01 de fevereiro de 2026
A criança não é um adulto em miniatura, mas um ser com características, necessidades e ritmos próprios © Imagem criada por IA / Global Sports
A FIJ, capitaneada pelo meu ex-técnico Jean Luc Rougé, com o qual tive o prazer de aprender, por ocasião de meu estágio no Instituto Nacional de Educação Física em Paris, localizado na bucólica região de Château de Vincennes, resolveu normatizar a questão do sistema internacional de graduação.
Não sem tempo, pois há décadas o judô merece retomar o “Dô” preconizado pelo shihan Jigoro Kano. O judô de competição esqueceu “os valores fundamentais da modalidade, assegurando que o novo sistema permaneça fiel ao espírito e à filosofia do judô” (FIJ, 2025).
Vamos recordar as palavras do Shihan Jigoro Kano:
“Nothing under the sun is greater than education. By educating one person and sending him into the society of his generation, we make a contribution extending a hundred generations to come.”
Jigoro Kano
Que em tradução livre significa:
“Nada sob o sol é maior do que a educação. Ao educar uma pessoa e enviá-la para a sociedade de sua geração, fazemos uma contribuição que se estende por cem gerações futuras.”
Jigoro Kano
Pratico judô há mais de 60 anos e como professor, PhD, venho ao longo de minha carreira defendendo o judô educacional e em especial uma reformulação no ensino para crianças, lembrando palavras de Edouard Claparède (1873-1940) médico e psicólogo suíço:
“A criança não é um adulto em miniatura, mas um ser com características, necessidades e ritmos próprios”.
Ele defendeu que a educação deve ser funcional, baseada nos interesses da criança e no desenvolvimento ativo, considerando o jogo como o “trabalho” natural da infância, essenciais para o aprendizado.

Ao recolocar a educação no centro do sistema de graduação, a FIJ provoca uma reflexão necessária sobre o sentido do judô © Arquivo
A Federação Internacional de Tênis desenvolveu a metodologia de ensino do tênis para crianças, chamado Play & Stay, pois perceberam que existe a necessidade de entender as características de desenvolvimento dos infantes em relação a modalidade.
Com o judô não é diferente, devemos priorizar as características motoras, cognitivas e socioafetivas de cada faixa etária. Ainda em palavras da FIJ, (2025):
Espera-se, portanto, que os detentores da faixa preta possuam não apenas proficiência técnica, mas também um sólido conhecimento da cultura, da história e dos valores educacionais do judô, conforme descrito nos requisitos específicos de cada nível de dan.
Há anos desenvolvi os Jogos de Oposição, um método como o Play & Stay do Tênis, para ensinar judô para crianças. Jogos do lúdico, porque a criança necessita de ter prazer em fazer judô e se ela for submetida a realizar 3 mil uchi-komis, ou mil flexões de braços vai desistir da prática e sobretudo se tiver uma lesão, jamais voltará a praticar judô. Por isso é fundamental entender o que a escola francesa nos ensina, denominado como Règles d’Or:
Segurança física, moral e intelectual do parceiro de prática. Para garantir isso, o autor apropria-se dos valores de segurança, estabelecidos pela escola francesa. Assim, as atividades devem sempre ser ministradas com o apoio destas prerrogativas:
Nossa metodologia segue os passos do shihan Jigoro Kano, porque juntamente com o lúdico, desenvolvemos os valores educacionais do judô, tais como respeito aos mais velhos (senpai e kohai), respeito ao professor e aos colegas de prática (rei-hô) respeito ao local de prática (dojô) e principalmente estar atento as características de crescimento e desenvolvimento, pois as crianças estão permanentemente crescendo e seu organismo não está preparado para receber altas cargas de treinamento. Por exemplo o sistema cardiorrespiratório ainda tem dimensões pequenas, as veias e artéria tem calibre estreito, coração e pulmões não tem dimensões morfológicas para suportar longos períodos de treinamento físico. Além do que psicológica e fisiologicamente a criança se desinteressa pela atividade.
Devemos parabenizar a FIJ por pensar em reformular o ensino e o aprendizado do judô e torcer para que surja um Play & Stay do Judô e tenhamos muito mais praticantes que amem o judô e o entendam como princípio educacional e não somente como competição.
Jigoro Kano compreendia que nenhuma sociedade se sustenta apenas pela força, pela hierarquia ou pelo poder formal. Para ele, a educação precede a autoridade, e o professor ocupa um lugar singular justamente por ser o guardião do conhecimento, da ética e da formação humana.
Não por acaso, a tradição japonesa afirma que, em uma terra onde não há professores, não pode haver imperadores. A frase não exalta indivíduos, mas estabelece um princípio: sem educação, não há legitimidade; sem formação, não há liderança que se sustente.
É sob essa mesma lógica que se insere a proposta da Federação Internacional de judô ao revisar seu sistema de graduação. Ao deslocar o eixo da mera certificação técnica para uma formação mais ampla — cultural, histórica e educacional —, a FIJ sinaliza que o futuro da modalidade não se constrói apenas com títulos ou resultados, mas com professores preparados para formar pessoas.
A reflexão apresentada pelo professor Sérgio Luiz Carlos dos Santos dialoga diretamente com esse horizonte. Não se trata de negar a competição ou a excelência esportiva, mas de recolocar o dô no centro do judô, garantindo que as próximas gerações de milhões de judocas cresçam não apenas como atletas, mas como sujeitos formados sob valores que sustentam a própria razão de existir da modalidade.
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