Entre utopias e distorções: o verdadeiro legado de Jigoro Kano como eixo inegociável do judô

A preservação da essência do judô passa pelo entendimento profundo de seus princípios — não por tentativas de reinvenção que distorcem seu propósito formador © Imagem criada por IA / Global Sports

Mais do que responder a inquietações contemporâneas, o judô exige fidelidade à sua essência: uma construção filosófica e educacional consolidada desde o Kodokan, que não comporta reinvenções, mas sim compreensão profunda de seus princípios e fundamentos

Por Wagner Antônio Vettorazzi
Curitiba, 24 de março de 2026

É evidente que muitos que treinam ou treinaram judô sempre terão coisas muito positivas a relatar sobre sua experiência como judocas, alguns inclusive destacando o quanto suas vidas foram transformadas. No entanto, é importante lembrar que o judô deve servir ao homem, e não o contrário.

O judô é o que é. Não existe judô tradicional ou judô moderno. O que existe é uma grande obra criada no século retrasado e que se mantém, a cada dia, atual na formação integral do ser humano.

De posse desse entendimento, alguns praticantes enaltecem o modelo esportivo e socioeducativo criado por Kano sensei, em 1882, mas, ao invés de buscar perpetuar sua essência por meio do estudo de seus princípios filosóficos e fundamentos — que constituem a base de sua existência — passam a criar novos conceitos e padrões de conduta. Pior: chegam a se autointitular “senseis”, como se essa condição pudesse ser atribuída apenas com a obtenção do sho-dan.

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Nesse cenário, professores que se dedicam a manter os processos educacionais deixados por Kano sensei acabam sendo questionados por uma diminuta parcela de praticantes que buscam reinventar a roda, revelando desconhecimento dos princípios do judô. Esses mesmos praticantes desejam um suposto “judô moderno” para seus filhos, mas esperam obter os mesmos resultados de uma prática pautada na disciplina e na conduta ética que o verdadeiro judô proporciona.

O resultado disso é preocupante: o judô passa a se perder em uma vala comum, sendo nivelado a qualquer outra atividade físico-esportiva, sem a capacidade de educar pelo conjunto de sua obra.

Professores que se preocupam em estudar o judô a partir de sua origem, buscando compreender o sentido de cada técnica, sua execução, classificação e até mesmo o significado dos termos em japonês, acabam tendo que interromper esse aprofundamento para explicar o básico: mais importante do que projetar ou controlar o adversário é zelar por sua integridade. É isso que nos remete ao verdadeiro judô, aquele que se preocupa com o ser humano e, consequentemente, com o meio social em que está inserido. Na prática, isso já deveria ser senso comum em todos os lugares onde se respira judô.

A grande pergunta que sempre surge é: o que podemos fazer para mudar esse cenário?

E a resposta, ao que tudo indica, continua sendo a mesma: seguir fazendo a nossa parte, da melhor forma possível.

Enquanto não se compreender que o judogi é muito mais do que uma vestimenta de treino, e por isso recebe essa denominação, e não apenas keikogi; que o reiho representa a essência do respeito entre os praticantes, no dojô e para com o próprio judô; que a disciplina está pautada na organização e que o treino é reflexo da conduta como pessoa; que o judô não pode ser praticado de qualquer maneira, nem conduzido por qualquer pessoa; e que a graduação significa muito mais do que uma faixa amarrada à cintura, já que, no judô, a faixa não serve apenas para ajustar o uwagi, continuaremos sem respostas consistentes.

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E seguiremos com a sensação de que, se nada for feito, o judô que tanto amamos, e que aprendemos com verdadeiros senseis na essência da palavra, pode se perder com o tempo.

Não se pode esquecer que manter ou retomar o caminho passa, necessariamente, pela compreensão dos princípios estabelecidos por Jigoro Kano — Seiryoku-Zenyo e Jita-Kyoei —, fundamentos que não admitem distorções e que sustentam o judô como instrumento de formação humana e de responsabilidade social.