repetir uma técnica, é preciso contar com um parceiro. Para que ambos continuem aprendendo, é necessário controlar a força, respeitar limites e cuidar da execução. A confiança que permite treinar precisa ser correspondida.
O compromisso de Kano com a educação pelo esporte também o levou ao movimento olímpico. Em 1909, tornou-se o primeiro integrante asiático do Comitê Olímpico Internacional. Participou da organização da estreia japonesa nos Jogos de Estocolmo, em 1912, ampliando a presença do país no cenário esportivo internacional.
Sua última viagem terminou em 4 de maio de 1938. Depois de participar de uma sessão do Comitê Olímpico Internacional no Cairo e passar pela América do Norte, morreu de pneumonia a bordo do Hikawa Maru, durante o retorno ao Japão. Tinha 77 anos pela contagem de idade em anos completos.
A continuidade de sua obra passou às mãos de gerações de professores e praticantes. Cada uma delas recebeu o desafio de transmitir conhecimentos, interpretar necessidades de seu tempo e preservar a finalidade educativa do judô.
O tema do Dia Mundial do Judô de 2026 aproxima essa história de uma tarefa atual. A FIJ propõe que o pertencimento alcance crianças, mulheres, pessoas com deficiência, refugiados e praticantes afastados do esporte por barreiras sociais, econômicas, culturais ou geográficas. O objetivo é construir vínculos que permitam participar e permanecer.
Para crianças e jovens, essa responsabilidade começa em situações muito concretas: receber atenção mesmo quando o aprendizado demora, ter suas dificuldades respeitadas e encontrar incentivo para tentar novamente. Uma aula pode oferecer espaço para aprender a lidar com a frustração, reconhecer o mérito de um colega e assumir compromissos com o grupo.
Esse potencial depende do trabalho dos adultos. Professores, dirigentes e famílias precisam criar condições para que a disciplina venha acompanhada de respeito, a cobrança considere a idade e a experiência de cada aluno, e a busca por resultados preserve a dignidade de quem está aprendendo.
O jovem que deseja competir merece orientação para desenvolver seu talento. A criança que procura amizade, movimento e confiança também merece encontrar seu lugar. A grandeza de um projeto educativo aparece na atenção dedicada a ambos.
Comemorar o Dia Mundial do Judô é renovar esse compromisso. É reconhecer os professores que dedicam tempo à formação de seus alunos e perguntar que experiências estamos oferecendo às novas gerações.
O retrato de Jigoro Kano ocupa um lugar de honra em muitos dojôs. Sua presença se torna ainda mais significativa quando os princípios associados à sua obra orientam decisões: a oportunidade concedida a quem precisa, o cuidado com o iniciante, a firmeza diante de uma atitude desrespeitosa e a valorização do esforço de cada aluno.
Para crianças e jovens de todo o mundo, a herança de Kano pode representar a descoberta de que são capazes de aprender, enfrentar dificuldades e contribuir para a vida de outras pessoas. Essa possibilidade dá sentido à celebração de hoje e exige continuidade amanhã.
Ao ensinar uma criança a cair com segurança, o judô lhe oferece um começo. Ao ajudá-la a se levantar, confiar e cuidar de quem aprende ao seu lado, mantém aberto o futuro que Jigoro Kano começou a construir.
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