Universidade de Tsukuba debate legado de Jigoro Kano na educação e os limites da busca pela vitória

A iniciativa reuniu a Universidade de Tsukuba, a Universidade de Bordeaux, a Federação Internacional de Judô e o Instituto Kodokan para debater o legado educacional de Jigoro Kano © kodokan

Conferência internacional no Japão reúne pesquisas sobre formação humana, participação feminina e inclusão, com contribuição brasileira e atividades na Universidade de Tsukuba e no Instituto Kodokan.

Por Paulo Pinto / Global Sports
Curitiba, 23 de outubro de 2026

Como ensinar judô para que o aprendizado contribua para a vida em sociedade? Essa questão atravessou a conferência internacional “Jigoro Kano e a Educação: Seu Legado e os Desafios do Século XXI”, realizada de 1º a 3 de outubro, no Japão. Integrado à Semana Global de Ciência de Tsukuba, o encontro reuniu pesquisadores, professores e treinadores para discutir a atualidade do projeto educacional do fundador da modalidade. A programação combinou apresentações acadêmicas, debates e atividades práticas na Universidade de Tsukuba e no Instituto Kodokan, em Tóquio.

Na proposta divulgada pela universidade, o desenvolvimento físico, intelectual e moral dos jovens aparece como eixo da discussão. O ponto de partida é histórico: Kano estruturou o judô em um Japão que passava pelas profundas transformações da era Meiji. O desafio colocado aos participantes foi examinar como essa concepção educativa pode orientar o ensino em uma sociedade que enfrenta outras mudanças culturais, tecnológicas e sociais.

O diretor do Departamento de Ensino do Kodokan, Yoshihisa Dojo, dá as boas-vindas aos participantes da conferência sobre o legado educacional de Jigoro Kano © kodokan

A relação da instituição com esse legado tem raízes na trajetória do próprio educador. Kano dirigiu, por mais de duas décadas, a escola de formação de professores que integra a história institucional da atual Universidade de Tsukuba. Sua atuação incluiu reformas escolares e a valorização da educação física, das atividades extracurriculares e do intercâmbio de estudantes. Essa experiência ajuda a compreender por que sua contribuição à educação ocupa espaço próprio nas pesquisas sobre a história do judô.

Participantes do simpósio sobre o legado educacional de Jigoro Kano reunidos © kodokan

Um dos temas mais diretamente ligados ao trabalho dos professores foi a relação entre formação e resultado esportivo. A programação incluiu uma apresentação de Takanori Ishii, da organização Sports Coaching Academia, sobre o judô para todos e os limites da busca pela vitória. Outros trabalhos abordaram o desenvolvimento de habilidades sociais e a educação de crianças em idade pré-escolar. Em conjunto, essas propostas colocaram em discussão os objetivos do ensino e as possibilidades de participação para públicos com diferentes necessidades.

Participação brasileira

A contribuição brasileira apareceu com um recorte histórico específico. Gustavo G. B. Maçaneiro, identificado no programa como pesquisador da Universidade de São Paulo, apresentou um trabalho sobre a ausência do Brasil no primeiro Campeonato Mundial de Judô, relacionando o episódio ao legado de Kano e à burocracia esportiva. O tema acrescentou à conferência uma perspectiva sobre a inserção internacional do judô brasileiro.

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A programação também aproximou diferentes experiências educacionais. Rodrigo Furlan e Randeep Rakwal, vinculados à Universidade de Tsukuba, assinaram um pôster sobre o judô que chegou a Santiniketan, na Índia, e as convergências entre o pensamento de Kano e o de Rabindranath Tagore. A presença feminina foi examinada em trabalhos sobre a educação das mulheres no Japão da era Meiji e as representações do judô feminino na década de 1930.

O professor Mukai, diretor do Departamento de Biblioteca e Documentação do Kodokan, responde às perguntas dos participantes com demonstrações práticas © kodokan

Outra contribuição trouxe dados sobre como os jovens interpretam a dimensão formativa do esporte. Segundo a International Pacific University, pesquisadores de seu Centro de Inovação Esportiva Memorial Jigoro Kano analisaram respostas abertas de 637 universitários, recolhidas após aulas sobre o pensamento do fundador do judô. O estudo empregou análise quantitativa de textos para investigar a compreensão dos estudantes sobre o conceito de “Sport-Dō”, associado ao esporte como caminho de formação. A notícia institucional descreve a metodologia, mas não detalha os resultados.

A professora Solidowar conduz aula durante o simpósio sobre o legado educacional de Jigoro Kano © kodokan

O diretor do centro, Hisashi Sanada, também participou do encontro, com uma apresentação sobre a trajetória de Kano como educador. Sua intervenção relacionou essa trajetória à educação olímpica e à formação humana por meio do esporte, ampliando o contexto das discussões sobre o ensino contemporâneo do judô.

A conferência nasceu da cooperação entre as universidades de Tsukuba e Bordeaux, com apoio da FIJ e do Kodokan. Para Michel Brousse, historiador do judô e pesquisador da universidade francesa, a aproximação entre conhecimento acadêmico e experiência de ensino foi um dos destaques. “A combinação de acadêmicos e especialistas do tatami funcionou muito bem”, afirmou ao site da FIJ.

Hisashi Sanada, diretor do Centro de Inovação Esportiva Memorial Jigoro Kano, da International Pacific University, e Takashi Horikawa, professor assistente e pesquisador do mesmo centro © kodokan

No encerramento, em 3 de outubro, os debates chegaram ao tatami. O relato publicado pelo Instituto Kodokan informa que dez pesquisadores e cerca de 40 integrantes da equipe de judô de Tsukuba participaram de uma demonstração e de uma aula de Itsutsu-no-Kata, conduzidas por representantes do instituto. À tarde, o grupo seguiu para o Kodokan, onde acompanhou exposições sobre métodos de ensino e visitou o museu da instituição.

A passagem da pesquisa à prática deu uma dimensão concreta à proposta do encontro: examinar como o legado de Kano é transmitido. Entre estudos históricos, investigações sobre estudantes e discussões sobre inclusão, a conferência reuniu diferentes caminhos para uma tarefa que permanece nas mãos de quem ensina judô: transformar princípios educacionais em escolhas de aula, relações de aprendizagem e oportunidades de participação.

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