Raul Senra: entre o legado da Alta Paulista e a reconstrução institucional do judô paulista

Raul Senra durante pronunciamento na reunião de delegados realizada em Ribeirão Preto, em 2013 © Global Sports

Com 45 anos dedicados ao judô, dirigente analisa a formação da Alta Paulista e aponta a reorganização administrativa e o rigor em compliance como pilares do novo momento da modalidade em São Paulo.

Por Paulo Pinto / Global Sports
Curitiba, 5 de abril de 2026

Uma das principais lideranças entre os delegados regionais da Federação Paulista de Judô, o carioca Raul de Melo Senra Bisneto, nascido em 23 de março de 1958, no bairro de Humaitá, aos pés do Cristo Redentor, construiu uma trajetória marcada pela dedicação integral ao judô e à formação de base no interior paulista.

Formado em Economia pela Universidade Gama Filho e em Administração de Empresas pela Universidade de Marília, empresário do agronegócio e radicado em Tupã, o professor kodansha shichi-dan (7º dan) dirige há mais de três décadas os destinos do judô da Alta Paulista. Desde 30 de setembro de 2024, passou a integrar também a diretoria da Federação Paulista de Judô como vice-presidente, compondo a gestão liderada pelo professor Henrique Carlos Serra Azul Guimarães.

Sua atuação se consolidou como uma das mais influentes no cenário regional, marcada pela defesa da tradição, do judô técnico e pela preservação do legado deixado pelos mestres japoneses que estruturaram a modalidade no Brasil.

Origens no esporte e encontro com o judô

Desde a infância, Raul Senra teve forte ligação com o esporte, inicialmente influenciado pelo basquete — modalidade em que sua família possuía tradição, com destaque para seu tio, José Maciel Senra, integrante da seleção olímpica de 1964. Após atuar no Tijuca Tênis Clube e integrar a seleção carioca, afastou-se da modalidade após a morte precoce do tio. Posteriormente, passou pelo boxe universitário até estabelecer sua ligação definitiva com o judô, já na vida adulta, a partir de 1981, em Tupã, sob influência dos professores Tosugue Sugui e Uichiro Umakakeba, marcando o início de uma relação definitiva com a modalidade.

Henrique Guimarães ao lado dos vice-presidentes Takeshi Yokoti, Hatiro Ogawa e Raul Senra durante a Copa São Paulo de Judô 2026 © Global Sports

Com início tardio no judô, destacou-se principalmente na categoria máster. No período sênior enfrentou adversários de altíssimo nível, sem alcançar protagonismo equivalente, mas manteve-se ativo e competitivo mesmo após lesões graves no joelho. Sua principal conquista veio já aos 39 anos, ao sagrar-se campeão brasileiro, resultado que simbolizou a consolidação de sua trajetória dentro da modalidade.

Formação técnica e tokui-waza

Minha escola foi uma das mais completas e eu dominava uma série de golpes e técnicas, entre os quais o sasae-tsuri-komi-ashi, harai-goshi, o-soto-gari e tsuri-komi-goshi. Sempre busquei variar e quem me passou esta sequência foi o professor Umakakeba. “Ele dizia que tínhamos de ter sempre a caixa de ferramentas na mão, com elas prontas para serem utilizadas. Nesse contexto eu agradeço muito por tudo que ele me transmitiu. Convivi com ele quase 29 anos. Infelizmente tivemos uma desavença boba, mas continuo gostando muito dele e o respeito muito.” 

Da prática à liderança regional

Houve um período em que delegacia estava vaga porque o Roberto Shigematsu, o então delegado regional, vendeu tudo e foi morar no Japão.

“O professor Uichiro Umakakeba sugeriu que eu poderia ser o delegado, e meu nome foi levado ao professor Francisco de Carvalho; depois de alguns dias fui empossado em Araçatuba. Isso foi em 11 de abril de 1994.”

Henrique Guimarães, Takeshi Yokoti e Raul Senra em 30 de setembro de 2024, data da eleição do novo presidente da Federação Paulista de Judô © Global Sports

Nesse período, houve crescimento na região. Raul observa que o judô da Alta Paulista foi formado eminentemente por japoneses e destaca que a colônia japonesa teve uma influência monstruosa na qualificação técnica de todos que passaram pela modalidade. Ele lembra que houve épocas em que existiam equipes fortíssimas em cidades como Tupã, Marília, Bastos e Dracena. Ressalta ainda que teve a felicidade de treinar com atletas do nível do Chicão Camilo e que Tiago Camilo cresceu junto com eles, dentro de sua casa, convivendo com seus filhos. Segundo ele, formou-se uma geração de excelentes professores, mas, paradoxalmente, muitos acabaram se mudando, o que resultou na diminuição do número de escolas. Ainda assim, destaca que Bastos permanece como um dos centros mais importantes do judô brasileiro.

Base, formação e risco geracional

Ao analisar o período, Raul contextualiza o papel da Alta Paulista na formação do judô do interior.

“Acredito que, de fato, a elite do interior esteve concentrada na Alta Paulista. Assim como houve um período de hegemonia do pessoal da Noroeste, quando o professor Mori, de Araçatuba, e a turma de São José do Rio Preto dominavam toda a região. A rivalidade era sadia e fomentava o surgimento de novos atletas. Digo sempre que meu medo hoje é acontecer um apagão, porque estamos vendo se abrirem lacunas enormes de gerações. Da base à elite existe um caminho longo e, se não houver um trabalho consistente, os atletas se perdem no caminho. Não sei se é porque os tempos mudaram; os jovens têm uma ampla gama de entretenimento e não querem ficar treinando quatro horas diárias em cima de um tatami.”

O legado japonês como patrimônio técnico

Ao abordar a presença japonesa na região, Raul destaca a importância dessa base cultural e técnica. “Felizmente são. Mas a tendência é isso acabar, o que causa preocupação. A quantidade de informações técnicas e filosóficas que vem do Japão por meio deles é enorme. Nós praticamente não temos acesso e nem o elo que eles mantêm com o Japão. Isso é um tesouro que veio para nossa região com esses imigrantes.”

Raul Senra ao lado do professor kodansha Massao Shinohara, faixa vermelha juu-dan (10º dan), após a conquista da medalha de bronze no Mundial Veteranos de 2007 © Arquivo

O dirigente aprofunda com exemplos concretos dessa herança. “O Goro Kosaihira foi atleta da seleção olímpica japonesa e veio para Marília com toda esta bagagem técnica. O professor Umakakeba veio do Japão com 10 anos, mas treinou exaustivamente aqui e foi aprimorar seu judô em São Paulo com o professor Ishii. Ele é seguidor do sensei Okano, campeão mundial e olímpico japonês. Até hoje mantém o mesmo treinamento, e aquela agonia de andar fazendo o jacaré e o pato. Ele mantém a rotina de mil flexões, que, quando eu fazia, quase morria, achava que ia enfartar.”

Pilares históricos da Alta Paulista

Ao recordar os pioneiros da modalidade na região, Raul faz questão de registrar os nomes que estruturaram o judô local.

“Os professores Massaro Yanaguimori, Tosugue Sugui, Kioshi Gomi, Kanefumi Ura, Hajime Kobari, Sigueioshi Mori, Takao Fukuda, Goro Kosaihira, Yoshio Tomita e Uichiro Umakakeba. Outra lenda do passado de nossa região foi o mestre Wasai, que na década de 1940 formou grandes alunos, como Yokichi Kimura, 9º dan, de Mogi das Cruzes, que por muitos anos foi seu aluno em Bastos.”

Ele amplia a leitura sobre esse legado. “Acho que todos contribuíram bastante para formação da imensa base que solidificou o judô da Alta Paulista. Querendo ou não, se você for levantar a história do que foi construído e conquistado aqui, verá que ela é bem elitizada. Há décadas nossa região produz um judô forte e de resultado.”

Registro do Campeonato Paulista Sênior de 1996, com os professores Paulo Wanderley Teixeira, Francisco de Carvalho Filho, Raul Senra, Matheus Sugizaki e Marcos Kassada © Arquivo

E explica o que entende por essa “elite”. “Pelo fato de termos produzido vários atletas que fizeram parte da seleção brasileira durante muitos anos. O judô desenvolvido por nossos antepassados está em evidência permanentemente.”

“Judocas como Sérgio Sano, Mário Tsutsui, Tiago Camilo, Washington Donomai, Omar Miquiniotti, Francisco Camilo, Rodrigo Strabeli, Norton Yamane, Eduardo Marandola, Guilherme Trocoli, Maximiliano Trombini, Dusão, Milton César Maximiano, Pedro Guedes, Bruno César Rocha, Ricardo Nascimento, Adriano Yamamoto, Hélio Yoshinori Donomai, Márcio Sassaki, Tony Tanaka, Harry de Oliveira, Fábio Matsuzaki e Alexandre Dae Jin Lee, que hoje realiza um trabalho espetacular no comando da equipe do SESI-SP. No judô paralímpico, temos um dos maiores fenômenos da modalidade, Alana Martins Maldonado, bicampeã paralímpica — Tóquio 2020 e Paris 2024 — e vice-campeã na Rio 2016, formada no meu dojô, a ACERT de Tupã, pelo professor kodansha shichi-dan (7º dan) Joaquim Teruo Nakamura.

Ele complementa destacando o impacto dessa formação. “Judocas que, além da bagagem adquirida na base, conseguiram agregar ensinamento adquirido por meio de um grande intercâmbio nacional e internacional. Com isso, acabaram criando estilo próprio, difundindo e consolidando diversas técnicas e um judô de alto nível.”

Gestão, liderança e articulação regional

Ao tratar de sua atuação à frente da delegacia, Raul reconhece que há, de fato, uma liderança consolidada e um ambiente de coesão entre os membros do grupo. Ele relembra uma observação do falecido professor Goro Kosaihira, segundo a qual não guarda segredos, característica que atribui ao seu jeito expansivo, de falar alto e ser bastante extrovertido. Ainda assim, enfatiza que sua condução é baseada em uma gestão participativa, construída a partir do diálogo e da opinião coletiva. Afirma que não toma decisões de forma isolada, apresentando sempre as possibilidades para que a maioria prevaleça. Nesse processo, acredita ter conquistado a amizade e a confiança de grande parte dos integrantes, especialmente dos mais antigos, que possuem perfil mais tradicionalista, reservado e introspectivo.

Raul Senra com Washington Donomai, a quem considera o judoca mais técnico que conheceu © Arquivo

Ao explicar como cidades de menor porte conseguiram estruturar projetos expressivos, como os dojôs dos senseis Ura e Umakakeba, Raul destaca que Pompeia é uma cidade privilegiada por ter recebido um ícone vindo do Japão, Sunji Nishimura, fundador da Jacto, empresa do setor do agronegócio que cresceu de forma impressionante, baseada em uma proposta prática, criativa e acessível ao trabalho agrícola. Paralelamente, ressalta o papel fundamental do professor Kanefumi Ura, extremamente dedicado ao judô, que conseguiu mobilizar apoio tanto da iniciativa privada quanto do poder público municipal. Cita ainda o ex-prefeito Oscar Yassuda como um importante apoiador da modalidade. No caso de Bastos, explica que o dojô nasceu do sonho e da capacidade do professor Umakakeba, que articulou apoio junto à iniciativa privada, reunindo empresários para viabilizar o projeto. Embora ele não esteja mais à frente da estrutura atualmente, Raul enfatiza que tudo se originou da determinação e do foco do professor em fomentar o desenvolvimento técnico do judô paulista por meio de um grande centro de treinamento. Na sequência, o vice-presidente da FPJudô analisou a questão da hierarquia federativa.

“Como já falei anteriormente, buscamos fazer um trabalho democrático, porém em conformidade com aquilo que é pré-estabelecido pela FPJudô e a Confederação Brasileira de Judô que é a entidade maior. Da mesma forma que faço com nossos filiados, também converso muito com os que estão acima de mim. Trabalhamos em equipe, com coerência, bom senso e critérios, para que o judô cresça de forma organizada.”

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Reestruturação e novo momento político

Ao entrar no ponto central da entrevista, Raul contextualiza que o judô paulista atravessa um momento de inflexão estrutural, resultado direto de mudanças profundas ocorridas após um período de instabilidade administrativa.

“São Paulo sempre foi o carro-chefe nas áreas administrativa, operacional e técnica. Após o falecimento do professor Francisco de Carvalho passamos por fortes mudanças que acabaram resultando na eleição do professor Henrique Guimarães, gestão aliás, da qual faço parte da diretoria, e a partir daí passamos a vivenciar um amplo processo de reformulação administrativa e estrutural da entidade que felizmente está acontecendo em todas as áreas da modalidade, ou seja, nas áreas técnica, administrativa, didática e política, pois hoje felizmente vivemos um novo momento na relação institucional da FPJudô com a Confederação Brasileira de Judô, o que certamente está nos projetando em nível nacional.”

Lendas do judô brasileiro reunidas no dojô da Vila Sônia, em 21 de julho de 2017: Goro Kosaihira, Mário Matsuda, Massao Shinohara, Raul Senra e Uichiro Umakakeba © Arquivo

Gestão participativa e nova dinâmica de poder

Ao abordar o funcionamento da atual diretoria, Raul destaca uma mudança significativa no modelo de gestão, com maior distribuição de responsabilidades e participação efetiva dos dirigentes.

“Cada um dos vices ocupa um papel na administração, nos comunicamos muito, felizmente e o professor Henrique tem se mostrado um grande líder, ou seja, existe uma nova liderança muito sólida se consolidando, porém com maior participação do grupo, diferentemente do que havia antes, quando as determinações vinham para serem cumpridas de forma mais monocrática. O Henrique está se revelando um grande líder e mostrando objetivos claros e metas a serem cumpridas por todos.”

Austeridade, controle e cultura de compliance

Na avaliação sobre a condução administrativa, Raul aponta uma mudança de paradigma na gestão da entidade, com ênfase em controle, responsabilidade e critérios rigorosos.

“O professor Henrique tem uma visão moderna e prioriza muito o desenvolvimento técnico, a qualidade daquilo que entregamos aos nossos filiados nos eventos esportivos que realizamos e administra a FPJudô com austeridade, fundamentada nos mais rigorosos critérios de compliance e gestão, o que certamente é extremamente positivo.”

Raul Senra é homenageado por seu aniversário durante a cerimônia de abertura da Copa São Paulo de Judô 2026, recebendo a homenagem da filha, a judoca Maria Cecília © Arquivo

Esse novo direcionamento, segundo a leitura construída ao longo da entrevista, não se limita a ajustes operacionais, mas representa uma ruptura com práticas anteriores, estabelecendo um ambiente institucional mais seguro, transparente e alinhado com os princípios que regem a boa governança no esporte.

Conhecendo a história

Ao resgatar as origens do judô na região, Raul contextualiza que, no fim da década de 1930 e início da de 1940, com a substituição dos trabalhadores dos cafezais — predominantemente italianos — por japoneses, ocorreu uma verdadeira revolução de costumes, simbolicamente marcada pela troca do macarrão pelo sushi. Ele lembra que foi um período extremamente difícil, agravado pelos efeitos devastadores da crise de 1929 sobre a cultura do café. Para completar, o início da Segunda Guerra Mundial transformou italianos e japoneses em potenciais inimigos, isolando-os, em grande medida, do convívio social.

A partir desse contexto, Raul relata que precisou vasculhar a história para encontrar vestígios que permitissem mapear o início da prática do judô na Alta Paulista. Segundo ele, “encontrei alguns registros da existência de judô na região no início da década de 1940, porém essa prática, além de proibida, ficou restrita somente aos imigrantes que vieram para Marília, Tupã, Rinópolis, Lucélia e Dracena. A presença de gaijins (brasileiros) era rara, e a prática da modalidade — assim como das demais artes marciais, como kendô, karatê e sumô — foi proibida com o avançar do conflito”.

Raul Senra com o medalhista olímpico Tiago Camilo, formado pelo sensei Uichiro Umakakeba, em Bastos © Arquivo

Com o fim da guerra e a lenta normalização da vida da colônia japonesa, a prática do judô começou a se reorganizar na região. Raul destaca que, nesse período, chegaram professores com alto nível técnico, como Massaro Yanaguimori, que inicialmente atuou em Lucélia antes de se transferir para Tupã. Ele ressalta ainda um dado curioso: houve um momento em que Lucélia contou simultaneamente com cinco professores de elevado nível técnico. Além de Yanaguimori, passaram pela cidade nomes como Kioshi Gomi, Sigueioshi Mori — pai do saudoso professor Mori, de Araçatuba —, Yoshio Tomita e Takao Fukuda, considerado um dos precursores do judô da região Noroeste ao lado do sensei Sigueioshi Mori.

Para o delegado da Alta Paulista, foi a partir desse momento que a região se firmou no cenário da modalidade. Ele explica que, a partir desse período, houve uma ampliação significativa da divulgação e da prática do judô em toda a região.

“Daí por diante começou a haver maior divulgação e prática da modalidade na região. Podemos citar a família do professor Yakihiro Watanabe, ex-presidente da FPJudô e radicado na cidade de Osvaldo Cruz. Em Dracena tivemos o professor Tomiyoshi; em Bastos e Tupã, Tosuke Sugui; e em Marília, Hajime Kobari. Outros tiveram rápida passagem pela região, como os professores Kimura (Mogi das Cruzes) e Chiaki Ishii (que veio trabalhar na escola agrícola em Presidente Prudente). Todos contribuíram muito para a qualificação do judô na Alta Paulista e, consequentemente, de São Paulo e do Brasil.”

Baluartes da 4ª DR Alta Paulista: os senseis Kanefumi Ura, Goro Kosaihira e Uichiro Umakakeba com Raul Senra no dojô do antigo Projeto Futuro, no Ibirapuera © Arquivo

Atualmente, a 4ª Delegacia Regional Alta Paulista possui 13 agremiações filiadas à FPJudô, distribuídas nas cidades de Garça, Marília, Tupã, Pompeia, Bastos, Junqueirópolis, Adamantina, Lucélia, Dracena, Osvaldo Cruz e Rinópolis.

Associações filiadas à Federação Paulista de Judô da Alta Paulista e seus dirigentes:

  • Associação de Judô de Garça (Eduardo de Carvalho)
  • Associação Esportiva e Cultural NIKKEY de Marília (Francisco Daigo Kosaihira)
  • Associação de Judô Kassada (Marcos Kassada)
  • Associação Cultural Esportiva de Pompéia (Francis Minoru Endo Ura)
  • Associação Garra de Judô Quintana (Fernando Hirano)
  • Associação Cultural Esportiva e Recreativa de Tupã (Áureo Satoru Nishimura)
  • Associação de Judô de Bastos (Marcos Sabino)
  • Associação Umakakeba Dojô (Uichiro Umakakeba)
  • Associação de Judô de Rinópolis (Roberto Taniguchi)
  • Associação de Judô de Adamantina (Antônio Cazu)
  • Instituto Garra de Judô Adamantina (Davi Alves)
  • Associação Junqueiropolense de Judô (Aparecido Figueiredo)
  • Associação Dracenense de Cultura e Esporte (Adriano Kashiura)

Uma vida dedicada ao judô

Ao recordar os momentos mais marcantes nos tatamis, Raul destaca o Campeonato Brasileiro Máster de 1998 como um dos pontos mais altos de sua trajetória. Ele relembra que foi uma competição extremamente forte, com uma chave repleta de judocas técnicos e que, mesmo diante desse nível elevado, conquistou a medalha de ouro ao vencer as nove lutas por ippon. Soma-se a esse percurso a medalha de bronze no Campeonato Mundial de Veteranos de 2007, realizado em São Paulo.

Já na esfera pessoal, aponta o nascimento de seus quatro filhos como o momento mais significativo de sua vida. São eles Raul de Mello Senra Trineto, João Antônio Simão Stefano Senra, Lucca Turra de Oliveira Senra e Maria Cecília de Moura Senra.

Raul Senra faz pronunciamento na cerimônia de abertura da Copa São Paulo de Judô 2026 © Arquivo

Ao refletir sobre os 32 anos à frente da delegacia regional, Raul afirma que valeu cada dia dedicado à função. Ele revela que frequentemente se autoanalisa, questionando se ainda reúne condições de permanecer na liderança, especialmente diante da responsabilidade de atuar diretamente na formação da base e, consequentemente, no futuro do judô. Demonstra preocupação com a qualificação dos professores que integram sua delegacia e também com aqueles que, ao atingirem idade mais avançada, passam a considerar o encerramento de suas atividades, o que, segundo ele, pode gerar um abismo na formação da base regional e do judô paulista.

Ainda assim, é enfático ao afirmar que todo o percurso valeu e continua valendo a pena, pois está diretamente ligado àquilo que mais ama fazer. Raul sintetiza esse sentimento ao recorrer ao pensamento de Jigoro Kano, afirmando que o judô é como uma “droga violentíssima”, que, uma vez incorporada à vida, jamais abandona quem a pratica.

Raul Senra com a esposa, Juliana, e a filha Maria Cecília no dojô da ACERT, em Tupã © Arquivo

Aos 69 anos, 45 deles integralmente dedicados à prática, à estruturação e ao fomento do judô na Alta Paulista, o sensei Senra mantém uma vida profundamente conectada à modalidade. Reside na sede da Fazenda Luar, nas proximidades de Tupã, onde vive ao lado da esposa, Juliana Talita de Lima Senra, e da filha caçula, Maria Cecília de Moura Senra — judoca que segue os caminhos dos pais, ambos faixas pretas, dando continuidade a uma trajetória construída com rigor, tradição e pertencimento.

E é com a autoridade de quem vive o judô há décadas, não apenas nos tatamis, mas como filosofia de vida, que ele sintetiza sua relação com a modalidade:

“Quando o mestre Jigoro Kano criou o judô, criou algo poderoso demais. É como um vírus — quando entra em nossas veias, não sai nunca mais. Mas, felizmente, é um vírus que educa, que forma, que orienta. Uma prática que nos conecta a um ecossistema de valores e, acima de tudo, nos torna mais humanos.”

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