09 de julho de 2026
Mohamed Meridja, diretor de Educação e Treinamento da Federação Internacional de Judô © Emanuele Di Feliciantonio / FIJ
Presente na Mongólia e na China durante os dois primeiros eventos do período classificatório para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028, o diretor de Educação e Treinamento da Federação Internacional de Judô (FIJ), Mohamed Meridja, acompanha de perto o início de um novo ciclo olímpico. Poucos dirigentes acumulam uma trajetória tão ampla dentro do judô. Atleta, técnico da seleção nacional, presidente de federação, dirigente continental e, atualmente, um dos mais experientes executivos da FIJ, Meridja reúne quase seis décadas de dedicação à modalidade, conferindo autoridade singular às suas análises.
Nascido em Argel, com raízes familiares em Barbacha, na Argélia, ele conheceu o judô em 1968 e jamais deixou os tatamis.
“Comecei a praticar judô em 1968 e nunca mais parei. Passei por todas as categorias de idade, desde as mais jovens até as mais experientes. Minhas primeiras competições aconteceram entre 1971 e 1972 e, com o tempo, tornei-me campeão argelino em todas as categorias.”

Mohamed Meridja participa da cerimônia de premiação durante o Grand Slam da Mongólia, primeiro evento do período classificatório para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028 © Emanuele Di Feliciantonio
Algumas lembranças permanecem vivas até hoje. “Ainda me lembro do cheiro do dojô. Suor e tatami juntos significavam trabalho. Mesmo hoje, sempre que entro em um dojô, essas memórias retornam imediatamente.”
Após conquistar sua primeira competição, recebeu do próprio clube um incentivo que jamais esqueceria: a isenção das mensalidades como reconhecimento pelo desempenho. Um gesto simples, mas que simbolizou a confiança depositada em seu futuro.
Sua carreira internacional começou em 1980, quando conquistou a medalha de bronze em um torneio realizado em Portugal. O resultado abriu caminho para uma sequência de cinco títulos consecutivos no Campeonato Argelino Sênior, entre 1981 e 1985.
As lesões interromperam diversas vezes sua evolução competitiva, obrigando-o a ficar fora do Campeonato Africano de 1983, do Campeonato Mundial e dos Jogos do Mediterrâneo. Ainda assim, a capacidade de superar adversidades tornou-se uma de suas principais marcas.

A saudação ao adversário após o combate simboliza um dos princípios fundamentais do judô: o respeito © Emanuele Di Feliciantonio
Em 1985, durante o Campeonato Africano disputado na Tunísia, treinado pelo medalhista olímpico de prata Valeriy Dvoinikov, conquistou o título continental mesmo competindo com uma dupla fratura no pé. Dois anos depois, nos Jogos Africanos de Nairóbi, voltou ao lugar mais alto do pódio apesar de sofrer com uma hérnia esportiva.
“Passei boa parte da minha carreira competitiva convivendo com lesões, mas isso fazia parte da vida de um atleta.”
Nesse período, Meridja participou de exigentes treinamentos de campo em diversos países do Leste Europeu, entre eles Bulgária, União Soviética, Hungria e Tchecoslováquia. Essas experiências contribuíram decisivamente para sua formação técnica e para a construção da filosofia de trabalho que adotaria ao longo de sua trajetória.
Sua primeira referência foi o próprio treinador, Abbad Tahar. No cenário internacional, o grande ídolo, porém, sempre foi Yasuhiro Yamashita. O destino, entretanto, reservou um encontro inesperado entre os dois.
“Em 2007, disputei a eleição para diretor de Educação da FIJ justamente contra o meu maior ídolo. Fui eleito e, depois disso, nos tornamos grandes amigos.”
Depois de encerrar a carreira como atleta, Meridja iniciou uma nova etapa como treinador assistente da seleção argelina, assumindo posteriormente o comando da equipe nacional. A trajetória naturalmente o conduziu à administração esportiva.
Foi presidente da Federação Argelina de Judô durante cinco mandatos, exerceu a vice-presidência da União Africana de Judô e desempenhou papel importante no fortalecimento internacional do judô de seu país.

Logomarca oficial do período de qualificação olímpica para os Jogos de Los Angeles 2028 © Emanuele Di Feliciantonio
Hoje, como diretor de Educação e Treinamento da FIJ, coordena programas estratégicos, entre eles a Solidariedade Olímpica, mantendo o mesmo propósito que norteou toda a sua vida em torno dos tatamis.
“Sempre gostei de unir pessoas, seja como atleta, treinador, presidente de federação ou dirigente internacional. As responsabilidades que exerço hoje na FIJ representam um enorme orgulho para mim, para minha família e para o meu país.”
Acompanhando os dois primeiros torneios do período classificatório para Los Angeles 2028, Meridja demonstra entusiasmo com o cenário encontrado.
“Quando observo esses dois primeiros eventos, na Mongólia e agora na China, vejo centenas de atletas extremamente motivados. Todos já buscam apresentar o melhor desempenho possível para ampliar suas chances de classificação para Los Angeles.”
Segundo ele, a diferença em relação ao período anterior ao início da qualificação é evidente. “É possível sentir claramente essa mudança. Existe um nível extra de motivação em todos os lugares. As federações nacionais estão investindo fortemente e isso explica o aumento do número de competidores.”
Outro aspecto que chamou sua atenção foi a qualidade da organização. “Tanto na Mongólia quanto na China vimos competições extremamente bem organizadas. Não registramos lesões graves, o que demonstra que todos chegaram muito bem preparados. As federações estão investindo no futuro e isso é extremamente animador.”
Para Meridja, o equilíbrio técnico atual do judô internacional também merece destaque. “Não vejo mais o domínio absoluto de determinados atletas. Quem conquistou medalhas na semana passada não necessariamente volta ao pódio na semana seguinte. Há espaço para todos. Nosso sistema de classificação é justo e todos o respeitam.”
Apesar da importância dos resultados esportivos, ele faz questão de lembrar que o verdadeiro sucesso vai muito além das medalhas.
“O respeito continua sendo um valor fundamental em tudo o que fazemos. Como diretor de Educação e Treinamento, sempre recordo que o respeito deve existir em todos os níveis: atletas respeitando a si próprios e seus adversários, treinadores respeitando os árbitros e todos respeitando os organizadores.”
Para ele, todos caminham na mesma direção. “Estamos trabalhando juntos para formar não apenas grandes campeões, mas também excelentes seres humanos. Cada pessoa envolvida no judô é responsável pelo próprio comportamento.”
Quase sessenta anos depois de entrar pela primeira vez em um tatami, Mohamed Meridja permanece convencido de que educação e rendimento esportivo são inseparáveis.
O caminho rumo aos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028 está apenas começando, mas ele acredita que a intensidade da disputa crescerá rapidamente. “Estamos apenas no início desta grande aventura olímpica. A intensidade só tende a aumentar.”
Ao olhar para trás, entre medalhas, títulos e responsabilidades assumidas ao longo da carreira, Meridja identifica uma base que sustentou toda a sua trajetória.
“Minha família, especialmente minha esposa, sempre foi meu maior alicerce. Sem eles, nada disso teria sido possível.”