武道 Budô e o “caminho”

O Budô aproxima corpo e consciência em um caminho de autoconhecimento que se transforma com a experiência e o envelhecimento © Imagem gerada por IA / Global Comunicação

A partir de mais de cinco décadas de prática do karatê-dô, Fernando Malheiros Filho reflete sobre o Budô como caminho de autoconhecimento, no qual o movimento do corpo, a experiência e o envelhecimento ampliam a compreensão de si e do mundo.

Por Fernando Malheiros Filho
Curitiba, 24 de outubro de 2026

Ninguém, dentre os leitores afeitos à prática de artes marciais, ignora que a palavra Budô (武道) é o termo japonês para “caminho marcial” ou “via da guerra”, representando o conjunto de artes marciais tradicionais do Japão que focam no desenvolvimento espiritual, moral e físico do praticante. Ela é formada por dois ideogramas (kanji) principais: Bu (武) e Dō (道).

武 (Bu) significa marcial, militar ou guerreiro. Historicamente, o caractere é composto por dois elementos gráficos antigos: uma arma de haste e pé/marchar. Embora originalmente significasse avançar com armas, a interpretação filosófica oriental popularizou a ideia de “parar a lança” ou “conter o conflito”, indicando que o verdadeiro propósito do guerreiro é trazer a paz.

道 (Dō) significa caminho, estrada ou via. Derivado do conceito chinês do Tao, refere-se a um estilo de vida, uma disciplina espiritual ou uma jornada de autodescoberta e aprimoramento contínuo.

Por seu turno, o ideograma 道 (dào / michi) é composto por dois elementos principais integrados: um radical que indica movimento e uma parte fonética/semântica que representa a cabeça:

  • O 辵 (chuò): é o radical do caractere, localizado na parte inferior e esquerda. Significa “caminhar”, “ir” ou “movimento”. Ele dá a ideia de ação ou progresso ao longo de um trajeto.
  • O 首 (shǒu): é a parte central/superior. Significa “cabeça”, “líder” ou “primeiro”. No sentido filosófico, simboliza a união do pensamento consciente (a mente/cabeça) com a ação prática (o caminhar). É o caminho que se escolhe seguir com sabedoria.

Já tive a oportunidade de escrever sobre o Gendai-Budô, do qual fazem parte o 柔道 (Judō), caminho suave; o 剣道 (Kendō), o caminho da espada; o 合気道 (Aikidō), caminho da harmonia com a energia vital; e o 空手道 (Karatedō), caminho das mãos vazias — este último, aquele que tenho a ousadia de trilhar já faz mais de 54 anos.

“Há uma inequívoca certeza de que todas as coisas, todos os fenômenos, estão interligados, e entender um dos elementos é chave para compreender os demais, e reciprocamente.”

Essas considerações já dizem bastante sobre o fenômeno, mas são apenas a aparência para aqueles que realmente desejam trilhar o caminho. A especulação pode até ser infinita, tantas são as formas que o ser humano pode contemplar a própria existência e seu destino.

Acima de tudo, o caminho é — usando termos ocidentais — uma aventura epistemológica, mas que transcende, em muito, a mera abstração do pensar. O propósito é unir a cinestesia com a compreensão do mundo interior; e, a partir desta percepção, estender o conhecimento ao mundo exterior. Há uma inequívoca certeza de que todas as coisas, todos os fenômenos, estão interligados, e entender um dos elementos é chave para compreender os demais, e reciprocamente. Ainda que a palavra tenha muitos significados, isso pode ser o que chamamos de holismo.

http://www.shihan.com.br

Há no caminho essa correlação dos elementos, dos fenômenos e da matéria que nos constitui, tudo unido pela tênue linha da realidade, algo de fundamental importância aos budokas (caminhantes). Nas origens do caminho (Dō) está o Zen, e para o Zen a realidade deve ser vista sem filtros: busca-se a realidade última, aquela que subsiste após a extirpação do desejo de manipulá-la.

No caminho, o “caminhante” não questiona o seu destino, o ponto final ou os motivos para fazê-lo. Apenas trilha a senda à sua frente, com ênfase e determinação. Não há espaço para questionamento, senão seguir adiante. O caminhante é “escolhido” pelo caminho, e nele está sua própria essência, em questão está a natureza de que é feito.

Não há destino, não há propósito: há o ato de existir, e, por existir, compreender o funcionamento desse cinzento universo interior que habita qualquer humano, e, a partir disso, chegar, íntegro, ao mundo exterior. O interior é a régua para a medida, mas o interior somente se desvela com a ação do corpo, a execução de movimentos pelos quais o caminhante expressa sua essência e pode reconhecê-la, nesse espelho existencial da ação física.

Nesse caminho, os gestos são paulatinamente depurados, nesse polimento que a experiência concede àqueles que souberem retirar dela o que tem a ensinar. O gestual tende à plenitude e à perfeição, mas sem jamais alcançá-las; é da essência a imperfeição e o constante empenho em minorá-la.

Não há para o caminhante o fim, senão sua morte. E a morte não é fim, é começo. O absurdo é o elemento essencial que o caminhante deve cotejar. Percebe que vive para morrer; mesmo assim, na prisão existencial decretada pelo nascimento, deve seguir, ir adiante.

“O envelhecimento ‘piora’ os gestos do caminhante, mas ele se alimenta da ‘melhora’ ao perceber que, piorando, acrescenta ao seu universo vivencial todas as camadas sobrepostas pela experiência.”

Cada movimento, cada átimo, cada unidade infinitesimal do tempo é parte do caminho. Cabe ao caminhante integrá-los e compreendê-los em seu sentido sistêmico. Tudo, na realidade complexa, se sistematiza, assim como a mente humana sistematiza o que vê na tentativa de melhor entender.

O caminho revela-se a cada momento, a cada pequena unidade de tempo a ele dedicada, e se incorpora à natureza senciente daquele que caminha. Essas sensações, esse gosto experimentado, representam a essência do caminho. O gozo experiencial certifica o ser existente de sua própria existência.

O caminhante, antes de tudo, é senhor de si mesmo. Domina sua existência e sabe que está à mercê do destino. Pode se rebelar contra os outros, jamais contra os fatos inerentes à sua natureza e existência. Mas, longe de qualquer niilismo, age, pratica, mexe o corpo, integra-se com os demais e compreende que a ação, o gesto, o movimento dão a métrica de como o mundo funciona e como deve ser compreendido.

https://www.originaltatamis.com.br/

Não há, ao caminhante, capitulação, rendição ou autocondescendência. Luta e segue lutando, mas o adversário é, e sempre será, o homúnculo habitante de suas entranhas, que teima em entender o universo como a extensão de si mesmo. O caminhante reconhece suas limitações, tem no espelho, no treinamento, o reflexo exato de sua substância, e não pretende alterá-la — menos ainda pela força da imaginação —, apenas com o paulatino e progressivo resultado do empenho.

A melhora, para o caminhante, não se dá na performance de seus movimentos. Ele já percebeu que pode melhorar piorando e piorar melhorando. Nascemos para envelhecer, e isso começa no instante em que se forma o embrião. O envelhecimento “piora” os gestos do caminhante, mas ele se alimenta da “melhora” ao perceber que, piorando, acrescenta ao seu universo vivencial todas as camadas sobrepostas pela experiência.

O caminhante transita pelos sedimentos que soube sobrepor, podendo identificar em cada um sua importância e seu tempo, reconhecendo o produto dessa jornada em si mesmo, naquilo que se tornou, naquilo que fez daquilo que o destino fez dele.

Ao fim, o caminhante, exausto, contempla a si mesmo e ao seu passado, não se questionando pelo acerto de seus passos, visto que esses foram determinados pelo caminho, e não lhe restava alternativa senão trilhá-lo.