Brasil é vice-campeão mundial cadete e reafirma força e tradição nas equipes mistas

Atletas e comissão técnica da Seleção Brasileira celebram a conquista da medalha de prata no Mundial Cadete por Equipes Mistas © Emanuele Di Feliciantonio / FIJ

Prata conquistada em Guayaquil resulta da união dos atletas e da expertise técnica construída pelo judô brasileiro da base ao pódio olímpico.

Por Paulo Pinto | Global Sports
Curitiba, 25 de agosto de 2026

O Brasil é o atual vice-campeão mundial cadete por equipes mistas. A medalha de prata conquistada no último domingo (23), em Guayaquil, no Equador, não representa apenas mais um resultado internacional da nova geração. Ela reafirma uma tradição brasileira construída sobre dois pilares inseparáveis: a unidade dos atletas e a capacidade da comissão técnica de transformar conhecimento, estratégia e gestão humana em desempenho coletivo.

Realizado pela Federação Internacional de Judô, com o apoio da Federação Equatoriana de Judô, o Campeonato Mundial Cadete por Equipes Mistas reuniu 131 judocas — 68 homens e 63 mulheres — de 12 países e três continentes. A competição ocorreu no Coliseo Voltaire Paladines Polo e teve Cazaquistão e Brasil nas duas primeiras colocações, enquanto Mongólia e Uzbequistão ficaram com os bronzes.

Determinada, Manuela Maia reverte a desvantagem diante de Inzhu Zhumazhan com dois wazaris em seoi-otoshi e empata o confronto © Emanuele Di Feliciantonio / FIJ

O resultado ganha dimensão ainda maior quando inserido no cenário internacional da modalidade. A FIJ congrega atualmente 205 federações nacionais. Portanto, chegar a uma decisão mundial significa ocupar o topo de um esporte verdadeiramente global, praticado e organizado em todos os continentes.

União e estratégia: a alma das equipes mistas

A disputa por equipes mistas não é uma extensão simbólica dos resultados individuais. Trata-se de outra competição, com inscrições, escalações, chave eliminatória, confrontos, classificação e medalhas próprias.

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Cada seleção é formada por três categorias femininas e três masculinas. O primeiro país a alcançar quatro vitórias vence o confronto. Em caso de empate por 3 a 3, uma das seis categorias é sorteada para uma luta decisiva em golden score.

Esse formato exige mais do que talento individual. Cada atleta precisa compreender que seu combate integra uma equação coletiva e que o ponto conquistado no tatame pertence a toda a equipe.

Também exige uma complexa engenharia da comissão técnica. É necessário estudar os adversários, identificar características técnicas, avaliar confrontos favoráveis e desfavoráveis, escolher a escalação mais adequada e administrar o desgaste físico e emocional dos judocas ao longo da chave.

Davi Medina (-81kg) virou o placar para o Brasil ao finalizar Bekali Yerken, bronze no individual, com um juji-gatame.

Sem esse trabalho, uma seleção fica entregue ao empirismo e à sorte. Com ele, o conhecimento acumulado transforma-se em estratégia competitiva. É justamente nessa combinação entre coesão do grupo e inteligência técnica que repousam a tradição e a expertise brasileiras no formato.

Brasil avança com autoridade

O Brasil iniciou sua campanha nas quartas de final e derrotou o Canadá por 4 a 0.

José Paulo Pereira (+81kg) abriu o placar brasileiro ao superar Emelyan Sokolov. Giovanna Imhof (-48kg) fez o segundo ponto diante de Zoe Element, Rafael Falcão (-60kg) venceu Amir Temirbaev no golden score e Manuela Maia (-63kg) confirmou a classificação ao projetar Emma Tritton por ippon.

Na semifinal, a equipe brasileira enfrentou a Mongólia, que havia eliminado a Turquia por 4 a 3 e surpreendido a França por 4 a 1.

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Giovanna Imhof colocou o Brasil em vantagem contra Misheel Altanshagai. Rafael Falcão ampliou ao jogar Davaanbaatar Amgalanbaatar de ippon, e Manuela Maia marcou o terceiro ponto diante de Anundari Enkhtaivan.

A Mongólia diminuiu com Temuulen Bayarjavkhlan, que venceu Yago Mello (-81kg), mas Caroline Ohonishi (+63kg) encerrou o confronto. A brasileira impôs volume de luta e levou Anujin Enkhtaivan à terceira punição por falta de combatividade, garantindo a vitória por 4 a 1 e conduzindo o país novamente à final mundial cadete por equipes mistas.

O Brasil não chegava à decisão desde 2017.

Final decidida no desempate

O adversário na luta pelo título foi o Cazaquistão, segundo colocado na classificação individual, com três medalhas de ouro, três de prata e quatro de bronze.

A seleção cazaque chegou à final depois de derrotar a Bulgária por 4 a 1, eliminar o Japão — líder do ranking e principal potência histórica do judô — por 4 a 2 e superar o Uzbequistão também por 4 a 2.

A Seleção Brasileira entra no shiai-jô com atitude mental e espírito coletivo, duas de suas principais características nas equipes mistas © Emanuele Di Feliciantonio / FIJ

A queda antecipada do Japão demonstrou o equilíbrio e a imprevisibilidade da competição. Nenhuma tradição, posição no ranking ou resultado individual assegurava passagem automática pelo torneio coletivo.

Na decisão, Rassulkhan Gabit, campeão mundial individual, abriu o placar cazaque ao vencer Rafael Falcão por um yuko. Manuela Maia respondeu diante de Inzhu Zhumazhan. Mesmo começando em desvantagem, a brasileira marcou dois wazaris com seoi-otoshi e empatou o confronto.

Garra e qualidade técnica: Manuela Maia projeta Inzhu Zhumazhan na final © Emanuele Di Feliciantonio / FIJ

Davi Medina (-81kg) virou o placar para o Brasil ao finalizar Bekali Yerken, bronze no individual, com um juji-gatame. Togzhan Tolebay restabeleceu a igualdade ao vencer Caroline Ohonishi, e o Cazaquistão voltou à frente na categoria masculina +81kg, diante de Heitor Sousa.

Com o Brasil em desvantagem por 3 a 2, Giovanna Imhof tornou-se a última possibilidade brasileira de levar a final ao desempate. A adversária Iyanat Zhubatkan marcou primeiro, mas Giovanna manteve a concentração, aumentou a pressão e conseguiu um wazari para deixar o placar em 3 a 3.

O Brasil lutou até o limite: buscou o empate, virou o placar e reagiu novamente para levar a decisão mundial ao combate extra, em uma demonstração da determinação desta nova geração © Emanuele Di Feliciantonio / FIJ

A roleta eletrônica sorteou justamente a categoria -48kg. Sem tempo para descanso, Giovanna e Zhubatkan retornaram ao tatami para decidir o título mundial.

A brasileira chegou a ter um yuko marcado pela arbitragem central, posteriormente retirado após a análise de vídeo. Na sequência, Zhubatkan aproveitou uma movimentação ofensiva de Giovanna e anotou um wazari que encerrou o confronto em 4 a 3.

Atletas brasileiros celebram a vitória sobre a Mongólia e a classificação para a final do Mundial Cadete por Equipes Mistas © Emanuele Di Feliciantonio / FIJ

O ouro ficou com o Cazaquistão. O Brasil deixou os tatamis como vice-campeão mundial depois de levar a decisão ao limite.

Brasil rompe o domínio asiático no pódio

Cazaquistão, Uzbequistão e Mongólia, países filiados à União Asiática de Judô (JUA), ocuparam três das quatro posições do pódio em Guayaquil.

A orientação de Thiago Valladão e a atenção do jovem brasileiro na final sintetizam a conexão entre experiência técnica e formação que fortalece as equipes mistas do Brasil © Emanuele Di Feliciantonio / FIJ

Em uma competição realizada na América do Sul, o Brasil, representante da Confederação Pan-Americana de Judô, foi a única seleção do Ocidente entre os medalhistas e a única capaz de romper o domínio asiático, conquistando o vice-campeonato mundial.

Uma tradição que atravessa gerações

A prata de Guayaquil foi o terceiro pódio brasileiro no Mundial Cadete por Equipes Mistas. O país também foi vice-campeão em 2017 e conquistou o bronze em 2024.

Essa regularidade não está restrita à classe cadete. O Brasil possui três medalhas mundiais em cada estágio de desenvolvimento:

  • Mundial Cadete: duas pratas e um bronze;
  • Mundial Júnior: uma prata e dois bronzes;
  • Mundial Sênior: uma prata e dois bronzes.

São nove pódios mundiais por equipes mistas, distribuídos de forma simétrica entre cadetes, juniores e seniores. Uma continuidade que demonstra a existência de uma cultura coletiva, e não o sucesso ocasional de uma única geração.

Brasil, único representante do Ocidente no pódio, conquista a prata entre as seleções asiáticas: Cazaquistão, ouro, e Uzbequistão e Mongólia, bronzes © Emanuele Di Feliciantonio / FIJ

No Campeonato Pan-Americano Sênior, o domínio é ainda mais expressivo. Desde a adoção do formato, em 2018, o Brasil disputou todas as oito finais, conquistando sete medalhas de ouro e uma de prata.

Essa trajetória alcançou sua expressão máxima nos Jogos Olímpicos de Paris 2024. Depois do sétimo lugar na estreia olímpica da prova, em Tóquio, o Brasil conquistou o bronze na capital francesa e entrou definitivamente para a história olímpica das equipes mistas.

Medalhas no peito e braços erguidos, a nova geração do judô brasileiro celebra uma conquista construída com união, entrega e muita personalidade © Emanuele Di Feliciantonio / FIJ

A geração cadete que subiu ao pódio em Guayaquil passa, portanto, a integrar uma linha que começa na formação, atravessa os Mundiais Júnior e Sênior e chega aos Jogos Olímpicos.

Protagonistas da campanha

Oito judocas brasileiros atuaram nos três confrontos disputados em Guayaquil:

EQUIPE FEMININA

  • Giovanna Imhof (-48kg)
  • Manuela Maia (-63kg)
  • Caroline Ohonishi (+63kg)

EQUIPE MASCULINA

  • Rafael Falcão (-60kg)
  • Yago Mello (-81kg)
  • Davi Medina (-81kg)
  • Heitor Sousa (+81kg)
  • José Paulo Pereira (+81kg)

COMISSÃO TÉCNICA

  • Leonardo Lara — chefe de delegação
  • Marcelo Theotonio — supervisor
  • Maria Portela — treinadora
  • Thiago Valladão — treinador
  • José Olívio Júnior — treinador
  • Daniel Ferrari — médico
  • Leonardo da Silva — fisioterapeuta
  • Lincoln Kanemoto — auxiliar técnico
  • Beatriz Riscado — comunicação

Giovanna Imhof, Rafael Falcão e Manuela Maia participaram dos três confrontos da campanha 

Conhecimento a serviço do coletivo

A comissão técnica brasileira foi formada pelos treinadores José Olívio Júnior, Maria Portela e Thiago Valladão, com Leonardo Lara como chefe de delegação, Marcelo Theotonio na supervisão, Lincoln Kanemoto como auxiliar técnico, Daniel Ferrari como médico, Leonardo da Silva como fisioterapeuta e Beatriz Riscado na comunicação.

Em uma competição na qual cada escolha pode alterar o caminho de um confronto, o trabalho desses profissionais não permanece à margem do resultado. Ele está presente na leitura dos adversários, nas escalações, na preparação emocional, na recuperação física e na capacidade de manter o grupo unido diante das mudanças do placar.

O Brasil não se sagrou vice-campeão mundial cadete por acaso. A prata de Guayaquil resulta de uma tradição que combina formação técnica, espírito coletivo, conhecimento estratégico e experiência acumulada.

Mais do que registrar um pódio, a campanha explica por que o país segue entre as potências mundiais das equipes mistas — e por que sua nova geração já demonstra estar preparada para preservar esse legado.

A Confederação Brasileira de Judô conta com o patrocínio oficial do BNDES e com o apoio institucional do Comitê Olímpico do Brasil.

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