Quando a política invade o tatami e a WKF fecha os olhos

Tatami é espaço de mérito esportivo, não de imposições políticas ou discriminação © WKF

Não é o atleta iraniano que se recusa a lutar. É o regime totalitário que invade o koto, luta por ele e contra os princípios do esporte.

Por Paulo Pinto / Global Sports
Curitiba, 24 de janeiro de 2026

Os episódios recentes envolvendo a recusa sistemática de atletas iranianos (e de outros países) em enfrentar competidores israelenses no karatê internacional não podem mais ser tratados como casos isolados, nem como “posicionamentos individuais”. Trata-se de uma imposição política brutal, oriunda de um regime totalitário que pune seus cidadãos, inclusive atletas, quando não se submetem às diretrizes do Estado.

Quem conhece minimamente a realidade da República Islâmica do Irã sabe: a decisão não é esportiva, é coercitiva. O atleta que ousar competir pode sofrer sanções severas ao retornar ao país. Aliás, ele e sua família. Em um regime que, apenas nos últimos meses, foi responsável pela morte de mais de cinco mil pessoas, falar em “escolha” é desconhecer a realidade ou agir de má-fé.

O problema, portanto, não é o atleta. O problema é a World Karate Federation (WKF) que tolera, relativiza e, em alguns casos, legitima esse tipo de interferência política no esporte.

Quando a política invade o karatê, quem perde são os atletas e os valores do esporte © Arquivo

A postura da WKF é, no mínimo, alarmante. Em um dos casos citados, a entidade permitiu que atletas iranianos realizassem lutas simbólicas no dia anterior à competição oficial para não perderem pontos no ranking — uma manobra que, na prática, premia a discriminação e cria um precedente perigoso: o de que regras olímpicas podem ser contornadas quando a pressão política é suficientemente forte.

Casos de discriminação contra atletas israelenses na WKF

TBILISI – KARATE 1 SERIES A (9 A 11 DE JANEIRO DE 2026)

No evento realizado em Tbilisi, o atleta iraniano Alireza Lofitteh Pourzahriyeh recusou-se a enfrentar o competidor israelense Ronen Gehtberg na categoria masculina até 67 kg. Com a recusa, Gehtberg avançou automaticamente para a segunda rodada e seguiu na competição, enfrentando posteriormente um atleta italiano.

FUJAIRAH – KARATE 1 PREMIER LEAGUE (2022)

Os atletas iranianos Saleh Abazari, Mehdi Khodabakhshi e Keyvan Baban desistiram da competição após serem sorteados para enfrentar adversários israelenses.

Em um acordo direto entre a World Karate Federation e a Federação Iraniana de Karatê, os três atletas realizaram lutas simbólicas no dia anterior ao evento oficial para manter seus pontos no ranking, mesmo sem competirem oficialmente — um caso exemplar de conivência institucional da WKF com a discriminação política e por nacionalidade.

PARIS – ABERTO DE KARATÊ (2017)

Na 21ª edição do Aberto de Karatê de Paris, o karateca iraniano Majid Hasaninia recusou-se a enfrentar um atleta israelense na categoria masculina até 60 kg.

Após o episódio, Hasaninia concedeu entrevista à mídia iraniana afirmando que, embora tivesse arcado com todos os custos de sua participação e desejasse testar sua preparação esportiva, suas “convicções” e o apoio ao povo palestino prevaleceram — evidenciando a interferência política direta sobre a competição esportiva.

BAKU – KARATE 1 PREMIER LEAGUE (ÁRBITROS)

O árbitro sênior iraniano Javad Salimi, então chefe do Comitê Nacional de Arbitragem da Federação de Karatê do Irã (FKI), recusou-se a arbitrar uma luta envolvendo um atleta israelense.

Após o caso ser levado ao painel de arbitragem da WKF, outro árbitro foi designado. Posteriormente, Salimi perdeu sua licença por manipulação de sorteios e foi banido por cinco anos de eventos da WKF — punição aplicada não pela recusa política, mas por infrações administrativas, o que evidencia claramente a assimetria de tratamento.

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BAKU – KARATE 1 PREMIER LEAGUE (2022, OUTROS PAÍSES)

O fenômeno extrapola o Irã. O atleta kuwaitiano Mohammed Mashal Al-Otaibi também desistiu da competição após ser sorteado para enfrentar um adversário israelense, demonstrando que a prática discriminatória não é pontual, mas recorrente e tolerada no circuito.

Violação direta da Carta Olímpica

Episódios protagonizados sem nenhum tipo de pudor ou constrangimento contrariam frontalmente os princípios do Olimpismo. Confira:

Regra 6 da Carta Olímpica: proíbe qualquer forma de discriminação baseada em raça, religião, política ou nacionalidade

Regra 50 da Carta Olímpica: veda o uso do esporte e das competições para manifestações ou propaganda política

A recusa em competir contra atletas de um país específico configura, portanto, ato político deliberado e discriminação proibida, colocando em xeque a eficácia — e a vontade — das federações internacionais em fazer cumprir suas próprias normas.

“Isso não é neutralidade. Isso é conivência.”

No judô, situações semelhantes já ocorreram — e foram tratadas de forma radicalmente diferente. A Federação Internacional de Judô (FIJ) puniu o país, suspendeu federações e deixou claro que o tatami não é espaço para xenofobia, boicote político ou discriminação política e por nacionalidade. O Irã chegou a ficar suspenso por quatro anos justamente por impor esse tipo de comportamento a seus atletas.

No Budô, existe um limite claro: o shiai-jô, o kotô, o espaço da luta. O tatami não é extensão de governos, ideologias ou conflitos geopolíticos. Quando decisões políticas, xenófobas e discriminatórias atravessam esse limite, não é apenas o esporte que perde — é o próprio sentido do caminho marcial que é violentado.

Mais grave ainda é o fato de muitos desses atletas arcando com todas as despesas do próprio bolso, viajando, treinando, se preparando, para no fim serem impedidos de competir por uma decisão que não lhes pertence. São usados como instrumentos simbólicos de um regime e abandonados à própria sorte quando o espetáculo termina.

Diante disso, o silêncio da WKF não é apenas omissão administrativa. É uma falha ética gravíssima.

A agenda olímpica é clara: não há espaço para discriminação por nacionalidade, religião ou posicionamento político. Recusar-se a competir por esses motivos é, sim, um ato político — e deve ser tratado como tal pelas federações internacionais, com firmeza, coerência e responsabilidade.

Enquanto isso não ocorrer, cada luta não realizada deixará de ser apenas um combate a menos para se tornar a prova de que, em alguns lugares, a política venceu, ou feriu de morte, o esporte, com a conivência de quem deveria protegê-lo.

https://www.originaltatamis.com.br/