Após nove anos de impasse, FPAJU inicia reconstrução e projeta interiorização do judô

César Luiz Vieira, Cínthia de Oliveira Sintra e Luiz Augusto Pereira Oliveira © FPAJU

Em sua primeira entrevista a um veículo de alcance nacional, César Luiz Vieira detalha a retomada institucional da Federação Paraense anuncia ações voltadas à formação e à expansão da modalidade pelos 144 municípios do Pará.

Por Paulo Pinto | Global Sports
Curitiba, 5 de agosto de 2026

Belém ocupa um lugar singular na história das artes marciais no país. Foi na capital paraense que Mitsuyo Maeda, o Conde Koma, radicou-se e fundou sua primeira academia de judô no Brasil, no Clube do Remo. Maeda morreu na cidade, em 1941, e está sepultado no Cemitério Santa Izabel. Mais de um século depois da chegada do legendário mestre japonês, um dos mais icônicos berços históricos do judô brasileiro inicia um novo capítulo.

Após nove anos de disputas administrativas, eleitorais e judiciais, uma decisão ainda sujeita ao julgamento definitivo restabeleceu a relação institucional entre a Federação Paraense de Judô (Fpaju) e a Confederação Brasileira de Judô (CBJ). O movimento abre caminho para a reorganização administrativa e esportiva da entidade e para a reinserção do Pará no cenário esportivo nacional.

Professores César Vieira, Cintra de Oliveira Cintra, Luiz Pereira Oliveira, Adaelson Souza dos Santos, Glailson de Souza Luz e Geraldo Majela © FPAJU

Em sua primeira entrevista concedida a um veículo de alcance nacional desde a retomada institucional, o presidente da Fpaju, coronel César Luiz Vieira, procura deixar o conflito no passado e apresenta as prioridades da gestão: recuperar a confiança da comunidade, regularizar clubes, reorganizar graduações e competições, qualificar professores e árbitros e fomentar o judô para além da Região Metropolitana de Belém.

A interiorização aparece como um dos principais eixos desse planejamento. Em um estado de dimensões continentais, formado por 144 municípios, a Federação parte de apenas 18 associações e aproximadamente 500 atletas devidamente filiados. Para mudar esse cenário, César Vieira pretende incentivar os professores de judô a ampliar sua qualificação na área de Educação Física, criando condições para que possam atender às demandas das escolas do ensino fundamental, valorizar iniciativas que favoreçam a presença da modalidade no ambiente educacional e criar delegacias regionais capazes de alcançar as diferentes regiões paraenses.

Paula Motta Alves e Alessandra Mitiue Enomoto de Oliveira, com a mãe de Alessandra ao centro © FPAJU

O dirigente também manifesta agradecimento às instituições de ensino Unopar e Uninter, à Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais (CBDV), ao CREF18/PA e aos diferentes setores da Confederação Brasileira de Judô que atenderam a consultas pontuais e contribuíram com esclarecimentos técnicos importantes para elucidar dúvidas ao longo do processo.

Confira a entrevista

APÓS ANOS DE DISPUTA JUDICIAL, COMO RECEBEU A DECISÃO QUE RESTABELECE A RELAÇÃO INSTITUCIONAL ENTRE A FEDERAÇÃO PARAENSE DE JUDÔ E A CBJ?

Fiquei extremamente feliz. Tivemos muitos prejuízos nesse período, que classifico como um dos mais nefastos da história do judô brasileiro. Felizmente, trabalhamos de maneira ética e correta, seguindo as orientações jurídicas e o devido processo legal, sempre com o objetivo de restabelecer a relação institucional entre a Federação Paraense de Judô e a CBJ.

HÁ QUANTOS ANOS ESSE PROCESSO VINHA SE ARRASTANDO E QUAL FOI O SEU IMPACTO REAL?

Foram nove anos, e o impacto foi a perda de praticamente uma geração inteira do judô em nosso estado. Se considerarmos o tempo necessário para que um faixa-branca chegue à faixa-preta, estamos falando de aproximadamente nove a 11 anos.

Houve impactos institucionais, esportivos e financeiros, além da perda de contratos e patrocínios e, principalmente, um grande desgaste para toda a comunidade do judô paraense. Mas nunca deixamos de acreditar que essa situação seria superada.

“Estamos muito motivados para trabalhar e construir uma gestão aberta ao diálogo e à troca de ideias, pois acreditamos que o fortalecimento do judô paraense depende desse esforço coletivo.” 

DE QUE FORMA VOCÊS CONSEGUIRAM PÔR FIM AO PROCESSO?

Foi um processo longo, que passou por diferentes etapas administrativas, eleitorais e judiciais. Realizamos eleições, cumprimos as determinações estabelecidas e seguimos rigorosamente os procedimentos previstos no estatuto da CBJ e na legislação.

EMBORA A DECISÃO AINDA ESTEJA SUJEITA AO JULGAMENTO DEFINITIVO, O SENHOR ENTENDE QUE ELA REPRESENTA UM PASSO IMPORTANTE PARA A RECONSTRUÇÃO INSTITUCIONAL DA FPAJU?

Sim. Representa um passo fundamental porque dá início a uma nova era no judô paraense. Começamos agora um trabalho lento e gradual de reconstrução, justamente para que seja consistente.

O professor Antonio Sérgio Oliveira Soares © FPAJU

Precisamos trazer novamente toda a comunidade do judô para perto da Federação. Desde as nossas primeiras decisões, temos procurado demonstrar que a entidade tem um presidente de todos. A Federação é uma só.

Essa reconstrução é institucional, esportiva e também passa pela recuperação da confiança. Alguns professores já se aproximaram, e todos, sem exceção, estão sendo bem recebidos. É um trabalho que levará tempo, mas que, felizmente, já começou.

DURANTE ESSE PERÍODO, QUAIS FORAM AS MAIORES DIFICULDADES ENFRENTADAS POR ATLETAS, CLUBES, PROFESSORES, ÁRBITROS E DIRIGENTES DAS ENTIDADES FILIADAS?

A principal dificuldade foi a falta de segurança institucional. Isso acabou gerando descrédito entre atletas, professores, dirigentes, famílias, patrocinadores e empresas que mantinham algum tipo de relação com o judô.

Também houve dificuldades para os atletas que pretendiam competir nacionalmente e para as próprias associações. Agora estamos iniciando justamente o caminho inverso: um processo de reconstrução institucional que devolva segurança e confiança a todos.

QUANTOS CLUBES, ASSOCIAÇÕES E PRATICANTES INTEGRAM ATUALMENTE A COMUNIDADE DO JUDÔ PARAENSE?

Partimos de 18 associações, número considerado no processo eleitoral, e de aproximadamente 500 atletas regulares.

Agora realizaremos um censo e estamos solicitando às associações a atualização e a adequação de seus documentos, conforme determina o estatuto. A Federação oferece suporte técnico, jurídico e contábil para auxiliar nesse processo.

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Queremos estabelecer um padrão institucional para que todos trabalhem de acordo com os mesmos critérios. As novas associações que estão nos procurando também recebem esse suporte, visando à sua regularização e futura integração à Federação.

COMO O SENHOR PERCEBE A REAÇÃO DA COMUNIDADE DIANTE DA RETOMADA DAS ATIVIDADES ADMINISTRATIVAS DA FEDERAÇÃO?

Percebo muita ansiedade e, ao mesmo tempo, muita confiança. As pessoas querem que tudo aconteça rapidamente, mas precisamos respeitar os processos administrativos e realizar os ajustes necessários.

Estamos concluindo questões bancárias, trabalhando na definição do espaço oficial da Federação e estabelecendo novas rotinas administrativas. A comunidade começa a perceber essa nova forma de trabalhar e a nossa disposição para ajudar a todos.

César Luiz Vieira reafirma que presidirá a FPAJU para todo o judô paraense e defende a união da comunidade em torno do novo ciclo como caminho para acelerar a retomada do protagonismo da modalidade no cenário nacional © FPAJU

Também fomos procurados por representantes do poder público e por empresas interessadas em conversar sobre a retomada do apoio ao judô. Atletas estão demonstrando vontade de voltar, e estamos dando atenção especial também às famílias.

Acima de tudo, porém, estamos sendo cautelosos. Queremos reconstruir o ambiente do judô no Pará com segurança e fazer as coisas corretamente.

QUAIS SERÃO AS PRIORIDADES DA GESTÃO NO CURTO PRAZO?

A prioridade é organizar administrativamente a Federação e construir uma gestão fluida, com responsabilidades e procedimentos claramente estabelecidos.

Também estamos tratando com muito cuidado das questões esportivas e das graduações que ficaram pendentes. Não queremos prejudicar absolutamente ninguém.

Nosso objetivo é criar as condições para lançar um calendário enxuto e exequível para 2027, estabelecer as rotinas administrativas e restabelecer os contatos com órgãos públicos, secretarias e potenciais patrocinadores.

Não vamos atropelar nenhuma etapa. O mais importante agora é reconstruir com segurança e qualidade.

EXISTE ALGUMA MEDIDA EMERGENCIAL PARA RETOMAR O CALENDÁRIO ESPORTIVO, CURSOS, EXAMES DE GRADUAÇÃO E AÇÕES DE DESENVOLVIMENTO?

Nossa equipe técnica está avaliando o que ainda é possível realizar neste ano com qualidade e segurança. A intenção é promover duas ou, se houver condições, três competições no restante do ano, além de buscar uma solução para as graduações.

Não queremos criar uma disputa de calendário. As competições que já estavam programadas poderão ser incorporadas, com a chancela e o apoio da Federação.

Comprometidas com o fortalecimento da participação feminina e o desenvolvimento de novas iniciativas, as professoras Ana Paula Motta Alves e Alessandra Mitiue Enomoto de Oliveira assumem conjuntamente a Diretoria do Segmento Feminino e a Diretoria de Projetos da Federação Paraense de Judô © FPAJU

Também estamos trabalhando na renovação e na qualificação do quadro de arbitragem. Já estabelecemos contato com a coordenação nacional de Arbitragem da CBJ, e com o professor Márcio Gomes, coordenador de Arbitragem da Região Norte. À frente da arbitragem da Federação ficará o professor Clidenor Araujo de Oliveira. Além disso, estamos solicitando à Federação Bahiana de Judô a cessão do professor Cláudio Freitas, que é filiado na FEBAJU, mas reside aqui.

Outra frente importante será o fortalecimento do paradesporto, em diálogo com a Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais, a CBDV.

Queremos encerrar o ano com alguma movimentação técnica, mas, principalmente, preparar uma estrutura mais sólida para 2027.

BELÉM É UM DOS BERÇOS HISTÓRICOS DO JUDÔ BRASILEIRO E SEMPRE FIGUROU ENTRE AS PRINCIPAIS FORÇAS DA REGIÃO NORTE. COMO VOCÊS PRETENDEM RECUPERAR ESSE PROTAGONISMO?

Com planejamento e muito trabalho. Isso não acontecerá imediatamente. Estamos falando de um projeto de aproximadamente dois anos. Pretendemos trabalhar com o corpo técnico na definição das classes que receberão maior atenção e, paralelamente, investir fortemente na formação de base.

Registro dos momentos que antecederam o início da última Assembleia Eletiva da Federação Paraense de Judô © FPAJU

Também realizaremos cursos, seminários e processos de qualificação, inclusive com professores de outros estados que já se colocaram à disposição para colaborar conosco.

Nossa projeção é que, até o início de 2028, o Pará esteja novamente no cenário nacional, com qualidade técnica e capacidade competitiva, ocupando o espaço que historicamente teve na Região Norte.

QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS PROJETOS PARA AMPLIAR O NÚMERO DE PRATICANTES, FORTALECER OS CLUBES, INTERIORIZAR A MODALIDADE E REVELAR NOVOS TALENTOS?

Essa é praticamente a base da nossa gestão. O Pará possui 144 municípios e hoje partimos de apenas 18 associações. Para um estado de dimensões continentais, é muito pouco.

Uma das principais estratégias será investir na qualificação dos professores. Já temos parcerias com a Unopar e a Uninter para auxiliar professores em sua formação em Educação Física. Com isso, eles poderão atuar também nas redes municipais de ensino e contribuir diretamente para a interiorização do judô.

A partir desse processo, pretendemos criar delegacias regionais, considerando as enormes distâncias e as particularidades das diferentes regiões do Pará. Não podemos pensar o desenvolvimento da modalidade apenas a partir da capital. Precisamos criar condições para que o judô chegue a novos municípios e se estabeleça de maneira organizada e permanente no interior.

Os professores Ana Paula Motta Alves e Cláudio Freitas no dojô de Cláudio Freitas © FPAJU

Também incentivaremos o paradesporto e trabalharemos outros segmentos com potencial de desenvolvimento.

Para os clubes, a Federação pretende funcionar como um elo de apoio, auxiliando na organização documental, estatutária, fiscal e administrativa das associações.

Com uma estrutura organizada e o devido acompanhamento técnico, poderemos identificar novos talentos. Quando houver potencial para o alto rendimento, ofereceremos uma abordagem mais especializada, utilizando os recursos e as tecnologias disponíveis para o desenvolvimento desses atletas.

COMO SERÁ, A PARTIR DE AGORA, A RELAÇÃO DA FEDERAÇÃO PARAENSE DE JUDÔ COM A CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE JUDÔ?

A Confederação Brasileira de Judô, por meio de seus diferentes setores, tem sido receptiva às consultas apresentadas e contribuído com esclarecimentos pontuais, sempre de maneira ponderada e objetiva.

Temos plena convicção de que essa relação institucional será mantida no mais alto nível e fundamentada na reciprocidade.

Somos extremamente legalistas e reconhecemos a importância da hierarquia. O judô é um esporte hierarquizado. Portanto, acompanharemos as normas e as orientações institucionais da CBJ e acreditamos que manteremos uma relação saudável tanto com a Confederação quanto com as demais federações estaduais.

Quando fui apresentado no grupo dos presidentes das federações, fiquei muito emocionado com as manifestações que recebi. Percebi uma felicidade genuína com o retorno do Pará ao cenário nacional do judô.

Acredito que estamos iniciando uma relação institucional madura com a CBJ, pautada pelo respeito, pelo diálogo e pela observância das normas, com o propósito de trabalhar pelo crescimento do judô paraense e contribuir também para o desenvolvimento do judô nacional.

QUE MENSAGEM O SENHOR GOSTARIA DE TRANSMITIR AOS ATLETAS, PROFESSORES, ÁRBITROS, DIRIGENTES E FAMÍLIAS QUE AGUARDAVAM ESSE MOMENTO, ALÉM DE SEUS COLEGAS DIRIGENTES DAS DEMAIS FEDERAÇÕES?

Primeiramente, quero agradecer profundamente aos professores e às associações que nos acompanharam nessa jornada e acreditaram em nosso trabalho. Agradeço também à nossa equipe de gestão e a todos que permaneceram conosco.

Agora precisamos olhar para frente. Vamos trabalhar por um judô unido, com uma Federação que seja de todos.

Temos muitos atletas com vontade de competir, professores querendo atuar como dirigentes e técnicos e pessoas interessadas na arbitragem. Precisamos qualificar cada um desses segmentos e permitir que todos contribuam para o crescimento do judô paraense.

Estamos muito motivados para trabalhar e construir uma gestão aberta ao diálogo e à troca de ideias, pois acreditamos que o fortalecimento do judô paraense depende desse esforço coletivo.

Se conseguirmos unir os esforços e os valores individuais em favor do coletivo, poderemos até abreviar a projeção de 2028 e recolocar o Pará, mais rapidamente, no espaço que merece no cenário do judô brasileiro.

DIRETORIA DA FPAJU
César Luiz Vieira, presidente
Cintra de Oliveira Cintra, 1º vice-presidente
Luiz Augusto Pereira Oliveira, 2º vice-presidente

MEMBROS DO CONSELHO FISCAL
Adaelson Souza dos Santos
Glailson Fernando de Souza Luz
Roberto Borges

COMISSÃO TÉCNICA
Luiz Augusto Pereira Oliveira
Alexandre Rabelo Vilhena
Cintra de Oliveira Cintra

COMISSÃO DE ARBITRAGEM
Clidenor Araújo de Oliveira
Luiz Eduardo Motta Pinho Júnior
Alan Morais de Souza

COMISSÃO DE GRAUS
Cláudio Freitas
José Augusto Baeta e Silva
Adaelson Souza dos Santos
Clidenor Araújo de Oliveira
Glailson Fernando de Souza Luz

COMISSÃO DE ATLETAS
Geraldo Majela – Presidente
Matheus Ribeiro de Abreu
Thiago Souza dos Remédio
Shiró Enomoto
Evaldo Carvalho Furtado Junior

CONSELHO DE ÉTICA
Nei Calandrini de Azevedo
Adaelson Souza dos Santos
Claudio Joaquim Borba Pinheiro
José Augusto Baeta e Silva
Silvio Costa

DIRETOR DO SEGUIMENTO PARALIMPICO
Antonio Sérgio Oliveira Soares

DIRETOR DO SEGUIMENTO MILITAR
Glailson Fernando de Souza Luz

DIRETORIA DO SEGUIMENTO ESCOLAR
Adaelson Souza dos Santos
Luiz Augusto Pereira Oliveira

DIRETORIA DO SEGUIMENTO FEMININO
Ana Paula Motta Alves
Alessandra Mitiue Enomoto de Oliveira

DIRETOR DO SEGUIMENTO VETERANO
Glailson Fernando de Souza Luz

DIRETORIA DE PROJETOS
Ana Paula Motta Alves
Alessandra Mitiue Enomoto de Oliveira

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