Polônia prepara delegação de 150 pessoas para o Cairo e mira o topo do Mundial da ITKF

Uma equipe, uma bandeira e a ambição de levar a Polônia ao topo no Cairo © Fotomontagem / Global Sports

Terceira colocada em Portugal, seleção polonesa reunirá cerca de 100 atletas entre o Mundial e a Copa do Mundo Infantil. Paweł Janusz e Anna Kulczyńska detalham a preparação, a renovação da equipe e a ambição de avançar na classificação geral.

Por Paulo Pinto / Global Sports 
Curitiba, 13 de outubro de 2026

A Polônia prepara uma delegação de aproximadamente 150 pessoas para viajar ao Cairo com a ambição de superar o terceiro lugar conquistado no Mundial de Karatê Tradicional de 2024, em Portugal. A previsão é reunir 100 atletas entre o 23º Campeonato Mundial da Federação Internacional de Karatê Tradicional (ITKF) e a Copa do Mundo Infantil. Para transformar o tamanho da representação em resultados, o país aposta na integração entre clubes e seleção, no encontro entre diferentes gerações e na capacidade de apresentar seu melhor desempenho sob pressão.

Com uma equipe de alto nível técnico e espírito vibrante, a Polônia promete elevar o nível da disputa no Cairo © Joanna Musiał / PUKT

Com a participação polonesa, a Revista Budô e a Global Sports concluem a série de entrevistas sobre a preparação das cinco seleções mais bem classificadas no Mundial de Portugal: Egito, campeão; Brasil, vice-campeão; Polônia, terceira colocada; Romênia, quarta; e Portugal, quinto. Depois de apresentar os projetos e as expectativas dos adversários, a reportagem ouve Paweł Janusz, presidente da União Polonesa de Karatê Tradicional (PUKT), e Anna Kulczyńska, vice-presidente da entidade.

“Para mim, o terceiro lugar não foi o fim do processo. Foi o começo da etapa seguinte.”

Os dois apresentam perspectivas complementares de uma preparação que começou a ser desenhada após a edição anterior. Janusz detalha o trabalho técnico e os critérios para formar uma seleção competitiva em diferentes categorias. Anna aborda a organização da delegação, a transmissão de experiência entre gerações e os resultados humanos e institucionais que o país pretende levar de volta do Egito.

“Nossa ambição é disputar a posição mais alta. É claro que queremos melhorar em relação a Portugal, mas não quero estabelecer uma meta artificial de medalhas antes da competição. A classificação final é o resultado de dezenas de desempenhos individuais”, lembra Janusz.

Sensei Paweł Janusz comanda o treinamento de kata © Joanna Musiał /

Portugal como ponto de partida

As seis medalhas de ouro, sete de prata e 12 de bronze conquistadas em Portugal colocaram a Polônia entre as principais forças da ITKF. Para a comissão técnica, porém, a avaliação daquela campanha precisava ir além das 25 medalhas. A participação de atletas de diferentes idades e especialidades permitiu observar tanto a capacidade de renovação da seleção quanto os aspectos que ainda separavam os poloneses das duas primeiras colocações.

Sensei Anna Kulczyńska, vice-presidente da União Polonesa de Karatê Tradicional, executa um mawashi geri © Facebook

Janusz destaca que os resultados não ficaram concentrados em poucos competidores. A contribuição de atletas experientes e de representantes mais jovens para a classificação demonstrou a capacidade da seleção de renovar seus quadros e dar continuidade ao trabalho desenvolvido no país.

“Conseguimos competir com sucesso em diferentes faixas etárias e provas, o que mostrou que nosso sistema não depende apenas de alguns atletas. Ao mesmo tempo, Portugal nos transmitiu uma mensagem muito clara: estávamos perto do topo, mas ainda havia uma distância em relação às duas nações que lideraram a classificação. Para mim, o terceiro lugar não foi o fim do processo. Foi o começo da etapa seguinte.”

Professor Sensei Paweł Janusz demonstra técnica © Joanna Musiał / PUKT

O dirigente evita tratar as medalhas como surpresas, por entender que cada conquista nasce de um longo período de preparação. O que mais o satisfez foi a contribuição das novas gerações. Ao mesmo tempo, a proximidade entre um pódio e uma colocação fora dele mostrou que elevar o nível técnico seria apenas uma parte da tarefa para o ciclo seguinte.

“Não podemos construir uma seleção apenas para um campeonato. Precisamos construir um sistema que continue produzindo atletas fortes por muitos anos. Nossa prioridade não pode ser simplesmente elevar o nível técnico. Temos de melhorar a regularidade, a capacidade de competir sob pressão e de reproduzir o melhor desempenho exatamente quando ele é mais necessário.”

Dos clubes à preparação final

O planejamento para o Cairo começou com a análise da campanha de Portugal e ganhou forma ao longo de 2025 e 2026. A estrutura descrita por Janusz parte do treinamento diário nos clubes, passa pelo programa nacional de competições, avaliações, seleção e concentrações e chega à etapa final, direcionada às exigências do Mundial.

Treinamento de kata equipe feminino © Joanna Musiał / PUKT

Os períodos de trabalho conjunto permitem reunir atletas de diferentes clubes em um mesmo ambiente e alinhar a preparação. Em 2026, o programa incluiu atividades de inverno e verão, competições e concentrações, entre elas o Summer Camp e o trabalho realizado no Dojo Stara Wieś.

“Na realidade, a preparação para o próximo Mundial começa assim que o anterior termina. Não queríamos criar um programa apenas para outubro de 2026. Queríamos aproveitar todo o período para desenvolver os atletas e a equipe”, explica.

A seleção dos representantes considera desempenho, regularidade, nível técnico, prontidão competitiva e capacidade de lidar com a pressão. A evolução ao longo do ciclo também pesa nas decisões, evitando que uma única competição determine a avaliação de um atleta. Segundo Janusz, a equipe precisa reunir condições físicas e mentais para enfrentar o nível internacional, contribuir para o grupo e equilibrar experiência com renovação.

Refinamento técnico © Joanna Musiał / PUKT

O acompanhamento nacional, entretanto, não substitui o trabalho realizado durante o ano pelos professores dos clubes. A comissão que viajará ao Egito terá seis profissionais, apresentados na entrevista como cinco *coaches* e um *trainer* da ITKF, sem detalhamento das atribuições individuais.

“Também gostaria de destacar a importância dos treinadores que permanecem na Polônia e trabalham com os atletas ao longo de todo o ano. A preparação da seleção não pode substituir o treinamento nos clubes. Ela depende dele. A equipe nacional é, portanto, o resultado da cooperação entre a estrutura central de treinamento e os clubes.”

Treinamento de kata misto © Joanna Musiał / PUKT

Uma delegação de 150 pessoas

A dimensão da viagem reflete a proposta de reunir diferentes gerações em uma mesma representação. Os 100 atletas previstos participarão do Mundial e da Copa do Mundo Infantil, compondo um grupo que ultrapassa a equipe adulta e inclui competidores em formação.

Além dos atletas, Anna Kulczyńska informa a presença de dez árbitros da ITKF, seis profissionais da comissão técnica, o presidente da PUKT, a própria dirigente, também identificada na entrevista como vice-presidente da ITKF Europa, e 32 familiares e apoiadores. A composição apresentada soma 150 pessoas.

“Estamos preparando uma delegação de aproximadamente 150 pessoas. As passagens já foram compradas e o hotel está reservado”, relata Anna.

Refinamento técnico de kata © Joanna Musiał / PUKT

Para Janusz, levar uma representação ampla faz parte de uma perspectiva de continuidade. O número de atletas envolvidos no processo seletivo foi maior que o grupo previsto para a viagem, embora ele não tenha especificado o total de participantes da preparação.

“Não estamos preparando apenas uma equipe de elite sênior. Estamos construindo uma representação nacional que inclui diferentes gerações e cria continuidade para o futuro.”

Treinamento de kata misto © Joanna Musiał / PUKT

Precisão e regularidade sob pressão

Na reta final, o trabalho técnico se concentra na qualidade da execução. Precisão, escolha do momento de agir, distância, velocidade, dinâmica e decisões táticas integram as prioridades. O objetivo é consolidar os recursos já desenvolvidos para que o atleta consiga utilizá-los quando a exigência competitiva for maior.

Essa orientação também define o que deve ser evitado nas últimas etapas da preparação: grandes mudanças ou a introdução de uma quantidade excessiva de novos conteúdos. A comissão procura tornar o desempenho mais estável e confiável.

“O atleta precisa ser capaz de atuar em seu nível mais alto quando a pressão é maior. Já não estamos tentando mudar tudo. Estamos refinando o que ele já possui e tornando isso confiável”, afirma Janusz.

Sensei Paweł Janusz orienta atletas da seleção polonesa © Joanna Musiał / PUKT

A Polônia vê possibilidades em diferentes provas. O desempenho em Portugal, segundo o dirigente, mostrou competitividade no kata, no kumitê, no fukugô e nas disputas por equipes. Essa diversidade sustenta a ambição de avançar na classificação, mas não se transforma em promessa de medalhas.

“Não gosto de falar em medalhas garantidas. Em um Mundial, cada combate e cada apresentação precisam ser conquistados. Nosso objetivo é preparar cada atleta para lutar pelo melhor resultado possível.”

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Preparar o atleta por inteiro

A busca por regularidade envolve também a condição física, o controle das cargas de treinamento, a recuperação e a prevenção de lesões. Janusz relata o uso de avaliações esportivas e psicológicas durante a preparação, dentro de uma abordagem que procura compreender o atleta para além da execução técnica.

Professores conduzem o treinamento © Joanna Musiał / PUKT

À medida que a competição se aproxima, o equilíbrio entre estímulo e recuperação ganha mais importância. A intenção é evitar que o desgaste acumulado impeça o competidor de apresentar aquilo que construiu ao longo do ciclo.

“Um atleta cansado ou lesionado não consegue mostrar seu verdadeiro nível. As últimas semanas são, portanto, dedicadas a encontrar o equilíbrio adequado entre estímulo e recuperação.”

Sensei Paweł Janusz realiza ajustes técnicos © Joanna Musiał / PUKT

A análise de vídeo também integra o trabalho. O recurso permite estudar os próprios atletas e os adversários internacionais, identificando padrões e detalhes que podem passar despercebidos durante uma competição. Para Janusz, a tecnologia amplia as informações disponíveis, mas a interpretação continua sendo responsabilidade do treinador.

“O karatê tradicional tem uma dimensão técnica e humana muito profunda. Por isso, devemos utilizar a tecnologia moderna sem perder a essência da modalidade.”

Treinamento de kata misto © Joanna Musiał / PUKT

Experiência que abre espaço à renovação

A convivência entre gerações é um dos pontos centrais da preparação descrita por Anna Kulczyńska. Os atletas mais experientes levam ao grupo conhecimentos construídos em situações que o treinamento, isoladamente, não reproduz: a pressão de um Mundial, as frustrações de uma derrota e a responsabilidade de lidar com o sucesso.

Kata equipe masculino © Joanna Musiał / PUKT

O desafio é fazer essa experiência circular, permitindo que os mais jovens aprendam e encontrem espaço para desenvolver sua própria trajetória. A continuidade da seleção depende tanto da permanência de referências quanto da formação de novos protagonistas.

“Atletas experientes carregam conhecimentos que não podem ser aprendidos em um manual de treinamento. Os jovens precisam ter acesso a essa experiência. Ao mesmo tempo, os mais experientes também têm a responsabilidade de abrir espaço para a próxima geração”, afirma Anna.

“Não devemos simplesmente reproduzir a equipe de Portugal. Devemos construir a equipe de que a Polônia precisará no futuro.”

Kata equipe feminino © Joanna Musiał / PUKT

Essa perspectiva se relaciona ao principal desafio apontado por Janusz: ampliar o número de atletas capazes de competir com regularidade no nível internacional. Para ele, reunir alguns bons competidores é diferente de manter uma estrutura que produza resultados em várias categorias e por sucessivas gerações.

O segundo desafio é conciliar os conhecimentos atuais de preparação esportiva com os princípios do karatê tradicional. Técnica, disciplina, etiqueta, respeito e o legado do professor Hidetaka Nishiyama permanecem como referências para esse trabalho.

“Precisamos preservar os princípios do karatê tradicional enquanto utilizamos o conhecimento contemporâneo sobre preparação esportiva. Acredito que esse equilíbrio seja uma das chaves para o nosso futuro.”

Treinamento de kumitê © Joanna Musiał / PUKT

Ambição de chegar ao topo sem pressionar os atletas

O terceiro lugar em Portugal elevou as expectativas sobre a seleção polonesa. Janusz reconhece essa responsabilidade, mas procura impedir que ela se transforme em uma pressão capaz de limitar os atletas. A resposta, em sua avaliação, deve estar na qualidade da preparação e no apoio oferecido a cada integrante da equipe.

Para avançar diante de Egito e Brasil, o dirigente defende maior regularidade em toda a delegação e mais atletas e provas em condições de produzir resultados de alto nível. A ambição de chegar ao topo está ligada ao desenvolvimento coletivo, sem depender de um único nome ou de uma solução técnica isolada.

Treinamento de kumitê © Joanna Musiał / PUKT

“Sabemos o que conquistamos em Portugal, mas também sabemos que podemos fazer mais. Nossa responsabilidade é preparar adequadamente, apoiar os atletas e oferecer as melhores condições possíveis para competir.”

A classificação geral será consequência da soma das apresentações individuais e das provas por equipes. Por isso, Janusz prefere concentrar a atenção na capacidade de cada representante executar o que foi preparado.

“Nossa tarefa é preparar cada atleta para que, ao entrar no tatami, seja capaz de dar o máximo. Se fizermos isso de maneira consistente em toda a delegação, teremos uma oportunidade real de disputar o topo da classificação.”

Treinamento de kumitê © Joanna Musiał / PUKT

O que a Polônia quer levar de volta

Para Anna, o balanço do Mundial também deverá considerar o desenvolvimento da comunidade polonesa de karatê tradicional. A presença de atletas, treinadores, árbitros, dirigentes, familiares e apoiadores permite compartilhar experiências que podem continuar produzindo efeitos depois da viagem.

Treinamento de kata © Joanna Musiał / PUKT

A arbitragem ocupa um lugar específico nessa avaliação. Segundo ela, a Polônia possui um grupo crescente de árbitros internacionais, e a participação em eventos dessa dimensão contribui para a formação que depois chega aos cursos, seminários e competições nacionais.

“Gostaria que voltássemos do Cairo mais fortes como comunidade, nos aspectos técnico, organizacional e humano. O desenvolvimento dos nossos árbitros também faz parte desse sucesso. Esse conhecimento retorna aos nossos cursos, seminários e competições locais. O resultado de um Mundial não é apenas o que aparece no quadro de medalhas.”

A Polônia está pronta para o Cairo

A mensagem final de Janusz reúne a ambição esportiva e o reconhecimento do trabalho realizado antes do embarque. Cada atleta chega ao Egito com objetivos próprios, mas sustentado por treinadores, colegas, clubes e famílias. É nessa construção coletiva que o presidente da PUKT procura apoiar a confiança da equipe.

“Os atletas já realizaram milhares de horas de trabalho. Agora precisam confiar nesse trabalho. Quando entrarem no tatami, não devem pensar no quadro de medalhas nem no que os outros países estão fazendo. Devem se concentrar em cumprir sua tarefa da melhor maneira possível.”

Sensei Paweł Janusz orienta a equipe após o treinamento © Joanna Musiał / PUKT

Ao agradecer aos que contribuíram para a preparação, Janusz lembra que uma seleção começa a ser construída muito antes do Mundial, nos dojôs, nos clubes, nas famílias e em cada sessão de treinamento.

“Quero que todos se lembrem de que ninguém vai sozinho ao Cairo. Vamos como uma equipe. Cada atleta tem seu objetivo. Cada treinador tem sua responsabilidade. Cada árbitro, dirigente, familiar e apoiador tem um papel importante. Vamos ao Cairo como uma única equipe polonesa. Cento e cinquenta pessoas. Uma equipe. Uma bandeira. Um objetivo. A Polônia está pronta para o Cairo.”

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