10 de janeiro de 2026
Luiz Alberto Küster, secretário‑geral da ITKF Global © Global Sports
Nesta entrevista especial com os dois candidatos à vice-presidência da Confederação Brasileira de Karatê-Dō Tradicional (CBKT), os professores Luiz Alberto Küster e Iko Trindade compartilham suas motivações, experiências e visões para o futuro da entidade.
Referências no cenário do karatê tradicional — Küster pela atuação internacional e gestão estratégica, Iko pela conexão entre ciência e arte marcial — ambos enxergam na nova fase da CBKT uma oportunidade de integração, fortalecimento institucional e valorização da base.

O renomado professor Iko Trindade, candidato a vice-presidente da CBKT © Arquivo
Uma visão de futuro fundamentada, acima de tudo, no processo de institucionalização e desenvolvimento do karatê tradicional no Brasil. Um processo construído ao longo de décadas, por professores, atletas e dirigentes que transformaram a prática do karatê em um estilo de vida. A fundação da CBKT, o alinhamento com os princípios da ITKF, a elaboração da primeira constituição internacional em 1990 e o reconhecimento do karatê tradicional como uma expressão cultural autêntica são marcos que inspiram a nova geração de líderes da Confederação. Küster e Iko, que viveram — e ajudaram a construir — essa história, agora se colocam a serviço de um novo ciclo: mais coeso, transparente e conectado com os desafios contemporâneos da modalidade no Brasil e no mundo.
Nascido em 4 de março de 1956, em Guarapuava (PR), Luiz Alberto Küster iniciou sua prática no karatê em 1974 na Academia Shotokan do professor Júlio Arai. Em 1981, durante um mestrado em Engenharia Civil na Colorado State University (EUA), aprofundou seus estudos no karate tradicional sob a supervisão do professor Jairo Blanco e do mestre Richard Kim, com quem realizou o exame de 1º Kyu (faixa marrom) — momento decisivo que consolidou seu vínculo com a filosofia do Budô.
Ao longo de sua formação, Küster passou sob a supervisão de mestres como Yasutaka Tanaka e Hidetaka Nishiyama, além de dialogar com pilares da tradição como Yoshizo Machida, Yasuyuki Sasaki, Hiroyasu Inoki e Luiz Tasuke Watanabe — figuras de referência técnica e institucional.

Professor Luiz Alberto Küster: pioneiro da institucionalização do karatê tradicional no Brasil e exemplo de liderança comprometida com a história, a ética e o futuro da modalidade © Arquivo
No plano institucional, foi o primeiro presidente efetivo da CBKT a partir de 1989 e, em 1990, contribuiu na elaboração da primeira constituição que estruturou a governança internacional do karatê tradicional, ajudando a consolidar a International Traditional Karate Federation (ITKF). Desde 2019, é, contribuindo para o desenvolvimento global da modalidade.
Há mais de três décadas, Luiz Alberto Küster dedica-se ao esporte paranaense em diferentes frentes, tanto no karatê quanto no futebol. Atualmente, ocupa o cargo de vice-presidente do Clube Athletico Paranaense, uma das principais equipes da Série A do Campeonato Brasileiro, ampliando sua contribuição voluntária ao esporte por meio da gestão e do fortalecimento institucional.
O retorno institucional do professor Luiz Alberto Küster à Confederação Brasileira de Karatê-Dō Tradicional foi motivado por um reconhecimento claro: desde a histórica separação entre o karatê tradicional e a vertente esportiva vinculada à WKF, a ITKF nunca contou com apoio estatal consistente. “O karatê tradicional sempre foi praticado por amor à arte — pelos seus professores, atletas e dirigentes. Nas décadas iniciais, especialmente na década de 1990, cada atleta ou dirigente arcava com despesas próprias para representar o Brasil em torneios internacionais. Foi um esforço coletivo enorme, motivado pela devoção ao karatê tradicional.”

Professor Iko Trindade em visita ao Museu do Karatê em Okinawa: um retorno à origem para aprofundar estudos e vivências no berço da arte marcial que pratica e pesquisa há mais de seis décadas © Arquivo
Nos últimos anos, conta Küster, a seriedade e a competência demonstradas pela atual gestão da CBKT foram determinantes para que ele decidisse integrar a futura diretoria. “Observei com profunda admiração a competência organizacional da atual diretoria, que conseguiu alavancar recursos e promover a participação brasileira em dois Campeonatos Mundiais — atividades em que a entidade custeou passagens, hospedagem e alimentação de mais de 50 atletas e integrantes, algo que nem sempre ocorreu nem em equipes com subvenção estatal ou privada.”
Essa gestão profissional, transparente e comprometida com o bem-estar dos praticantes tocou fundo. “Sinceramente, acredito na competência não apenas da gestão atual e da futura gestão proposta, mas também no potencial coletivo de manter um karatê tradicional forte, coeso e respeitado nacional e internacionalmente.”
Para Küster, um dos principais desafios dessa nova fase da CBKT será consolidar e ampliar as boas práticas já implementadas, mantendo o foco na governança e na integração nacional. “É urgente fortalecer a base institucional da entidade, dialogar com todos os segmentos do karatê tradicional no país e garantir que a gestão continue sendo pautada pela transparência, eficiência e profissionalismo. Há de se manter um olhar atento às demandas regionais, promovendo integração e oportunidades de participação em atividades técnicas, educacionais e competitivas.”
Ele também aponta a necessidade de ampliar a sustentabilidade financeira da Confederação. “É premente estruturar e diversificar a captação de recursos para que a CBKT possa executar projetos de longo prazo. Isso passa por fortalecer parcerias, revisar mecanismos estatutários, incentivar iniciativas de base e investir continuamente na formação de árbitros, instrutores e líderes — pois, no fim, tudo isso é essencial para elevar o padrão e o alcance do karatê tradicional no Brasil e no exterior.”
Em registro histórico, a foto da primeira seleção brasileira no Campeonato Mundial da ITKF, realizado em Lima (Peru), em 1990, eterniza um momento decisivo para o karatê-dô tradicional. Além dos atletas e dirigentes da delegação nacional, o registro reúne quatro lendas que ajudaram a moldar os rumos da modalidade no Brasil: o mestre Yoshizo Machida, referência técnica e histórica no país e no mundo; Yasuyuki Sasaki, importante articulador da difusão técnica no território nacional; Hiroyasu Inoki, figura de destaque na construção institucional do karatê tradicional; e Luiz Tasuke Watanabe, veterano instrutor, primeiro campeão mundial de kumitê e expoente da linhagem da ITKF Global.
Na ocasião, os próprios atletas arcavam com os custos das passagens para representar o Brasil, enquanto a CBKT se responsabilizou pelas despesas dos mestres e pela hospedagem de toda a delegação.
Foi também nesse mesmo evento que se consolidou uma virada institucional: durante a assembleia internacional, foi aprovada a primeira constituição (estatuto) da ITKF, sob a liderança de Hidetaka Nishiyama — marco que estabeleceu as bases da governança global da modalidade.
Nascido em Parnaíba, no litoral do Piauí, o professor Iko Trindade viveu sua infância na Ilha Grande de Santa Isabel, no coração do delta do Parnaíba, até os 10 anos. Sua jornada no Karatê-Dō começou na década de 1960, em Fortaleza (CE), onde conheceu a arte marcial recém-chegada ao Brasil sob a orientação do Capitão Maia Martins, no Círculo Militar da capital cearense.
De aluno a monitor, de atleta a sensei, construiu uma trajetória sólida ao longo de seis décadas de prática contínua no karatê — hoje representada por sua própria escola, o Hombu Dojô Iko-dô, oriundo da antiga Askace, que alia tradição e formação acadêmica.
Faixa preta roku-dan (6º dan) pela CBKT/ITKF, Iko Trindade é graduado em Educação Física, com pós-graduação em Ciência do Treinamento Desportivo, mestrado em Saúde Pública e doutorado em Saúde Coletiva. É um dos pioneiros na produção de conhecimento científico sobre karatê no Brasil, tendo realizado ainda em 1979 um dos primeiros estudos acadêmicos formais sobre a modalidade em instituições brasileiras.

Seleção brasileira de karatê no Campeonato Mundial de Lima 1990, na comissão técnica gigantes como Hiroyasu Inoki, Yoshizo Machida, Yasuyuki Sasaki, Luiz Tasuke Watanabe e Oswaldo Mendonça © ITKF Global
Sua formação internacional inclui passagens por instituições de excelência como a Universidade Estatal de Moscou, na Rússia, além de recente estadia no Japão, em Okinawa — berço histórico do Karatê-Dō — onde aprofundou seus estudos sobre as raízes filosóficas, pedagógicas e técnicas da arte.
Com base em suas pesquisas e experiência, criou em 2005 o método iKoDoMô, voltado ao desenvolvimento integral de crianças na primeira infância, integrando fundamentos da psicomotricidade, da pedagogia e da tradição do karatê.
Atualmente, Iko Trindade ocupa uma série de cargos e titulações: é o segundo vice-presidente da CBKT, membro da Comissão Socioeducativa da ITKF Global, delegado da FIEPS (Fédération Internationale d’Éducation Physique et Sportive) no Ceará e titular da cadeira 41 da Academia de Ciências e Artes de Parnaíba.

O professor Iko Trindade no dojô do shihan Yoshimasa Kakazu (9º dan), durante visita técnica e de estudos ao berço do karatê, em Okinawa © Arquivo
Ao comentar sua decisão de integrar a futura gestão da CBKT, o professor Iko Trindade explicou que o convite foi acolhido como uma oportunidade de retribuir à modalidade tudo o que o Karatê-Dō lhe proporcionou ao longo da vida — não apenas como arte marcial, mas também como campo de pesquisa, educação e formação de valores.
“Depois de tanto tempo ligado ao Karatê-Dō — não apenas como prática marcial, mas como campo de pesquisa, educação e formação de valores — senti que era o momento de colaborar institucionalmente de forma mais próxima. Aceitei o convite para compor essa diretoria porque reconheço nela comprometimento com a tradição, capacidade técnica e vontade coletiva de fazer o karatê tradicional crescer de forma organizada e plural”, afirmou.
“Identifiquei-me com os propósitos que estão sendo construídos nesse projeto. Acredito que a CBKT está diante de uma oportunidade histórica de integração, de resgate do diálogo com a base e de avanço na consolidação de políticas voltadas à formação e valorização de professores, árbitros e atletas. Temos um patrimônio humano imenso que pode ser potencializado com seriedade, governança e planejamento.”

Assembleia Geral da ITKF em Lima (Peru), 1990: momento histórico em que foi aprovada a primeira Constituição da ITKF, consolidando as bases da governança global do Karatê-Dō Tradicional © ITKF Global
Trindade avalia que uma das prioridades da nova gestão deve ser o fortalecimento da comunicação com as federações estaduais, por meio de canais diretos, ágeis e transparentes. Essa conexão será fundamental para que se realize um diagnóstico preciso dos desafios e necessidades de cada região, permitindo a elaboração de um planejamento estratégico descentralizado e aderente à realidade dos filiados.
“Na minha visão, o primeiro passo é estabelecer um canal de comunicação direto, ágil e transparente com todas as federações. Sem isso, não será possível construir uma Confederação verdadeiramente representativa. É preciso criar um fluxo contínuo de escuta e interação com os estados e com os diferentes segmentos da modalidade, para que possamos realizar um diagnóstico preciso dos desafios e potencialidades de cada região.”
“Essa escuta qualificada deve ser a base de um planejamento estratégico descentralizado, no qual todos possam se ver representados. O futuro da CBKT passa por essa capacidade de integração e pela valorização das vozes que constroem o karatê tradicional no dia a dia, nos dojôs, nos cursos, nas competições, nos projetos sociais e nas iniciativas pedagógicas que usam o karatê como instrumento de formação humana”, concluiu sensei Iko.
Para o jornalista Paulo Pinto, especialista em karatê e judô, trata-se de uma confluência rara entre memória histórica, gestão e desenvolvimento.
“Como observador atento do desenvolvimento institucional do karatê tradicional no Brasil, é possível afirmar que a chapa composta pelos professores Arthur Rêgo, Luiz Alberto Küster e Iko Trindade reúne os elementos fundamentais para projetar uma nova história e um futuro promissor para a modalidade no país. Trata-se de uma liderança fundamentada em expertise, legitimidade e profundo conhecimento técnico e político — qualidades que abrem caminho para um novo ciclo de fortalecimento, integração nacional e conquista de autonomia financeira, por meio da visão estratégica e empresarial de seus gestores.

O professor Iko Trindade em frente ao memorial de Gichin Funakoshi no Templo Engakuji, em Kamakura (Japão) — homenagem ao fundador do karate moderno e ponto de inspiração no estudo da arte marcial © Arquivo
Do ponto de vista histórico, a composição da futura diretoria da CBKT articula experiência, legitimidade técnica e compromisso institucional. Os professores Luiz Alberto Küster e Iko Trindade não apenas testemunharam momentos decisivos do desenvolvimento do karatê-dô tradicional no Brasil e no mundo — como a constituição da ITKF ou a consolidação da avaliação científica da prática —, mas também ajudaram a escrevê-los. Ao lado do professor Arthur Rêgo, representam uma confluência rara entre memória histórica, vivência marcial e capacidade de gestão, elementos essenciais para enfrentar os desafios contemporâneos da modalidade com responsabilidade, coesão e visão estratégica.”
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