07 de junho de 2026
Os judocas Graziela e Felipe do Nascimento estudam os fundamentos do judô por meio do livro Judô Kodokan, de Jigoro Kano © Arquivo
Nas escolas de ensino fundamental e clubes onde atua como professora de judô, a sensei Camila Nascimento desenvolveu uma metodologia que integra prática e conhecimento, valorizando o estudo teórico como parte essencial da formação das crianças. Além das atividades desenvolvidas no tatami, os alunos são estimulados a compreender a história, os princípios, os valores, a terminologia e a linguagem própria da modalidade, ampliando sua compreensão sobre o judô e seu papel como ferramenta educacional. Para a educadora, a aprendizagem torna-se mais significativa quando a vivência prática é acompanhada pela reflexão e pelo conhecimento, permitindo que as crianças compreendam não apenas como executar uma técnica, mas também o significado e a finalidade de cada ação realizada.
A partir de sua experiência no ensino do judô para crianças do ensino fundamental na cidade de Campinas, a sensei Camila Nascimento defende uma abordagem que integra prática e conhecimento como elementos complementares da aprendizagem.
Faixa preta há 24 anos, formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, pós-graduanda em Neuropsicomotricidade e professora de judô na Escola Ativa e no Tênis Clube de Campinas, Camila desenvolve um trabalho pedagógico que valoriza o estudo teórico como ferramenta de apoio à formação integral das crianças.

Professora Camila Nascimento idealizadora de uma metodologia que integra teoria e prática na formação integral de crianças por meio do judô © Global Sports
Segundo a educadora, a pedagogia oferece as bases necessárias para transformar a prática esportiva em uma experiência de aprendizagem mais ampla e significativa.
“A pedagogia é a ciência que estuda a educação, o ensino e a aprendizagem. Seu objetivo é desenvolver métodos, estratégias e práticas capazes de favorecer a construção do conhecimento e o desenvolvimento integral do aluno. No ensino do judô, essa perspectiva permite que a criança compreenda não apenas os movimentos que executa, mas também os conceitos, valores e princípios que orientam a modalidade.”
Nesse contexto, os fundamentos desempenham papel essencial. Mais do que uma sequência de técnicas, eles representam a base sobre a qual o aluno constrói sua aprendizagem. Quando compreende a lógica de um movimento, seus objetivos e sua aplicação, a criança desenvolve maior consciência corporal, autonomia e segurança durante a prática.
“O judô vai muito além das projeções, imobilizações e quedas. Conhecer sua história, seus princípios e valores é fundamental para compreender a essência da modalidade criada por Jigoro Kano. Esse conhecimento contribui para o desenvolvimento de habilidades físicas, cognitivas e socioemocionais, fortalecendo valores como disciplina, respeito, concentração, responsabilidade e perseverança.”

Leitura, pesquisa e registro de conteúdos integram as atividades pedagógicas desenvolvidas nas aulas de judô © Arquivo
Sensei Camila explica que a história do judô teve início no Japão, no final do século XIX, quando Jigoro Kano reuniu técnicas das antigas escolas de ju-jutsu, desenvolvidas pelos samurais do Japão feudal, e estruturou uma modalidade voltada à educação física, intelectual e moral. Seu objetivo não era apenas formar praticantes habilidosos, mas contribuir para a formação de pessoas capazes de atuar de maneira positiva na sociedade.
Dentro dessa proposta educacional, os princípios do judô ocupam papel central. O primeiro deles é o Ju, frequentemente traduzido como suavidade ou flexibilidade, sintetizado na máxima “ceder para vencer”. Esse princípio ensina que a inteligência, o equilíbrio e a adaptação podem ser mais eficazes do que a força bruta diante dos desafios.
Outro princípio fundamental é o Seiryoku-Zenyo, que significa “máxima eficiência com o mínimo de esforço”. Por meio dele, o praticante aprende a utilizar seus recursos físicos e mentais de maneira racional e eficiente.
Já o princípio do Jita-Kyoei, traduzido como “prosperidade e benefícios mútuos”, reforça a importância da cooperação, do respeito e da convivência harmoniosa, demonstrando que o crescimento individual está diretamente ligado ao desenvolvimento coletivo.
“No ensino infantil, a compreensão dos comandos e orientações transmitidos pelo sensei é fundamental para a aprendizagem e para a segurança dos alunos. As crianças precisam entender o que estão fazendo e por que estão fazendo cada movimento. Quando compreendem o significado das ações propostas, executam as técnicas com maior consciência, coordenação e confiança.”

A produção de anotações e registros complementa o aprendizado desenvolvido nas aulas de judô © Arquivo
Um exemplo é o mae-mawari-ukemi. Ao aprender essa queda, a criança não deve apenas reproduzir mecanicamente o movimento. Ela precisa compreender a importância de posicionar corretamente os pés e as mãos, proteger o pescoço, direcionar a cabeça para o lado adequado e realizar o rolamento pelo ombro. Quando entende os fundamentos envolvidos, executa a técnica com mais segurança.
“O estudo teórico também auxilia na compreensão das regras, das etiquetas do dojô, dos nomes das técnicas, das quedas, das graduações e da filosofia que sustenta a modalidade. Além disso, fortalece a concentração, amplia o repertório cultural dos alunos e contribui para a formação de uma visão mais ampla sobre o verdadeiro espírito do judô. Por isso, teoria e prática devem caminhar juntas. Enquanto o treinamento desenvolve habilidades motoras e técnicas, o conhecimento teórico fortalece a compreensão dos princípios, da história, da linguagem e dos valores que acompanham o praticante dentro e fora do tatami.”
“No judô, os comandos em japonês fazem parte da tradição estabelecida por Jigoro Kano e são utilizados em todos os continentes. Mais do que simples orientações de treino, eles compõem a linguagem universal do judô, permitindo que praticantes de diferentes países compartilhem os mesmos códigos de comunicação, referências culturais e valores educacionais.”
Aprender esses comandos vai muito além da memorização de palavras. Esse conhecimento contribui para o desenvolvimento da disciplina, da atenção, da concentração e do respeito às orientações do sensei e dos colegas. Além disso, aproxima as crianças da cultura japonesa e da história da modalidade.

Graziela e Felipe durante atividade de leitura com o livro Arte e o Ensino do Judô, de Stanlei Virgílio © Arquivo
Os comandos também criam uma rotina organizada dentro do dojô, fortalecendo o sentimento de pertencimento e fazendo com que os alunos se sintam parte de um ambiente acolhedor, cooperativo e seguro para aprender.
“No judô, cada palavra possui um significado importante. Por isso, ensinar os comandos desde cedo contribui para formar não apenas judocas mais preparados, mas também crianças mais responsáveis, disciplinadas e conscientes de seu papel dentro da comunidade em que estão inseridas.
HAJIME
Significa “começar” ou “iniciar”. É o comando utilizado pelo professor ou árbitro para dar início a um exercício, treinamento ou combate. Ao ouvir “Hajime”, a criança aprende a agir no momento adequado, desenvolvendo foco e prontidão.
MATE
Significa “parar”. Esse comando interrompe imediatamente a atividade em andamento. Sua compreensão é fundamental para a segurança, o autocontrole e o respeito às orientações do sensei.
SOREMADE
Significa “terminar”. É utilizado para encerrar definitivamente uma atividade ou combate, ensinando aos alunos a importância de concluir cada tarefa com disciplina e respeito.
Sob a perspectiva pedagógica defendida pela professora Camila Nascimento, ao integrar teoria e prática desde os primeiros anos de aprendizagem, o judô amplia seu potencial como ferramenta educacional e formadora de cidadãos. Mais do que aperfeiçoar a execução de técnicas, o estudo teórico permite que as crianças compreendam a história, os princípios, a linguagem e os valores que sustentam a modalidade criada pelo sensei Kano. Esse conhecimento fortalece o senso crítico, estimula a reflexão e contribui para a formação de praticantes mais conscientes de seu papel dentro e fora do tatami.
Em uma sociedade cada vez mais marcada pela velocidade da informação e pela superficialidade das relações, ensinar as novas gerações a compreender antes de agir torna-se um diferencial pedagógico de enorme relevância. Ao estimular a curiosidade, a leitura, a reflexão e a busca pelo conhecimento, o judô reafirma sua vocação educativa e sua capacidade de formar seres humanos mais preparados para os desafios da vida.
Investir no estudo teórico não significa afastar a criança da prática, mas ampliar os horizontes de sua aprendizagem. Afinal, as futuras gerações de judocas não serão definidas apenas pela qualidade de suas técnicas, mas também pela profundidade de seus conhecimentos, pela solidez de seus valores e pela compreensão do legado que recebem e que terão a responsabilidade de transmitir.
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