04 de julho de 2026
Com formação especializada em neurodesenvolvimento e artes marciais, o professor Marcio Sarmento utiliza o jiu-jitsu como ferramenta de inclusão e desenvolvimento de crianças diagnosticadas com TEA, TDAH, Síndrome de Down e outras condições do neurodesenvolvimento © Extra
Nota da Redação: A reportagem a seguir é de autoria do jornalista Fernando Flores e foi originalmente publicada pelo jornal Extra. O conteúdo está sendo reproduzido neste espaço em razão de seu relevante interesse jornalístico e informativo, com a devida atribuição de autoria e de fonte.
A trajetória do professor Marcio Sarmento no jiu-jitsu começou em 1991, na academia Kyoto, na Tijuca, sob a orientação do grão-mestre Francisco Mansur. Embora tenha construído carreira no polo aquático, chegando à Seleção Brasileira e participando de competições internacionais, foi a arte suave que acabou definindo o rumo de sua atuação profissional.
O retorno ao Jiu-Jitsu ocorreu após um acidente de carro, quando conheceu o faixa-coral Carlos Henrique, o mestre Carlinhos, e, posteriormente, o mestre André Negão. A partir desse reencontro com a modalidade, aprofundou sua formação, tornou-se parceiro de treinos da multicampeã Hannette Staack e participou da criação da Brazil 021 – School of Jiu-Jitsu.
Anos depois, ao lado do amigo Rodrigo Prujansky, fundou o The Center for Human Development, em Boca Raton, nos Estados Unidos. Foi na instituição que recebeu a faixa-preta, em 2026.
“O que me manteve no Jiu-Jitsu por todos esses anos não foi apenas o amor pela arte marcial. Foi a descoberta de que o tatame é um dos ambientes mais poderosos de transformação humana que existem e que eu tinha um papel específico a cumprir dentro dele”, afirma.
O trabalho desenvolvido com crianças despertou um novo interesse. Ao perceber que alguns alunos não respondiam da mesma forma aos métodos tradicionais de ensino, Sarmento iniciou estudos em neurociência aplicada, análise do comportamento, integração sensorial e pedagogia especializada. A combinação entre pesquisa e experiência prática resultou na criação da Metodologia Sarmento, um protocolo voltado ao desenvolvimento neurofuncional por meio do Jiu-Jitsu.
Para estruturar o projeto, buscou certificações internacionais, entre elas a de Registered Behavior Technician (RBT), concedida pela Behavior Analyst Certification Board (BACB), e a certificação INAMI em Artes Marciais e Autismo. Ao longo de mais de duas décadas de atuação, o método passou a ser aplicado com crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, Síndrome de Down e outras condições do neurodesenvolvimento.
Registrada oficialmente nos Estados Unidos em 2026, a metodologia organiza as aulas em etapas padronizadas e acompanha indicadores ligados ao desenvolvimento dos alunos, como autonomia, coordenação motora, atenção, autoestima e interação social. O trabalho também inclui familiares e educadores no processo de acompanhamento.
Um dos casos que marcaram sua atuação aconteceu em Boca Raton. Uma família procurou o centro com três filhos, com três, cinco e oito anos, após enfrentar dificuldades comportamentais e de convivência. Segundo Sarmento, depois da primeira semana de aplicação do protocolo, o pai retornou para compartilhar os resultados.
“Ele chegou para mim e disse: ‘Você fez um milagre’. Mas não era milagre. Era método, era estrutura, presença e a convicção de que cada criança tem mais potencial do que o mundo espera dela. Mais de um ano depois, essa família continua treinando conosco e me disse algo que guardo como uma das maiores conquistas da minha carreira: ‘Aonde você for, a gente vai atrás'”, relata.
Agora, Sarmento pretende ampliar o alcance da metodologia por meio da formação de instrutores especializados. A proposta é levar o protocolo para outras academias e criar uma rede de profissionais preparados para trabalhar com crianças neurodivergentes.
“O Jiu-Jitsu nasceu no Brasil e conquistou o mundo. Acredito que também pode liderar um movimento global de inclusão. O tatame nunca mente e ele tem espaço para todos”, conclui.
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