19 de setembro de 2026
Membros da diretoria e palestrantes do I Seminário Nacional do CNKD © Global Sports
O estudo do karatê como um caminho de formação para a vida deu o tom do I Seminário Nacional do Colégio Nacional do Karatê-dô (CNKD), realizado de 11 a 13 de setembro, no Lindóia Tênis Clube, em Porto Alegre (RS). Primeiro evento presencial da entidade, o encontro reuniu mestres, professores e praticantes em uma programação dedicada ao conhecimento técnico, à pesquisa científica e às dimensões educativas e culturais da arte marcial.
Presidido por Arthur Rêgo, com Iko Trindade na vice-presidência, o Colégio nasce com a proposta de aproximar diferentes experiências e estilos em torno do estudo, da preservação e do desenvolvimento integral do karatê-dô. A valorização do professor e da formação continuada ocupa posição central nesse projeto, que busca ampliar o espaço dedicado à filosofia, à história e ao desenvolvimento humano na prática cotidiana.

Participantes da cerimônia de abertura © Global Sports
A recepção aos participantes e a mensagem de boas-vindas ficaram a cargo do professor Juan Pedro Osório, anfitrião do encontro, diretor de eventos do CNKD e diretor técnico do Instituto Shibumikan de karatê-dô. Psicólogo por formação, Juan ministra aulas no Lindóia Tênis Clube, um dos locais em que desenvolve seu trabalho com a modalidade. Ao lado da equipe do Instituto, recebeu os convidados para a primeira experiência presencial do Colégio.
A solenidade de abertura, na sexta-feira, deu início a uma programação que aproximou aulas práticas, palestras e apresentação de trabalhos. Técnica, pedagogia, inclusão, ciência e cultura japonesa compuseram a agenda, traduzindo em diferentes abordagens a abrangência da proposta institucional.

Arthur Prisco Paraíso Rego, presidente do CNKD © Global Sports
Ao abrir oficialmente o seminário, o presidente do CNKD, Arthur Rêgo, apresentou os compromissos que orientam a criação do Colégio e os próximos passos de sua estruturação. Seu discurso relacionou a preservação do karatê-dô como caminho de formação humana a iniciativas concretas, como a produção de conteúdo, a formação de professores, a criação de um novo modelo pedagógico e a definição de diretrizes éticas para a entidade.
“Senhores mestres, professores, praticantes, convidados e apaixonados pelo karatê-dô, boa noite!
É com profunda honra, responsabilidade e sentimento de dever cumprido que me coloco diante de vocês hoje, como presidente do Colégio Nacional do Karatê-dô, para declarar aberto o nosso I Seminário Nacional.
Este momento não seria possível sem a dedicação daqueles que abraçaram essa causa desde o primeiro instante. Quero expressar meu sincero e profundo agradecimento aos nossos diretores, que têm trabalhado assiduamente, nos bastidores e na linha de frente, para estruturar e erguer o CNKD com tanta excelência e rigor. O compromisso de vocês é a fundação sobre a qual estamos construindo este futuro. Deixo aqui um abraço especial ao sensei Juan Pedro Osório, nosso anfitrião em Porto Alegre, que tem sido incansável no objetivo de tornar esse evento um grande sucesso.
Por muito tempo, vimos a nossa arte ser dividida. Vimos o dô, o Caminho, ser gradualmente empurrado para os bastidores em nome da urgência das medalhas, do ponto rápido no shiai e da burocracia das organizações. Não desvalorizamos o esporte, mas recusamos a ideia de que o karatê se resuma a ele. O gesto que busca apenas o pódio não pode substituir o gesto perfeito que constrói o caráter para a vida.
O Colégio Nacional do karatê-dô nasceu para curar essa fratura. Não somos mais uma federação disputando calendários. Não somos uma dissidência. Somos um Colégio: uma comunidade soberana de pensadores, educadores e praticantes dedicados ao estudo, à pesquisa, à preservação e ao desenvolvimento integral do karatê-dô no Brasil.
Este I Seminário Nacional marca o início formal das nossas atividades presenciais. Ele é a prova viva de que o CNKD não existe apenas no papel, mas vive na prática de nossos Cinco Pilares: unindo a técnica e a filosofia, a didática do ensino, a pesquisa histórica, o desenvolvimento humano e a saúde.
Para garantir que o conhecimento aqui compartilhado se perpetue e alcance cada vez mais pessoas, todo o conteúdo das apresentações deste seminário será documentado e transformado em um e-book exclusivo, ao qual todos os nossos filiados terão acesso.
Além disso, reafirmando nosso compromisso com a transparência, a ética e a excelência institucional, comunico que muito em breve estaremos divulgando o nosso Regimento de Compliance. Esse documento servirá como guia fundamental para orientar a conduta de todos os nossos associados, garantindo que nossos valores éticos se reflitam tanto dentro quanto fora do dojô.
Temos também a satisfação de informar que a nossa diretoria já trabalha na organização de um modelo para os nossos Festivais Nacionais do CNKD, bem como no projeto para a estruturação do Curso de Formação de Professores de karatê, que, temos certeza, será uma mudança de paradigma na preparação dos senseis que difundem a nossa arte marcial.
Aos que estão aqui hoje: vocês não são meros espectadores. Vocês são companheiros nessa jornada. Ser faixa-preta, ou ser um praticante do dô, é assumir o compromisso de ser um eterno aprendiz.
Que este seminário seja um espaço de debate elevado, de suor consciente no tatami, de troca intelectual e de reencontro com a nossa fonte.
O caminho se faz ao andar. E hoje, juntos, damos mais um firme passo nessa intenção.
Sejam todos muito bem-vindos. Tenham um excelente Seminário!”

Iko Trindade, vice-presidente do CNKD © Global Sports
A reflexão do vice-presidente Iko Trindade partiu das inquietações que deram origem ao CNKD e da disposição de transformá-las em trabalho coletivo. Ao recuperar as conversas entre os idealizadores do Colégio, destacou a valorização dos professores, o estudo do legado dos mestres e a construção de uma estrutura capaz de dar continuidade a esse propósito.
“Este I Seminário do Colégio Nacional do karatê-dô é o marco inicial do CNKD no Brasil. Tudo começou em uma conversa entre amigos, movida por uma inquietação que muitos carregavam havia décadas: a percepção de que o karatê-dô em nosso país havia se reduzido a um esporte.
Os conceitos de origem dos primeiros mestres, que migraram de Okinawa ao Japão continental e do Japão ao Brasil, perderam espaço para a necessidade de pódios, medalhas e calendários competitivos. O Bushi no Michi, o Caminho do Guerreiro, foi relegado a nota de rodapé, e a história das linhagens tornou-se ornamento. A formação de competidores superou o desenvolvimento humano, e um atleta passou a ter mais importância que um grande professor, um sensei.
“Nossa proposta é oferecer um espaço onde o dô seja vivido em todas as suas dimensões.”
Naquela conversa, não falávamos em criar uma federação ou uma dissidência. Falávamos em recuperar os conceitos dos primeiros mestres, nos diversos estilos, e a integridade daquilo que Gichin Funakoshi e tantos outros nos legaram. Dessa inquietação compartilhada nasceu uma convicção: não basta reclamar do que se perdeu, é preciso reconstruir.
Assim nasceu o CNKD. Reconhecemos a importância do esporte, mas queríamos ampliar esse horizonte: constituir um Colégio como um corpo de mestres, professores e pesquisadores dedicados ao estudo, à preservação e ao desenvolvimento integral do karatê-dô. Não somos federação nem liga. Nossa proposta é oferecer um espaço onde o dô seja vivido em todas as suas dimensões.
Nossa organização reflete o princípio de que o karatê-dô, como arte marcial, é indivisível. A Diretoria Executiva dá viabilidade institucional ao projeto, e o Conselho de Mestres, o Shihankai, ainda em formação, tem a responsabilidade pelo aconselhamento técnico.
“O dô não é um sufixo decorativo: é a essência da jornada.”
As seis Câmaras Permanentes constituem o coração intelectual do Colégio. A Câmara Técnica define padrões e critérios de graduação; a de Ética, Formação e Certificação estrutura os percursos formativos e guarda o Código de Ética; e a de Ciência e Arte promove pesquisas sobre história e filosofia. A Câmara de Desenvolvimento Social e Inclusão trabalha o karatê-dô como instrumento de transformação social; a de Eventos organiza atividades como meios de formação; e a de Comunicação busca assegurar coerência entre o que dizemos e o que praticamos. Os delegados regionais, também em formação, representarão esse caminho nos estados, enquanto o Conselho Fiscal zelará pela transparência prevista no Estatuto.
O CNKD não é ponto de chegada. É ponto de partida. O que nos congrega é a convicção de que o karatê tem mais a oferecer do que troféus. Acreditamos que um faixa-preta deve ser, antes de tudo, um estudante perpétuo, um Gakusei. O dô não é um sufixo decorativo: é a essência da jornada.
Este primeiro seminário, no Rio Grande do Sul, materializa essa convicção. Estamos aqui para estudar, debater, planejar e construir. As Câmaras definirão prioridades, os delegados traçarão estratégias e o Shihankai discutirá os rumos técnicos. Acima de tudo, vamos nos ouvir como pares, estudiosos e karatecas que desejam pensar essa arte marcial de forma mais abrangente.
O Dojô-kun nos ensina a formação do caráter, a fidelidade ao caminho da razão, o cultivo do espírito de esforço, o respeito e a contenção do espírito de agressão. Esses princípios também devem reger cada decisão do Colégio.
O que era lamento tornou-se trabalho. A saudade dos conceitos originais transformou-se em um projeto de recuperação sistemática, institucional e científica. Se temos o dô como caminho, devemos percorrê-lo com a seriedade de um estudioso, o coração de um guerreiro e o espírito de um construtor.
Reconstruamos, portanto, juntos o Caminho. Que este primeiro seminário represente, para cada um de nós, mais um passo na busca pela vitória sobre si mesmo.”

Daniel Neaime, presidente da Federação Paulista de Karatê-Dô Tradicional, diretor de relações institucionais do CNKD e palestrante do seminário © Global Sports
A palestra “Karatê-dô em um caminho de aperfeiçoamento contínuo” foi conduzida pelo sensei Daniel Neaime, advogado formado pela Universidade de São Paulo (USP), presidente da Federação Paulista de Karatê-Dô Tradicional (FPKT), diretor jurídico da JKA Brasil, diretor de relações institucionais do CNKD e praticante de karatê tradicional desde 1974. Desenvolveu grande parte de sua formação sob a orientação do sensei Yasuyuki Sasaki, hachi-dan (8º dan), a quem acompanhou até seu falecimento, em 2017.
“O que realmente aperfeiçoamos quando treinamos: a técnica, o corpo, a mente ou o espírito?” Essa pergunta orientou a exposição de Neaime, que apresentou o karatê-dô como uma prática cujo significado se amplia ao longo da vida. Se, na juventude, o movimento e a capacidade física despertam primeiro a atenção, a continuidade do treinamento permite reconhecer um propósito mais profundo: transformar a si mesmo.
As lembranças de Sasaki deram uma dimensão pessoal à reflexão. Neaime recordou que o mestre se referia ao treino da manhã como uma religião, expressão que passou a compreender pelo sentido de autoconhecimento e dedicação à prática. Também relatou momentos em que Sasaki percebia sua concentração apenas pela movimentação em posição de guarda, sem que fosse necessário trocar golpes. A técnica, naquele aprendizado, era inseparável da presença e da qualidade da atenção.
Ao abordar a passagem do jutsu ao dô, Neaime destacou a mudança de perspectiva entre a eficácia do combate e a formação humana, ressaltando a contribuição pedagógica de Gichin Funakoshi. Nessa leitura, aprender como executar um movimento deve vir acompanhado de outra pergunta: quem estamos nos tornando ao praticá-lo?
O enfrentamento do medo, do orgulho, da vaidade e da ansiedade ocupou lugar central na palestra. Para Neaime, reconhecer essas manifestações durante o treinamento é parte do trabalho de aperfeiçoamento que cabe também ao professor transmitir aos alunos.
A reflexão incorporou quatro conceitos zen: shoshin, a disposição de continuar aprendendo; mushin, a mente livre de apegos; zanshin, a atenção contínua; e fudoshin, a estabilidade diante das dificuldades. Princípios que, em sua abordagem, ajudam a cultivar respeito, autocontrole e integração entre corpo, mente e espírito, fazendo do karatê-dô um aprendizado para toda a vida.”

O professor Juan Pedro Osório e sua equipe fizeram da arte de organizar e receber uma marca do I Seminário Nacional do CNKD, com cuidado em cada detalhe e uma acolhida que fez todos se sentirem em verdadeiramente em casa © Global Sports
A realização do primeiro seminário em Porto Alegre teve um significado especial para quem recebeu os participantes. Anfitrião do encontro, o professor Juan Pedro Osório, go-dan (5º dan), diretor-técnico do Instituto Shibumikan de Karatê-Dô e diretor de eventos do CNKD, destacou a satisfação de reunir diferentes experiências em torno de uma proposta que valoriza o karatê como prática de saúde, aprendizado e convivência.
“Para mim, é motivo de orgulho e muita felicidade sediar, em Porto Alegre, o primeiro seminário do Colégio Nacional do Karatê-Dô”, afirmou. Juan ressaltou a presença de mestres da Bahia, do Ceará, de Mato Grosso, de São Paulo e do Paraná, além dos representantes do Rio Grande do Sul, em um encontro que considera um marco para o desenvolvimento da proposta do Colégio.
“Cerca de 5% dos praticantes se dedicam à atividade competitiva, enquanto os demais 95% procuram o karatê por outros motivos.”
“É praticar o karatê pelo karatê, em sua essência, sem desvirtuá-lo, entendendo para que se treina e para que se aprende”, explicou. Para o dirigente, essa compreensão passa pelo reconhecimento da arte marcial como um modo de vida, cujos benefícios acompanham o praticante em diferentes fases e necessidades.
Embora reconheça a importância da competição e das experiências emocionais que ela proporciona, Juan defende uma atenção maior ao conjunto dos praticantes. Em sua estimativa, cerca de 5% dos praticantes se dedicam à atividade competitiva, enquanto os demais 95% procuram o karatê por outros motivos. “Não podemos descuidar dos que treinam pela saúde, qualidade de vida, pela defesa pessoal, para estar em um grupo e fazer parte dessa família que é o karatê”, observou.

Juan Pedro Osório, diretor técnico do Instituto Shibumikan; Paulo Vinícius Vargas, presidente do Instituto; João Alberto Monteiro da Silva, presidente do Lindóia Tênis Clube; Arthur Prisco Paraíso Rego e Iko Trindade, presidente e vice-presidente do CNKD © Global Sports
Esse olhar também orientou o cuidado com a recepção. Juan destacou o empenho em proporcionar um ambiente acolhedor, no qual o convívio favorecesse o aprendizado e a troca de experiências. Em sua avaliação, a integração entre apresentações de trabalhos científicos, palestras, pesquisas e treinamento expressa a abrangência do projeto. “Não podemos deixar de treinar. A parte prática também faz parte de todo esse universo do karatê”, ressaltou.
Satisfeito com a experiência, o anfitrião agradeceu a participação de todos e manifestou o desejo de dar continuidade à iniciativa. “Estou muito feliz. Vamos crescer e seguir para o próximo encontro.”
O encerramento da primeira noite ganhou o tom da confraternização. Reunidos em um coquetel, professores, palestrantes, familiares e convidados celebraram o início das atividades presenciais do Colégio Nacional do Karatê-dô. Depois das boas-vindas e das reflexões que marcaram a abertura, o momento foi de compartilhar a alegria de ver a entidade recém-fundada dar seus primeiros passos.
Entre conversas e brindes ao sucesso do CNKD, o convívio abriu espaço para estreitar laços e aproximar as pessoas que fazem parte dessa construção. A presença dos familiares trouxe à celebração uma dimensão afetiva, completando a primeira jornada do seminário com o sentimento de um projeto que começa a ganhar vida também nos encontros e nas relações entre seus integrantes.

O professor Leonardo Delabary conduziu a cerimônia de abertura do I Seminário Nacional do CNKD © Global Sports
O segundo dia do I Seminário Nacional do CNKD, sábado (12), reuniu palestras e aulas práticas que aproximaram pesquisa científica, fundamentos técnicos e cultura japonesa. Na abertura da programação, Victor Lage participou online com o tema “Karatê e Ciência”, apresentando uma pesquisa desenvolvida na Universidade Waseda, no Japão. Na sequência, Eduardo De Mattei trabalhou a harmonia entre tempo, esquiva e eficiência no Wado-kai; Nelson Santi abordou a cadeia cinética aplicada ao karatê, com o renzoku-waza; e Eros José Sanches conduziu a palestra “Ikken Hissatsu”.
À tarde, Tomoko Kimura Gaudioso participou com o tema previsto de poesia, origami e imigração, compartilhando também experiências com o karatê e sua dimensão cultural. As atividades práticas prosseguiram com Eckener Cardoso, à frente da aula sobre o kata Meikyo, e Antônio Carlos Walger, que trabalhou o footwork no kumitê. A programação do dia incluiu ainda uma exposição e venda de livros, com a participação de associações e entidades.

Arthur Prisco Paraíso Rego destacou o compromisso do CNKD com a formação de professores e a preservação do karatê-dô como caminho de formação humana © Global Sports
Uma das principais referências do karatê Wado-kai no Brasil, o renomado sensei Eduardo De Mattei levou ao segundo dia do seminário uma aula dedicada à construção pedagógica do movimento.
Membro do shihankai do CNKD e uma das referências técnicas da entidade, o profissional de educação física é shichi-dan (7º dan) pela Japan Karatê Federation Wado-kai e hachi-dan (8º dan) pela International Karatê Union (IKU). Em sua abordagem, a execução dos golpes foi trabalhada por etapas, reunindo atenção, organização corporal e compreensão das distâncias de luta.

Iko Trindade destacou a valorização dos professores e o estudo do legado dos mestres como bases para o trabalho coletivo do CNKD © Global Sports
A aula partiu de dois movimentos básicos: o jun-zuki, relacionado por De Mattei ao oi-zuki do Shotokan, e o gyaku-zuki. O professor dividiu o trabalho em quatro módulos pedagógicos, com uma progressão cumulativa do básico (mais simples) à execução completa. Cada etapa permitia concentrar a atenção em uma parte do movimento, preparando os participantes para integrar os elementos ao final da sequência.
Mais do que apresentar técnicas conhecidas, a proposta era dirigir o olhar para detalhes que exigem cuidado mesmo entre praticantes experientes. De Mattei chamou a atenção para a manutenção do cotovelo junto ao corpo durante o soco, o posicionamento do quadril, a ativação do quadríceps e a concentração na execução. O zanshin recebeu atenção especial: o estado de alerta deveria acompanhar o golpe e, sobretudo, permanecer depois dele.
“Dividi pedagogicamente esses movimentos, do fácil para o completo, de maneira cumulativa, para que os participantes conseguissem executar uma parte em cada módulo e, no conjunto, chegar à obra pronta”, explicou.

Daniel Neaime apresentou o karatê-dô como um caminho de aprendizado e aperfeiçoamento ao longo de toda a vida © Global Sports
Na sequência, o trabalho passou ao kizami-zuki e ao gyaku-zuki, executados, respectivamente, com a mão da frente e a de trás. Para tornar a explicação mais acessível, De Mattei recorreu a uma comparação com o boxe: guardadas as diferenças entre as modalidades, o kizami-zuki foi associado ao jab, e o gyaku-zuki, ao direto.
A partir desses golpes, o professor trabalhou as três distâncias básicas de luta. A proposta estabeleceu uma base para que, em um módulo posterior, os praticantes possam desenvolver combinações dentro de cada uma delas. Assim, a aula reuniu o cuidado com os fundamentos e a preparação para aplicações mais complexas, mostrando como o ensino por etapas pode favorecer a compreensão e a execução do karatê-dô.

Professores Eduardo De Mattei, Nélson Santi e João Cruz com Fernanda Capelo e Bianca Capelo © Global Sports
A relação entre o apoio no piso, a ação do corpo e a execução do golpe orientou a aula de Nelson Santi sobre a cadeia cinética aplicada ao karatê-dô. Profissional de educação física e técnico da seleção brasileira que disputará o Mundial da ITKF, em outubro, no Cairo, o renomado professor trabalhou o renzoku-waza, explorando o encadeamento dos movimentos, a profundidade e a fluidez das técnicas.
A proposta foi levar os participantes a perceber como as diferentes ações corporais se articulam durante a execução. Do apoio no solo ao momento de aplicação do golpe, Santi chamou a atenção para o percurso da força pelo corpo e para a importância de compreender o movimento como um conjunto integrado.
“A ideia foi trabalhar a energia da cadeia cinética aplicada ao karatê”, explicou. O tema, segundo o professor, faz parte de um campo de estudo ao qual tem dedicado atenção, aproximando a pesquisa sobre o movimento de sua experiência no ensino e no treinamento.

Professores Márcio Martins, Eros José Sanches, Juan Pedro Osório, Eckener Cardoso, Arthur Prisco Paraíso Rego, Iko Trindade e Álvaro Antônio Macedo de Paula © Global Sports
Na parte final da sequência de renzoku-waza, Santi apresentou uma nage-waza, técnica de queda, trabalhando a continuidade da ação diante da defesa do parceiro. O exercício acrescentou à combinação a necessidade de lidar com a resposta do outro, mantendo a profundidade e a fluidez que orientaram a aula.
Com uma hora disponível, o professor concentrou o trabalho nos movimentos propostos, embora reconhecesse que o refinamento dessas técnicas exigiria mais tempo. Sua avaliação foi positiva quanto à compreensão dos participantes e à oportunidade de compartilhar esse conteúdo no seminário.

Professores Eros José Sanches e Eduardo De Mattei © Global Sports
O encontro também teve, para Santi, o valor do reencontro com mestres e professores experientes. Além da própria aula, Santi destacou as palestras, a troca de ideias e a acolhida em Porto Alegre como partes importantes da experiência. Ao agradecer a recepção, manifestou confiança no fortalecimento do CNKD e na continuidade de um trabalho coletivo voltado ao desenvolvimento do karatê-dô.
A história também ocupou lugar central no segundo dia do seminário. Militar, professor de karatê e escritor, Eros José Sanches, autor de Ikken Hissatsu— As Origens do Karatê-Dô, conduziu uma investigação sobre as possíveis raízes de um dos conceitos mais conhecidos da arte marcial. Sua exposição aproximou a tradição da espada japonesa das antigas práticas de combate de Okinawa, acompanhando personagens e caminhos pelos quais esse conhecimento pode ter sido transmitido.
O ponto de partida foi a relação entre as expressões ichigeki-hissatsu e ikken-hissatsu. Na tradução apresentada pelo palestrante, a primeira corresponde à ideia de “um ataque certamente mata”, enquanto a segunda se refere a “um punho certamente mata”. Sanches propôs examinar a possibilidade de que a passagem de uma formulação à outra tenha ocorrido no encontro entre o kenjutsu, a arte da espada, e o tode, antiga denominação do karatê.

O professor Nelson Santi, técnico da Seleção Brasileira de Karatê Tradicional, apresentou um trabalho fundamentado no renzoku-waza © Global Sports
Para desenvolver essa hipótese, recorreu à história do Jigen-ryu, escola de kenjutsu vinculada ao domínio de Satsuma, na região da atual Kagoshima, em Kyushu, no Japão. A invasão do Reino de Ryukyu pelas forças de Satsuma, em 1609, integrou o contexto apresentado para compreender as relações entre a tradição marcial japonesa e Okinawa, que também mantinha importantes vínculos culturais com a China.
Nesse percurso, Sokon Matsumura ocupou posição central. Apresentado por Sanches como um dos grandes nomes da história do tode, o mestre teria reunido experiências tanto na prática de mãos vazias quanto no Jigen-ryu. Essa formação constitui, na interpretação do pesquisador, uma possível ligação entre o princípio do golpe decisivo da espada e sua expressão no combate sem armas.

Aula do sensei Nelson Santi no dojô do Lindóia Tênis Clube © Global Sports
A hipótese exposta foi a de que Matsumura possa ter adaptado o conceito de ichigeki-hissatsu ao universo do tode, associando a ideia de um ataque decisivo à ação do punho. Sanches tratou essa aproximação como uma possibilidade histórica para a origem do ikken-hissatsu no karatê, sem apresentá-la como uma conclusão definitiva.
A transmissão entre gerações foi outro eixo da palestra. Ao abordar os ensinamentos de Matsumura e sua influência sobre Anko Itosu e Anko Asato, Sanches mostrou como um princípio poderia circular entre professores e discípulos, mesmo quando nem todos praticavam a arte da espada. A trajetória alcançou também Gichin Funakoshi, aluno de Itosu e Asato e personagem fundamental na difusão do karatê no Japão.

O trabalho apresentado por Nelson Santi despertou grande interesse entre os faixas-pretas participantes © Global Sports
Na sequência, o palestrante examinou a contribuição de Itosu para a organização pedagógica do tode, destacando a série de cinco kata Pinan e sua relação com a introdução da prática nas escolas de Okinawa. A exposição avançou, assim, da transmissão em círculos restritos para um período de ampliação do ensino e de transformação da arte marcial.
Ao tratar do Tode Kenkyukai, Sanches ressaltou a importância da aproximação entre mestres que até então desenvolviam e transmitiam seus conhecimentos de maneira mais isolada. Em sua leitura, esses espaços de intercâmbio também podem ter favorecido a circulação de conceitos como o ikken-hissatsu.

Professores, faixas-pretas e praticantes que participaram das aulas práticas do I Seminário Nacional do CNKD © Global Sports
A palestra trouxe ao seminário uma reflexão sobre a necessidade de estudar as expressões que atravessam o cotidiano do karatê-dô. Ao investigar suas possíveis origens, Eros José Sanches relacionou o vocabulário técnico às experiências históricas, às linhagens e às mudanças que ajudaram a formar a arte praticada hoje.
A aula do shihan Eckener de Pereira Cardoso Sobrinho reuniu precisão técnica, conhecimento do corpo e reflexão sobre o sentido da prática. Hachi-dan (8º dan), diretor financeiro e membro do shihankai do CNKD, o professor dissecou o kata Meikyo, relacionando seus movimentos à serenidade e ao equilíbrio emocional necessários para lutar. Formado em Educação Física, com pós-graduação em Treinamento Esportivo e Fisiologia do Exercício, conduziu os participantes por detalhes que ligam a execução do gesto à compreensão de seus fundamentos.
Sua presença também trouxe ao encontro uma referência que ultrapassa o domínio técnico. Na avaliação da Revista Budô, Eckener Cardoso é a maior reserva moral do karatê-dô tradicional brasileiro. Esse reconhecimento dá uma dimensão especial à sua participação em um seminário dedicado à formação humana e à preservação dos valores da arte marcial e do Budô.

Faixas-pretas que participaram do aulão ministrado por Nélson Santi © Global Sports
Ao apresentar o significado filosófico do Meikyo, o shihan recorreu às imagens do espelho limpo, do espelho brilhante e do espelho da alma. Em sua abordagem, essas referências expressam a busca por serenidade e equilíbrio emocional, aproximando o estudo do kata de uma disposição interior que acompanha a ação do praticante.
Entre os pontos técnicos destacados estiveram as defesas contra o bô, bastão de madeira com aproximadamente 1,80 metro, e o salto triangular denominado sankaku-tobi. O estudo desses elementos permitiu aprofundar a compreensão do Meikyo, dando atenção às particularidades de sua execução e às aplicações apresentadas pelo professor.

Professores Iko Trindade e Nelson Santi © Global Sports
A explicação sobre a conjugação de forças acrescentou à aula uma leitura detalhada da participação do corpo no golpe. Partindo da posição shizentai e da execução do kara-zuki, Eckener chamou a atenção para ações que precisam ocorrer de maneira coordenada: o apoio dos pés no solo, a vibração do centro do corpo, a contração muscular, o fechamento do punho e a liberação de parte do ar durante a expiração.
O professor mostrou que a potência do soco envolve muito mais do que o deslocamento do braço. Os dedos dos pés participam do apoio, o centro do corpo atua na geração do movimento e os grupos musculares se contraem em sincronia com a respiração. Na orientação apresentada, essa conjugação deve convergir para o momento de conclusão da técnica.
“Essa conjugação de força, de energia, vai fazer com que a técnica seja mais potente”, explicou.
Ao aproximar o significado do Meikyo dos fundamentos corporais de sua execução, Eckener ofereceu aos participantes um estudo no qual técnica e formação se complementam. A atenção aos detalhes do movimento veio acompanhada do convite à serenidade, à concentração e ao equilíbrio, dimensões que dão profundidade ao aprendizado do karatê-dô.

Professor Eros José Sanches © Global Sports
A dimensão cultural do aprendizado ganhou espaço na participação de Tomoko Kimura Gaudioso, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e doutora em História pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Com atuação em língua japonesa, poesia, origami e estudos sobre a imigração japonesa no Rio Grande do Sul, a docente compartilhou experiências pessoais com o karatê e reflexões sobre os valores transmitidos no cotidiano do dojô.
Seu relato partiu da participação em um projeto de extensão universitária que reunia estudantes, professores e técnicos administrativos, acolhendo praticantes de diferentes estilos. Ao recordar os treinamentos, destacou tanto a preparação corporal quanto o cuidado com a organização do ambiente, as saudações e o respeito aos antecessores que desenvolveram e transmitiram os conhecimentos da arte marcial.

Eros José Sanches apresentou as possíveis origens do ikken-hissatsu e sua transmissão entre os mestres que marcaram a história do karatê-dô © Global Sports
Uma das lembranças centrais foi a atenção dedicada à explicação dos princípios de conduta. Segundo Tomoko, o professor retomava seu significado a cada aula, fazendo dessa reflexão uma parte contínua do aprendizado. Assim como os movimentos precisam ser exercitados, os valores também eram revisitados para que sua presença no treinamento não se limitasse à repetição de palavras.
A experiência como iniciante também apareceu em suas observações sobre o kata. A professora relatou a dificuldade de compreender, nos primeiros contatos, o sentido dos movimentos e a presença de um adversário imaginário. Em sua percepção, o exercício exigia mais do que memorizar uma sequência: era necessário reconhecer a intenção de cada ação, dando significado àquilo que o corpo executava.

Autor de “Ikken Hissatsu, As origens do karatê”, o professor Eros José Sanches produziu uma das obras mais completas e aprofundadas sobre a história da arte das mãos vazias © Global Sports
Ao mencionar sua participação em um keiko-hajime, treinamento que marca o início das atividades do ano, Tomoko voltou à importância da postura e do respeito às normas de convivência. O relato aproximou costumes japoneses de situações concretas de aprendizado, mostrando como a experiência no dojô também envolve relações, responsabilidades e modos de agir.
Sua contribuição trouxe ao seminário o olhar de quem encontrou na prática uma oportunidade de conhecer aspectos da cultura japonesa por meio do corpo e da convivência. Entre as recordações do treinamento e as reflexões sobre a etiqueta, destacou a transmissão de valores como parte do processo de formação do praticante.

Professor Eduardo De Mattei, shichi-dan (7º dan) pela JKF Wado-kai e hachi-dan (8º dan) pela International Karate Union (IKU) © Global Sports
A superação da rigidez e o desenvolvimento de deslocamentos mais leves orientaram a aula de Antônio Carlos Walger sobre o footwork no kumitê. Administrador de empresas e profissional de Educação Física, faixa-preta hachi-dan (8º dan) pela CBKT/ITKF e árbitro internacional classe A, Walger é presidente da Federação Panamericana de Karatê-Do Tradicional – ITKF, diretor técnico do CNKDe instrutor-chefe da Academia Dento Dojô, em Curitiba (PR).
Sua proposta de treinamento reuniu exercícios de preparação corporal, respiração, esquiva e deslocamento, buscando conciliar a liberdade de movimento com a pressão necessária no momento de aplicação da técnica. Ao explicar os fundamentos e o desenvolvimento da aula, o professor detalhou:
“Tudo partiu de uma observação sobre a rigidez que os praticantes de karatê apresentam na movimentação, tanto na execução dos katas quanto na luta. Muitas vezes, essa rigidez é causada pela metodologia utilizada no ensino. Procurei, então, desenvolver um método de treinamento com exercícios destinados a corrigir essa deficiência.

Eduardo De Mattei trabalhou a execução dos golpes em quatro módulos pedagógicos, do movimento básico à técnica completa © Global Sports
Minha primeira observação foi sobre a relação entre a geração de energia, o peso corporal e o solo. O excesso de pressão no momento de repouso provoca rigidez e dificulta o deslocamento. A questão inicial era como superar essa barreira, reduzindo o excesso de pressão contra o chão tanto na posição de repouso quanto no início da movimentação.
O primeiro aspecto que trabalhei foi a ativação de três centros energéticos, utilizados nessa abordagem tanto para exercer pressão sobre o solo quanto para realizar os deslocamentos.
O primeiro, denominado kami-tanden, localiza-se na parte frontal da cabeça e está relacionado ao pensamento, às intenções, às decisões e ao direcionamento de nossas ações.
O segundo, naka-tanden, situa-se na região do peito e está ligado às emoções, à estabilidade emocional e aos sentimentos. É um centro que trabalhamos por meio da respiração: a inspiração e a expiração participam de sua ativação. Buscamos, assim, estabelecer uma conexão entre a intenção e a respiração para gerar um fluxo energético.

Com o kizami-zuki e o gyaku-zuki, Eduardo De Mattei explorou as três distâncias básicas de luta © Global Sports
O terceiro é o shimo-tanden, localizado abaixo do umbigo. Sua função, nessa proposta, é conduzir a ação e o movimento, permitindo exercer pressão sobre o solo quando necessário ou iniciar o deslocamento para a frente e para trás. Esses princípios orientaram os exercícios aplicados no início do treinamento.
Outro ponto foi como manter a leveza do corpo nos momentos de deslocamento e de preparação para o tai-sabaki, incluindo avanços, recuos e movimentos laterais.

Professores e praticantes que participaram da aula do sensei Eduardo De Mattei © Global Sports
Para isso, recorri ao irimi, utilizado no kenjutsu e no aikidô. No exercício proposto, o praticante avança o corpo, procurando elevar e conduzir seu centro, o hara, em direção ao centro do adversário.
O segundo movimento foi o tenkan, que apresentei como um giro de aproximadamente 180 graus, partindo do pé de trás. Nas dinâmicas, essa rotação podia ser mais ampla ou assumir ângulos menores, de 90, 45 ou 30 graus, conforme a necessidade da esquiva durante a luta.

Faixas-pretas com o sensei Eduardo De Mattei após a aula dedicada aos fundamentos técnicos do karatê-dô © Global Sports
Muitas vezes, o que impede uma boa esquiva é justamente manter o pé excessivamente preso ao solo. A associação entre irimi e tenkan busca proporcionar mais leveza, velocidade e agilidade ao praticante.
Realizamos diversos exercícios de esquiva com tai-sabaki, que era o objetivo final, e de deslocamento rápido e suave. A orientação era deixar a parte inferior do corpo conduzir o deslocamento, sem criar rigidez na parte superior.

Professores Antônio Carlos Walger, Álvaro Antônio Macedo de Paula, Eckener Cardoso, Eduardo De Mattei, Arthur Prisco Paraíso Rego, Iko Trindade, Márcio Martins e Nelson Santi © Global Sports
Observei resultados muito positivos tanto nas dinâmicas realizadas com meus alunos na academia quanto no trabalho com os participantes do seminário, dentro do tempo de que dispusemos. Tive a satisfação de perceber, inclusive durante o festival realizado ao final do encontro, que alguns praticantes procuraram aplicar nas lutas a metodologia trabalhada no dia anterior, e alguns conseguiram.
Esse é o objetivo: que o método seja compreendido, praticado e contribua para diferenciar a movimentação dos atletas que o utilizam.

Shihan Eckener de Pereira Cardoso Sobrinho, hachi-dan (8º dan) © Global Sports
A orientação que deixo aos professores e praticantes é que, sem abandonar o kihon, uma prática clássica do karatê, também procurem desenvolver movimentos mais leves. Precisamos permitir que o corpo se movimente e que sua musculatura participe da ação de maneira suave, sem rigidez ou força excessiva.
A alternância entre a prática do kihon, trabalhada de maneira mais rígida, e esses exercícios mais sutis pode favorecer uma evolução importante. Nessa proposta, o uso dos centros energéticos está relacionado tanto à leveza do corpo durante o deslocamento quanto à capacidade de exercer a pressão necessária no momento exato.

Faixas-pretas executam o kata Meikyo sob a orientação do shihan Eckener Cardoso © Global Sports
Muitas das premissas e dinâmicas utilizadas tiveram como referência práticas do kendô e do aikidô, além de observações do sensei Shigeru Egami, que trabalhou com Yoshitaka Funakoshi. Egami também passou a modificar a dinâmica de sua prática, buscando movimentos mais suaves em lugar da rigidez, e se tornou um karateca diferenciado em sua época.
Não são mudanças simples, mas, quando o praticante começa a estudar e desenvolver essas possibilidades, pode transformar de maneira significativa sua forma de exercitar o karatê.”

Shihan Eckener Cardoso demonstra técnica para defesa de bô © Global Sports
A programação de sábado começou com a participação online de Victor Lage, docente da Faculdade de Educação Física da Universidade de Brasília (FEF/UnB), que apresentou a palestra “Karatê e Ciência: uma pesquisa atual desenvolvida na Universidade Waseda”. Sua presença trouxe ao seminário a relação entre o estudo acadêmico e a prática do karatê, em sintonia com a proposta de formação continuada do CNKD.
Graduado em Educação Física e mestre em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Lage é doutor em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP). Integrante do Laboratório de Pesquisa em Análise do Desempenho e Ensino do Esporte (LabEsporte), atua com artes marciais, lutas e esportes de combate, aproximando ensino, pesquisa e experiência prática.

Tomoko Kimura Gaudioso compartilhou experiências com a cultura japonesa e os valores presentes no cotidiano do dojô © Global Sports
No domingo, 13 de setembro, o sensei Márcio Martins, diretor científico do CNKD, mediou a apresentação de trabalhos que aproximaram o karatê-dô de diferentes campos do conhecimento. A programação reuniu reflexões sobre a pedagogia do Budô, a inclusão de pessoas com deficiência, as relações entre a prática marcial e o direito e a percepção de espaço e tempo.
Participaram desta etapa:

Tomoko Kimura Gaudioso destacou a etiqueta e o respeito como parte do aprendizado no karatê-dô © Global Sports
A compreensão do que acontece entre perceber uma situação e agir diante dela orientou a apresentação do professor Carlos Berger Castillo, yon-dan (4º dan). Com o trabalho “Percepção espaço-temporal no karatê-dô: o mokusô como fundamento na compreensão do maai”, o palestrante abordou a relação entre preparação da atenção, experiência corporal e oportunidade técnica na luta.
Licenciando em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Berger desenvolveu uma pesquisa bibliográfica e uma revisão narrativa de literatura de caráter qualitativo. Seu percurso aproximou contribuições de Edmund Husserl, Maurice Merleau-Ponty e Takahashi Satomi das reflexões marciais de Kenji Tokitsu e Gichin Funakoshi, buscando compreender como o praticante percebe a situação do kumitê.

Diretores do CNKD presenteiam Tomoko Kimura Gaudioso com o livro “Ikken Hissatsu, As origens do karatê”, de Eros José Sanches © Global Sports
O ponto de partida foi o reconhecimento de que distância, velocidade, tempo de reação, deslocamento e execução técnica são importantes para o treinamento, mas não esgotam a experiência de quem luta. Diante de um adversário, o karateca precisa lidar simultaneamente com o próprio corpo, a postura do outro, o espaço disponível, o ritmo e a possibilidade de uma ação. A percepção dessa situação não se resume à soma de medidas isoladas.
Essa distinção conduziu à questão central do trabalho: como o mokusô pode favorecer a compreensão do maai? Para desenvolver a resposta, Berger examinou primeiro a preparação da atenção, depois a passagem de uma percepção fragmentada para uma percepção integrada e, finalmente, a relação entre espaço, tempo e ação.

Professor Antônio Carlos Walger, hachi-dan (8º dan), presidente da Federação Panamericana de Karatê-Do Tradicional, ITKF © Global Sports
O mokusô foi apresentado como uma prática de concentração e disponibilidade corporal, cuja função ultrapassa a ideia de simplesmente “esvaziar a mente”. Na interpretação do autor, esse momento permite que preocupações externas e expectativas imediatas deixem de ocupar o primeiro plano, abrindo espaço para uma atenção mais disponível ao treinamento. A regularidade da respiração, a estabilidade da postura e a organização do centro corporal, o tanden, integram essa preparação.
Para explicar esse processo, o trabalho estabeleceu uma aproximação com a epoché de Husserl, entendida como a suspensão provisória de julgamentos e pressupostos para observar a experiência tal como ela se apresenta. Berger fez uma distinção importante: o mokusô não seria uma aplicação literal do método filosófico, mas apresentaria afinidade com essa atitude de suspensão, ao reduzir a dispersão e favorecer a presença do praticante.

Antônio Carlos Walger orienta os praticantes em aula dedicada à superação da rigidez e à fluidez dos deslocamentos no kumitê © Global Sports
A contribuição de Takahashi Satomi apareceu na busca por compreender a experiência como uma totalidade de relações. Já a fenomenologia de Merleau-Ponty ofereceu uma maneira de pensar o corpo como participante ativo da percepção. Nessa leitura, o karateca percebe e responde corporalmente à situação, sem precisar transformar cada estímulo em um cálculo consciente antes de agir.
O segundo eixo da apresentação tratou da passagem da percepção analítica para a percepção sintética. A primeira separa os elementos para examiná-los; a segunda procura apreendê-los em conjunto. No kumitê, essa integração permite perceber distância, intenção, ritmo e oportunidade como dimensões de uma mesma situação em transformação.

Professores, faixas-pretas e praticantes que participaram dos treinamentos conduzidos pelos senseis Eckener Cardoso e Antônio Carlos Walger © Global Sports
Ao discutir essas formas de percepção, Berger mencionou tendências do pensamento analítico ocidental e de abordagens mais contextuais presentes na tradição japonesa, ressalvando que não se trata de uma oposição absoluta entre Oriente e Ocidente. Como recurso de interpretação, recorreu ao ideograma ma, presente em maai, e à imagem de uma abertura atravessada pela luz para abordar o intervalo em que espaço e oportunidade se encontram.
É nesse ponto que o maai ganha sua dimensão central no trabalho. Frequentemente traduzido apenas como distância, o conceito foi apresentado como uma relação dinâmica, continuamente modificada pela presença, pelo movimento e pela intenção dos praticantes. Dois karatecas podem estar separados pela mesma medida física e, ainda assim, viver situações táticas distintas, conforme a postura, a iniciativa, o ritmo e o estado de prontidão.

Amigos há décadas, Arthur Prisco Paraíso Rego e Daniel Neaime fortalecem seus laços no trabalho que agora compartilham na diretoria do CNKD © Global Sports
A distinção de Merleau-Ponty entre espacialidade de posição e espacialidade de situação ajudou a desenvolver essa ideia. A primeira diz respeito às medidas observáveis, como metros e ângulos. A segunda considera como o corpo vive e organiza essas relações durante a ação. Na abordagem de Berger, o maai se aproxima especialmente dessa experiência: importa compreender o que a distância permite ou exige naquele instante.
O trabalho relacionou essa percepção a conceitos como sen-no-sen, go-no-sen, deai e kime. Na leitura apresentada, a eficácia dessas ações envolve a qualidade da percepção corporal e a escolha do momento oportuno, para além da velocidade isolada de um golpe.

Professor Márcio Martins, diretor científico do Colégio Nacional do Karatê-dô (CNKD) © Global Sports
As referências a Funakoshi e Tokitsu trouxeram essa discussão de volta à prática. No kamae, a aparente imobilidade pode conter uma prontidão dinâmica, sustentada pela leitura do adversário. Uma defesa prepara o contra-ataque, enquanto um deslocamento modifica simultaneamente o equilíbrio, a distância e o tempo da ação. O kumitê passa, assim, a ser compreendido como um fluxo de ajustes no qual a técnica se realiza em relação ao que está acontecendo.
Ao concluir, Berger sustentou que o mokusô pode favorecer a compreensão do maai ao preparar a atenção e diminuir a tendência de perceber a luta como uma sucessão de elementos desconectados. A contribuição de seu trabalho está nessa aproximação entre filosofia e experiência marcial: compreender como a qualidade da presença permite ao praticante reconhecer oportunidades e responder, de maneira integrada, às mudanças do kumitê.

Professor Paulo Vinícius Vargas, presidente do Instituto Shibumikan © Global Sports
A relação entre a formação marcial e os limites jurídicos do uso da força orientou a apresentação do professor Leonardo Delabary Vieira Alves. Seu trabalho partiu do princípio “karatê ni sente nashi”, traduzido como “não há primeiro ataque no karatê” e consagrado no Niju-kun de Gichin Funakoshi, para estabelecer um diálogo entre a filosofia do karatê-dô e a legítima defesa no direito penal brasileiro.
O ponto central da abordagem foi a possibilidade de aproximar a ética de contenção presente na formação do karateca dos critérios que orientam a avaliação jurídica de uma reação defensiva. O artigo 25 do Código Penal considera a existência de uma agressão injusta, atual ou iminente, e exige que a reação empregue moderadamente os meios necessários à proteção de um direito próprio ou de outra pessoa.

Victor Lage apresentou, on-line, a palestra “Karatê e Ciência: uma pesquisa atual desenvolvida na Universidade Waseda” © Global Sports
Nesse contexto, Delabary propôs examinar os conceitos de tai-no-sen, go-no-sen, sen-no-sen e sen-sen-no-sen em relação ao momento da ação, à necessidade da resposta e à moderação. O trabalho apresenta essa correspondência como uma hipótese de aproximação entre os campos marcial e jurídico, reconhecendo que ela não é plena. Os conceitos técnicos ajudam a desenvolver a reflexão, mas não substituem os requisitos legais nem a análise das circunstâncias concretas.
A formação de longo prazo ocupa lugar importante nessa proposta. Segundo a conclusão apresentada pelo autor, a internalização de uma ética de contenção e proporcionalidade pode constituir um elemento técnico relevante na avaliação judicial da moderação. Isso, porém, não determina por si só o reconhecimento da legítima defesa: a experiência marcial integra a discussão sem decidir automaticamente seu resultado.

Leonardo Delabary abordou o princípio karate-ni-sente-nashi e suas relações com a legítima defesa e a responsabilidade civil e penal na prática das artes marciais © Global Sports
O segundo eixo do trabalho abordou a responsabilidade civil e penal de instrutores e academias diante de lesões sofridas por alunos durante a prática. Delabary indicou como referências a teoria do consentimento do ofendido, o exercício regular de direito e a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, situando o tema no encontro entre os riscos da atividade e as responsabilidades de quem a ensina.
Quanto aos instrutores, o trabalho sustenta a necessidade de examinar a culpa, em vez de deduzir a responsabilidade exclusivamente da ocorrência de uma lesão. A discussão chama a atenção para a importância de avaliar a conduta e as circunstâncias do treinamento, sem transformar o resultado lesivo, isoladamente, em uma conclusão sobre a atuação do professor.

Erivam Maciel amplia oportunidades e promove a inclusão por meio do karatê com o Projeto AKM INCLUSIVO © Global Sports
Ao reunir esses dois eixos, a apresentação levou ao seminário uma reflexão sobre as responsabilidades que acompanham o conhecimento marcial. O princípio da não-iniciativa foi colocado em diálogo com a contenção no uso da força, enquanto o ensino apareceu como uma atividade que também exige consciência de seus limites e implicações jurídicas.
A abordagem interdisciplinar apresentada por Delabary encontra respaldo em sua formação jurídica e esportiva. Professor universitário e advogado criminalista, é mestre em Direito pela Universidad Martin Lutero (2023), especialista em Ciências Criminais pela UCM (2009), em Direito Penal e Processo Penal Contemporâneo pela Uniderp (2025) e em Direito Processual Civil pela Anhanguera (2026). Também é bacharel em Educação Física e pós-graduado em Treinamento Esportivo e Personal Training pela Anhanguera (2023). San-dan (3º dan) pela CBKT/ITKF e membro do CNKD, integra a Comissão de Direitos Humanos da Seccional da OAB/RS e a Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas (ABRACRIM), reunindo experiências que aproximam a prática marcial, o ensino e a reflexão sobre direitos e responsabilidades.

O professor Erivam Maciel desenvolve um trabalho pioneiro de inclusão por meio do Karatê ITKF no Brasil © Global Sports
A experiência de 34 anos de ensino do “Karatê para a Vida” em escolas públicas e particulares orientou a apresentação online de Francisco Maciel Lima. Pedagogo, especialista em Administração Escolar e go-dan (5º dan) pela ITKF/CBKT, o professor abordou a incorporação dos princípios pedagógicos do Budô ao ensino contemporâneo do karatê-dô, com atenção à formação de crianças e adolescentes.
Sua reflexão partiu da possibilidade de integrar a socialização e o brincar ao desenvolvimento cognitivo. Na proposta apresentada, o ensino do karatê reúne experiências corporais, convivência e aprendizado de valores, buscando contribuir para a formação do praticante para além da execução técnica.
Ao tratar dos possíveis resultados psicossociais e cognitivos dessas intervenções, Maciel ressaltou a necessidade de aprofundar as pesquisas. Os resultados, segundo sua exposição, permanecem heterogêneos e não permitem conclusões definitivas sobre sua eficácia. Os efeitos dependem dos objetivos educacionais, da orientação pedagógica e do contexto em que o treinamento acontece.

Professor Carlos Berger Castillo, yon-dan (4º dan), apresentou o trabalho “Percepção espaço-tempo do karatê-dô” © Global Sports
Essa ressalva acompanha uma questão central de seu trabalho: de que maneira os princípios pedagógicos do Budô podem ser incorporados ao ensino do karatê-dô para favorecer a formação para a vida? Para o professor, compreender a modalidade como um caminho de aperfeiçoamento pessoal exige estudar tanto o que se ensina quanto a maneira de conduzir esse aprendizado.
O dojô-kun ocupa lugar importante nessa abordagem. Seus princípios orientam uma prática que integra aspectos físicos e mentais, valorizando a disciplina, a cortesia e o desenvolvimento do caráter. Maciel apresentou uma sequência que sintetiza sua concepção pedagógica: consciência, frequência, responsabilidade, autocontrole, disciplina e técnica.
Ao colocar a consciência no início desse percurso, sua proposta situa o aprendizado técnico em um processo educativo mais amplo. A apresentação relacionou, assim, a experiência acumulada no ambiente escolar à necessidade de investigar como o karatê-dô pode contribuir para o desenvolvimento de crianças e adolescentes.
A oportunidade de tornar o karatê-dô acessível às pessoas com deficiência orientou a apresentação de Erivam Maciel, com o tema “Minha vida com PCDs: karatê e a efetiva inclusão”. O professor apresentou o Projeto AKM INCLUSIVO, desenvolvido pela Associação de Karatê Maracanaú, no Ceará, para oferecer uma prática acessível, segura e orientada.

Carlos Berger Castillo abordou o mokusô como fundamento para a percepção do corpo, do espaço e do tempo na prática do karatê-dô © Global Sports
A iniciativa busca ampliar a participação de pessoas com deficiência na modalidade e, com o apoio do CNKD, avançar na fundamentação científica da experiência construída no trabalho cotidiano. A proposta é sistematizar e aprimorar as práticas inclusivas do projeto, aproximando a atuação no dojô da pesquisa e da produção de conhecimento.
Esse processo também pretende criar condições para compartilhar a experiência cearense em âmbito nacional. Ao apresentar o AKM INCLUSIVO, Erivam destacou a perspectiva de ampliar as oportunidades de treinamento e contribuir para que a inclusão se concretize no acesso à prática do karatê-dô.
“Durante três dias, fizemos em Porto Alegre uma imersão no karatê-dô que desejamos fortalecer: uma arte em que o conhecimento técnico caminha com a reflexão, a responsabilidade de ensinar e o compromisso com a formação humana. Na abertura, apresentamos os propósitos do CNKD. Ao longo do seminário, pudemos reconhecer esses propósitos nas aulas, nos trabalhos e nas conversas entre os participantes.
Quando defendemos a valorização do professor, precisamos oferecer condições para que ele continue aprendendo. Foi o que buscamos ao reunir abordagens sobre a construção pedagógica dos movimentos, a cadeia cinética, a mobilidade no kumitê e a profundidade técnica e filosófica do kata. Cada contribuição trouxe uma maneira de observar a prática, compreender seus fundamentos e pensar como transmiti-los. A experiência dos mestres ganhou ainda mais valor ao ser compartilhada entre pessoas de diferentes trajetórias.

Professor Francisco Maciel Lima, pedagogo e go-dan (5º dan), apresentou, on-line, “A pedagogia do Budô aplicada ao karatê-dô” © Global Sports
Também afirmamos que o karatê-dô precisa conhecer sua história e compreender o ambiente cultural em que se desenvolveu. As reflexões sobre o aperfeiçoamento ao longo da vida, as origens do ikken-hissatsu e a etiqueta japonesa ajudaram a dar sentido ao que fazemos no dojô. Preservar uma tradição exige estudá-la, fazer perguntas e compreender os valores que sustentam seus gestos.
A pesquisa científica atravessou esse encontro como parte de uma responsabilidade com o ensino. Tivemos espaço para discutir percepção, atenção e formação, mas também para reconhecer os limites do que sabemos. Esse é um compromisso importante do Colégio: aproximar a experiência acumulada pelos professores de uma investigação criteriosa, capaz de fundamentar práticas e abrir novas possibilidades de aprendizado.

Francisco Maciel destacou o ensino do karatê-dô como caminho para a formação de valores e o desenvolvimento de crianças e adolescentes © Global Sports
A inclusão deu a esse compromisso uma dimensão concreta. Se falamos em karatê para a vida, precisamos considerar as diferentes condições de quem deseja praticá-lo. As experiências com crianças, adolescentes e pessoas com deficiência nos convidaram a pensar sobre acesso, orientação pedagógica e participação. A reflexão jurídica acrescentou outra responsabilidade: compreender os limites do uso da força e os deveres que acompanham a atuação de quem ensina.
O que aproxima todos esses temas é a formação do praticante. Técnica, filosofia, ciência, cultura e ética se encontram na aula que o professor prepara, na maneira como acolhe o aluno e nas decisões que toma diante de suas necessidades. É nessa prática cotidiana que a proposta do CNKD precisa se realizar.

Iko Trindade entrega a Arthur Prisco Paraíso Rego uma placa em reconhecimento à coragem de assumir o desafio e impulsionar a criação do CNKD © Global Sports
Saímos de Porto Alegre com referências compartilhadas e tarefas a desenvolver. Cabe agora às nossas câmaras e aos integrantes do Colégio dar continuidade às discussões, organizar o conhecimento e transformá-lo em iniciativas que cheguem aos professores e aos dojôs. O seminário ganha continuidade quando aquilo que aprendemos juntos passa a qualificar o trabalho de cada um.
Em março, realizaremos o II Seminário Nacional do CNKD, em Fortaleza. Será uma oportunidade de reencontro, de acompanhar o que avançou e de acolher novas contribuições. Fica o convite aos mestres, professores, pesquisadores e praticantes que desejam participar dessa construção. Queremos chegar ao próximo encontro com novas perguntas, experiências para compartilhar e a mesma disposição de aprender que nos reuniu em Porto Alegre.”
19 de setembro de 2026
16 de setembro de 2026
14 de setembro de 2026